Ela diz que me ama.
Não duvido.
Ela me olha... Ela tem um nome: Margarida. Igual à flor. Igual
a namorada eternamente nua da cintura para baixo do Pato Donald. Ela me olha
com a verdade incômoda quando diz que me alberga em seu coração.
Todavia, isso não me comove e nem me constrange.
Eu, do gênero rufião, sei bem que ela, do gênero prostituto,
não me ama pelo o que eu sou, mas pelo o que represento. Pelo poder o qual acha
que, agora, eu concentro nas mãos, antes ociosas e que então apertam outras
mãos, apêndices do Leviatã, que me ergueram sobre a multidão e me deram um
oportuno e belo horizonte.
Margarida me beija e me suga. Dormita no mesmo leito
segurando o meu membro na superstição de um talismã para bons sonhos. Mesmo
assim, ela não é íntima.
Nunca chegou a mim.
Às vezes, passo a mão em seu cabelo. Cafuné. O prazer do
tato. Ela o percebe. Lava-o com mais
frequência e está perfeitamente perfumado. É claro que dedica esta esforçada
toalete a mim.
Quão deve ser assombroso para seu cérebro dedicado ao
destino burguês dos casais, quando eu mostro a tesoura a qual pertencia a minha
finada mãe.
_Se me ama, deixei-me tosa-la.
_Meu cabelo...
Toquei-lhe numa mecha.
_Sim.
Seus olhos, tediosamente meigos, complexam-se em plena fúria
indignada.
_Vai a merda!
Lacrimosa, Margarida toma a bolsa, estávamos no fundo, no
quintal, pega o corredor e vai para a rua. Tomo para a mim a percepção de que talvez
nunca mais irei vê-la. Pondero se isso
será ruim ou não brincando com a tesoura. Cortando linhas imaginárias.
Que tipo de
felicidade ou não isso me trará?
Antes de qualquer iluminação, ela volta.
Sem lágrimas. De olhos negros fortes. Decidida.
_Corta.
Sentou na cadeira.
_Pode cortar.
Sorrindo, sem saber o motivo, seja o simplório sadismo, seja
a descoberta de que ela possa estar de fato comigo, começo a arte do barbeiro
enquanto Margarida vomita o silêncio.
Eu cinzelo o visual de penitente nela e teço novos planos de
quando eu cavarei mais fundo, quando talvez urine sobre sua boca após ela me
servir o saboroso vinho de mesa que sempre me traz ou tatue as mais
mortificantes ofensas morais em sua pele de modo que comprometa para sempre a sua felicidade quando se despir na frente de um
espelho.
Até ela quebrar.
Ou até eu amar.
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