quinta-feira, 25 de outubro de 2012


Dora

A luz vermelha era proposital.
Estímulo à mão boba, sob a penumbra carmim dos vários abajures carnais (Maldito seja, Ritchie!) em cada divisória das células que davam privacidade aos amantes em suas mesas. Nos alto-falantes uma arqueologia dos flagelos da cafonice musical que assombraram o mundo pop durante os anos 60,70 e 80.
Aqui, no bar a beira da represa, vem os namorados tirar um sarro. Trata-se da antecâmara dos motéis de beira da estrada. Normalmente os casais chegavam juntos. Nós não. Eu aparecia primeiro e tomava a mesa de sempre. Aguardava-a. Meia hora depois, em ponto, ela adentrava e ia até a mim com o beijo aveludado de comédia romântica onde tudo dava certo no final.
Ela não era engraçada. Era terna, porém séria. Não sabia nada dela, só o nome.
Dora.
Não sei por que nos encontrávamos assim. Eu não estava preso a ninguém. Ela? Não sei. Não me contava nada de si. Dizia que só queria falar de mim.
Eu, tonto que sou, contei-lhe tudo.
Disse onde trabalhava. Numa empresa transportadora, administrando o pátio de caminhões, que isso não tinha nada a ver com minha formação em jornalismo (um curso rápido de logística me livrou da pobreza). Falei de cada mulher que tive, que marcaram bem ou mal a minha vida. Onde eu morava, um apartamento dividido com um amigo do tempo da faculdade. Contei dos meus pais e dos meus irmãos.
Dora nada me revelava. Nada. Só seu nome e seus beijos.
Nós nos conhecemos numa despedida de solteiro de um colega de trabalho em uma boate. Ela apenas frequentava o lugar, sem nada haver com a festa em nossa mesa. Trombamos no balcão, sob a discreta vigilância do barman.
Pediu-me:
_Me arruma mais um prego pro meu caixão?
_Como?
Não entendi o que queria a ruiva cabeça ardente, uma onça sardenta, toda pintadinha.
_Me dá um cigarro, querido? Está na hora de alimentar o meu câncer pulmonar.
O humor negro me chocou e a beleza me atraiu.  Devido a minha formação católica, sempre repudiei inconscientemente mulheres fortes, porém, eu era inescapável a aquela Jezebel.
Mesmo sem eu dizer muita coisa que prestasse, Dora gostou de mim e me beijou como se minha boca fosse dela.
Como se eu fosse dela.
O beijo tinha algo diferente. Se antes todos os ósculos os quais eu havia cometido eram um vinho tinto e doce, o dela era seco, branco, exótico, quase um vazio que me tragava.
Deixei os meus amigos festeiros e passei a noite cingido em seus braços até a hora de fechar. Apaixonado, propus trocarmos telefones.
_Sem troca. Me dá  o seu que eu telefono.
_ Mas...
_É pegar ou largar, gato.
Peguei.
Dei meu telefone desaminado, crente de que ela não me ligaria. No entanto, no dia posterior Dora me ligou (Curioso, no meu celular pareceu número desconhecido) e marcamos nesse bar de escurinho e de música nostálgica.
Aqui demos amassos. Malhamos. Gozamos o sarro como adolescentes ávidos se descobrindo. Entretanto, só nos encontrávamos nesse bar. Propunha outros lugares, mas ela era taxativa. Só no escuro ao som de música brega. Num dia, eu disse que queria mais.
_Sexo? Sim. Por que não?
“Por que não?” Pensei quase indignado.
_Querido, tem um motel razoável aqui perto e...
Não.
Não queria só sexo. Queria ela toda para mim.
_Como?
Queria me enfiar na sua vida. Vê-la mais do que apenas na penumbra cor de carne (Menina Veneno tocava umas três vezes por noite como um mantra de alguma cabala de significado misterioso). Saber onde morava. O que fazia da vida. Conhecer sua família.
_Afinal! Você é casada? Comprometida?
Dora riu.
_Não.
_Então, por que a gente não se encontra em outro lugar? Por que a gente não vai num shopping? Sei lá, passa o dia na pracinha! Que acontece? Te envergonho?
Olhou-me com ternura.
_ Não seja bobo! Claro que não!
_ Então...
Não podia contar. Coisa dela. Um segredo.
_Não curto segredos.
Beijei-lhe o rosto e sai. Sem olhar para trás.
Passaram-se dias. Eu esperando por alguma coisa. O celular não tocou.  Número desconhecido não aparecia na telinha.
Espero. Espero. Até esquecer.
Meses depois o celular me surpreendeu.
Era Dora.
Perguntou-me se ainda me lembrava dela. Se ainda gostava dela. A resposta era sempre sim. Disse que queria voltar a me ver.
_Sem segredos?
_S-sim, mas... Só se você se sacrificar um pouco.
_ Sacrificar um pouco.
_Muito, na verdade.
_Do que você tá falando?
_Você quer ficar comigo pra sempre?
Nem pensei. Respondi automático.
_Sim. Pra sempre.
_Vai confiar em mim? Vai fazer o que eu pedir?
Fiz.
Marcamos. No bar do escurinho.
Como de costume, cheguei meia hora antes e fiquei a espera. Novamente, na hora de sempre, ela chega. Frequentemente pensei que Dora estava oculta nas sombras me observando sem eu notá-la. Dessa vez, com uma roupa de gala, um vestido vermelho, para alguma ocasião mais solene e pública do que o nosso conclave íntimo, que chamaria atenção naquele ambiente fazendo as bocas se afastarem, as mãos sobre as genitálias pararem e os rostos se virarem, mas curiosamente passou despercebido pela clientela.
Dessa vez, Dora não me beijou. Sentou e me olhou com seus olhos cinza de borrasca.
_Você está linda!
_Eu sei.
_Bom, eu vim.
_Vai confiar em mim e não fazer perguntas?
Concordei.
Ela solta as alças do vestido revelando seus frágeis seios. Também sardentos.
_Você tá louca!?
Mesmo naquele crepúsculo rubro de lupanar, era possível para qualquer um admirá-la. O que para meu espanto não aconteceu. Ninguém ligava. Todos continuavam entretidos em seus mundos amorosos.
_ Você prometeu que iria confiar - Disse sem perder o ímpeto.
Promessa feita, dívida adquirida.
Ainda estranhando que o fato de seu topless não desmontou a harmonia do salão, resolvi cumprir e confiar.
_ Agora, beije.
E lá fui mamar na mulher amada, invisível na frente de todos os olhos.
“Porra”, pensei, “não é que eu esteja reclamando, mas que merda estava acontecendo!?”
_Você falou que se sacrificaria por mim.
_Humm-Humm - Concordei com a boca no mamilo esquerdo.
_Se sacrifica, mesmo?
_Sim!
_Que bom, meu amor! Que bom!
Nisso um líquido azedo começou a sair do aureolo o qual eu tragava. Num misto de nojo e de querer mais me questionei se ela não era mãe e eu estaria desviando o alimento de uma criança para fins sacanas, quando me doeu a nuca.
Quando senti a mordida no pescoço.
Era Dora.
A tragar o meu líquido espinhal e me matando, enquanto eu tomava de seu leite materno da mulher sem filhos e renascia.

Depois descobri que o que bebia era sangue no lugar de leite.

Caçávamos a noite em bares onde porres corriam livres. A nova lei seca nos ajudou, por nossa generosidade em levar os incapacitados pelo álcool para casa, aonde nunca chegavam.
Dora estava nessa havia décadas e amava a vida noturna. Disse que além de ser divertido, sempre haverá boêmios nas noitadas para satisfazermos aquela ausência que nos  consome.
Conheci finalmente a história de Dora, pois era, então, como ela.
Não a revelarei porque não nada mais dolorido e saboroso do que um segredo mantido por dois prisioneiros dele, tal como nós, condenados um ao outro.
  

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