domingo, 16 de março de 2014

A Promiscuidade do Tempo



No círculo que é o tempo, o homem imortal se encontrou consigo mesmo, várias vezes sem entender que dividia o recinto com uma versão mais nova e mais velha de sua pessoa, a qual não reconhecia, pois ele evoluía junto com os mortais, encaixando- se entre os tempos que existiam, existem, existirão, a fim de pertencer ao mundo e não se perder na solidão que o perecimento dos outros acarreta àquele a persistir sobre os ossos alheios e ruínas enterradas por novas Babilônias e areias assombradas.
Ele, quando o cheiro do mamute ainda lhe era fresco, viu-se no bar subterrâneo onde era servido uísque traficado do Canadá, maldita lei seca, a contemplar seu próprio semblante do crânio ampliado, pois a cabeça humana cresceria eras vindouras, assim como os olhos ficariam enormes e o dedo mindinho cairia. Temeu-o, apesar da misteriosa familiaridade, pois era do momento do Homem quando cada espasmo  natural era um deus a rebentar seu humor contra o mundo e tentou ignorá-lo, como fazemos com aquilo que  nos  incomoda para que desapareça em virtude de nossa sorte.
Todavia, o homem a porvir para o caçador sorriu, contaminado por uma nostalgia esclarecedora pagou uma bebida a si mesmo, do passado, e puxou assunto, firmando-se um bate-papo, o que acalmou seu ser antecessor. A conversa veio, a conversa foi e a conversa virá e ambos, sobre o patrocínio de Narciso, enamoraram-se, terminando a madrugada do tempo num formidável coito anal. Autofágico.