segunda-feira, 24 de dezembro de 2012


A assassina de si própria



Ane possuía uma vida estranha?
Não no geral. Vista pelo todo, qualquer um vaticinaria o império da normalidade, isto é, como nós do mesmo tempo e do mesmo lugar da moça, século XXI, Brasil urbano, a entendemos e concordamos.
Afirmamos, contudo, não se tratar de uma existência desejada, a qual qualquer imaginador queira para si. As pessoas preferem planear a passagem feliz sobre a Terra como uma série de rocambolescas aventuras melodramáticas culminadas em vários sucessos exemplares, no entanto, a vida de Ane não era de se repugnar, porque, apesar de mansa, era boa.
Ela se formou em biblioteconomia, saiu da casa dos pais, morou sozinha, teve uns namorados, infelizmente nenhum relacionamento que se desabrochasse em laço duradouro, e seguia muito bem para os trinta, quando se alertou para uma inconveniência crescente.
Numeremos:
1) Todo dia quando acordava encontrava a casa levemente mudada. Detalhes. Coisas pequenas. Objetos fora do lugar. Mudados. Virados. Usados. Sem ela se recordar de ter agido sobre eles.  No começo, ela atribuiu a uma perda de memória irrelevante, tê-los-ia manipulado antes de dormir e o sono apagou o registro.
2) A coisa começou a preocupar quando o dinheiro que ela havia retirado do caixa eletrônico e deixado em casa para usos ocasionais começou a se alterar. Num dia havia mais do que lembrara tirar, no outro menos sem que ela soubesse dizer aonde tivesse gastado. Justo ela, que controlava suas economias com seriedade a ponto de acumular uma poupança razoável para sua idade. Foi conferir seu extrato do banco e a surpresa ganhara novo vigor. Depósitos e retiradas também estranhos a ela. Será que Ane teve sua senha furtada e estava sendo vítima de algum esquema ilegal? Na soma de tudo não havia perda, havia até ganho, mas a movimentação era obviamente preocupante.
3) Roupas e objetos que ela não havia adquirido, sim, ela poderia jurar, se solidificaram em seu apartamento. A vestimenta nova não era de seu estilo sóbrio, mas sim de uma expansividade que a acabrunharia, que a faria se sentir cafona e atirada se usasse, mesmo ela tendo corpo para tal farreada. Sapatos e sandálias novos, que cabiam perfeitamente em seu pé, mas que ela nunca compraria. E a lingerie que apareceu em sua gaveta? Ela era prática nesse assunto. Preferia calcinhas confortáveis de algodão, não aquelas coisas caras, sensuais, que mulheres usam para tirarem rápido em alguma alcova programada, se não suas partes íntimas sofreriam de assaduras se usassem por muito tempo.
4) Se o chão começou a faltar no item anterior, nesse o mundo foi para o espaço, com carros e vacas flutuando no éter. Primeiro, ligavam para o telefone fixo procurando por uma tal de Cibele. Engano, óbvio. Tudo bem. Todavia, a quantidade de telefonemas a levou se questionar se essa tal de Cibele não aplicava golpes e estava dando seu número por aí. Segundo, pessoas que ela não conhecia a cumprimentavam na rua, ônibus, metrô. Ela respondia sem jeito, vai que estava com problema de memória e não as reconhecia. Tudo tolerável e insuspeito, até que um dia:
_E aí, Cibele, sua louca! Me liga!
Ligar? Cibele? Ela não era Cibele. Quem era Cibele? Por que a confundiam com Ane? No primeiro instante, só teve certeza de uma coisa sobre essa figura. Que ela tinha um caso, pois seu amante de surpresa abraçou e beijou Ane, como se fosse a coisa mais  corriqueira. Ane se desesperou e gritou. O beijoqueiro sem entender o que se passava, pedia que ela se acalmasse e a chamava de Cibele.
Ao ouvir esse nome, Ane cessou o chilique e disse num misto de raiva e embasbaque:
_ Não sou Cibele!
_Ah! Cibele para de brincadeira.
Discutiram, por fim, Ane conseguiu convencer Jair, que se apresentou mais tarde, de que ela não era a bendita Cibele.
O rapaz, o qual era bonitinho, fato que retirou um pouco do peso do assalto do ósculo, mostrou uma foto no celular dele com a criatura que começou a atormentar a vida de Ane como uma justificativa de seu erro.
_ Incrível como vocês são parecidas.
Incrível mesmo! Tirando o queixo mais fino, o nariz menos arrebitado, as sobrancelhas feitas e o cabelo mais longo, Cibele era uma gêmea de Ane.
_Me envia essa foto por email?
Depois em casa, após ter recebido a foto e olhando-a por vários minutos decidiu encontrar essa tal de Cibele. Perguntou, também por email, a Jair o sobrenome e telefone dela.
Esperou em vão o namorado da outra responder. Cansada pelo dia de novidades, rendeu-se ao chamado da cama. Com a cabeça no travesseiro, conjecturou novamente.
E se Cibele e quem a assola fossem pessoas diferentes? E se no lugar de uma moça semelhante a ela fosse um tarado? Um pervertido brincando com ela antes do estupro fatal?
Se coisas aparecem em sua casa é porque alguém entra. E se sua invasão não fosse quando estivesse fora, mas dormindo?
 Um calafrio, um sentimento de medo brotou num instante ameaçando-a com a insônia vigilante. Entretanto, se não aconteceu nada de grave até, então, talvez fosse seguro apostar mais uma noite de relativa segurança e poder dormir.
Antes de, por fim, dormir, pensou em soluções e a melhor que lhe veio seria colocar uma câmera ligada quando estivesse fora e dormindo. Porém, era tarde para se municiar com uma. Novamente, insônia. Não poderia dormir, não sem uma providência naquela  noite.
O travesseiro assoprou-lhe duas ideias. Uma prática e outra lúdica. A prática: dormir com uma faca debaixo do travesseiro.
A lúdica: Espalhou talco pelo chão.
Ia espalhar farinha, mas desistiu, pois viraria uma meleca.
Dormiu.
Despertou no horário de sempre. A faca estava lá. OK! Olhou para o chão.
_A-ah!
Pegadas!
Havia alguém mais na casa. Pensou de logo num invasor, todavia, as pegadas saiam e voltavam para a cama. Seria ela sonâmbula?
Essa perspectiva retomada deu-lhe alívio. Não seria uma golpista ou um estuprador a assombrar sua vida e sim ela mesma adormecida.
No entanto, isso não explica o dinheiro, as movimentações financeiras e as roupas.
Cada vez mais confusa, pensou até em fantasma.  No início, séria, depois se riu.
A resposta de Jair chegou a sua caixa de entrada.
_ O telefone e o sobrenome... Não pode ser! É brincadeira!
Uma câmera urgia.

A qual instalou uma apropriada para a ausência de luz prontamente na noite seguinte e foi dormir um sono sem sonhos.
Ao despertar, mesmo sonolenta, tateando escuro, foi cambaleante ver as imagens.
Uma hora de filmagem: Nada. A não ser ela dormindo. Tédio.
Duas horas: Nada de novo.
Terceira hora: Acontece.
Ela se agita, vira de um lado para o outro até parar e ficar de barriga para baixo.
De repente, suas costas se abrem, como que rasgadas por duas mãos.
Um braço feminino se ergue dramaticamente.
Outro braço.
Finalmente, emerge Cibele nua.

O despertador tocou.
Ane correu até a câmera e conferiu.
Cibele veio e se foi.
Vestiu-se e saiu.
Pelo marcador, foi há poucos minutos. Ane mete uma roupa fácil e a foi atrás de sua inquilina como fizera noutras noites.
Ane Filomenna seguiu Cibele Filomenna até a farmácia onde trabalhava cinco noites seguidas. As duas teriam o mesmo sobrenome, conforme o namorado Jair, que a pedido dela não contou que conhecera sua gêmea porque queria fazer uma surpresa.
A surpresa quase aconteceu numa das noitadas na folga de Cibele quando ela ia a casas noturnas dançar até cansar. Ane a acompanhava a distância sempre, o que lhe rendeu noites mal dormidas e queda no desempenho, tanto que até solicitou adiantamento das férias para continuar sua exploração.
Podia ter detido sua companheira de quarto e corpo em qualquer lugar, mas preferiu a privacidade do lar para resolver isso.
Numa madrugada, Cibele se aproximou da cama. Ane dormia. Suas mãos foram as costas da adormecida para abrir seu casulo e encontrar o repouso, quando foram detidas por sua anfitriã, que rapidamente se virou e encostou a faca no pescoço de Cibele.
_Explique!
Cibele se aterrorizou, tanto talvez como Ane tenha ficado quando viu aquelas imagens pela primeira vez.
A hóspede inesperada não podia explicar. Disse que somente existia daquele jeito.
_Há quanto tempo?
_Há dois anos.
_Meu Deus! Dois anos!
Cibele chorou. Olhou a hora e o planto aumentou, pois, apesar de não saber como existia, intuía como deixaria de existir.
_Deixe-me entrar. Se não, eu vou morrer.
_Entrar em mim? Não. Acabou.
Cibele, em perfeito desespero, saltou contra Ane tentando lhe tomar a faca. Entretanto, o corpo que comportava era mais forte do que o que era comportado. Ane se livrou da agressora num belo chute que a jogou contra o criado mudo.
Se o barulho teria acordado os vizinhos, não importava, pois agora o sol nascia e Cibele morria.
Sua pele cristalizava gradualmente, o que lhe retirava os movimentos e a calava. Por fim flocou-se e depois desintegrou-se numa nuvem de pó brilhante.
Ane tocou o pó. Sentiu a textura agradável e o guardou numa caixa de joias, não saberia dizer o porquê.

Talvez saiba, lá no fundo, e se nós não sabíamos, saberemos agora.
Imagine a vida num caminho que sempre se bifurca.
Em cada bifurcação, temos duas possibilidades.
Escolhemos uma, que se cristaliza como real.
A outra, um EU nosso em um universo próprio, ou foi abortada por ter sido declinada pelo andarilho que somos todos nós e que escolheu o outro caminho.
Ou ficou existindo em uma variante da existência que nos escapa.
Um EU paralelo num mundo paralelo.
Talvez, às vezes, a escolha pela bifurcação não seja tão perfeita e uma corrompa a outra, tangenciando-a.
Talvez Ane tivesse sido Cibele se a mãe desta escolhesse outro nome, se Ane escolhesse não fazer faculdade, se Ane fosse mais festeira... Se.
Talvez Cibele seja uma apenas uma bifurcação de Ane, que resistente a sua anulação se apegou e brotou da outra para sobreviver além da hipótese e, que, quando confrontadas prevaleceu a mais forte.
O pó de Cibele, Cibele em pó, era uma lembrança do que poderia ter sido, o que de fato foi por dois anos. Mesmo precisando destruir a outra para se certificar de que a sua exclusividade existencial não seria ameaçada (temeridade inconsciente, nota-se), Ane não poderia deixar de se apegar a Cibele, pois negá-la totalmente após conhecê-la, seria anular não somente uma versão, mas um substancial apêndice de sua profundeza.
Portanto, a assassina de si própria guardou o souvenir da vítima, numa auto-piedade definitiva.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


Eu não li Bukowski.



Eu não li Bukowski.
Li Jean Genet.

Certo dia, tesourei curto os cabelos e prendi os seios quase irrelevantes de uma mulher branca (com aquelas pintas negras em distribuição acidentada na  pele macia leitosa azeda aguada), magricela cheia de costelas saltadas (as quais  com um bastão ficariam musicadas) numa faixa de gazes apertadas, no entanto, sem a asfixiar nem nada. Destarte, eu a visto de homem e a faço puto de rua, um afeminado magrinho, a bichinha da piada na mão do bofe da mão pesada.
Um quarto de hora depois, num cinema pornô decadente, prestes a cair, prestes a virar templo de crente, sentados nos estofados devorados pelo tempo e pelos ratos, assistindo a projeção desfocada de atrizes em arte pornográfica, escrevendo uma história de putas com o papel da carne e canetas penianas de silicone flexível perfeitamente adaptável aos dutos vaginais e retais, minha bicha falsa, meu traveco reverso, sentou-se ao meu lado e à moda dos gaviões (pássaros rapineiros predadores de galináceos em certos sítios granjeiros e também viados predadores de falos em certos sítios cinematográficos)  felou-me como se tivesse fome de proteína animal.
Terminado o serviço com afinco, ela brincou. Depois do trabalho, sempre o descanso. Sejam sete dias, sejam sete minutos. Mostrou-me peralta a língua cheia de prata, maravilhas da mente associativa, uma colher esperando fogo para ferver a alegria química da heroína. Injeção?

_Deus não quer que se desperdice.

Onã (o da porra perdida num escândalo bíblico) morreu pela mira ruim.
A semente da serpente foi engolida num sorvo de pílula. A vida depende sempre de uma dieta nutritiva. Sentados assistimos a mais um programa depravado. Filminho começa. Homem e mulher. Papai e mamãe.

_Imagino se em nove meses nascerá menino ou menina.

Minha bichinha rachada se rachou ainda mais de tanto rir.
O riso corre, ecoa, conjuga-se com a eletricidade corrente nas galerias.
Pedreiros. Office boys.  Ajudantes gerais. Machos em geral. Sentados com os nervos expostos a flor do caralho, desabrochado dos zíperes.
O desfile de baitolos camuflados, gaviões em seus vôos fantasmas na missão de busca e apreensão de carne viril para sangrar o monstro faminto dentro de si. O dragão rosado, o qual derrotou, a despeito da enorme, roliça e afiada lança, São Jorge, santo católico, e outros mercenários cristãos municiados de culpa e repressão.
Crânio vazio associando: Lança. Agulhão. Agulha. Injeção. Tanta bicha em volta, apesar da hospitalidade, cuja ausência havia tanta em Sodoma e Gomorra a ponto de reverberar desastre no clima, só podia dar em uma ideia marota.
Cato meu rapazinho vaginal pelos cabelos curtos e o arrasto pelas fileiras. Sinto que vai protestar, mas o sorriso quase brocha meu sadismo.  No final das cadeiras, joguei-a contra parede do cinema. Seu rosto pousou no papel de parede carcomido. Ela mal deve ter sentido a minha mão em sua cintura. Quando puxo sua calça para baixo de seu espanto vem seu grito.

_ Ai! Não! Não!!

Toda a segurança do travestismo desapareceu.
Seu tremor cessou quando se admirou ainda estar de cuecas.
Os gaviões pararam seu sobrevoo e aos poucos nos cercaram curiosos.
Desço levemente a traseira de sua roupa íntima. Glúteos libertos. Suas mãos foram a frente segurando o tecido e protegendo seu segredo. Seus olhos estão fechados.
Naquele instante, cercado de viados por todos os lados, eu a montei.
Eu a sodomizei como um homem mais forte sodomiza um homem mais fraco na prisão.
Como um velho com comida abusa de um adolescente faminto.
Como um padre, um rabino, um monge ou califa com um menino em busca do infinito.
Em investidas duras e de amor de vinho vinagre.
Quando eu desperdicei minha semente pela segunda vez e senti o silêncio exigido pela biologia masculina, minha bichinha arrombada goza, num uivinho tão lindo que apenas pode ser sugerido e mal descrito, dispensando o travessão.
O cinturão de loucas se abalou.

_ Olha, a mona geme como mulheerrrrr.

A mona mulher se virou rindo baixinho, erguendo as calças, e buscou o meu peito. Meus braços anelaram suas costas e minha boca sussurra nos ouvidos.

_ Feito?
_ Completo.

E saímos do cinema dos pecados. Não escondidos. De mãos dadas para todos nos chamarem de viados.
Um grupo de jovens cabeludos revoltados em sua condição hormonal nos xingam. Exultados, agradecemos e, assim, sem querer os ofendemos, pois nos olham com seu ódio peculiar e desimportante.
À frente, tomamos um táxi para as nossas vidas.
 No carro, minha boneca logo reencostou em mim e adormeceu. O taxista é velho conhecido.  Na corrida, puxa papo, e como me conhece já ataca a biblioteca universal:

_Ô, Tu já leu Animal Crackers in my Soup (meu taxista é cool, não lê autoajuda e lê em inglês.) do Bukowski? 
_Eu não li Bukowski.


Olhei para ela.
Eu li Jean Genet.
Ela leu Simone de Beauvoir
Já o marido dela leu Sartre, mas hoje ele está num congresso do partido.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012


A Droga do Terror Super X


Alencar emergiu do metrô e tomou os cenários das ruas de Desejo de Matar. Onde pretos e pobres oprimiam o pequeno burguês branco com sua delinquente sobrevivência em meio a casas de stripes e cinemas pornôs. Charles Bronson até o final da película os exterminaria em nome da decência e da recuperação imobiliária.
Ou, talvez nem tanto, apenas Robert de Niro, com seu taxi em movimento, revolver no bolso e moicano no crânio para salvar Jodie Foster de seu destino inglório de ninfa puta na mão de cafetões hippies, malditos hippies, porém com o universo continuando na mesma decadência a escandalizar e a erotizar a audiência, ignorando qualquer heroísmo individual, pelo menos até que algum maldito governo liberal assuma a prefeitura e desenvolva uma revitalização social da região com centros cívicos, bibliotecas, escolas e outros comunismos.
Era a boca do lixo. Cinematográfica, bela e feia boca do lixo, com o glamour de neon crepuscular e o fedor de urina dos que não tem teto ou sanidade. Todavia, não era entre os vulgares prazeres sensualistas de cada dia e cada noite onde compraria aquilo porque se moveu até ali.
Avançando, além do mercado das carnes e de alienações de boticário, alguns quarteirões, chegou aos conjuntos habitacionais feitos para proletários, hoje abandonados pelo homem e ocupados por gangues de nosferatus anarquistas, lobisomens conservadores que devoram mendigos e viciados desavisados, zumbis politicamente organizados em células, almas penadas que comercializam o ectoplasma e outras criaturas de pesadelo marginalizadas.
Um jovem duende travestido, um adorável Peter Pan vestido de Sininho e cinta-liga, maquiado como uma vadia psicodélica, usando uma corrente que nasce num brinco na orelha e morre em outro no nariz, veio voando faceiro e ofereceu o rabo rodado em troca de um pensamento alegre, moeda rara nessas paragens. Alencar não aceitou. Então, ele mostrou seu pênis imberbe e pechinchou sua porra tênue por uma história com final feliz.
Novamente, recusou com cortesia e perguntou aonde encontraria o que procurava. Suspirando, frustrada, a bicha voadora apontou o prédio de seu destino. Em retribuição, deu-lhe uma lembrança feliz do tempo de criança que a satisfez e lhe deu força para continuar o seu trotuar .
Era um pardieiro assombrado como os outros. A diferença é que havia guardas na escadinha da portaria, como leões de mármore ás portas de uma biblioteca.
Um mutante cabeçudo, um homem do amanhã, no mínimo telepata, ao lado uma garota oriental com olhos de mangá, sem braços e pernas naturais, mas próteses aracnídeas metálicas. Do seu quadril brilham os dentes de uma armadilha de urso na sua vagina e, no lugar dos seios, permanecem duas metralhadoras giratórias.
Antes de Alencar dizer uma palavra o telepata dá o aval e, junto com a ciborgue hentai, liberaram sua entrada.
No hall do prédio, um alienígena com cara de sapo, membro de uma força invasora que tentou dominar a Terra na edição n° 02 do Incrível Hulk, Volume 01, 1962, roteiro por Stan Lee, lápis por Jack Kirby e arte final por Steve Dikto, e foi frustrada pelo protagonista do gibi, óbvio, e acabou ficando aqui, no submundo dos seres imaginários, me perguntou com sotaque batráquio:





_O que vai ser, cara real? Porra de anjo? Temos um querubim na ordenha. Mão de virgem que extrai.
_Não. Obrigado. Eu quero um pouco de super X.
O invasorzinho se abalou. Estava acostumado só a oferecer coisas baratas.
_Vejo que estou diante de um apreciador distinto de produtos finos.
_Pode ser.
_Venha, por favor, venha.
Entramos num elevados de grade. Estava quebrado. Um golem judeu expressionista o ergueu manualmente puxando os cabos até o terceiro andar.
_Se o senhor quiser, pode extrair pessoalmente. Muita gente gosta.
Dentro do quarto, numa poltrona de barbeiro, amarrada por correntes estava uma super-heroína da Era de Prata dos Comics. Não a identifiquei. Ela sofria de uma magreza que nada fazia lembrar o modelo idealizado com o qual ela foi desenhada. Seu uniforme dourado está imundo e rasgado. O braço direito estava esticado, apoiado num descanso para injeções. Uma grande ferida vicejava em seu antebraço. Um círculo escavado que sugeriria alguma bela infecção prolongada, talvez ameaçando uma gangrena em breve. A campeã dos fracos e oprimidos percebeu a entrada de Alencar e sussurrou drogada/desesperada:
_Me ajude... Por favor...
_Não, pode tirar que eu espero lá fora.
O alienígena riu e concordou. Antes de sair, o cliente viu um sacerdote de algum culto lovecraftniano, talvez de Dagon, deixar de ler seu jornal, pegar um bisturi e ir trabalhar na extração do Super X. Lá de dentro, Alencar ainda ouviu:
_Não me deixe aqui! Me ajude! Eu já salvei o mundo... Eu lutei contra o...
E de quem deveria ser o sacerdote:
_Cale a boca!
E do batráquio do espaço sideral:
_Droga ela! Corta ela!
O silêncio retornou. O pequeno e nojento ET já apareceu com um frasco com pedaço de carne dentro, o qual é pago com cartas ente mãe e filha carregadas de emoção, gravações de escutas de telefonemas apaixonados entre amantes adúlteros e fotografias de tempos melhores gotejando nostalgia.
Rapidamente, Alencar, ignorando os ecos dos pedidos de socorro da fonte do produto, abandonou esse apêndice do mundo irreal, a ferida do contar-histórias na textura da realidade e se viu de volta em seu apartamento, num lado um pouco melhor da cidade, o qual constantemente precisa de uma limpeza.
Puxou uma cadeira, sentou-se a mesa, retirou o fragmento de carne, colocou em uma colher de sopa, acendeu um isqueiro e profundamente desejou que derretesse como cera. A carne imaginária, influenciada pela vontade, tornou-se líquida, então, pelo império do fogo.
Alencar despejou o líquido verde com alguns fragmentos de carne numa seringa grande.
SUPER X
Xarope de super-herói.
Pronto. Bastava aplicar.
Não. Ainda não.
Precisava de mais simbolismo. Uma alegoria para tonificar o horror.
Pensando, como bom filosofo caseiro, olhou para o teto e sorriu. Levantou-se. Pegou a cadeira e a levou para o centro do quarto. Subiu e desenroscou a abóboda que protegia a lâmpada .
Estava tenso, por isso freava-se, agora, em suas ações. Seja para fazer bem feito o que tinha que  fazer, seja para executar com prazer, gozando cada volta que libertava o globo.
Segurando o objeto com a seriedade de quem levava o cálice da comunhão dentro do templo, desceu da cadeira, foi a cozinha e voltou com um prato na outra mão. Na mesa, despejou sobre este o que havia se acumulado na abóboda empoeirada durante os anos em que  ficou olhando para o teto, tentando medir o mundo com a simetria de seu sofrimento.
Insetos mortos.
Mariposas, moscas, besouros e, que sorte, alguns escaravelhos. Todos atraídos pela luz, mortos pelo calor. Secos, áridos, estorricados, crocantes. Alguns haviam virado pó.
Mexeu-os com os dedos. Revolvia-os. Brincava. Separava os mortos por suas qualidades como se escolhesse feijões.
_Ótimo!
Era o tempero faltoso. Uma especiaria para dar valor à base que importava. Algo a lhe dar asco, nauseá-lo, um sacrifício a si mesmo. Se sentisse horrorizado, como verdadeiramente sentiu ao fazer essa nojeira, seria mais feliz o resultado de seu atentado.
Despejou os animais fenecidos dentro da seringa, os quais flutuaram em seu banho esverdeado.
Com o vomito lhe roçando a boca:
_Agora, sim!
Arregaçou a manga da camisa, preparou-se e aplicou na veia. Picada e ardor.
Poucos minutos para fazer efeito. Saiu do apartamento, desceu até a praça próxima do deu prédio e sentou num banco.
Olhou para o céu como olhava para o teto a lhe esmagar.
Vislumbrou a lua cheia, esperou até essa fase lunar para engendrar o seu plano, e mirou-a como mirava a luz do seu quarto, a qual foi seu claustro solitário dos últimos anos.
Convém explicar: Alencar era um terrorista incubado. Hoje, impulsionado pela infelicidade, ele sairá da casca.
O terror do homem largado no banco da via pública não é de bombas, mas de sonho.
A lua jazia no céu como sempre estava.
De repente, ela se converteu numa caveira.
Um sorriso feliz nasceu nos lábios do nosso arquiteto do terror.
Ondas telepáticas de história em quadrinhos se irradiam de Alencar como se ele fosse a pedra arremessada na água do cotidiano.
E as pessoas em volta, os passantes apressados doidos para chegar em casa, tirar os  sapatos e assistir seus seriados televisionados, são os patos no lago a sentirem a reverberação psíquica do rapaz. Eles olharam para céu e dividiram o pesadelo da lua morta.
A visão do astro cadavérico gerou um espasmo apocalíptico e toda a gente correu buscando alguma salvação.
O pavor se espalhou. Cada aterrorizado era um vetor que contaminava outro com o medo do que de fato não acontecera.
Enquanto, o terror tocava a todos, carcomendo a ordem da cidade, Alencar gozava, pois finalmente democratizava o mal estar, a loucura cortante, que ele, infeliz privilegiado sempre carregou.

domingo, 2 de dezembro de 2012


O padre que cagou um diabo


Apesar de ter sido chamado por Deus, Padre Álvaro era um homem perverso.
Tal desalinho moral não foi de se surpreender, pois quando atendeu a inspiração do Senhor, vislumbrou em sua epifania a entidade do primeiro testamento, o Senhor dos Exércitos, crendo, não de maneira clara e racional, pois isto implicaria em pecado de pensar, que o deus amoroso dos evangelhos era uma versão emasculada do primeiro, um cortesão eunuco e complacente com os fracos.
Menos para empregar o entendimento e estimular o conforto, a Palavra era um instrumento de imposição da Ordem, sendo esta a glorificação do mais forte. Já no seminário demonstrara seu caráter.
Foi delator.
Dedou os seminaristas que demonstravam estar metidos em pensamentos subversivos e fez duas bichas, mesmo com a falta de provas cabais de sodomia, serem expulsas quase em solenidade.
De volta a Arraial, sua cidade natal, no cu do mundo, foi-lhe entregue a paróquia por seus serviços prestados ao Bispo conservador na luta contra o desvio vermelho dentro da Igreja. Lá se empenhou novamente em nome da Ordem.
Mesmo ciente de que o mundo era uma imperfeita caricatura do Céu, não podia admitir qualquer bagunça na composição da realidade, porquanto, isto além de perigoso, ofendia a Deus.
Destarte, apoiou, ou melhor, ordenou que para prefeito os fiéis votassem em seu primo, Gustavo Calamar, cuja família mandava e desmandava naquela terra empoeirada desde antes da lembrança dos mais velhos.
Usou inicialmente do tradicional esquema de convencimento cristão, a ameaça de danação infernal. Quem votasse em Gustavo estava perdoado dos pecados automaticamente, sem nem precisar de confissão, quem votasse na oposição, estaria condenado sem indulto.
O adversário era Alexandre Laguna, dono do único jornal do município, o Clamor de Arraial.
Varão de outro clã truculento que concorria pelo poder na região, mas que caiu longe da árvore bichada, revelando-se um liberal simpático às melhorias para a gente da terra e à imprevisível democracia. Mesmo tênue, um leve mea culpa pelas cagadas ancestrais, esse progressismo era visto pelos olhos do sacerdote como um radicalismo disfarçado que tendia certamente a uma tentativa de ebulição da escória a acabar numa sublevação geral.
Temendo que o tráfico do perdão não resolvesse, Padre Álvaro, partiu para a peleja. Literalmente. Seja abençoando as armas dos jagunços de seu primo, seja botando uma arma na cintura sobre a batina preta e ir em diligencia com os paus mandados a aterrorizar os aliados de Alexandre na alta noite.
Um dia, no entanto, ao contrário da passividade a qual esperava, encontrou resistência. À bala! Se no início da investida contra a casa do caboclo que propagandeava simpatia ao inimigo o padre gritou: “Deus está conosco!”, Deus depois fugiu com ele deixando a jagunçada sozinha para resolver a escaramuça, que deu errado, pois o caboclo era bom de mira como o diabo e fez os capangas retrocederem.
Calhou que vieram as eleições e o voto secreto fez mais que as orações e as balas abençoadas. Alexandre levou a vitória, com pouca margem, mas levou.
Padre Álvaro se emputeceu.
Amaldiçoou Alexandre, amaldiçoou a cidade e se tivesse parado nas maldições teria ficado por isso mesmo. O sacerdote ignorou todo louvor ao perdão pregado por sua instituição e partiu para a mais mesquinha e destrutiva vingança, retornando ao seu antigo vício de delação.
Pegou o compromisso de confidencialidade do confessionário e enfiou no rabo.
Nenhum segredo estava seguro com ele. Os devotos mesmo sabendo que o homem de Deus não era flor que se cheirasse, entendiam estar protegidos ao contar os pecados no confessionário. Não, não mais...
Maridos logo saberiam da infidelidade das esposas, sócios dos furtos e trapaças dos outros sócios, pais dos deslizes dos filhos, moças tiveram a perda da virgindade relatada, até a mais prosaica bobagem era contada a outra parte envolvida.
Se por falta de treino ou hábito, as balas durante a cavalgada com os peões de seu primo não feriram ninguém, as revelações de Padre Álvaro foram empreiteiras de muita dor e muita tragédia.
Um homem retalhou o rosto da mulher adultera ao ponto de que nenhum outro macho a desejasse.
Um pai arrastou a filha desvirginada até o ermo e, após surrá-la com gosto, largou a pobre a própria sorte.
Dois irmãos, sócios num boteco, se mataram a facadas, porque um desviava o lucro e o outro surrupiava carinhos da cunhada.
Um senhor unha de fome metera uma bala entre as órbitas do jovem que o furtara para alimentar o filho que nascera.
O bordel da cidade tivera as portas trancadas e depois incendiado. Queimaram vivas as putas! Obra de mulheres indignadas com as aventuras de seus maridos no lupanar.
E mais outras anedotas terríveis, e mais morte, e mais sangue.
Padre Álvaro bispou inteiro o quadro de terror que pintou. Sem culpa e sem remorso, não viu o mal que semeara. Achou o terror gracioso. Na verdade, sentiu-se orgulhoso por ter levado justiça à cidade.
E como o Orgulho é o pai de todos os pecados, a barriga lhe doeu tremendamente.
Era dor de caganeira, contudo era uma dor espantosa. Esbraseavam as tripas. Uma ardentia assombrosa.
Uma dor de parto.
Tentou correr para latrina, porém não conseguiu. Levantou a batina, acocorou-se e se pôs a obrar ali mesmo, dentro da igreja vazia, em frente ao altar.
Primeiro, peidou brabo. Ruidoso e cheiroso. O fedor chamuscou-lhe o nariz na textura do enxofre.
Segundo, soltou ao longe um jato de líquida diarreia sanguínea, cuja magmática fervura cozinhou as pregas.  
Terceiro, dando a excrescência líquida lugar a sólida, algo áspero, espinhoso e duro desceu pelo seu reto com muito custo, caindo no chão num som oco, dando um alívio semelhante ao resultado de uma boa fornicação.
Padre Álvaro, ainda suado, trêmulo, virou-se para ver a bosta que fizera, deu de cara com o impossível e entendeu que a merda era muito maior.
_Puta que o pariu!
Puta não. Padre.
Ele parira um demoniozinho.
O padre cagara um diabo.
Estava lá, meio abobado ainda, do tamanho de um camundongo com carinha de bebê, olhinhos fechados, entretanto com o aparato clássico de sua espécie: Chifres, rabo, cascos e asas de morcego.
O que fazer? O que fazer?
Sorte que Padre Álvaro era um menino muito atento ás histórias que seu avô contava em torno da fogueira e se lembrou dos contos em que caipiras chocavam no sovaco por dias a fio ovos botados por galos negros a meia-noite de onde saiam cabrunhãozinhos para servi-los com boa sorte e condenar suas almas.
Rapidamente, tratou de arrumar uma garrafa de vinho, o qual era usado na missa como sangue de Cristo, tirou a rolha, dispensou o conteúdo, catou com cuidado o diabrete, o enfiou pelo gargalo e, por fim, tampou o recipiente fazendo uma cruz na rolha com uma faca, que conforme os causos do seu avô serviriam para prender o maligno lá dentro.
O pequeno demônio acordou e encarou o sacerdote que lhe colocara no mundo. Não era um olhar de ódio, era uma espera pacifica por algum comando.
No começo veio-lhe o horror.
Compreendera que tal fenômeno não viria de graça. Pessoas não defecavam diabos. Ainda mais homens de Deus. Nunca tinha ouvido falar de tal fato, a não ser da ideia de que o Anticristo nasceria de uma mulher mortal. Mas aquele lá na garrafa não podia ser o Anticristo. Era um diabinho. Um fruto intestinal seu.
Sendo assim, bem sabia, que como o mal só poderia vir do mal (não, na verdade pode vir do bem também ou o mal às vezes não é o mal, podendo ser o bem em outra perspectiva, mas deixe: Padre Álvaro não era muito refinado em assuntos filosóficos), ele estava condenado.
Chorou de pavor.
Que mal havia cometido para tamanha profanação ser a recompensa? Claro, que todos seus pecados, todos seus atos malvados que provocaram dor passaram em revista em sua memória, todavia, os camuflou num sofisma pessoal para o seu entendimento como ações necessárias para um bem maior.
Sim! O mal pode vir do bem e o bem pode vir do mal!
Esse inovador exercício do beabá da Moral, filosofada esforçada de última hora, estava mais para um subterfúgio, uma corda para salvá-lo do abismo, do que alguma tonificação da inteligência sobre a relação entre as coisas.
E concluiu que ele não era um pecador, mas um justo e que o próprio Deus enviara o diabrete para os seus propósitos divinos.
Se o mal, que ele fez, foi arma para a vitória do bem, porque não sofisticar a prática com um instrumento definitivo?
E sabendo que estava salvo (sim, ele se convenceu!) o sacerdote dançou pela igreja com a garrafa encarando todo sublime a criatura dentro dela.
Não tardou a usar seu brinquedo demoníaco para consertar o mundo que estava bagunçado.
Alexandre Laguna, o prefeito eleito, morreu precipitado dentro da prensa de seu jornal, ato estranho que mesmo remetendo a suspeita de suicídio, Padre Álvaro fez questão de enterrar com todo rito cristão.
Estranhamente, o Juiz eleitoral decidiu que quem deveria ser eleito não era o vice, mas o adversário, Gustavo Calamar. Os partidários de Alexandre protestaram, mas logo saíram da luta política, acometidos por doenças venéreas e bexiguentas, que o médico da cidade, rapaz novo e modernizado, nunca tinha ouvido falar.
Em seguida, as terras da família Laguna secaram e atraíram toda sorte de peçonha e miasma, tornando a propriedade inabitável, gerando o abandono e os rumores de ser mal-assombrada.
A vida de certas pessoas na cidade era encerrada de maneira surpreendente e inusitada. Ataque de cães negros. Olhos arrancados por pássaros sombrios. Gente gulosa que comeu até morrer. Luxuriosos que fornicaram até as partes arderem e o coração falhar. Suicídios exóticos surtaram pela cidade, como a costureira que engoliu o vestido de noiva que ela fez para o próprio casamento, o farmacêutico afeminado que decepou membro e o colocou em exibição na vitrine antes de morrer por sangramento, e outros mais.
Todos os pecadores que Padre Álvaro achava que precisavam, por um motivo ou outro, serem encaminhadas para o inferno.  Muitas vezes nem havia um pecado para ser punido, apenas o infeliz cometera o erro de importunar o sacerdote dono do diabo que lhe atendia desejos.
E o pequeno ser na garrafa fazia sair o melhor do religioso, ou seja, a maldade! Cada vez que usava seu diabinho mais perverso se tornava e, como viciado, mal esperava para pedir outra iniquidade.
A cidade estava perplexa com o festival de trevas que a cobrira, no entanto, mas do que as ações do maldito, o que acabou alarmando os moradores foi a aproximação de comunistas armados.
Tratava-se de um grupo revolucionário de guerrilheiros, ex-militares desgostosos com os rumos do país. Iniciaram a marcha pelo campo para recrutar camaradas a fim de derrubar o governo, instaurar a chamada ditadura do proletariado e alcançar a felicidade igualitária.
(Ou se tornar a nação em mais um satélite submisso da URSS na América – Latina com uma nova plutocracia, vai lá saber.)
Eram liderados pelo Capitão Josias Juliano, apelidado de Capitão Crepúsculo por seus admiradores, os homens de letras nas grandes cidades, por sempre preferir lutar nesse horário e pela poesia explícita e cafona, a conjugar a cor carmim do céu crepuscular com a da causa radical.
Atravessavam a caatinga esmigalhando as forças federais e estaduais, com armadilhas e tocaias típicas dos caçadores da região, armadas por jagunços que revoltados com os desmandos dos seus senhores resolveram aderir aos subversivos.
Sabendo que as forças de Capitão Crepúsculo estavam próximas a cidade, Padre Álvaro, para demonstrar poder, ordenou ao seu capeta destruí-los.
Entretanto, para o azar do religioso, havia um fato o qual não contava. Era um bando de ateus materialistas já vacinados por doutrinação contra o ópio do povo. Como os deuses e demônios são mais efetivos contra os crédulos, o diabrete pela primeira vez encontrou problemas de eficiência.
Enviou uma matilha de cães negros para destroçar a horda vermelha, no entanto, as bestas de olhos de fogo foram demovidos de sua ferocidade, primeiro por coronhadas dos fuzis e depois por nacos de carne seca jogados pelos guerrilheiros. Encantados com generosidade de suas vítimas, as bestas largaram a causa do diabo e aderiram como mascotes dos marxistas.
A seguir, veio um ataque de pássaros negros, o qual foi recebido a tiros de fuzil, abatendo todas as aves profanas, as quais viraram churrascos saborosos nas fogueiras da tropa, cujos ossos sobraram para os cães convertidos.
Por fim, tentou atiçar os pecados capitais dos homens de Crepúsculo a fim de desmontar as fileiras. Preguiça, Gula, Luxuria e o resto do pacote. Não obstante, seu capitão era homem de mão de ferro e voz trovejante, logo ao ver aqueles estranhos desvios, uns queriam parar para descansar, outros desejavam saquear o gado de fazendas vizinhas para se proverem de enormes banquetes, havia aqueles que pretendiam reencenar o rapto das Sabinas no primeiro vilarejo que encontrassem, sem contar as brigas risca-facas motivadas por picuinhas, tratou de botar de volta a disciplina tanto apreciada na vida marcial.
Deu –lhes uma descompostura no pessoal que até os cactus próximos se coraram. Vexados os homens abandonaram seu comportamento tresloucado e bateram perfilados os calcanhares. A marcha continuava.
Com tudo em vão, os comunistas já se encontravam na entrada da cidade. Os jagunços de Gustavo Calamar e os homens do delegado em conjunto bem que tentaram, mas fizeram uma resistência pífia. Os que não foram abatidos, foram enxotados, fugindo em nuvens alta de poeira.
Agora, a tropa se dirigia a igreja, onde acreditavam ainda se encontrar algum resto de aferro contra sua passagem pela cidade, da qual confiscariam víveres antes de seguir jornada, além de realizar a sua propaganda ideológica de sempre.   
Rangendo os dentes, Padre Álvaro cobrou esforço do diabinho que gastou o que tinha em efeitos especiais.
A terra tremeu.
O chão vibrou. As casas racharam. O mundo ia cair.
Podia cair, mas Capitão Crepúsculo e seus homens permaneceriam em pé, mesmo com o esqueleto tremulante e os dentes batendo, correndo risco de perder a língua numa dentada involuntária.
Choveu granizo ardente.
No trajeto de estrelas cadentes, petardos de fogo desciam do céu, análogos ao fim de Sodoma e Gomorra.
O plágio da ira de Deus, no entanto, não abalou os vermelhos, pois estes já tiveram sob banho de chumbo quente da artilharia do governo, deste modo já endurecendo seu couro. O que o divino faz, o homem nunca está muito longe de imitar ou até de superar.
Criou zumbis de cadáveres de pecadores do cemitério.
Dono da confissão final de muitos mortos, o padre pode dar o direito ao espírito engarrafado de convocar aqueles que ainda não descansavam no outro lado. Ordenou-lhes a vestir a carne podre e a assaltar contra os comunistas.
Os  adversários putrefatos também não impressionaram os descrentes. Em paragens anteriores um coronel beato que se travestia antes de padre e depois de santo, ordenou aos seus devotos, famintos esqueléticos, vítimas de uma seca eterna e da pilhagem de seus mestres donos de terras, que se militassem e atacassem os ímpios. Um arranca-rabo resolvido no cacete, pois Capitão Crepúsculo teve dó daquela gente. Que viessem os defuntos! Não há muita diferença, entre um morto ambulante e um morto de fome que teima em não cair onde esteja!   
Levantaram-se línguas de fogo em torno da igreja tecendo um círculo protetor.
Pronto, pensou Padre Álvaro, estas faixas infernais farão os subversivos fugirem com o rabo entre as pernas, além de enfiar a fé cristã goela abaixo deles, porque entenderiam estes fatos como provas do divino.
Nisto, quando gozava por ter salvado a cidade do comunismo e, talvez, reconvertido algumas almas, a porta da igreja explodiu numa porrada!
Era Capitão Crepúsculo e seus camaradas.
Eles carregavam os mortos-vivos em chamas. O grupo havia pegado os cadáveres ambulantes e os usados como escudos para atravessar o círculo chamejante, depois como aríetes contra a porta do templo.
Jogando os defuntos a arder no chão da igreja, Capitão Crepúsculo avançou com seu passo pesado para sacerdote que agora tremia todo.
 _ É só você que está aqui, Padreco?
Apavorado, Padre Álvaro ergueu a garrafa com o diabinho dentro e implorou para seu bruxedo:
_Proteja-me!
O Capitão ao ver o diabinho não conteve o desprezo. Tomou a garrafa e jogou-a no chão, espatifando-a.
O Padre quase se cagou de novo.
_O que você fez? Estamos todos perdidos agora!
O diabrete arremessado se restabelecia do impacto, pronto para destruir todos a sua volta, agora que estava livre, quando a bota negra do Capitão Crepúsculo o esmagou numa pisada, como uma barata.
Destruído o diabinho, cessou o círculo de fogo, parou a chuva de granizo ardente e os zumbis que sobraram caíram como sacos cheios de batatas.
_ Mera ilusão religiosa!
O padre se abobou.
_ C-como?
_ Era assim que você enganava o povo? Com truques de mágica?
_ M-mas como você...
_Agora escute, corvo de sacristia, temos necessidades. Vá e reúna seu rebanho no meio da praça. Vamos confiscar alguma comida e bebida para a causa de libertação nacional. Não queremos explorar, apenas o bastante para continuarmos nossa marcha até a capital.
Padre Álvaro ainda boquiaberto, num esgar de espanto diante de tudo.
_ Anda, homem de Deus! Antes que eu te cape e lhe dê motivos reais pra você usar essa saia.
O sacerdote despertou de seu transe e correu, em meio as gargalhadas dos homens de Crepúsculo, para fora da igreja a fim de atender ao que líder ateu ordenou.
Ele reuniu o povo que deu os mantimentos para os guerrilheiros, os quais se retiraram no trote de seus cavalos sem causar qualquer outro dano, a não ser nas consciências dos cidadãos sobreviventes de Arraial, nas quais fora destilado o absinto do grande perigo vermelho, uma vez que Capitão Crepúsculo se deteve para mais um deslumbrante discurso que enfeitiçava as massas estúpidas.
Já não mais tão estúpidas e cientes de que poderiam ser mais do que eram, as pessoas reconstruíram a cidade, dessa vez sem jagunços e famílias mandatórias, todas expulsas uma a uma na medida em que a ideia crepuscular se espalhava nos passos de uma peste.
O único edifício que não foi recuperado foi a igreja. Ela permaneceu abandonada, habitada pelo sacerdote, transformado em pária devido não apenas aos seus crimes, mas também pela sua inutilidade na nova Arraial.
(A qual poderia ter sido um paraíso igualitário, a não ser por um grupelho que assumiu o poder na comunidade, expurgou toda gente adversária e implantou uma cruel ditadura provisória a qual virou permanente até entrar em colapso anos depois.)
Dentro das paredes do templo, o padre, isolado da revolução de bolso que acontecia ao seu redor, vestindo uma batina maltrapilha, todo dia comia folhas e raízes de plantas com qualidades purgativas e orava ao Senhor na tentativa amargurada de cagar outro diabo. O resultado é que se produzia quilos de bosta em fracassadas cagadas, executadas em frente ao altar, na esperança de que, se se repetisse as condições iniciais, reveria a profanação que o fez avatar da Ira Divina.
Nunca mais Padre Álvaro conseguiu recuperar aquela obra infernal, não obstante, a igreja ficou fedida como sovaco de Satã.