A
caixa
Eu a comprei em um leilão.
Na velha cidade, ilhado por perdição e alguma
esperança.
Confesso que o que me fez adquiri-la foi o mais
desonesto desejo em seu estado basilar.
O humor infrator jazia dentro de meu estojo torácico e me determinou a
erguer o braço sucessivamente até tê-la.
Pelo o que nela em seu útero de madeira se encerrava.
Havia outras coisas da mesma natureza, digamos,
limítrofe entre lá e cá sendo ofertadas, mas o dinheiro na minha conta bancária
restringia a gula. O indecente e o inefável quando somados dão em conta muito
cara.
Então, era minha a caixa.
Uma arca vulgar. Não era uma mala sofisticada de
viagem dos grandes burgueses. Em seu oco
nada de mandamentos de um deus ciumento e beligerante. Não se tratava de um baú de tesouro.
Ao abri-lo você não encontraria nada mais do que
mera palha seca compondo um áspero forro.
Sua fechadura não vinha a chave correspondente,
perdida por suas transladações pelos anos. Todavia, isso não impacientaria
qualquer novo dono, já que a tampa estava aberta.
Abri e fechei algumas vezes, brincando de transtorno
obsessivo compulsivo, talvez.
Deixei a tampa descansar.
Peguei a Mandaglore.
A Mão Gloriosa
A mão do morto mumificada, arranjada conforme a
receita do Dictionnaire Infernal Collin Plancy: A mão de um criminoso enforcado
à beira da estrada_ no caso, não se tratava um bandido e, sim, de um militante
das Ligas Camponesas, enforcado em 1969 por jagunços por falar demais contra o
mestre deles e posto no caminho para a igreja para que toda a gente aprendesse
com sua sorte. O que o qualificava como matéria
prima era que o sujeito fora morto por
ir contra a ordem, seja ela
justa ou não. Então se colocou o pedaço do defunto dentro de um vaso de
barro com uma solução de azinhavre, nitrato, sal e pimentas pulverizadas, onde
curtiu quinze dias, até ser retirada e exposta ao sol quente a fim de secar e
esturricar como jabá.
Acendi as velas nas pontas dos dedos.
Tais velas eram compostas com a gordura do enforcado,
cera virgem, gergelim e esterco de cavalo.
E ouvi o click!
Tentei abrir novamente. Não consegui. Estava trancada.
Tentei movê-la. Não pude. Estava pesada.
Cheia.
***
Antônia era uma pecadora.
Não sou eu que estou a inventar calunia sobre a
pobre moça. Pergunte a ela. Pergunte, sobretudo, aos pais. Eles dirão seus
pecados. Todos. Pecados que ela sabia. Que ela não sabia. Coisas que não eram pecados
a priori, mas se tinham o toque da menina, o serão algum dia, se não, naqueles
dias.
Mas como se a menina apenas saia para ir a Igreja no
santo domingo, acompanhada pelos genitores?
Como ela se tornou filtro de tanto mal apenas nos
seus treze anos de vida?
A resposta estava nos hematomas a florir nos braços
cobertos pelas mangas compridas do vestido de cambraia, gerados certamente por
quedas e tombos providenciados pela ira divina e não, de forma alguma, pelo
peso justo das mãos dos seus pais.
Está na grande ferida nascente na base do pescoço a
descer pelas costas até o cóccix, purgando uma substância verde que torna suas vestes
imundas para o desgosto de sua boa mãe a lavar suas roupas com amor. Chaga
escavada pela vara justa de seu patriarca para a remissão de seus pecados. Vale
notar que amplitude do ferimento pasmou os pais a principio, porém no lugar de
duvidarem de seu zelo paternal, significava que o mal de sua filha estava
patente e se despontava em cada espancamento, logo a expansão da carne
fraturada era sinal de revelação sobre o que se camuflava.
Ou seja, não eram eles e, sim, a criança a causa de
seu próprio dano. Maldita prole!
Do mesmo modo, não era nada doentia a lição da
espiga de milho. Quando esticam as pernas da pequena e cravam o cereal no seu
regaço pecaminoso para preveni-la de usar sua racha em desagravo às
indiscutíveis normas da correção.
No entanto, tamanho esmero não bastava.
Os procedimentos supracitados cerceavam o mal
imanente de Antônia, porém, os pais duvidavam se bastava. A entrega da menina
aos arranjos e a aceitação de sua culpa não bastavam. Precisavam controla-la
definitivamente. Precisavam conte-la.
Por isso a caixa.
***
Ela continuava trancada.
Se, então, tinha a fechadura, se fazia necessária a
chave.
Apaguei a chama da mão do morto. Observei a fumaça
incensada subir e formar etéreos arabescos fantasmais na escuridão do quarto.
Então, com o pontiagudo osso de um gato estrangulado numa encruzilhada, afiado
na lápide de um suicida bedáat do povo de YHVH, abri um talho na ponta do dedo
anular e fiz um ponto de sangue.
Gesticulei o dedo ferido entre a fumaça, até o gás
ser capturado e, pela minha vontade, se solidificar em chave de marfim,
ou de material incógnito semelhante, e a detive em minha mão.
Acendi de novo a Mão da Glória e coloquei a clave na
fechadura. Encaixou sem restrições. Contei uns números até o fumo místico tomar
de novo o quarto e membrana que separa lá e cá se fazer tênue e frágil.
Fácil de rasgar como um hímen delicado.
***
Os pais adquiriram a caixa de um marceneiro. Zelosos
também com o dinheiro, deram a cama da menina em troca, não ia ser mais usada
mesmo, cujo valor superior rendeu uma cadeira e um criado mudo de troco.
Em casa, forraram munidos de amor quase abraâmico
com a dita palha e disseram a Antônia:
_Eis seu leito, onde descansará livre de pecado.
E a menina, sabendo que isso era para seu bem, quiçá,
para o bem do mundo, deitou-se e os pais fecharam a tampa de seu caixão.
Dentro do esquife, mesmo com o arranhão da palha,
com as picadas dos percevejos e o movimento das baratas, as quais lá se
instalaram, a reclusa encontrou o conforto de se sentir segura com a ciência de
que seu mal estava enquadrado.
Toda noite, todo dia quando os pais precisavam sair,
ela era fechada em seu claustro. No começo, suas pernas estavam quase
esticadas, porém à medida que crescia, ela se encolhia, até o momento de ser
obrigada a voltar-se em posição fetal. Apostar-se-ia
um observador, se alguém verdadeiramente a visse além de fonte de pecados, que
ela não se sentia tão feliz desde quando estava presa na carne materna.
Como é certo
de que o sofrimento não seja eterno, por isso a falsidade do Inferno, também
não há felicidade que um dia não pereça, por isso o fracasso do Paraíso diante
do tédio. O corpo faliu. Antônia morreu.
Foi enterrada com desgosto, pois sempre será
pecadora, além da redenção. Seus pais, incólumes às leis do Homem, certos dos
favores em terem acertado os desígnios divinos, sumiram quando uma gripe que
cavalgava pelo mundo derrubando nações, levou-os, junto com pios e ímpios, para
os reinos da poeira e da sombra, onde não encontraram sua filha, e, sim, certa
disciplina demoníaca.
***
Girei a chave.
Click!
Aberta.
Levantei a tampa.
A princípio, nada.
Havia somente a palha.
Dela, no entanto, emergiu um miasma grosso que
gasificou o éter, concorrendo com a fumaça da mão do morto. Das brumas que
infestaram, vi o contorno.
Dezesseis anos. Idade de sua morte. Sua pele pálida
de prisioneira. Seu cabelo loiro de uma fêmea cuja vaidade foi extraída a
alicates. Olhos de órbitas claras, perdidas em autoacusação.
Engolindo o assombro, sim, mesmo magos experientes,
mas que oram criados no cristianismo
sempre se assombram com sua própria obra fantasmagórica, perguntei:
_Antônia?
Um sopro respondeu um sim muito mal ouvido.
_Antônia Francisco Xavier?
Novamente, o mesmo sussurro.
_ Antônia Francisco Xavier! Conheço seu nome e agora
eu a prendo!
***
Admito que meu interesse pela magia, em especial,
pela necromancia, deve-se a covardia.
Várias vezes, masturbei-me pensando nas moças que
passavam por mim na rua. Esquematizava o rastreio, a perseguição e o estupro.
Porém, quando o sêmen escorria entre meus dedos, via-me o terror de ser morto,
ou pior, de ser preso e entregue a moral violadora dos colegas de detenção.
Porém, ao invés de me reprimir, passei a utilizar a
criatividade e desenvolver alternativas para a minha tara.
Inspirado num estrangeiro, um alemão, pensei em
sequestrar uma única mulher e mantê-la em cárcere isolado, numa cela no chão, e
violentá-la o máximo de anos que conseguir. No entanto, havia a ameaça perene
de fuga.
Sofistiquei mais a ideia. Cogitei em roubar um bebê
e cria-lo com a intenção de me servir sexualmente quando seu corpo remetesse a de
uma mulher adulta. Doutrinaria-a para nunca querer sair dali e
aceitar minha penetração como fato inescapável de sua existência.
Aqui teríamos três problemas:
Primeiro, na evolução da pequena poderia surgir o
desejo rebelde de fugir e conquistar o mundo. Segundo a criança poderia morrer
dentro desse tipo de prisão dada a sua delicada
natureza. Terceiro, não suportaria tantos anos a esperar para receber o meu
prêmio, podendo comprometer a saúde da pequena antes do tempo com um avanço
faminto.
Foi quando comecei, anos atrás, a mexer com devassos
satanistas ocultos do Partido Conservador que me veio a ideia de ter Antônia.
Conheci a história de Antônia num livro de
psicologia que reunia relatos de abuso familiares. Eu o li quando estava
na pré – adolescência para me masturbar com as descrições de crueldade
sexual por parte dos pais.
O causo de Antônia foi o que me capturou pela originalidade
e pelo erotismo. Mantive na cabeça e anos veio–me a tona, quando pesquisava
sobre objetos assombrados. Havia uma arca que trazia ao seu dono a visão de uma
garota atormentada.
Nada mais adequado a um abusador virgem em sua arte do que uma vítima conformada pela eternidade.
Violações são muito comuns nas alcovas infernais. Um
espírito preso em sua estúpida autocomiseração pode ser violado eternamente sem
prejuízo a sua existência. E, segundo uma variação da Chave de Salomão
desenvolvida na renascença por teosóficos interessados em apertar as mãos de
grandes homens póstumos, fez–se possível tornar concreta uma alma desencarnada
nesta esfera usando de feitiços simples, desde que a força de vontade estivesse
bem focada e ancorada em poderosos símbolos.
Assim, ao prender Antônia pelo nome, fiz de seu
ectoplasma uma imitação de carne, segurei o seu queixo fantasmal com meu punho
e a esbofeteei.
Arranquei seu vestidinho, o mesmo com o qual foi
enterrado, joguei-a nua por cima da arca e a sodomizei miseravelmente.
Então, enquanto ela chorava a tranquei no seu
caixão, no qual ela passou a aguardar a satisfação do meu apetite.
***
Olhei no espelho.
Arrumei a gravata.
Nada errado no terno.
Nenhuma culpa pairando em mim.
Hoje, terei a civilização de um encontro familiar,
visitarei mamãe, e, quando voltar eu terei a minha barbárie caseira.
Certamente, se não fosse sua caixa, onde a culpa era
seu grilhão, onde cada abuso meu a prenderá cada vez mais, Antônia talvez fosse
para algum inferno, arrastada pelo pesar, onde sofreria o mesmo que padecia sob o meu odioso falo.
Talvez eu seja o demônio dela. Talvez eu seja parte
de um esquema maior.
Ou não.
Talvez eu e ela sejamos apenas parte da natureza... Ou
da sobrenatureza, que não se importa com a alegria ou tristeza de seus germes.