A Mão Materna.
Terra. Chão. Pó. O Vermelho é fértil.
Céu. O Azul talvez seja eterno.
Insulam-se vapores. Nuvens
prateadas. A atmosfera é dialética.
Nuvens chumbadas, quase mais pesadas do que o ar. Relampeja! Troveja!
Chove!
Nasce a poça. O terreno explode,
bombardeado, metralhado por grossas e cristalinas gotas de água. Finda a
precipitação, volta o império do silêncio e do não movimento.
A subversão da placidez acontece
com poucas feras a voar e a rastejar e com as plantas elevando-se enamoradas pelo
ardor solar, todavia, tolerável para a política da letargia ambiental .
Na bonança, no charco breve,
antes da morte pela secura, em meio à água turva, emerge o movimento que irá
abalar essa era de inatividade.
Emerge a mão.
Deitada como um sapo a se esquentar
o dorso sob o sol, uma mão, possivelmente símia, altamente complexa com um
polegar opositor desenvolvido, feito do mesmo barro que a circunda.
No arrepio de uma aranha
naufragada, falanges se articulam, mexem-se os dedos, a mão rasteja. Esmagada
pela urgência, precisa agir antes que seu berço seque, a mão trabalha.
Molda a matéria úmida e gera sua oposição,
a mão fraterna.
Mão esquerda recém-nascida, mão
direita primogênita e progenitora. Amigas. Cúmplices. Amantes. Comunicam-se pelo
tato, pela ponta dos dedos conspiram. Orquestram
o trabalho.
Forjam braços iguais. Uma para
cada. Amparadas por eles, esculpem um tronco, perfeito e assexuado.
Para sustentá-lo, duas pernas e
seus nobres primos, os pés, que enfrentariam as pedras e as sujeiras do mundo.
O corpo quase composto gera em
suas artesãs um terror respeitoso, um momento hesitante antes da terminal
tarefa. Superado, as mãos moldam a cabeça calva, a princípio sem inteligência
até os olhos se abrirem e por suas órbitas ver o que o ser é.
Sendo, vê-se no mundo e se vê
solitário e pleno.
Antes de se levantar e de se
fazer Bípede, sente-se grávido de devir e se fende em simetria, inventando dois
gêneros (podia ter inventado mais, porém no gozo procrastinou), pois antes nada
como eles havia e agora hão, condenados a saudade da unida nulidade.
Fêmea e macho, insatisfeitos para
sempre por existirem distintos e afastados, contemplaram-se e, contaminados por
uma simpatia atávica, fizeram brotar amizade inata.
Os amigos se erguem e trilham
juntos um destino quase conhecido e quase construído, espalhando-se como hera
invasora e moldando o globo como fizeram consigo.
Eras a frente, os filhos de suas
conjunções nostálgicas, esquecidos do solitário parto no barro uterino, quando
a lama se tornou carne por si e pela vontade de existir do que não estava lá, e temendo a liberdade, a
sapiência, tocar pelo seu suor a antiguidade das estrelas e devassar com sua fúria as profundezas ínferas, criariam, num
tremor parvo, Deus.
Invejoso, falho e absoluto, Deus.
Com o qual comungariam a
ignorância sobre a Mão Materna, crendo no criador perfeito e na humanidade, a
cria inferior, tese blindada a qualquer antítese pela Fé de todos os devotos,
terrenos, NÓS, ou divino, ELE, pois Deus precisa crer em sua própria
mentira para vender sua ideologia
como o maior tartufo.
Assim, Jaz a humanidade, feita
por si mesma, fugindo de si mesma com as mãos artesãs a segurar redes de pegar
borboletas, correndo atrás de mariposas fantasmas.
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ResponderExcluirCaramba, meo, quem precisa de deus, né?
Bão pacas, bicho!
Honestamente, não admito não achar romances seus brotando em todas as livrarias do país. Na verdade, acho isso um desrespeito da verdadeira literatura. Talento puro, mesmo!
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