quinta-feira, 22 de maio de 2014

Duro



Seria uma ótima noite.
Pelo menos na aposta passional de Jonas.
Jantar no restaurante, não um estabelecimento mui caro, entretanto respeitável e agradável para o indivíduo médio. Presenteou-a com belos sapatos, pouco extraordinários, verdade, mas nada a ofender uma moça a ganhá-los, pelo contrário poder-se ia apostar. Ofertou-lhe flores, bonitas e honestas rosas vermelhas com suas declarações cromáticas. Ah, o vinho! Até pesquisou um tinto o qual pudesse pedir ao garçom uma garrafa que não devastasse sua carteira e também não o humilhasse na mesa perante os lábios dela.
O manual completo do tolo apaixonado! Seguido à risca como os ditames de um ancião grimório por um mago ao executar complexa feitiçaria, envolvendo em seu bruxedo planetas e estrelas, anjos e demônios, e cremando flores santas e enxofre para prender aquela preciosa entidade no círculo mágico selado pela estrela de Salomão!
Afinal, Jonas foi acometido por violento espasmo de agudo romance! No mesmo vigor rítmico de um acidente cardíaco na carcaça de um obeso e sedentário estadunidense, afogado em gordura hidrogenada de fritas e hambúrgueres durante pontapé inicial na bola oval no superbowl.
Assim se esmerou em seu projeto de invocar a simpatia de Eros, rondando Solange por meses na espreita de um pássaro carniceiro enamorado de um animal ferido. Cortejando, declarando e esperando. Fez o que pode, o que não pode e até gastou o que não devia...
(Quiçá seja esse o problema).
E declarou-se, sem vergonhas, numa arroubo de inocente juventude retardatária.
_ Quer namorar comigo?
Um momento pausado de drama.
De repente.
Lágrimas.
_Por que está chorando, amor?
_Por que... Porque finalmente encontro quem me ama...
O sentimento, o esforço... Reconhecidos! Solange estava lacrimosa de alegria! Vejam só! Jonas sorriu, feito um bobão. Feliz! Estava feliz! Devia esperar ela terminar o planto da amada para beijá-la cinematograficamente, quando na celulose empurram a promessa da felicidade ser possível para todos goela abaixo de uma assistência interessada em ser nutrida por saborosos embustes?
_ E esse cara que me ama de verdade... é um duro!
_Hã?
_Um duro!
Jonas não creu.
No entanto, o que a fé pode contra o fato?
O rapaz, pobre rapaz, abriu a boca e nada disse, num esgar cômico para quem visse a cena e conhecesse o texto. Umas risadas enlatadas cairiam bem. Restaurantes deviam, além de violinistas, fornecer claques para diversas situações engraçadas.
Quando terminou o choro, ficou calada. Jonas fez par no silêncio. Ainda de órbitas úmidas, ela iniciou uma conversa. Um relato. Não sobre eles e o embaraço daquela hora e sim sobre um estrangeiro. O qual conhecera pela internet, no mesmo tempo que conhecera Jonas por aí, na vida. Era o inglês. Ele não tinha nome, quer dizer, era claro que ele tinha um nome, porém, como uma entidade de ficção misteriosa, para ela era sempre o inglês.
Estavam juntos em videoconferências e às vezes, quando vinha ao Brasil para negócios, encontravam-se para... Bem, Jonas dolorosamente entendeu. O inglês era um empresário casado, prestes a se divorciar da rotunda esposa para ficar com Solange, a amante.
Jonas, o qual se segurava para não desabar em choradeiras na frente dela, fora tomado por aquela malícia que só a iniquidade alheia e a tragédia aplicadas sobre o ser conseguem infundir no coração do simplório e logo percebeu esse clichê adultero nunca aconteceria, entendendo que, não só ele, mas cada um é um idiota a sua maneira.
_Aliás, está na hora de falar com ele.
Solange se levantou apressada, como se toda aquela tensão e ruína fosse nada, e se moveui na direção da saída. Antes de se retirar Jonas a deteve:
_Eu a acompanho. Deixa eu pagar a conta.
Letárgico demais para perceber o prejuízo em suas finanças a troco de coisa nenhuma, a não ser aquele verme imenso, gordo e branco a carcomer o seu coração, passou o cartão e a acompanhou até a saída. Chamou um taxi.
_Vou te deixar em casa e depois vou pra minha.
No carro, Solange nada disse. Ao lado dela, Jonas a olhou. Ela observava alguma coisa invisível a sua frente. Um novo choro nasceu.
_ Eu sou burra. Como sou burra!
 Chegaram a casa dela, Solange desceu, parou na frente do portão e virou-se. Chamou-o
_Entrar?
_É. Vem!
_ Por quê?
 Jonas pagou o taxi e entraram.
_Mas eu não posso ficar com você.
Ela jogou a blusa no sofá.
_Eu tenho que tentar com ele. Não tenho escolha. Você entende?
Escolhas havia. Mas Jonas entendia.
_Filho da puta que não deixa aquela vaca gorda. A mulher é uma bola. Uma bola!
Solange ligou o computador.
_Claro, que não vai deixar.
Quase na hora, Jonas dessa vez, mesmo bem mais esperto, afinal a dor é boa professora, não entendeu.
_Tem mulher que  é  só pra comer, não é?
Ela queria que ele ouvisse a conversa? Para quê? Machucar mais? Não! Porém, antes de Jonas se evadir, ela tirou a calcinha sem levantar a saia e pediu para esperar.
Sentou-se na frente do computador, o qual já estava ligado. O skype começou a chamar.
_Depressa!
Solange apontou para o chão perto da cadeira. Jonas intuiu e sentou onde ela indicou com o dedo. Ela atendeu o skype. A voz eletrônica a cumprimentou.
Em inglês.
Era o maldito inglês!
Conversaram na língua materna do britânico. Jonas entendia pouco. Nunca em sua vida sobrou dinheiro para um curso. Conseguia entender algumas coisas ditas por Solange naquele inglês básico, entretanto, o sotaque e velocidade do súdito da rainha sabotavam qualquer compreensão.
Enquanto a conversa de desenrolava, Solange discretamente levantou a saia do vestido desnudando suas pernas, as quais abriram como borboletas para o mundo. Tocou a cabeça de Jonas com a mão e delicadamente a arrastou para entre elas, onde o jovem ciente da picardia que ali se desenvolvia encarou os lábios femininos pedindo ósculos.
Jonas estacou.
No entanto, a mão dela o forçava. O odor coagia. A situação o impelia.
Jonas a beijou e depois a devassou com a língua.
Se no hemisfério superior, ela se mantinha calma, com sorrisos, ao falar com seu amor distante, no inferior, seu corpo era bombardeado por sensações de vida e de vingança.
A conversa transatlântica durou uma hora. O trabalho subterrâneo de Jonas também. Os dois amantes em sua ponte virtual se despediriam com o mesmo beijo de toda noite e quando o inglês saiu do ar, ela arfou como uma besta de carga cansada, puxou Jonas para cima e concluíram sua travessura se conjugando sobre a cadeira.
Quando os fluídos terminaram, de novo calados, Jonas se separou e foi para o espelho da sala se arrumar. Solange, suave bailarina, pés suaves sem ruído no chão, aconchegou-se a ele, encostou o rosto no peito e disse com aquela voz doce e rouca pós-coito.
_Se você quiser. Podemos fazer isso sempre.
Jonas alinhou a camisa.
_Todo dia, nessa hora a gente se fala...
Ele a encarou.
E foi embora.
Solange retornou ao computador e mordeu o lábio ao mexer o mouse.
Jonas voltaria?
Claro que voltaria. Ele a amava de um jeito entregue e puro de protagonista de livro impresso em papel vagabundo e escrito propositadamente para moças e senhoras passarem seu tempo ocioso. Um jeito que Solange nunca amou. Ninguém.
Então, a amante clicou duas vezes no navegador e, pela madrugada, se naufragou na internet.




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sábado, 17 de maio de 2014

Maldito Perdão

Ele a perdoou.
Não se enganem.
Não foi porque ela pediu.
Não foi um gesto piedoso e sim do mais puro egoísmo.
Não suportava mais aquele fel negro a borbulhar em seu peito e pela mais mesquinha autopreservação a baniu de seus pensamentos.
Ele? Ficou sozinho e satisfeito.
Ela? Só.
Diante do espelho.
A espera.
Com seus nervos.
Quem dera ele a odiasse para ao menos um mal educado e estúpido telefonema.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Leite


Beijei seu ventre saliente.
Ela estava grávida. Tudo bem. Não era meu.
Fiz-me estéril há anos atrás, após a primeira ameaça de paternidade acidental.
Confesso, todavia, meu egoísmo roleta-russa. Não temia a AIDS e afins, apesar de ser do tempo em que se viam cazuzas derreterem sob a luz do espetáculo. Não agia adequado para me manter incólume às moléstias sexuais, das quais, por injustiça cósmica, sempre me vi a salvo. Contudo, condenar alguém a esse mundo madmax onde água será negociada por filhos da puta como petróleo não era um pecado que eu quero ter no meu currículo moral.
 A cria é do marido mesmo.
_Parabéns.
_Obrigada.
Ela veio me visitar após um breve sumiço e apareceu barriguda. Falou como tudo estava ótimo entre ela e o esposo. Vida de propaganda de café da manhã. Manteiga ou margarina? Não importa desde que se passado no pão fique cremoso. Cereais matinais com leite e achocolatado. Tudo vitaminado. E o açúcar industrializado? Tanto faz. Ela até parou de fumar. Nunca se sentiu tão contente. Nunca se sentiu tão bonita...
De fato, a gravidez torna as mulheres mais bonitas. Deve ser um recurso evolutivo. As fêmeas que ficavam mais bonitas eram melhores protegidas pelos machos, as que não se embelezavam pela gravidez pereciam abandonadas comendo restos com os cães e os genes naufragavam. Darwinismo de boteco.
_Sim, estou feliz.
_Se tá tão feliz, porque veio me ver?
_Eu disse que estou feliz, mas não satisfeita.
Então, despiu-se como sempre se despiu. Sem prosa. Silenciosa.
Toquei-lhe a barriga antes de qualquer lugar.  Para sentir o bebê. Fazer aquela coisa sagrada ser minha presa na arena de carne. Para desconsagrar. Desgraçar com minha desgraçada língua. Deixar um rastro de lesma com minha saliva.
Um beijo no filho que não era meu.
Depois tomei a mulher. Ela também não era minha e a possui como um ladrão o faz, sem, no entanto, a indelicadeza do bandido da luz vermelha... Lembrando-me de que ela seria mãe e que eu a comia de todo jeito. Do cu aos peitos. Fodia uma instituição basilar da sociedade ocidental. Um dinamiteiro a bombardear algum sítio burguês no final dos 1800. Vítimas fotografadas e reproduzidas milhares de vezes na impressão das páginas amarelas dos jornais.
Veio o gozo.
Bilateral.
Paramos. Houve, então, a muda conferência existencial pós-sexo, quando nada está sempre em pauta. Olhamos para o teto e os insetos no teto. Ela acendeu um cigarro. O fumo correu pelo organismo até ter um encontro peçonhento com o feto. Ninguém se importou com a nicotina e as substâncias nocivas na composição do cigarro, entre elas os gases tóxicos, os pesticidas e quarenta substâncias cancerígenas.
_Não vou voltar.
_Humm?
_É a última vez...
Uma dose cowboy, sem água, sem gelo, sem açúcar de culpa cristã. Começou a se vestir. Olhando para qualquer coisa, menos para mim.
_Duvido.
_Não aposte, cara! Vai perder!
_Tudo bem.
Saiu pela porta com um beijo no meu franco esquerdo. Não apostei. Devia ter apostado.
Passou uma estação. Tempo bastante para ela parir e andar por aí. Veio dar na minha porta com o pequeno no colo.
_Não é lindo?
Não. Cara de joelho. Se não é a porra hormonal da ocitocina...
_É, sim, lindo como a mãe. Está feliz?
_Estou.
Beijamos-nos. Ela segurando a criança, entre a pressão suave das nossas caixas torácicas.
Perguntei-lhe como foi o parto e como era o pequeno. Ela tagarelou como tagarelam as mulheres em matracas de felicidade sobre sua maternidade. Enquanto discorria sobre o que pariu, fui para trás, juntando o cabelo dela em rabo de cavalo e o colocando de lado, liberando a nuca para o assalto oscular.
_Satisfeita?
Nada disse e eu continuei beijando, pelo franco do rosto até o lóbulo da orelha, o qual mordisquei. Minha mão desceu no passo de aranha pela espinha até o cóccix. De repente, um sussurro... E o leite vazou, escorrendo em duas linhas onduladas pelo mamilo endurecido.
Desvencilhou-se.
_É hora de dar de mamar. Importa-se? É só um instantinho.
_Não. À vontade...
Afastei-me, um voyeur cansado do ménage a trois, para observar a consequência dos hormônios do amor. A ocitocina! Bendita ocitocina! Oh, adversária do cortisol! Anticristo do estresse! Cortesã da reprodução!  Um truque evolucionário do hipotálamo para não estrangularmos nossos filhos no primeiro choro. 
Ela pós o pequeno em posição, botou nu o mamilo que transbordara e menino tratou de seguir a natureza.
Vi o enlace da mãe e do filho e, encantado, aproximei-me.
O encanto em questão não era desses pasteurizados de rosadas fadas, Disney Copyright, onde se fica admirado com o mais tolo e mecânico ato prosaico. Era, na verdade, mais um bruxedo.
Sem avisar, sem pedir permissão, sem dar sinal, peguei o outro seio, que estava coberto, e com a mão forte o arrastei para fora da vestimenta.
_Hã, espera...
_ Cala a boca.
E tratei de mamar na teta capturada.
Veio o leite salgado e o gosto de lágrima não me agradou, mas a situação era melhor do que a refeição. A tensão permaneceu. Eu de um lado, a criança do outro. Nutrindo de nossa vaca, até que a mão dela, movida por aquela excitação secreta que as mulheres têm ao amamentar, tocou o regaço entre suas coxas e iniciou a dedilhada das cordas femininas. 
Não sei por quanto tempo o festim se dilatou, mas, nós, os três amantes, a mãe, o filho e o invasor, terminamos empatados em satisfação. E na vitória da quietude, durante a digestão, solapada pelo respirar do bebê, de repente, ela disse com uma ou outra nota de cólera em sua voz.
_Não volto nunca mais aqui, seu merda!
_Você toparia uma aposta sobre isso?
E, vendo-a se retirar em pé de guerra, sorri ao me lembra das anedotas dos velhos tios-avôs, que diziam que na roça havia infante alimentado no bico do seio até os seus sete anos.

sábado, 3 de maio de 2014

Invisível

André era o que se chama de repositor. Trabalhava no supermercado, obviamente, repondo produtos de consumo nas prateleiras. Já estava velho e o trabalho era de jovem, os quais riam dele pelas costas por não ser tão moço e estúpido como eles.
Para os novos de baixa renda, esse cansativo trabalho era a porta de entrada no mercado de trabalho. Para André, que já passou por tanta aventura trabalhista, agora era tudo ou nada, ter comida na mesa ou não. Por isso não se rendia a bagunça da molecada que se esmerava na feitura da mais desnecessária bobagem. Isto causava uma boa impressão à chefia, que era abalada pela falta de força física em relação aos seus colegas, alguns ainda frequentadores de academia mesmo após a labuta dura. O tempo conspirava contra sua carne e nada mais restava a fazer se não resistir à dor de cada dia com analgésicos de farmácia.
Sobre aquele que reposita: Este é um dos vários afazeres subalternos a possuírem o encanto de tornar imperceptível o labutador ao olho burguês. Faxineiro, segurança, porteiro, qualquer um desses cargos notadamente ocupados por indivíduos de fenótipo escuro e totalmente dispensáveis no grande plano das coisas ditadas pelo senso comum da tapa de cavalo.
O cliente entretido no equilíbrio entre escudar a integridade do orçamento familiar e ceder a luxuria do consumo não vê, sequer dá conta do esforço dos repositores em manter as prateleiras cheias e limpas (aparentemente). Simplesmente observa o preço, estende o braço, no máximo, compara mercadorias, põe ou não no carrinho e se retira.
Deve haver em algumas fantasias infantis enunciados aristotélicos em que óleos, macarrões, molhos de tomate brotam espontaneamente nas prateleiras. Quão surpreendente deve ser para o infante flagrar um estanho homem uniformizado trazendo produtos e atualizando as fileiras expostas! 
Se esse é um mistério para as crianças, o que se dirá dos segredos não revelados aos adultos? Que os produtos ficam armazenados em condições indignas muitas vezes fazendo sua validade se antecipar além do prazo na embalagem.Não raro, André encontrava uma lata de tomate estourada com uma nação de vermes a nadar em seu infinito carmesim, futuras baratas a correr com suas perninhas cheias de cerdas entre as guloseimas a nos dar água na boca...   E a sujeira dos produtos que mal eram limpos por paninhos com álcool? A urina dos ratos sempre presente anunciando o rastro do roedor. E, claro as prateleiras. O consumidor não está apto a ver a imundice pegajosa atrás de belas embalagens enfileiradas ou produtos vencidos e lixo enfiados atrás de rótulos sedutores. Ser repositor era arfar com peso e se sentir imundo durante oito horas, quando não mais.
Todavia, deixemos os sortilégios das grandes cadeias de consumo em paz e  toquemos em outras invisibilidades.
André se percebia um fantasma andando pelo corredor entre compradores de olhar perdido em si mesmo. Solitário entre os colegas de trabalho, notou-se assim também em relação aos  clientes, porém, quando um o parava para se informar sobre alguma coisa não era um alívio de ser reconhecido pelo outro, mas um mal a lhe cotucar a nuca.  O cliente pedia esclarecimento sobre um produto ou fato qualquer e a pergunta, quando não agressiva e nada urbana, era desesperada e ligeira, como se doesse falar com o empregado da loja. Se houvesse, muita informação a ser dada, o cliente saia, empurrando o carrinho, falando como se desculpando, fugindo de novo para sua segurança de não ver o quem era inferior a ele.
Esse encontro entre espíritos piorava o retorno à invisibilidade, o qual assumia contornos de uma prisão mais confortável, sensação demolidora para qualquer esperança de alteração.
Um dia, no entanto, André trombou com gente conhecida. Não, talvez conhecida. Um primo. Menino de 12 anos, com o qual nunca tivera contato e conhecera afinal na festa de família dias antes.
A família de André, do tempo antes de André, mas do pai de André, era pobre e solidária, trabalhou bastante e aí a geração de André veio ao mundo rica (remediada) e egocentrada. Menos o André, cuja morte prematura do pai quando cedo comprometeu sua entrada na classe média, pois parou de estudar para ser arrimo de sua mãe.
Ele ia às festas de família por respeito aos mais velhos, mas lá só cumprimentava a todos e depois se aninhava no seu canto sem falar com ninguém, pois a conversa entre os profissionais liberais de seu sangue, não devia, lógico, abrangê-lo.
_Oi, você não é o Victor?
O menino, o qual estava com roupa azul babaca de sua escola particular bem arrumadinha, constrangeu-se, estava tudo no rosto torto de um tímido nojo, e negou quem era. O peão, na melhor e na mais ingênua intenção, insistiu.
Veio do nada, no voo da harpia, a tia socorrer o pobre garoto assediado.
 Do outro lado da família de Victor e mulher de um arquiteto de muitas obras erguidas, com contatos na prefeitura, os quais lhes permitiam algumas jogadas imobiliárias e políticas valiosas, que talvez se desnudadas o ministério público interessar-se-ia em esmaga-las.
A mulher de permanentes caracóis louros na cabeça se postou ao lado do garoto e André também a reconheceu da mesma festa. Do alto de seu blasé, a dona positivou a negação.
Não era o Victor.
Ou, na verdade, era!
Era mesmo!
Poderia protestar, dizer que a criança era a porra do seu primo e que ele, o repositor, existia para ser reconhecido. Tanto no supermercado, quanto na festa, como em qualquer chão onde pusesse os pés. Mas o pagamento no final do mês e a paz com os patriarcas da família exigiram que André continuasse equivocado e Victor não fosse Victor.
André pediu desculpas pelo incômodo e sumiu em seu trabalho servil, entre frascos de vinagre e donas de casa com cara de cu a comprá-los, tendo uma pequena nuvem negra grávida de aversão a orbitar o crânio.
Noutro dia, semanas depois, num churrasco de outro primo, esses encontros familiares eram necessários para se emular uma vida social para a família, pois após casório e procriação já não mais interagiam com mais ninguém fora das ligações de sangue, André começou a peregrinação de cumprimentar quem não se interessava por ele, quando reencontrou o mesmo Victor que não era Victor.
André pensou em evitá-lo, porém queria ver a reação de seus olhos. Demonstrar-se-ia algum reflexo do encontro no mercado... Não demonstrou. Nada nos olhos. Só o aperto de mão mole e aquele ar irmanado nos parentes de puro tédio existencial (O que poderia levar algum filosofo a tecer  posteriores perguntas eugênicas sobre o tema).
 Além do pequeno, estava a tia que foi testemunha da confusão ontológica. Diferente do sobrinho, esta foi socialmente mais hábil, veio toda sorrisos, beijou o rosto como se o proletário lhe valesse algum vintém.
_Como vai o trabalho?
O... Trabalho?
_Vai bem. Vai bem...
Sorriu, deu um tchauzinho e foi contar vantagens dos últimos eletrodomésticos que comprou com as outras tias e primas, deixando o repositor sozinho.
André, nem chocado, nem conformado, nem revoltado, apenas absorto, de olhos arregalados, pegou uma cadeira e foi para o canto usar sua habilidade de se tornar invisível aos seus iguais, a qual, pela primeira vez em seus dias de miséria, viu como uma benção dada pela fatalidade.