domingo, 17 de novembro de 2013

Distópico


De repente, a utopia cedera à infâmia. O império ruíra. O inverno começara. Máfias e Ortodoxos assaltavam ao Estado tendo velhos e corrompidos generais como pontas de lança.
E o que antes era dado agora era cobrado.
Pela primeira vez, M teria que pagar pelo aquecimento. Ele possuía o valor para tanto. Porém, significava se amasiar com a fome pelos próximos meses. Se fosse só ele, a amante seria tolerável e na alcova se daria um jeito. Por acaso, seus ancestrais não passaram óleo de motor no pão e o comeram glutões enquanto resistiam ao invasor na marcha do Grande General Inverno?
Todavia, M não carregava sozinho a vida. A mulher morrera anos antes e as Graças lhe deixaram um filho como compensação pela perda da companheira. Um belo menino. Quatro invernos. Agora, corre o risco de conhecer intimamente o quinto.
O que escolher?
Gelar ou esfomear?
Tentou uma terceira via. Arrumou um bico depois do trabalho. Mesmo sendo burocrata do clero baixo, de mãos macias que só conheceram o papel e a tinta do carimbo, sabia soldar.
Coisa de pai para filho, o qual lhe mostrou como fazia com o maçarico, contando histórias de monumentos e armas grandes que fundira. Como a de um majestoso submarino que poderia trazer o fim do mundo a superfície e que patrulhou entre icebergs, protegendo a nação do mal que hoje assola a todos.  Se estivesse vivo, talvez seu pai perguntasse de que adiantou ter soldado as placas da poderosa nau? 
No entanto, como ele, havia muitos desesperados por aí, o que fez com o que angariava num mês mal dar para pagar a primeira semana de aquecimento.
Exausto e sem soluções, o diabo, sim, o diabo, sempre há um diabo e ele aproveita essas horas para aparecer, o diabo veio ter com M quando este chegou fraco do trabalho. Às 3 da madrugada, hora de vela, pentagrama e cabala.
Dessa vez, o demônio veio como o vizinho, F, um homem bonito e dono de um carro de linhas aerodinâmicas e vestes caras. Um novo rico, suspeitava-se, como de todos os outros, de riquezas ilícitas e pobretão de bom gosto.
Que aqui se saiba que o caráter demoníaco é somente uma metáfora para essa escrita, apesar de M, considerá-lo tão concreto quanto à maçaneta de sua porta.
F, atento as misérias e maravilhas da vida, havia notado o menino de M.
_Menino bonito.
_...
Um garoto rechonchudo de cabelos lisos pretos que tinha aquele olhar pidão dos quais os ciganos aproveitam em seus filhos para esmolar.
_ É, seu filho. Muito bonito.
 Vira-o quando o miúdo voltava da mulher gorda de inchadas e cartográficas pernas das  mil varizes que cuidava dele (e mais cinco seres pequenos e remelentos do mesmo quarteirão e disso tirava o sustento) e avaliou, como bom capitalista, as possibilidades de lucro. Diagnosticou positivamente essa adesão a um dos seus empreendimentos.
Quando um homem se interessa por uma cabra, fala com seu dono. Quando o moço quer tomar a moça para si, fala com a família. Certos comerciantes quando querem propõe negócios aos pais.
_Não!
Já falou de antemão antes de ouvir a reposta de sua oferta!
_Garanto! Pode ficar tranquilo.
O menino não perderia pedaço. Nem entenderia como ruim. Talvez achasse até divertido.  Uma brincadeira. Quem não gosta de brincar? Brincar sempre é bom.
Todavia, M não concordou com os sofismas e quase meteu o punho contra F.
(Só não o fez porque F era o demônio e o inferno que este lançaria sobre M era incógnito, apesar de correr rumores a que círculo infernal o propositor pertenceria)
F não se abalou. Estava acostumado nesse negócio com os colaterais. Disse que M poderia pensar e sumiu, talvez, num peido de enxofre.

M, ai, Deus, pensou.
Pelo menos agora havia Deus para se apegar. Aí, lembrou-se da época em que o deus estatal respondia ao seu chamado, ao contrário da deidade muda que prometia assombrar o mundo. Saudades do tempo que Deus estava proibido e se seus usuários se reuniam escondidos para adorá-lo como toxicômanos ou leitores de Bradbury. Hoje, celebra-se o demiurgo nome em meio aos sítios de luxo e de fome.
Irritou-se e se orgulhou de sua raiva.
Porém, as fantasias de dignidade se diluíram no frio da alta madrugada, abraçado ao seu pequeno e envolto em todos os cobertores e ácaros que encontrou no guarda-roupa.
Toda hora tocava a pele de seu filho para sentir se alguma febre brotara, mas, por sorte, sentia nada. A não ser a maciez da pele alva como a neve lá de fora.
M também sentiu a mão endurecer. Com algum esforço, os dedos se estalaram e o sangue circulou. Lembrou-se de um tio que perdera os dedos no frio trabalhando na industria  pesada no norte. Às vezes, ele bebia demais e contava como enfrentou a polícia num reboliço injusto que o meteram, que ele perdera os dedos para o alicate de um oficial, mas não perdera a compostura. Mentira. Perdeu um por um, erguendo oleodutos por entre montanhas. Se os procurar, quem sabe os ache?
Nada, sem febre, que parecia inevitável sua  vinda, até quando?
Medicamentos escasseavam.
Hospitais fechavam.
Remédios, antes vulgares a todo canto, agora escorriam para o mercado negro dos preços inflados e cruéis.
Fez um esforço para mover os seus pés. Quis tirar a meia, mas temeu vê-los pretos e mortos. Então, deixou-se em paz, na torcida que ao ignorá-los, eles não estariam condenados ao serrote. No, entanto, os dedos dos pés se mexeram e ele se aliviou ao saber que amanhã conseguiria trabalhar.
Assim, não podia ficar. Uma hora assalta a gripe e um febrão basta para levar quem está em nos braços do pai à mãe que está do outro lado.
Então, M pensou de novo. Irritou-se novamente.
E dessa vez não se orgulhou.

Noutro dia, M não foi trabalhar e nem fazer bico. Estava no apartamento de F, com boa calefação e móveis pessimamente coloridos. O lugar remetia a uma propaganda de refrigerante de laranja. Ou limão.
_Não se preocupe se ele colocar na boca. Eu mesmo esterilizei.
M não respirava.
Justificava-se.
_ Não tenha pressa, meu amigo. Tirei o dia só para isso.
Havia ironia. Não havia ironia. Havia ameaça? Importa, agora? E F arrumou a câmera que iria captar ao vivo o que adviria naquela sala cítrica, sobre o tapete cor de tangerina e entre os sofás verdejantes e transmitir por um criptograma de endereços secretos a computadores do velho ao novíssimo mundo.
M  não havendo o que mais se justificar e vendo o demônio paciente, sendo incapaz de fugir novamente para seu purgatório gelado, engoliu alguma coisa e soltou:
_Filho! Vem... Vem brincar na sala do tio F.
 O filho de M entrou nu pela sala. Sentou desleixadamente naquele maldito tapete e brincou com um colorido falo de silicone, fazendo dele em sua imaginação uma nave espacial.


domingo, 1 de setembro de 2013

O Conjurador


Veja! Atente! Atine para a coruja a observar tudo dentro do cesto do conjurador!  Aos pés do mágico, não deixe escapar da sua vista, ora, um pequeno cão levado, ora, um macaco de rabo, ora qualquer outra coisa nanica, mas sempre em trajes de bobo a gracejar! Seriam familiares a serviço do mago? Quem sabe?

(O conto não é tão explicativo assim, então fique você com essa dúvida).

No domingo, após a missa, na praça, onde toda a gente se reúne, no mercado, onde os negócios são feitos, o conjurador, recém-chegado esta manhã como uma brisa, gesticula e – obviamente - conjura.
O bruxo materializa sapos na boca de um burguês.
 O descrente vendedor de tecidos riu do poder mago, de seu aro de bronze, de seus copos de cobre, de seu tabuleiro de carvão e de sua mesa de madeira. O batráquio pula e pousa sobre ela, estacionando e esperando ordem. Um segundo anfíbio já é parido pela boca do arrogante e está a ensaiar entre os dentes sua liberdade.
Aqueles que observam, o povo da vila e da roça, são vários e muito é o que acontece em seus corações. A alguns falta o interesse. Outros se fascinam. A criança ao lado do vomitador de sapos se extasia.

(Se a boa mãe do menino abobado com o feito estivesse por perto, talvez temesse que ele fosse garfado pela magia. Pelo mal. Pelo Cão. Que o miúdo se afastasse das rezas e das bênçãos e se seduzisse pela mandraca. Mas a mulher está do outro lado da praça, na Igreja. No canto escuro do braço norte do transepto. Dando sua vulva para língua do vizinho. Então o menino está livre para escolher entre céu e o inferno. Ou nenhum dos dois.)

Enquanto todos olham para o milagre oral da patética vítima, ninguém nota - ou se alguém percebe se faz de mudo - um homem aparece atrás do enfeitiçado. E olhando para céus, como se orasse com horror para se precaver de diabruras, está ao mesmo tempo, retirando do cinto do encantado a algibeira carregada.
Após expurgar a última criatura, o burguês humilhado corre, entre as risadas da multidão, para a igreja a fim de se benzer. O mago, vaticinando a ira do padre e a punição da milícia recolhe suas coisas enfiando tudo em seus bolsos infinitos.

(Espere. Como? E a mesa de madeira maciça? Bolsos infinitos são dimensões compactas onde cabe facilmente uma casa.  O que se dirá de uma mesa?)

O punguista comparsa e seu sócio de conjuros se encontram fora da vila, no fim do dia. Tomam a estrada para longe de seu público. Já na penumbra noturna, em frente à crepitante fogueira, dividem as moedas dadas e furtadas.
Mais uma vez pergunta o batedor de carteiras:
_Por que obrigar os tolos vomitarem sapos ou invés de fazer alguém cuspir peças de ouro?
E responde, também mais uma vez, o feiticeiro entediado:
_Por que furtar se você pode trabalhar honestamente?
De outra, o ladrão se silenciou diante da filosofia do mago, mas pensou e pensou e se encontra agora armado para o debate.
_Por que é mais fácil.  Com pouco esforço se faz muitas moedas.
_Só isso?
_E há o prazer do medo... Do medo de ser pego... e ser mandado ao pelourinho onde o chicote estrala e os dedos se quebram.
_Hummm...
A coruja que estava na cesta do mago jaz sobre uma árvore, talvez em vigilância para seu mestre. 
_E você? Por que não produz ouro como produz sapos?
_Pelos mesmos motivos.
O ora, cachorro, ora, macaco, então uma cobra que se liberta dos trajes bobo escorregando por entre eles, e se  enrola na carinhosamente perna do feiticeiro.
_ É mais fácil fazer seres vivos do que coisas inanimadas?
_ É.
_Mas não há razão nisso.
_ Se houvesse, não seria mágica.
O ladrão toma um naco de carne do coelho a assar sobre o fogo. Mastiga o pedaço torrado e, ainda de boca cheia, volta a conversa, limpando a gordura em sua roupa.
_E o medo?
_ O evito.
_Então, fazer ouro o apavora?
_Não traz bem consigo a riqueza trazida diretamente pela mágica. Por isso faço magia honestamente, enquanto você toma a bolsa das pessoas.
_E roubar com a ajuda da mágica, traz menos mal?
_Sim.
O malandro põe seus punhos na cintura teatralizando sua indignação.
_Mas, bosta, não há sentido nisso!
_Se quer razão ou sentido pergunte a um sábio. De um mágico não ouvirá.
_Você é um idiota!
_Não, idiotas são bruxos que cultivam a magia no mundo dentro de si.  Os magos são idiotas que a exibem para os olhos do nosso mundo.
_Chega de me tomar por parvo, vou dormir.
Vira-se o vigarista, aninha-se e, logo, ronca. O místico tira um cachimbo de pito de um de seus bolsos infinitos e fuma auspicioso. Então, aproxima-se do ladrão e diz sem despertá-lo:
_ Aproveite! Um dia, os sábios prenderão a ambos, os mágicos e os idiotas, e nos curarão de nossa magia e de nossa idiotice.
O mago solta uma baforada de muita fumaça azulada na face do punguista adormecido.
_Até lá, você pode sonhar com a cidade dourada ou um império de rubis ou o que quiser...
E, no sonho, o bandido é um rei vestido de prata num palácio entre o Sol e as nuvens, cercado por manjares perfumados e jovens dançarinas que o entretém com seus umbigos tremulantes, adornados com brincos de pedras de brilho estelar.

sábado, 3 de agosto de 2013

Foda Fluvial

A filha do pescador perdeu o cabaço antes de morrer.
Foi numa festa de ralar o bucho, um baile de comemorar não – sei – o – que.
O culpado teria sido um vampiresco camarada de belo chapéu de feltro, jamais visto antes na  vila, a não ser momentos anteriores, caminhando pela prainha, todo majestoso,  como se o lugar fosse seu.
No baile, ele a escolheu e a retirou do seu canto, onde se escondia do mundo. Bailou com uma habilidade tão boa e experiente que emprestou desenvoltura para filha do pescador, a qual nunca havia dançado antes nessa vida, para não fazer feio.
Fizeram bonito e depois desapareceram, lá antes das  três da manhã.
Depois das três, a filha do pescador retornou a casa da família e dormiu sem dar um piu.
Uma febre terrível, então, a fez braseiro vivo e quando percebeu que já estava mais pra lá do que pra cá, confessou a mãe que se desencaminhara lá na orla da praia.
A mulher do pescador, emputecida pela puta da filha, só não a espancou porque logo após a confissão, como se aliviada de uma caganeira repremida, a pobre enferma se convulsionou  e suspirou para morrer tranquila.
A mãe ofendida, então, decidiu castigar e reparar.
Tomou um anzol curvo para peixe grande e um fio de aço quase inquebrantável e selou a buceta da filha, costurando os lábios vaginais numa nova virgindade.
A nova virgem morta pode então ser enterrada em solo cristão sem prejuízo para sua alma e para a honra  da família.
Todavia, antes da missa de sétimo dia, uma cheia atípica, fora de época e proporção, uma maré alienígena cobriu toda vila, inclusive a terra sagrada do cemitério. Passado um dia, o líquido retornou ao seu lugar, levando o corpo nu, como se tivesse sido parido de novo, da filha do pescador a deslizar sobre a água barrenta.
Seus familiares alarmados com a profanação trataram de pegar seus barcos e pescar o corpo da falecida, o qual  contemplaram após  inça-lo, a mãe que viu, havia sido profanado.
O fio de aço havia sido rompido e o regaço libertado.
Desencabaçada novamente, apostaram no arrepio as mulheres e os maridos da gente que mora na beira da margem, por um espectro safado!

O danado do espírito do rio.

terça-feira, 2 de julho de 2013

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Vadia

Eles se conheceram na internet.
Onde mais?
Magali, ah, Magali, com seus cabelos negros, com os pelos grossos de sua gente ancestral, os espanhóis, mais ainda se nos despencarmos na árvore genealógica, dos mouros de Andaluzia; Magali não saia de casa a não ser se a casa caísse, numa emergência, num susto, algo inesperado e absoluto. Até lá, antes disso, era retirada, cansada, desdenhosa, mimada, vivia da pensão do ex-marido, incrustada na cama, deitada, esparramada frente ao computador portátil, tanto tempo que já engordava, via-se uma pancinha no horizonte a ameaçar a beleza que um dia já lhe facilitou  muito a vida.
Marco era um nerd. Sem mais. Sem menos. Quem se importa?
Foi na sala de bate-papo. Sala sobre TV. Haviam se envolvido numa polemica sobre o lance de um seriado, o qual nascera entre outros usuários e os contaminaram como uma gargalha, quando um começa a rir e, de repente, todos no velório, até a viúva está rindo. Cada um deu pitaco e logo se enlaçara, na multidão de mensagens, um lero.
Começaram com discordância sobre se a tal série, extinta nesse ano, seria boa ou não. Ter-se-iam tornado inimigos virtuais... mortais porque suas opiniões sobre esse fragmento da trivialidade se chocavam como animais de chifres em peleja por alguma coisa instintiva, territorial, quando Marco soltou que apreciava outra série, cuja sobrevivência vicejava mais  uma  temporada na guerra da audiência.
Surpresa! Ela era também adepta do tal sitcom. A fraternidade posterior superou a inimizade inicial e ficaram amigos. Primeiro fofocavam sobre os personagens feito gente real que conheciam, e conheciam! Como não? Quase tão reais quanto pessoas de apertos de mãos firme! Combinavam apostas sobre os destinos das quimeras a cabo e riam juntos das piadas por elas interpretadas.
Num dia, como a morte vem para todos, veio o fim do tal programa. A atração não se sustentava, os executivos a mandaram para abate e anunciaram o último episódio. Tristes, confidenciaram um ao outro sua tristeza, fazendo-os íntimos em seu luto televisivo.
Traficaram informações sobre suas vidas. Inclusive fotos batidas por câmeras digitais plugadas nos computadores, depois foi um passo para a videoconferência diária e depois outro para um encontro... Real.
Sim, turbilhoaram os sentimentos, revelações, insatisfações, ela mais velha, experiente em muita coisa, por isso cansara e ficava em casa mesmo com o mundo rodando em torno dele mesmo e girando em torno de uma estrela a qual já foi deus fálico para muitos, ele não vivera quase nada, levou esmerado a vida vicária, filmes, seriados, games, livros, um quase cabaço, pois a mulher que ia comer só o chupou num carro e o deixou lamber, o que a surpreendeu pois ele era tão bom quando uma  lésbica rodada num convento, num reformatório ou num gineceu qualquer de uma revista ou filme pornô.
Marco queria tudo. Magali queria mais uma chance. Veio o sexo virtual. Ela viu o pênis em pixel do garoto muito antes de exibir os seios num movimento teatral quando se sentiu especial, sexualmente especial, em muito tempo.
Eles moravam em diferentes estados, não no fim do mundo cada um, mas de um para o outro era uma viagem maior do que ir a esquina ou  mesmo atravessar a cidade.
_Foda-se, disse Marco para si, sim ele falava sozinho quando estava só, como quando um personagem de cinema explica sobre si ou sobre a trama num solóquio para o público, disse foda-se vendo a conta no banco pelo sítio da instituição.
 Dava para viajar e viajou.
Chegou à estação. Ligou no celular.
Ela não viria apanhá-lo. Ele que andasse pelas ladeiras da cidade morros de névoa constante, carregando a mala pensou que poderia ser feito um belo filme de terror bem ali, algo britânico, tipo a Hammer, produtora de filme de terror dos 50,60 e 70, quando o Drácula se tornou satânico e sexual, que seduzia as vítimas, que comia as mulheres metidas em vestidos que favoreciam os seios e os pescoços, queria ser ele esse Drácula e carregar, sequestrar, uma dama gostosa para desgraçar seu corpo e sua alma.
Enfim, a casa.
Tava lá! Era um sobradinho pintado de azul. Nem feio, nem fofo. Uma casa.
Tocou a companhia.
Magali não desceu para atender. Quem abriu a porta foi a filha. Uma menina de 10 anos.
_Oi, Fernanda. Eu sou o Marco.
Eles já se conheciam de algumas videoconferências. Volta e meia, a menina aparecia curiosa sobre o amigo da mãe, seria um namorado?
_Eu sei, tio Marco, entra.
Tio Marco. Não tinha sobrinhos. Era estranho ser chamado de tio. Aliás, ser visto como adulto, mesmo por uma criança.
Fernanda deu a mão para Tio Marco e amos subiram a escada do sobrado. Ele encontrou a amada deitada no colchão inflável no meio da sala do segundo andar, com seu lap top, ainda acorrentada a internet.
_Oi, fez boa viagem?
Fechou a máquina.
_Seja bem vindo.
E estendeu a mão puxando-o para cama. Olharam-se. Se alguém os visse, perceberia certamente que queriam se beijar a exaustão.
Mas não na frente da menina.
_Querida, não quer ir brincar no seu quarto?
A menina sacou o ardor. Queria ficar de curiosa, mas sabia que se ficasse lá sobrando esse beijo não sairia naquele dia. E se foi.
E veio o beijo.
Fernanda, em seu quarto, folheando um gibi para meninas de sua idade, soube da chegada( porque um ar quente se moveu feito um diabo pela casa) e aí sorriu aprovando como se tivesse poderes para tal autoridade.

ELIPSE PASSAGEM DE TEMPO CINEMATOGRÁFICA CORTA PARA NOITE.

Ambos ainda no colchão inflável. Magali não levantou para nada. Pediu pizza e Fernanda foi buscar na porta. Se ela não tivesse mexido as pernas enquanto namoravam, talvez Marco cogitasse que a mulher fosse inválida. Comeram a pizza e viram novela. Juntinhos. De namorico.
O rapaz estava ansioso. Doido para a hora de dormir. Quando a menina iria para seu quarto e eles iriam para o da mulher, quando daria saída pelo tesão que martelava a bigorna dentro de si, como o alívio de não ser mais virgem de todo, quando se certificaria sua hombridade ao se aliviar entre as pernas de uma consorte.
A mulher era paciente. Gostava de admirar o desejo tremendo dentro do rapaz, em tocar o membro petrificado debaixo das cobertas enquanto a filha  brinca  no mesmo leito com uma boneca, a favorita dela.
Nisto, a menina larga o brinquedo e corre para o quarto da mãe. Eles aproveitam para dar uma bitoquinha que morre quando a pequena volta com um batom.
Fernanda usa um espelho de brinquedo e passa a pintura nos lábios, muito bem passado.
_Nossa, você já usa batom?
Disse Marco tentando ser amigável, mas sendo retardado como fazem os  adultos sem habilidade com os  pequenos
_A mãe deixa usar em casa.
_Você passa muito bem.
Magali interveio.
_Ela já sabe muito bem.
_ A mãe que ensinou.
_Ensinei bem, afinal é ela que me moqueia.
_Sério?
_Sim, lembra daqueles bustos da Barbie em que as crianças brincavam de maquiagem.
_Vagamente.
_Não é do seu tempo, né, criança? Bom, como não se acha mais desse busto por aí, deixei ela  treinar em mim. E ela virou uma maquiadora quase profissional.
_Ah, é!? Quero ver.
_Boa ideia! Querida, pega o estojo de maquiagem da mãe.
Fernanda foi e voltou.
_Tá aqui, ô!
_Maquia sua mãe  bem bonita, Fê.
Magali riu.
_Que foi?
_Não sou eu que vai ser maquiada.
A mãe começa a maquiar o surpreso Marco.
_Mas o que...?
_Shiii
_Mas, mãe, ele é menino.
_E daí?
_Tá.
A menina passou a lhe pintar a cara.
_Faz ele ficar bem bonito.
A menina realmente era boa, a pintura foi  se apossando da derme e o rosto do amante da mãe se emasculava e se afeminava. Indignado no começo, deixou-se levar, primeiro pela promessa de coito e segundo pela brincadeira.
_Pronto, mãe.
_Tá lindo!
Estava mesmo, numa prisão poderia conseguir muitos maços de cigarro.
E agora?
_Os brincos. Vai pegar os brincos da mãe.
_Mas ele não tem orelha furada.
_Pega os de pressão, então.
E lá foi ela correndo feito doída.
Magali beijou–o e sua boca saiu pintada também enquanto sua mão descia pelas costas até o traseiro.
Já se avistava a menina retornando quando a mulher enfiou o dedo no cu do moço que, surpreso e invadido, ele gemeu um tantinho até ser interrompido por um sussurro da violadora num ouvido enquanto a orelha oposta era adornada pela criança alheia a aquele drama de leve sodomia:
_Vadia...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A caixa

Eu a comprei em um leilão.
Na velha cidade, ilhado por perdição e alguma esperança.
Confesso que o que me fez adquiri-la foi o mais desonesto desejo em seu estado basilar.  O humor infrator jazia dentro de meu estojo torácico e me determinou a erguer o braço sucessivamente até tê-la.
Pelo o que nela em seu útero de madeira se encerrava.
Havia outras coisas da mesma natureza, digamos, limítrofe entre lá e cá sendo ofertadas, mas o dinheiro na minha conta bancária restringia a gula. O indecente e o inefável quando somados dão em conta muito cara.
Então, era minha a caixa.
Uma arca vulgar. Não era uma mala sofisticada de viagem dos grandes burgueses.  Em seu oco nada de mandamentos de um deus ciumento e beligerante.  Não se tratava de um baú de tesouro.
Ao abri-lo você não encontraria nada mais do que mera palha seca compondo um áspero forro.
Sua fechadura não vinha a chave correspondente, perdida por suas transladações pelos anos. Todavia, isso não impacientaria qualquer novo dono, já que a tampa estava aberta.
Abri e fechei algumas vezes, brincando de transtorno obsessivo compulsivo, talvez.
Deixei a tampa descansar.
Peguei a Mandaglore.
A Mão Gloriosa
A mão do morto mumificada, arranjada conforme a receita do Dictionnaire Infernal Collin Plancy: A mão de um criminoso enforcado à beira da estrada_ no caso, não se tratava um bandido e, sim, de um militante das Ligas Camponesas, enforcado em 1969 por jagunços por falar demais contra o mestre deles e posto no caminho para a igreja para que toda a gente aprendesse com sua sorte. O que o qualificava como matéria  prima era que o sujeito fora morto por  ir  contra a ordem, seja  ela  justa ou não. Então se colocou o pedaço do defunto dentro de um vaso de barro com uma solução de azinhavre, nitrato, sal e pimentas pulverizadas, onde curtiu quinze dias, até ser retirada e exposta ao sol quente a fim de secar e esturricar como jabá.
Acendi as velas nas pontas dos dedos.
Tais velas eram compostas com a gordura do enforcado, cera virgem, gergelim e esterco de cavalo.
E ouvi o click!
Tentei abrir novamente. Não consegui. Estava trancada.
Tentei movê-la. Não pude. Estava pesada.
Cheia.
***
Antônia era uma pecadora.
Não sou eu que estou a inventar calunia sobre a pobre moça. Pergunte a ela. Pergunte, sobretudo, aos pais. Eles dirão seus pecados. Todos. Pecados que ela sabia. Que ela não sabia. Coisas que não eram pecados a priori, mas se tinham o toque da menina, o serão algum dia, se não, naqueles dias.
Mas como se a menina apenas saia para ir a Igreja no santo domingo, acompanhada pelos genitores?
Como ela se tornou filtro de tanto mal apenas nos seus treze anos de vida?
A resposta estava nos hematomas a florir nos braços cobertos pelas mangas compridas do vestido de cambraia, gerados certamente por quedas e tombos providenciados pela ira divina e não, de forma alguma, pelo peso justo das mãos dos seus pais.
Está na grande ferida nascente na base do pescoço a descer pelas costas até o cóccix, purgando uma substância verde que torna suas vestes imundas para o desgosto de sua boa mãe a lavar suas roupas com amor. Chaga escavada pela vara justa de seu patriarca para a remissão de seus pecados. Vale notar que amplitude do ferimento pasmou os pais a principio, porém no lugar de duvidarem de seu zelo paternal, significava que o mal de sua filha estava patente e se despontava em cada espancamento, logo a expansão da carne fraturada era sinal de revelação sobre o que se camuflava.
Ou seja, não eram eles e, sim, a criança a causa de seu próprio dano. Maldita prole!
Do mesmo modo, não era nada doentia a lição da espiga de milho. Quando esticam as pernas da pequena e cravam o cereal no seu regaço pecaminoso para preveni-la de usar sua racha em desagravo às indiscutíveis normas da correção.
No entanto, tamanho esmero não bastava.
Os procedimentos supracitados cerceavam o mal imanente de Antônia, porém, os pais duvidavam se bastava. A entrega da menina aos arranjos e a aceitação de sua culpa não bastavam. Precisavam controla-la definitivamente. Precisavam conte-la.
Por isso a caixa.
***

Ela continuava trancada.
Se, então, tinha a fechadura, se fazia necessária a chave.
Apaguei a chama da mão do morto. Observei a fumaça incensada subir e formar etéreos arabescos fantasmais na escuridão do quarto. Então, com o pontiagudo osso de um gato estrangulado numa encruzilhada, afiado na lápide de um suicida bedáat do povo de YHVH, abri um talho na ponta do dedo anular e fiz um ponto de sangue.
Gesticulei o dedo ferido entre a fumaça, até o gás ser capturado e, pela  minha  vontade, se solidificar em chave de marfim, ou de material incógnito semelhante, e a detive em  minha mão.
Acendi de novo a Mão da Glória e coloquei a clave na fechadura. Encaixou sem restrições. Contei uns números até o fumo místico tomar de novo o quarto e membrana que separa lá e cá se fazer tênue e frágil.
Fácil de rasgar como um hímen delicado.

***

Os pais adquiriram a caixa de um marceneiro. Zelosos também com o dinheiro, deram a cama da menina em troca, não ia ser mais usada mesmo, cujo valor superior rendeu uma cadeira e um criado mudo de troco.
Em casa, forraram munidos de amor quase abraâmico com a dita palha e disseram a Antônia:
_Eis seu leito, onde descansará livre de pecado.
E a menina, sabendo que isso era para seu bem, quiçá, para o bem do mundo, deitou-se e os pais fecharam a tampa de seu caixão.
Dentro do esquife, mesmo com o arranhão da palha, com as picadas dos percevejos e o movimento das baratas, as quais lá se instalaram, a reclusa encontrou o conforto de se sentir segura com a ciência de que seu mal estava enquadrado.
Toda noite, todo dia quando os pais precisavam sair, ela era fechada em seu claustro. No começo, suas pernas estavam quase esticadas, porém à medida que crescia, ela se encolhia, até o momento de ser obrigada a voltar-se em posição fetal.  Apostar-se-ia um observador, se alguém verdadeiramente a visse além de fonte de pecados, que ela não se sentia tão feliz desde quando estava presa na carne materna.
 Como é certo de que o sofrimento não seja eterno, por isso a falsidade do Inferno, também não há felicidade que um dia não pereça, por isso o fracasso do Paraíso diante do tédio.  O corpo faliu.  Antônia morreu.
Foi enterrada com desgosto, pois sempre será pecadora, além da redenção. Seus pais, incólumes às leis do Homem, certos dos favores em terem acertado os desígnios divinos, sumiram quando uma gripe que cavalgava pelo mundo derrubando nações, levou-os, junto com pios e ímpios, para os reinos da poeira e da sombra, onde não encontraram sua filha, e, sim, certa disciplina demoníaca.
***
Girei a chave.
Click!
Aberta.
Levantei a tampa.
A princípio, nada.
Havia somente a palha.
Dela, no entanto, emergiu um miasma grosso que gasificou o éter, concorrendo com a fumaça da mão do morto. Das brumas que infestaram, vi o contorno.
Dezesseis anos. Idade de sua morte. Sua pele pálida de prisioneira. Seu cabelo loiro de uma fêmea cuja vaidade foi extraída a alicates. Olhos de órbitas claras, perdidas em autoacusação.
Engolindo o assombro, sim, mesmo magos experientes, mas que  oram criados no cristianismo sempre se assombram com sua própria obra fantasmagórica, perguntei:
_Antônia?
Um sopro respondeu um sim muito mal ouvido.
_Antônia Francisco Xavier?
Novamente, o mesmo sussurro.
_ Antônia Francisco Xavier! Conheço seu nome e agora eu a prendo!
***
Admito que meu interesse pela magia, em especial, pela necromancia, deve-se a covardia.
Várias vezes, masturbei-me pensando nas moças que passavam por mim na rua. Esquematizava o rastreio, a perseguição e o estupro. Porém, quando o sêmen escorria entre meus dedos, via-me o terror de ser morto, ou pior, de ser preso e entregue a moral violadora dos colegas de detenção.
Porém, ao invés de me reprimir, passei a utilizar a criatividade e desenvolver alternativas para a minha tara.
Inspirado num estrangeiro, um alemão, pensei em sequestrar uma única mulher e mantê-la em cárcere isolado, numa cela no chão, e violentá-la o máximo de anos que conseguir. No entanto, havia a ameaça perene de fuga.
Sofistiquei mais a ideia. Cogitei em roubar um bebê e cria-lo com a intenção de me servir sexualmente quando seu corpo remetesse a de uma  mulher adulta.  Doutrinaria-a para nunca querer sair dali e aceitar minha penetração como fato inescapável de sua existência.
Aqui teríamos três problemas:
Primeiro, na evolução da pequena poderia surgir o desejo rebelde de fugir e conquistar o mundo. Segundo a criança poderia morrer dentro desse tipo de prisão dada a sua  delicada natureza. Terceiro, não suportaria tantos anos a esperar para receber o meu prêmio, podendo comprometer a saúde da pequena antes do tempo com um avanço faminto.
Foi quando comecei, anos atrás, a mexer com devassos satanistas ocultos do Partido Conservador que me veio a ideia de ter Antônia.
Conheci a história de Antônia num livro de psicologia que reunia relatos de abuso familiares. Eu o li quando estava na  pré – adolescência para me  masturbar com as descrições de crueldade sexual por parte dos  pais.
O causo de Antônia foi o que me capturou pela originalidade e pelo erotismo. Mantive na cabeça e anos veio–me a tona, quando pesquisava sobre objetos assombrados. Havia uma arca que trazia ao seu dono a visão de uma garota atormentada.
Nada mais adequado a um abusador virgem em sua  arte do que uma vítima conformada pela eternidade.
Violações são muito comuns nas alcovas infernais. Um espírito preso em sua estúpida autocomiseração pode ser violado eternamente sem prejuízo a sua existência. E, segundo uma variação da Chave de Salomão desenvolvida na renascença por teosóficos interessados em apertar as mãos de grandes homens póstumos, fez–se possível tornar concreta uma alma desencarnada nesta esfera usando de feitiços simples, desde que a força de vontade estivesse bem focada e ancorada em poderosos símbolos.
Assim, ao prender Antônia pelo nome, fiz de seu ectoplasma uma imitação de carne, segurei o seu queixo fantasmal com meu punho e a esbofeteei.
Arranquei seu vestidinho, o mesmo com o qual foi enterrado, joguei-a nua por cima da arca e a sodomizei miseravelmente.
Então, enquanto ela chorava a tranquei no seu caixão, no qual ela passou a aguardar a satisfação do meu apetite.
***
Olhei no espelho.
Arrumei a gravata.
Nada errado no terno.
Nenhuma culpa pairando em mim.
Hoje, terei a civilização de um encontro familiar, visitarei mamãe, e, quando voltar eu terei a minha barbárie caseira.
Certamente, se não fosse sua caixa, onde a culpa era seu grilhão, onde cada abuso meu a prenderá cada vez mais, Antônia talvez fosse para algum inferno, arrastada pelo pesar, onde sofreria o mesmo  que padecia sob o meu odioso falo.
Talvez eu seja o demônio dela. Talvez eu seja parte de um esquema maior.
Ou não.
Talvez eu e ela sejamos apenas parte da natureza... Ou da sobrenatureza, que não se importa com a alegria ou tristeza de seus germes.

terça-feira, 30 de abril de 2013



Das Tripas

Santo André, ABC fuliginoso paulista, é um lugar de sobe e desce.
Morros. Colinas. Declives. Romeu arrasta a carroça ladeira acima.
Pesada?
Não. Pesado.
A carroça vazia. Ele cheio.
Romeu sabe o que tem que perpetrar.

Sísifo. Atlas. Cristo.
Pode escolher.
Romeu leva o mundo nas suas costas, a Rocha de Sísifo, o Céu de Atlas e a Cruz de Cristo, metaforicamente e realmente, se quiser consumir, se quiser comer, se quiser ser, se quiser existir, Romeu carrega o carrinho nas suas costas, pois o velho é carroceiro e cata latinha.
(E outros recicláveis.)
Agora, você, leitor, de posse de seu mito preferido, sigamos.

Ele vira a esquina na travessa para encontrá-los.
Antes de ser um consumidor, Romeu é um homem. E um homem faz o que tem que fazer.
E vai fazer.
Lá estão eles.  Os vagabundos. Sentados como sempre no degrau da viela. Tão dedicados ao nada!
Ás vezes, soltam pipa. Moço de 18 anos soltando pipa, correndo atrás de pipa, invadindo quintais, brigando com menino menor. Batendo nos menores. Olho roxo. Dente quebrado. Tudo por uma pipa. Às vezes, puxando fumo, malditos maconheirinhos!
Filhos, netos, bisnetos de imigrantes. Italianos, mineiros, nordestinos, nessa ordem de ocupação territorial. Se se diferem em origens, unem-se ao serem também filhos do proletariado. Metalúrgicos, operários, pedreiros, pintores, mecânicos. Os quais numa geração ascenderam para a classe média e, hoje, olham para o passado com pudor, feito se em suas raízes vicejasse a nódoa da vergonha, de provirem de uma imunda e intocável casta.
Também se unem em mais de uma qualidade que os torna um grupo sem deformidades: A estupidez. 
Unidos na força da falange, sentem-se fortes sendo um e não sendo ninguém (se não fossem preguiçosos e prestassem atenção nas aulas de História, talvez usassem camisas pretas italianas ou a verde oliva tupiniquim), e por isso bulem com as pessoas.
Mexem com os passantes.
Nem todos.
Apenas com os que merecem.  As meninas bonitas, pecaminosas na beleza. Os viados, por serem perigosos com seus paus e cus soltos por aí. Os fracos de todos os tipos. Os pobres. Os mendigos.  O carroceiro.
Já mexeram com o Romeu.
Xingaram. Zombaram. Tacaram coisas. E uma vez até pularam dentro da carroça enquanto ele puxava desavisado.
Quando era com ele, Romeu suportou.
Ascético, não esboçou nada que denotassem raiva, mesmo porque não havia raiva.  Coisas da vida. Existiam pessoas como ele e pessoas como os garotos.  Só isso.
Todavia, a conformidade naufragou quando mexeram com sua Julieta.
Que fique claro que sua esposa não se chamava Julieta. Era Dirce, mas ele era Romeu, o queijo, e Dirce, sua goiabada. Um casamento tão gostoso quanto a guloseima.
Dirce, como Romeu, mais do que Romeu, era uma presa perfeita.
Era mulher, pobre e velha. Passava arrastando seus chinelos em sua touca de lenço de cetim na rua deles. Na rua deles! Uma provocação para a cretina índole dos rapazes.
Obviamente, disseram impropérios. Como Romeu, ela não demonstrou constrangimento.   Depois, alisaram os caralhos sob as bermudas. Ela quase chorou, mas não desabou. Na terceira vez, a derradeira, tacaram uma pedra.
O objeto voador atingiu a cabeça da velha, que quase caiu. Quando o violeta brotou em sua face, não teve como segurar as lágrimas e as ofensas. A molecada caiu na risada. No deboche. Nas ameaças.  Dirce fugiu. Foi para casa e esperou o marido, entre a raiva e o medo, temendo a reação, as consequências.
Ela ocultara a mágoa do esposo, porém, o roxo do ferimento não permitia mascaramentos. Quando o carroceiro adentrou ao barraco, viu e se alarmou. Dirce disse que não era nada, que caiu e bateu no não-sei-no-quê. Romeu não é bobo e a azucrinou em busca da verdade. Que numa hora saiu numa erupção chorosa.
Armado com a raiva, o homem deixou a mulher sozinha em busca de punição. Andou pelas ruas até dar de fuça com alguns daqueles pestes coçando o saco numa esquina. Sem erguer os punhos, sem tocá-los, destruiu-os com a mais bela descompostura. O sorriso dos vagabundos murchou e eles ouviram a bronca em silêncio, constrangidos, humilhados e, quando Romeu terminou, ficaram os olhos lacrimosos.
Romeu, tendo vomitado o que o carcomia, virou as costas e se foi.
Não sumiu, sem antes ouvir de um dos garotos.
_ Véio filha da puta! Vamo contar tudo pro lindão.
Lindão era o líder dos folgados.  O maior, o mais brigão, o encrenqueiro-mor, diziam que tinha até passagem na polícia.
_Conta!
Respirou fundo.
_Pode me rabiscar com quem cês quiserem!
Romeu foi cuidar da esposa e deixou a molecada blasfemando sozinha, eles que não tiveram coragem de interrompê-lo.

Os apóstolos contaram ao seu messias. Logo, correu nas bocas que o Lindão, para manter a moral dos camaradas, queria pegar Romeu. O que faria seria uma incógnita, apesar das muitas, violentas e imaginosas especulações.
Dirce se apavorou. Temia pelo marido. Romeu, apenas a acarinhava e dizia que não era nada.
_Nada? Esse Lindão é coisa ruim.
_Tsc! É um cagão como os outros.
Era? Não se sabia. Talvez fosse um tremendo malfeitor, talvez fosse só um bosta.  Porém, no bairro a conversa cresceu e, para alguns, Romeu já estava morto.
O morto resolveu conferir o caso com o carrasco.

Romeu pára.
Adiante, a molecada matraqueia nos degraus de cimento. Emudecem ao verem, depois o murmúrio.
Cochicham.
O corpo de gente se abre para a passagem do rapaz alto e barbudo.

Lindão, homem já feito, mas leva a vida de moleque, sem trabalhar, sem estudar, furtando coisa ali, arrumando briga lá. Como se fosse para compensar a malandragem juvenil a qual ainda está preso, deixou crescer a barba e ser mais velho aos olhos dos outros.
Os outros. Os outros são muito importantes para Lindão. Ser o líder da matilha de vadios das ruas vizinhas é o que entendia como o topo de tudo aonde poderia chegar. Não que houvesse algo mais no mundo e ele não se achasse capaz de outra obra. Para ele não há mais nada, além do respeito e o temor daquela meninada desencaminhada.
Soube da esfregada do velho sobre seus meninos. Providências urgem, pois um fato anterior já ameaçava minar a autoridade do voivoda das vielas.
Certa vez, sentou sobre o muro e ordenou a uma senhora em seu quintal que pegasse uma jaca da arvore para ele. A velha recusou e o pilantra se emputeceu. Descarregou intimidações e insultos. O barulho fez emergir do nada o filho da velha, um gordo baixinho com cara de mau. Somente com o olhar e umas três palavras, o homem desmontou a macheza do garotão, que pediu desculpas e saiu rapidinho. Sem jaca e sem brio.
Histórias tomavam galope naquela vizinhança e não tardou para o causo cavalgar o vento. Os meninos começaram a debater, às suas costas, se Lindão não era mais o mesmo campeão de antes.
Lindão sabia que seu poder era questionado e medidas eram necessárias para a manutenção da ordem. O velho era perfeito. Amedrontaria-o com seus olhos fixos e palavras rudes, se necessário, meteria um sopapo, pelos cálculos bastava um para derrubá-lo, e seria o rei da rua de novo.  
Isso!

A figura de Lindão se destacou da meninada.
Romeu não se mexe.
Aos olhos de um covarde, Lindão seria um colosso entre os anões que o seguiam.
Romeu o espera.
Lindão avança.  O jovem estaca a frente do idoso.
Silêncio.
_Que merda você falou pros irmãos?
Romeu não responde.
_Por que não fala pra mim, agora?
Romeu sorri.
_É tudo irmão seu?
_Você é um velho muito folgado!
_E ocês tudo covarde por tacar pedra n a minha velha.
_Cai fora daqui, se não te quebro a cara. Aliás, não quero mais ver a tua carroça suja por aqui
_ Não. A constituição diz que eu posso andar aonde quiser.
_Constituição?
Lindão ri.
_ Enfia a constituição no cu, veio do caralho! Você não passa mais por aqui.
_ Passo sim.
_ Se passar, sabe o que acontece?
_Não faço ideia.
_Tu morre!
Ah!
Romeu esperava pela deixa. No fundo, estava dividido. Uma parte queria, outra não. Deixou para o destino decidir a vitória de qual hemisfério  nessa guerra moral.
_Entendeu, seu merda!?
Tranquilamente, retira o canivete do bolso.
_Ei!
Saca a lâmina.
  _Calma aí, tio.
O tio está calmo. Com tranquilidade de um artista marcial, encrava a arma no tronco de Lindão, um pouco abaixo da caixa torácica, e a desce abrindo o bucho num corte reto.
 Quando as tripas do valentão pousam no asfalto, os meninos saltam, gelam e fogem, deixando o líder cair finado no chão. Solitário, na companhia de seu estripador.
Romeu, então, abandona a carroça.
Vai até o barraco, manda a mulher fazer as malas e se vão. Talvez para a casa do irmão dele na Bahia ou dos pais dela em Goiânia, não se sabe, a polícia não procurou saber, não com muita energia, afinal, o morto era um tranqueira mesmo e sua morte uma benção para a vizinhança.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Curioso.

Eu, sem desejar, cometi um conto que está carregado da filosofia sadeana. Só percebi após publicá-lo no Blog. Nele os personagens principais são movidos por variados apetites, os quais para serem satisfeitos os atores devem destruir outrem, trabalho que não penaliza sua consciência. Essa imoralidade não é punida pelo universo, ao contrário, os eventos de interferência demonstram que o cosmos não está nem aí para a dor humana.

Se eu tivesse planejado em escrever algo ideologicamente ligado ao Marques de Sade, aposto meus dentes que não teria conseguido.