quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Margarida


Ela diz que me ama.
Não duvido.
Ela me olha... Ela tem um nome: Margarida. Igual à flor. Igual a namorada eternamente nua da cintura para baixo do Pato Donald. Ela me olha com a verdade incômoda quando diz que me alberga em seu coração.
Todavia, isso não me comove e nem me constrange.
Eu, do gênero rufião, sei bem que ela, do gênero prostituto, não me ama pelo o que eu sou, mas pelo o que represento. Pelo poder o qual acha que, agora, eu concentro nas mãos, antes ociosas e que então apertam outras mãos, apêndices do Leviatã, que me ergueram sobre a multidão e me deram um oportuno e belo horizonte.
Margarida me beija e me suga. Dormita no mesmo leito segurando o meu membro na superstição de um talismã para bons sonhos. Mesmo assim, ela não é íntima.
Nunca chegou a mim.   
Às vezes, passo a mão em seu cabelo. Cafuné. O prazer do tato.  Ela o percebe. Lava-o com mais frequência e está perfeitamente perfumado. É claro que dedica esta esforçada toalete a mim.
Quão deve ser assombroso para seu cérebro dedicado ao destino burguês dos casais, quando eu mostro a tesoura a qual pertencia a minha finada mãe.
_Se me ama, deixei-me tosa-la.
_Meu cabelo...
Toquei-lhe numa mecha.
_Sim.
Seus olhos, tediosamente meigos, complexam-se em plena fúria indignada.
_Vai a merda!
Lacrimosa, Margarida toma a bolsa, estávamos no fundo, no quintal, pega o corredor e vai para a rua.  Tomo para a mim a percepção de que talvez nunca mais irei vê-la.  Pondero se isso será ruim ou não brincando com a tesoura. Cortando linhas imaginárias.
 Que tipo de felicidade ou não isso me trará?
Antes de qualquer iluminação, ela volta.
Sem lágrimas. De olhos negros fortes. Decidida.
_Corta.
Sentou na cadeira.
_Pode cortar.
Sorrindo, sem saber o motivo, seja o simplório sadismo, seja a descoberta de que ela possa estar de fato comigo, começo a arte do barbeiro enquanto Margarida vomita o silêncio.
Eu cinzelo o visual de penitente nela e teço novos planos de quando eu cavarei mais fundo, quando talvez urine sobre sua boca após ela me servir o saboroso vinho de mesa que sempre me traz ou tatue as mais mortificantes ofensas morais em sua pele de modo que  comprometa para sempre a sua  felicidade quando se despir na frente de um espelho.
Até ela quebrar.
Ou até eu amar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário