A
assassina de si própria
Ane possuía uma vida
estranha?
Não no geral. Vista pelo
todo, qualquer um vaticinaria o império da normalidade, isto é, como nós do
mesmo tempo e do mesmo lugar da moça, século XXI, Brasil urbano, a entendemos e
concordamos.
Afirmamos, contudo, não
se tratar de uma existência desejada, a qual qualquer imaginador queira para si.
As pessoas preferem planear a passagem feliz sobre a Terra como uma série de rocambolescas
aventuras melodramáticas culminadas em vários sucessos exemplares, no entanto,
a vida de Ane não era de se repugnar, porque, apesar de mansa, era boa.
Ela se formou em
biblioteconomia, saiu da casa dos pais, morou sozinha, teve uns namorados, infelizmente
nenhum relacionamento que se desabrochasse em laço duradouro, e seguia muito
bem para os trinta, quando se alertou para uma inconveniência crescente.
Numeremos:
1) Todo dia quando
acordava encontrava a casa levemente mudada. Detalhes. Coisas pequenas. Objetos
fora do lugar. Mudados. Virados. Usados. Sem ela se recordar de ter agido sobre
eles. No começo, ela atribuiu a uma
perda de memória irrelevante, tê-los-ia manipulado antes de dormir e o sono
apagou o registro.
2) A coisa começou a
preocupar quando o dinheiro que ela havia retirado do caixa eletrônico e deixado
em casa para usos ocasionais começou a se alterar. Num dia havia mais do que
lembrara tirar, no outro menos sem que ela soubesse dizer aonde tivesse
gastado. Justo ela, que controlava suas economias com seriedade a ponto de
acumular uma poupança razoável para sua idade. Foi conferir seu extrato do
banco e a surpresa ganhara novo vigor. Depósitos e retiradas também estranhos a
ela. Será que Ane teve sua senha furtada e estava sendo vítima de algum esquema
ilegal? Na soma de tudo não havia perda, havia até ganho, mas a movimentação
era obviamente preocupante.
3) Roupas e objetos que
ela não havia adquirido, sim, ela poderia jurar, se solidificaram em seu
apartamento. A vestimenta nova não era de seu estilo sóbrio, mas sim de uma
expansividade que a acabrunharia, que a faria se sentir cafona e atirada se
usasse, mesmo ela tendo corpo para tal farreada. Sapatos e sandálias novos, que
cabiam perfeitamente em seu pé, mas que ela nunca compraria. E a lingerie que
apareceu em sua gaveta? Ela era prática nesse assunto. Preferia calcinhas
confortáveis de algodão, não aquelas coisas caras, sensuais, que mulheres usam
para tirarem rápido em alguma alcova programada, se não suas partes íntimas
sofreriam de assaduras se usassem por muito tempo.
4) Se o chão começou a
faltar no item anterior, nesse o mundo foi para o espaço, com carros e vacas
flutuando no éter. Primeiro, ligavam para o telefone fixo procurando por uma tal
de Cibele. Engano, óbvio. Tudo bem. Todavia, a quantidade de telefonemas a
levou se questionar se essa tal de Cibele não aplicava golpes e estava dando
seu número por aí. Segundo, pessoas que ela não conhecia a cumprimentavam na
rua, ônibus, metrô. Ela respondia sem jeito, vai que estava com problema de
memória e não as reconhecia. Tudo tolerável e insuspeito, até que um dia:
_E aí, Cibele, sua
louca! Me liga!
Ligar? Cibele? Ela não
era Cibele. Quem era Cibele? Por que a confundiam com Ane? No primeiro
instante, só teve certeza de uma coisa sobre essa figura. Que ela tinha um
caso, pois seu amante de surpresa abraçou e beijou Ane, como se fosse a coisa
mais corriqueira. Ane se desesperou e
gritou. O beijoqueiro sem entender o que se passava, pedia que ela se acalmasse
e a chamava de Cibele.
Ao ouvir esse nome, Ane
cessou o chilique e disse num misto de raiva e embasbaque:
_ Não sou Cibele!
_Ah! Cibele para de
brincadeira.
Discutiram, por fim,
Ane conseguiu convencer Jair, que se apresentou mais tarde, de que ela não era
a bendita Cibele.
O rapaz, o qual era
bonitinho, fato que retirou um pouco do peso do assalto do ósculo, mostrou uma
foto no celular dele com a criatura que começou a atormentar a vida de Ane como
uma justificativa de seu erro.
_ Incrível como vocês
são parecidas.
Incrível mesmo! Tirando
o queixo mais fino, o nariz menos arrebitado, as sobrancelhas feitas e o cabelo
mais longo, Cibele era uma gêmea de Ane.
_Me envia essa foto por
email?
Depois em casa, após
ter recebido a foto e olhando-a por vários minutos decidiu encontrar essa tal
de Cibele. Perguntou, também por email, a Jair o sobrenome e telefone dela.
Esperou em vão o
namorado da outra responder. Cansada pelo dia de novidades, rendeu-se ao
chamado da cama. Com a cabeça no travesseiro, conjecturou novamente.
E se Cibele e quem a
assola fossem pessoas diferentes? E se no lugar de uma moça semelhante a ela
fosse um tarado? Um pervertido brincando com ela antes do estupro fatal?
Se coisas aparecem em
sua casa é porque alguém entra. E se sua invasão não fosse quando estivesse
fora, mas dormindo?
Um calafrio, um sentimento de medo brotou num
instante ameaçando-a com a insônia vigilante. Entretanto, se não aconteceu nada
de grave até, então, talvez fosse seguro apostar mais uma noite de relativa
segurança e poder dormir.
Antes de, por fim,
dormir, pensou em soluções e a melhor que lhe veio seria colocar uma câmera
ligada quando estivesse fora e dormindo. Porém, era tarde para se municiar com
uma. Novamente, insônia. Não poderia dormir, não sem uma providência
naquela noite.
O travesseiro
assoprou-lhe duas ideias. Uma prática e outra lúdica. A prática: dormir com uma
faca debaixo do travesseiro.
A lúdica: Espalhou
talco pelo chão.
Ia espalhar farinha,
mas desistiu, pois viraria uma meleca.
Dormiu.
Despertou no horário de
sempre. A faca estava lá. OK! Olhou para o chão.
_A-ah!
Pegadas!
Havia alguém mais na
casa. Pensou de logo num invasor, todavia, as pegadas saiam e voltavam para a
cama. Seria ela sonâmbula?
Essa perspectiva
retomada deu-lhe alívio. Não seria uma golpista ou um estuprador a assombrar
sua vida e sim ela mesma adormecida.
No entanto, isso não
explica o dinheiro, as movimentações financeiras e as roupas.
Cada vez mais confusa,
pensou até em fantasma. No início,
séria, depois se riu.
A resposta de Jair
chegou a sua caixa de entrada.
_ O telefone e o
sobrenome... Não pode ser! É brincadeira!
Uma câmera urgia.
A qual instalou uma
apropriada para a ausência de luz prontamente na noite seguinte e foi dormir um
sono sem sonhos.
Ao despertar, mesmo
sonolenta, tateando escuro, foi cambaleante ver as imagens.
Uma hora de filmagem:
Nada. A não ser ela dormindo. Tédio.
Duas horas: Nada de
novo.
Terceira hora:
Acontece.
Ela se agita, vira de
um lado para o outro até parar e ficar de barriga para baixo.
De repente, suas costas
se abrem, como que rasgadas por duas mãos.
Um braço feminino se
ergue dramaticamente.
Outro braço.
Finalmente, emerge
Cibele nua.
O despertador tocou.
Ane correu até a câmera
e conferiu.
Cibele veio e se foi.
Vestiu-se e saiu.
Pelo marcador, foi há
poucos minutos. Ane mete uma roupa fácil e a foi atrás de sua inquilina como
fizera noutras noites.
Ane Filomenna seguiu
Cibele Filomenna até a farmácia onde trabalhava cinco noites seguidas. As duas
teriam o mesmo sobrenome, conforme o namorado Jair, que a pedido dela não
contou que conhecera sua gêmea porque queria fazer uma surpresa.
A surpresa quase
aconteceu numa das noitadas na folga de Cibele quando ela ia a casas noturnas
dançar até cansar. Ane a acompanhava a distância sempre, o que lhe rendeu
noites mal dormidas e queda no desempenho, tanto que até solicitou adiantamento
das férias para continuar sua exploração.
Podia ter detido sua
companheira de quarto e corpo em qualquer lugar, mas preferiu a privacidade do
lar para resolver isso.
Numa madrugada, Cibele
se aproximou da cama. Ane dormia. Suas mãos foram as costas da adormecida para
abrir seu casulo e encontrar o repouso, quando foram detidas por sua anfitriã,
que rapidamente se virou e encostou a faca no pescoço de Cibele.
_Explique!
Cibele se aterrorizou,
tanto talvez como Ane tenha ficado quando viu aquelas imagens pela primeira
vez.
A hóspede inesperada
não podia explicar. Disse que somente existia daquele jeito.
_Há quanto tempo?
_Há dois anos.
_Meu Deus! Dois anos!
Cibele chorou. Olhou a
hora e o planto aumentou, pois, apesar de não saber como existia, intuía como
deixaria de existir.
_Deixe-me entrar. Se
não, eu vou morrer.
_Entrar em mim? Não.
Acabou.
Cibele, em perfeito
desespero, saltou contra Ane tentando lhe tomar a faca. Entretanto, o corpo que
comportava era mais forte do que o que era comportado. Ane se livrou da
agressora num belo chute que a jogou contra o criado mudo.
Se o barulho teria
acordado os vizinhos, não importava, pois agora o sol nascia e Cibele morria.
Sua pele cristalizava
gradualmente, o que lhe retirava os movimentos e a calava. Por fim flocou-se e
depois desintegrou-se numa nuvem de pó brilhante.
Ane tocou o pó. Sentiu
a textura agradável e o guardou numa caixa de joias, não saberia dizer o
porquê.
Talvez saiba, lá no
fundo, e se nós não sabíamos, saberemos agora.
Imagine a vida num
caminho que sempre se bifurca.
Em cada bifurcação,
temos duas possibilidades.
Escolhemos uma, que se
cristaliza como real.
A outra, um EU nosso em
um universo próprio, ou foi abortada por ter sido declinada pelo andarilho que somos
todos nós e que escolheu o outro caminho.
Ou ficou existindo em uma
variante da existência que nos escapa.
Um EU paralelo num
mundo paralelo.
Talvez, às vezes, a
escolha pela bifurcação não seja tão perfeita e uma corrompa a outra,
tangenciando-a.
Talvez Ane tivesse sido
Cibele se a mãe desta escolhesse outro nome, se Ane escolhesse não fazer
faculdade, se Ane fosse mais festeira... Se.
Talvez Cibele seja uma
apenas uma bifurcação de Ane, que resistente a sua anulação se apegou e brotou
da outra para sobreviver além da hipótese e, que, quando confrontadas
prevaleceu a mais forte.
O pó de Cibele, Cibele
em pó, era uma lembrança do que poderia ter sido, o que de fato foi por dois
anos. Mesmo precisando destruir a outra para se certificar de que a sua
exclusividade existencial não seria ameaçada (temeridade inconsciente, nota-se),
Ane não poderia deixar de se apegar a Cibele, pois negá-la totalmente após
conhecê-la, seria anular não somente uma versão, mas um substancial apêndice de
sua profundeza.
Portanto, a assassina de
si própria guardou o souvenir da vítima, numa auto-piedade definitiva.
