domingo, 8 de dezembro de 2013

A Mão Materna.

Terra. Chão. Pó.  O Vermelho é fértil.
Céu.  O Azul talvez seja eterno.
Insulam-se vapores. Nuvens prateadas. A atmosfera é dialética.  Nuvens chumbadas, quase mais pesadas do que o ar. Relampeja! Troveja! Chove!
Nasce a poça. O terreno explode, bombardeado, metralhado por grossas e cristalinas gotas de água. Finda a precipitação, volta o império do silêncio e do não movimento.
A subversão da placidez acontece com poucas feras a voar e a rastejar e com as plantas elevando-se enamoradas pelo ardor solar, todavia, tolerável para a política da letargia ambiental .
Na bonança, no charco breve, antes da morte pela secura, em meio à água turva, emerge o movimento que irá abalar essa era de inatividade.
Emerge a mão.
Deitada como um sapo a se esquentar o dorso sob o sol, uma mão, possivelmente símia, altamente complexa com um polegar opositor desenvolvido, feito do mesmo barro que a circunda.  
No arrepio de uma aranha naufragada, falanges se articulam, mexem-se os dedos, a mão rasteja. Esmagada pela urgência, precisa agir antes que seu berço seque, a mão trabalha.
Molda a matéria úmida e gera sua oposição, a mão fraterna.
Mão esquerda recém-nascida, mão direita primogênita e progenitora. Amigas. Cúmplices. Amantes. Comunicam-se pelo tato, pela ponta dos  dedos conspiram. Orquestram o trabalho.
Forjam braços iguais. Uma para cada. Amparadas por eles, esculpem um tronco, perfeito e assexuado.
Para sustentá-lo, duas pernas e seus nobres primos, os pés, que enfrentariam as pedras e as sujeiras do mundo.
O corpo quase composto gera em suas artesãs um terror respeitoso, um momento hesitante antes da terminal tarefa. Superado, as mãos moldam a cabeça calva, a princípio sem inteligência até os olhos se abrirem e por suas órbitas ver o que o ser é.
Sendo, vê-se no mundo e se vê solitário e pleno. 
Antes de se levantar e de se fazer Bípede, sente-se grávido de devir e se fende em simetria, inventando dois gêneros (podia ter inventado mais, porém no gozo procrastinou), pois antes nada como eles havia e agora hão, condenados a saudade da unida nulidade.
Fêmea e macho, insatisfeitos para sempre por existirem distintos e afastados, contemplaram-se e, contaminados por uma  simpatia  atávica, fizeram brotar amizade inata.
Os amigos se erguem e trilham juntos um destino quase conhecido e quase construído, espalhando-se como hera invasora e moldando o globo como fizeram consigo.
Eras a frente, os filhos de suas conjunções nostálgicas, esquecidos do solitário parto no barro uterino, quando a lama se tornou carne por si e pela vontade de existir do que  não estava lá, e temendo a liberdade, a sapiência, tocar pelo seu suor a antiguidade das estrelas  e devassar com sua  fúria as profundezas ínferas, criariam, num tremor parvo, Deus.
Invejoso, falho e absoluto, Deus.
Com o qual comungariam a ignorância sobre a Mão Materna, crendo no criador perfeito e na humanidade, a cria inferior, tese blindada a qualquer antítese pela Fé de todos os devotos, terrenos, NÓS,  ou divino, ELE,  pois Deus precisa crer em sua  própria  mentira para vender sua  ideologia como o maior tartufo.
Assim, Jaz a humanidade, feita por si mesma, fugindo de si mesma com as mãos artesãs a segurar redes de pegar borboletas, correndo atrás de mariposas fantasmas.