Dora
A luz vermelha era
proposital.
Estímulo à mão boba,
sob a penumbra carmim dos vários abajures carnais (Maldito seja, Ritchie!) em
cada divisória das células que davam privacidade aos amantes em suas mesas. Nos
alto-falantes uma arqueologia dos flagelos da cafonice musical que assombraram
o mundo pop durante os anos 60,70 e 80.
Aqui, no bar a beira da
represa, vem os namorados tirar um sarro. Trata-se da antecâmara dos motéis de
beira da estrada. Normalmente os casais chegavam juntos. Nós não. Eu aparecia
primeiro e tomava a mesa de sempre. Aguardava-a. Meia hora depois, em ponto,
ela adentrava e ia até a mim com o beijo aveludado de comédia romântica onde
tudo dava certo no final.
Ela não era engraçada. Era
terna, porém séria. Não sabia nada dela, só o nome.
Dora.
Não sei por que nos encontrávamos
assim. Eu não estava preso a ninguém. Ela? Não sei. Não me contava nada de si.
Dizia que só queria falar de mim.
Eu, tonto que sou, contei-lhe
tudo.
Disse onde trabalhava.
Numa empresa transportadora, administrando o pátio de caminhões, que isso não tinha
nada a ver com minha formação em jornalismo (um curso rápido de logística me
livrou da pobreza). Falei de cada mulher que tive, que marcaram bem ou mal a
minha vida. Onde eu morava, um apartamento dividido com um amigo do tempo da
faculdade. Contei dos meus pais e dos meus irmãos.
Dora nada me revelava.
Nada. Só seu nome e seus beijos.
Nós nos conhecemos numa
despedida de solteiro de um colega de trabalho em uma boate. Ela apenas
frequentava o lugar, sem nada haver com a festa em nossa mesa. Trombamos no
balcão, sob a discreta vigilância do barman.
Pediu-me:
_Me arruma mais um
prego pro meu caixão?
_Como?
Não entendi o que
queria a ruiva cabeça ardente, uma onça sardenta, toda pintadinha.
_Me dá um cigarro,
querido? Está na hora de alimentar o meu câncer pulmonar.
O humor negro me chocou
e a beleza me atraiu. Devido a minha
formação católica, sempre repudiei inconscientemente mulheres fortes, porém, eu
era inescapável a aquela Jezebel.
Mesmo sem eu dizer
muita coisa que prestasse, Dora gostou de mim e me beijou como se minha boca
fosse dela.
Como se eu fosse dela.
O beijo tinha algo
diferente. Se antes todos os ósculos os quais eu havia cometido eram um vinho
tinto e doce, o dela era seco, branco, exótico, quase um vazio que me tragava.
Deixei os meus amigos
festeiros e passei a noite cingido em seus braços até a hora de fechar.
Apaixonado, propus trocarmos telefones.
_Sem troca. Me dá o seu que eu telefono.
_ Mas...
_É pegar ou largar,
gato.
Peguei.
Dei meu telefone
desaminado, crente de que ela não me ligaria. No entanto, no dia posterior Dora
me ligou (Curioso, no meu celular pareceu número desconhecido) e marcamos nesse
bar de escurinho e de música nostálgica.
Aqui demos amassos. Malhamos.
Gozamos o sarro como adolescentes ávidos se descobrindo. Entretanto, só nos encontrávamos
nesse bar. Propunha outros lugares, mas ela era taxativa. Só no escuro ao som
de música brega. Num dia, eu disse que queria mais.
_Sexo? Sim. Por que
não?
“Por que não?” Pensei
quase indignado.
_Querido, tem um motel
razoável aqui perto e...
Não.
Não queria só sexo.
Queria ela toda para mim.
_Como?
Queria me enfiar na sua
vida. Vê-la mais do que apenas na penumbra cor de carne (Menina Veneno tocava
umas três vezes por noite como um mantra de alguma cabala de significado
misterioso). Saber onde morava. O que fazia da vida. Conhecer sua família.
_Afinal! Você é casada?
Comprometida?
Dora riu.
_Não.
_Então, por que a gente
não se encontra em outro lugar? Por que a gente não vai num shopping? Sei lá,
passa o dia na pracinha! Que acontece? Te envergonho?
Olhou-me com ternura.
_ Não seja bobo! Claro
que não!
_ Então...
Não podia contar. Coisa
dela. Um segredo.
_Não curto segredos.
Beijei-lhe o rosto e
sai. Sem olhar para trás.
Passaram-se dias. Eu
esperando por alguma coisa. O celular não tocou. Número desconhecido não aparecia na telinha.
Espero. Espero. Até
esquecer.
Meses depois o celular
me surpreendeu.
Era Dora.
Perguntou-me se ainda
me lembrava dela. Se ainda gostava dela. A resposta era sempre sim. Disse que
queria voltar a me ver.
_Sem segredos?
_S-sim, mas... Só se
você se sacrificar um pouco.
_ Sacrificar um pouco.
_Muito, na verdade.
_Do que você tá
falando?
_Você quer ficar comigo
pra sempre?
Nem pensei. Respondi
automático.
_Sim. Pra sempre.
_Vai confiar em mim?
Vai fazer o que eu pedir?
Fiz.
Marcamos. No bar do
escurinho.
Como de costume,
cheguei meia hora antes e fiquei a espera. Novamente, na hora de sempre, ela
chega. Frequentemente pensei que Dora estava oculta nas sombras me observando
sem eu notá-la. Dessa vez, com uma roupa de gala, um vestido vermelho, para alguma
ocasião mais solene e pública do que o nosso conclave íntimo, que chamaria
atenção naquele ambiente fazendo as bocas se afastarem, as mãos sobre as genitálias
pararem e os rostos se virarem, mas curiosamente passou despercebido pela
clientela.
Dessa vez, Dora não me beijou.
Sentou e me olhou com seus olhos cinza de borrasca.
_Você está linda!
_Eu sei.
_Bom, eu vim.
_Vai confiar em mim e
não fazer perguntas?
Concordei.
Ela solta as alças do
vestido revelando seus frágeis seios. Também sardentos.
_Você tá louca!?
Mesmo naquele crepúsculo
rubro de lupanar, era possível para qualquer um admirá-la. O que para meu
espanto não aconteceu. Ninguém ligava. Todos continuavam entretidos em seus
mundos amorosos.
_ Você prometeu que
iria confiar - Disse sem perder o ímpeto.
Promessa feita, dívida
adquirida.
Ainda estranhando que o
fato de seu topless não desmontou a
harmonia do salão, resolvi cumprir e confiar.
_ Agora, beije.
E lá fui mamar na
mulher amada, invisível na frente de todos os olhos.
“Porra”, pensei, “não é
que eu esteja reclamando, mas que merda estava acontecendo!?”
_Você falou que se
sacrificaria por mim.
_Humm-Humm - Concordei
com a boca no mamilo esquerdo.
_Se sacrifica, mesmo?
_Sim!
_Que bom, meu amor! Que
bom!
Nisso um líquido azedo
começou a sair do aureolo o qual eu tragava. Num misto de nojo e de querer mais
me questionei se ela não era mãe e eu estaria desviando o alimento de uma
criança para fins sacanas, quando me doeu a nuca.
Quando senti a mordida
no pescoço.
Era Dora.
A tragar o meu líquido
espinhal e me matando, enquanto eu tomava de seu leite materno da mulher sem
filhos e renascia.
Depois descobri que o
que bebia era sangue no lugar de leite.
Caçávamos a noite em
bares onde porres corriam livres. A nova lei seca nos ajudou, por nossa
generosidade em levar os incapacitados pelo álcool para casa, aonde nunca
chegavam.
Dora estava nessa havia
décadas e amava a vida noturna. Disse que além de ser divertido, sempre haverá
boêmios nas noitadas para satisfazermos aquela ausência que nos consome.
Conheci finalmente a
história de Dora, pois era, então, como ela.
Não a revelarei porque
não nada mais dolorido e saboroso do que um segredo mantido por dois
prisioneiros dele, tal como nós, condenados um ao outro.
Vampiraaa??Amei
ResponderExcluirclap, clap, clap!
ResponderExcluirducaralho.
Adoro histórias de vampiros bem feitas.
Sorte e saúde pra todos!