Distópico
De repente, a utopia cedera à infâmia. O império ruíra.
O inverno começara. Máfias e Ortodoxos assaltavam ao Estado tendo velhos e
corrompidos generais como pontas de lança.
E o que antes era dado agora era cobrado.
Pela primeira vez, M teria que pagar pelo
aquecimento. Ele possuía o valor para tanto. Porém, significava se amasiar com
a fome pelos próximos meses. Se fosse só ele, a amante seria tolerável e na
alcova se daria um jeito. Por acaso, seus ancestrais não passaram óleo de motor
no pão e o comeram glutões enquanto resistiam ao invasor na marcha do Grande
General Inverno?
Todavia, M não carregava sozinho a vida. A mulher
morrera anos antes e as Graças lhe deixaram um filho como compensação pela
perda da companheira. Um belo menino. Quatro invernos. Agora, corre o risco de
conhecer intimamente o quinto.
O que escolher?
Gelar ou esfomear?
Tentou uma terceira via. Arrumou um bico depois do
trabalho. Mesmo sendo burocrata do clero baixo, de mãos macias que só
conheceram o papel e a tinta do carimbo, sabia soldar.
Coisa de pai para filho, o qual lhe mostrou como
fazia com o maçarico, contando histórias de monumentos e armas grandes que
fundira. Como a de um majestoso submarino que poderia trazer o fim do mundo a superfície
e que patrulhou entre icebergs, protegendo a nação do mal que hoje assola a
todos. Se estivesse vivo, talvez seu pai
perguntasse de que adiantou ter soldado as placas da poderosa nau?
No entanto, como ele, havia muitos desesperados por
aí, o que fez com o que angariava num mês mal dar para pagar a primeira semana
de aquecimento.
Exausto e sem soluções, o diabo, sim, o diabo,
sempre há um diabo e ele aproveita essas horas para aparecer, o diabo veio ter
com M quando este chegou fraco do trabalho. Às 3 da madrugada, hora de vela,
pentagrama e cabala.
Dessa vez, o demônio veio como o vizinho, F, um
homem bonito e dono de um carro de linhas aerodinâmicas e vestes caras. Um novo
rico, suspeitava-se, como de todos os outros, de riquezas ilícitas e pobretão
de bom gosto.
Que aqui se saiba que o caráter demoníaco é somente
uma metáfora para essa escrita, apesar de M, considerá-lo tão concreto quanto à
maçaneta de sua porta.
F, atento as misérias e maravilhas da vida, havia
notado o menino de M.
_Menino bonito.
_...
Um garoto rechonchudo de cabelos lisos pretos que
tinha aquele olhar pidão dos quais os ciganos aproveitam em seus filhos para
esmolar.
_ É, seu filho. Muito bonito.
Vira-o quando
o miúdo voltava da mulher gorda de inchadas e cartográficas pernas das mil varizes que cuidava dele (e mais cinco
seres pequenos e remelentos do mesmo quarteirão e disso tirava o sustento) e avaliou,
como bom capitalista, as possibilidades de lucro. Diagnosticou positivamente
essa adesão a um dos seus empreendimentos.
Quando um homem se interessa por uma cabra, fala com
seu dono. Quando o moço quer tomar a moça para si, fala com a família. Certos
comerciantes quando querem propõe negócios aos pais.
_Não!
Já falou de antemão antes de ouvir a reposta de sua
oferta!
_Garanto! Pode ficar tranquilo.
O menino não perderia pedaço. Nem entenderia como
ruim. Talvez achasse até divertido. Uma brincadeira.
Quem não gosta de brincar? Brincar sempre é bom.
Todavia, M não concordou com os sofismas e quase
meteu o punho contra F.
(Só não o fez porque F era o demônio e o inferno que
este lançaria sobre M era incógnito, apesar de correr rumores a que círculo
infernal o propositor pertenceria)
F não se abalou. Estava acostumado nesse negócio com
os colaterais. Disse que M poderia pensar e sumiu, talvez, num peido de
enxofre.
M, ai, Deus, pensou.
Pelo menos agora havia Deus para se apegar. Aí,
lembrou-se da época em que o deus estatal respondia ao seu chamado, ao
contrário da deidade muda que prometia assombrar o mundo. Saudades do tempo que
Deus estava proibido e se seus usuários se reuniam escondidos para adorá-lo
como toxicômanos ou leitores de Bradbury. Hoje, celebra-se o demiurgo nome em
meio aos sítios de luxo e de fome.
Irritou-se e se orgulhou de sua raiva.
Porém, as fantasias de dignidade se diluíram no frio
da alta madrugada, abraçado ao seu pequeno e envolto em todos os cobertores e
ácaros que encontrou no guarda-roupa.
Toda hora tocava a pele de seu filho para sentir se
alguma febre brotara, mas, por sorte, sentia nada. A não ser a maciez da pele
alva como a neve lá de fora.
M também sentiu a mão endurecer. Com algum esforço,
os dedos se estalaram e o sangue circulou. Lembrou-se de um tio que perdera os
dedos no frio trabalhando na industria
pesada no norte. Às vezes, ele bebia demais e contava como enfrentou a
polícia num reboliço injusto que o meteram, que ele perdera os dedos para o
alicate de um oficial, mas não perdera a compostura. Mentira. Perdeu um por um,
erguendo oleodutos por entre montanhas. Se os procurar, quem sabe os ache?
Nada, sem febre, que parecia inevitável sua vinda, até quando?
Medicamentos escasseavam.
Hospitais fechavam.
Remédios, antes vulgares a todo canto, agora
escorriam para o mercado negro dos preços inflados e cruéis.
Fez um esforço para mover os seus pés. Quis tirar a
meia, mas temeu vê-los pretos e mortos. Então, deixou-se em paz, na torcida que
ao ignorá-los, eles não estariam condenados ao serrote. No, entanto, os dedos
dos pés se mexeram e ele se aliviou ao saber que amanhã conseguiria trabalhar.
Assim, não podia ficar. Uma hora assalta a gripe e
um febrão basta para levar quem está em nos braços do pai à mãe que está do
outro lado.
Então, M pensou de novo. Irritou-se novamente.
E dessa vez não se orgulhou.
Noutro dia, M não foi trabalhar e nem fazer bico. Estava
no apartamento de F, com boa calefação e móveis pessimamente coloridos. O lugar
remetia a uma propaganda de refrigerante de laranja. Ou limão.
_Não se preocupe se ele colocar na boca. Eu mesmo
esterilizei.
M não respirava.
Justificava-se.
_ Não tenha pressa, meu amigo. Tirei o dia só para
isso.
Havia ironia. Não havia ironia. Havia ameaça?
Importa, agora? E F arrumou a câmera que iria captar ao vivo o que adviria
naquela sala cítrica, sobre o tapete cor de tangerina e entre os sofás verdejantes
e transmitir por um criptograma de endereços secretos a computadores do velho
ao novíssimo mundo.
M não havendo
o que mais se justificar e vendo o demônio paciente, sendo incapaz de fugir
novamente para seu purgatório gelado, engoliu alguma coisa e soltou:
_Filho! Vem... Vem brincar na sala do tio F.
O filho de M
entrou nu pela sala. Sentou desleixadamente naquele maldito tapete e brincou
com um colorido falo de silicone, fazendo dele em sua imaginação uma nave
espacial.