Das Tripas
Santo
André, ABC fuliginoso paulista, é um lugar de sobe e desce.
Morros.
Colinas. Declives. Romeu arrasta a carroça ladeira acima.
Pesada?
Não.
Pesado.
A
carroça vazia. Ele cheio.
Romeu
sabe o que tem que perpetrar.
Sísifo.
Atlas. Cristo.
Pode
escolher.
Romeu
leva o mundo nas suas costas, a Rocha de Sísifo, o Céu de Atlas e a Cruz de
Cristo, metaforicamente e realmente, se quiser consumir, se quiser comer, se
quiser ser, se quiser existir, Romeu carrega o carrinho nas suas costas, pois o
velho é carroceiro e cata latinha.
(E
outros recicláveis.)
Agora,
você, leitor, de posse de seu mito preferido, sigamos.
Ele
vira a esquina na travessa para encontrá-los.
Antes
de ser um consumidor, Romeu é um homem. E um homem faz o que tem que fazer.
E
vai fazer.
Lá
estão eles. Os vagabundos. Sentados como
sempre no degrau da viela. Tão dedicados ao nada!
Ás
vezes, soltam pipa. Moço de 18 anos soltando pipa, correndo atrás de pipa,
invadindo quintais, brigando com menino menor. Batendo nos menores. Olho roxo.
Dente quebrado. Tudo por uma pipa. Às vezes, puxando fumo, malditos maconheirinhos!
Filhos,
netos, bisnetos de imigrantes. Italianos, mineiros, nordestinos, nessa ordem de
ocupação territorial. Se se diferem em origens, unem-se ao serem também filhos do
proletariado. Metalúrgicos, operários, pedreiros, pintores, mecânicos. Os quais
numa geração ascenderam para a classe média e, hoje, olham para o passado com
pudor, feito se em suas raízes vicejasse a nódoa da vergonha, de provirem de
uma imunda e intocável casta.
Também
se unem em mais de uma qualidade que os torna um grupo sem deformidades: A
estupidez.
Unidos
na força da falange, sentem-se fortes sendo um e não sendo ninguém (se não
fossem preguiçosos e prestassem atenção nas aulas de História, talvez usassem
camisas pretas italianas ou a verde oliva tupiniquim), e por isso bulem com as
pessoas.
Mexem
com os passantes.
Nem
todos.
Apenas
com os que merecem. As meninas bonitas,
pecaminosas na beleza. Os viados, por serem perigosos com seus paus e cus
soltos por aí. Os fracos de todos os tipos. Os pobres. Os mendigos. O carroceiro.
Já
mexeram com o Romeu.
Xingaram.
Zombaram. Tacaram coisas. E uma vez até pularam dentro da carroça enquanto ele
puxava desavisado.
Quando
era com ele, Romeu suportou.
Ascético,
não esboçou nada que denotassem raiva, mesmo porque não havia raiva. Coisas da vida. Existiam pessoas como ele e
pessoas como os garotos. Só isso.
Todavia,
a conformidade naufragou quando mexeram com sua Julieta.
Que
fique claro que sua esposa não se chamava Julieta. Era Dirce, mas ele era
Romeu, o queijo, e Dirce, sua goiabada. Um casamento tão gostoso quanto a
guloseima.
Dirce,
como Romeu, mais do que Romeu, era uma presa perfeita.
Era
mulher, pobre e velha. Passava arrastando seus chinelos em sua touca de lenço
de cetim na rua deles. Na rua deles! Uma provocação para a cretina índole dos
rapazes.
Obviamente,
disseram impropérios. Como Romeu, ela não demonstrou constrangimento. Depois, alisaram os caralhos sob as
bermudas. Ela quase chorou, mas não desabou. Na terceira vez, a derradeira, tacaram
uma pedra.
O
objeto voador atingiu a cabeça da velha, que quase caiu. Quando o violeta
brotou em sua face, não teve como segurar as lágrimas e as ofensas. A molecada
caiu na risada. No deboche. Nas ameaças.
Dirce fugiu. Foi para casa e esperou o marido, entre a raiva e o medo,
temendo a reação, as consequências.
Ela
ocultara a mágoa do esposo, porém, o roxo do ferimento não permitia
mascaramentos. Quando o carroceiro adentrou ao barraco, viu e se alarmou. Dirce
disse que não era nada, que caiu e bateu no não-sei-no-quê. Romeu não é bobo e
a azucrinou em busca da verdade. Que numa hora saiu numa erupção chorosa.
Armado
com a raiva, o homem deixou a mulher sozinha em busca de punição. Andou pelas
ruas até dar de fuça com alguns daqueles pestes coçando o saco numa esquina.
Sem erguer os punhos, sem tocá-los, destruiu-os com a mais bela descompostura.
O sorriso dos vagabundos murchou e eles ouviram a bronca em silêncio,
constrangidos, humilhados e, quando Romeu terminou, ficaram os olhos lacrimosos.
Romeu,
tendo vomitado o que o carcomia, virou as costas e se foi.
Não
sumiu, sem antes ouvir de um dos garotos.
_
Véio filha da puta! Vamo contar tudo pro lindão.
Lindão
era o líder dos folgados. O maior, o
mais brigão, o encrenqueiro-mor, diziam que tinha até passagem na polícia.
_Conta!
Respirou
fundo.
_Pode
me rabiscar com quem cês quiserem!
Romeu
foi cuidar da esposa e deixou a molecada blasfemando sozinha, eles que não
tiveram coragem de interrompê-lo.
Os
apóstolos contaram ao seu messias. Logo, correu nas bocas que o Lindão, para
manter a moral dos camaradas, queria pegar Romeu. O que faria seria uma
incógnita, apesar das muitas, violentas e imaginosas especulações.
Dirce
se apavorou. Temia pelo marido. Romeu, apenas a acarinhava e dizia que não era
nada.
_Nada?
Esse Lindão é coisa ruim.
_Tsc!
É um cagão como os outros.
Era?
Não se sabia. Talvez fosse um tremendo malfeitor, talvez fosse só um bosta. Porém, no bairro a conversa cresceu e, para
alguns, Romeu já estava morto.
O
morto resolveu conferir o caso com o carrasco.
Romeu
pára.
Adiante,
a molecada matraqueia nos degraus de cimento. Emudecem ao verem, depois o murmúrio.
Cochicham.
O
corpo de gente se abre para a passagem do rapaz alto e barbudo.
Lindão,
homem já feito, mas leva a vida de moleque, sem trabalhar, sem estudar,
furtando coisa ali, arrumando briga lá. Como se fosse para compensar a
malandragem juvenil a qual ainda está preso, deixou crescer a barba e ser mais
velho aos olhos dos outros.
Os
outros. Os outros são muito importantes para Lindão. Ser o líder da matilha de
vadios das ruas vizinhas é o que entendia como o topo de tudo aonde poderia
chegar. Não que houvesse algo mais no mundo e ele não se achasse capaz de outra
obra. Para ele não há mais nada, além do respeito e o temor daquela meninada
desencaminhada.
Soube
da esfregada do velho sobre seus meninos. Providências urgem, pois um fato
anterior já ameaçava minar a autoridade do voivoda das vielas.
Certa
vez, sentou sobre o muro e ordenou a uma senhora em seu quintal que pegasse uma
jaca da arvore para ele. A velha recusou e o pilantra se emputeceu. Descarregou
intimidações e insultos. O barulho fez emergir do nada o filho da velha, um
gordo baixinho com cara de mau. Somente com o olhar e umas três palavras, o
homem desmontou a macheza do garotão, que pediu desculpas e saiu rapidinho. Sem
jaca e sem brio.
Histórias
tomavam galope naquela vizinhança e não tardou para o causo cavalgar o vento.
Os meninos começaram a debater, às suas costas, se Lindão não era mais o mesmo
campeão de antes.
Lindão
sabia que seu poder era questionado e medidas eram necessárias para a
manutenção da ordem. O velho era perfeito. Amedrontaria-o com seus olhos fixos
e palavras rudes, se necessário, meteria um sopapo, pelos cálculos bastava um
para derrubá-lo, e seria o rei da rua de novo.
Isso!
A
figura de Lindão se destacou da meninada.
Romeu
não se mexe.
Aos
olhos de um covarde, Lindão seria um colosso entre os anões que o seguiam.
Romeu
o espera.
Lindão
avança. O jovem estaca a frente do idoso.
Silêncio.
_Que
merda você falou pros irmãos?
Romeu
não responde.
_Por
que não fala pra mim, agora?
Romeu
sorri.
_É
tudo irmão seu?
_Você
é um velho muito folgado!
_E
ocês tudo covarde por tacar pedra n a minha velha.
_Cai
fora daqui, se não te quebro a cara. Aliás, não quero mais ver a tua carroça
suja por aqui
_
Não. A constituição diz que eu posso andar aonde quiser.
_Constituição?
Lindão
ri.
_
Enfia a constituição no cu, veio do caralho! Você não passa mais por aqui.
_
Passo sim.
_
Se passar, sabe o que acontece?
_Não
faço ideia.
_Tu
morre!
Ah!
Romeu
esperava pela deixa. No fundo, estava dividido. Uma parte queria, outra não.
Deixou para o destino decidir a vitória de qual hemisfério nessa guerra moral.
_Entendeu,
seu merda!?
Tranquilamente,
retira o canivete do bolso.
_Ei!
Saca
a lâmina.
_Calma aí, tio.
O
tio está calmo. Com tranquilidade de um artista marcial, encrava a arma no
tronco de Lindão, um pouco abaixo da caixa torácica, e a desce abrindo o bucho
num corte reto.
Quando as tripas do valentão pousam no
asfalto, os meninos saltam, gelam e fogem, deixando o líder cair finado no
chão. Solitário, na companhia de seu estripador.
Romeu,
então, abandona a carroça.
Vai
até o barraco, manda a mulher fazer as malas e se vão. Talvez para a casa do
irmão dele na Bahia ou dos pais dela em Goiânia, não se sabe, a polícia não
procurou saber, não com muita energia, afinal, o morto era um tranqueira mesmo e
sua morte uma benção para a vizinhança.
É verdade, às vezes um homem tem que fazer o que tem que ser feito.
ResponderExcluirAcho que eu conheci Romeu. Romeu já viúvo, sem Julieta, sem carroça, sem saúde... mas ainda com muito tutano, com muita dignidade e com muita sabedoria.
Ótimo conto, Jean!!! Primeiro lido! E já gostei bastante! Romeu é fodão! :-)
ResponderExcluirMuito bom!
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