sexta-feira, 5 de outubro de 2012



Rascunho.

Brasil. SP. Capital. Luz. Cracolândia. Prédio arruinado. Ruínas mesmo. Tudo arrebentado. Fedor de mijo. Um dos muitos ninhos de viciados em pedra.
 Policial Militar de arma em punho. Postura elegante e ameaçadora de autoridade. Aponta para o alto da escada. Degraus quebrados, cheios de entulho.
_Quem tá aí?
Nada.
_Sei que tem gente aí. Eu vi entrar. Saí ou atiro.
Da treva do nível superior surge o viciado.
_A-atira, não. T-tô aqui.
 Ele ainda não se zumbificou, ainda tem carne e vida, mas em seus olhos está  o vício no lugar do homem. Pode-se ver que ele dorme na rua e, se não hoje, talvez amanhã, prostituiria a própria boca em sexo oral com estranhos só por mais uma tragada.
_Mãos na cabeça! Deita no chão!
O viciado desce tropeçando no entulho e faz o que foi ordenado. O PM o revista, depois o pressiona, pisando-lhe na cabeça com a bota negra. Verifica o que recolheu de quem está sobre o peso de sua sola. Pedras de crack. Uns trocados. Joga fora a droga e guarda o dinheiro para si, no bolso da camisa.
_Cadê os documentos?
_Não tenho, senhor.
_Não tem documentos?
_Não.
_Como é que você não tem documentos?
_...
_Humm?
O PM chuta o fígado do usuário.
_ Ai! O-o senhor não lembra?
_Lembrar do que?
_Dois dias atrás o senhor e outros PMs me tiraram os documentos.
_Tá me acusando de roubo? Tá louco?
_N-não, senhor!
_Então, cadê os documentos, filho da puta?
O policial mete a bicuda de novo.
_O senhor confiscou e depois queimou!
_Confisquei e queimei?
_S-sim...
_É, pode ser.
O PM dá uma pisada forte, muito forte, no pescoço do viciado. Este engasga. Seu esgar desesperado incita uma série de pisões da mesma violência, em grande velocidade, até que quem pisa ouve o ruído de um galho seco se quebrando.
O representante da lei verifica seu crime, se a vítima ainda estaria respirando. Ciente e satisfeito com o assassinato completo, vira-se e segue para sair da penumbra em direção a luz do dia.
_Ei!
Mas é tarde.
_Por acaso eu cago no seu almoço?
O PM que havia guardado a pistola, a saca de novo. Novamente em posição heroica.
_Quem tá aí?
_ Por acaso, eu mijo na sua  janta?
_Aparece ou eu atiro!
Sim, ele atiraria na direção de onde vem a voz rouca, se pudesse. Mas ela vem de todo lugar. De lugar nenhum.
_Sabe, a comida aqui já vem com gosto ruim por causa da droga. Mas os nóias pelo menos tão vivos. Agora, você matou o meu almoço...
_Eu vou atirar!
_ Morto não me serve pra nada. Sangue de morto é veneno pra gente. Morto já basta a minha pessoa. Só me interessa a vida. E você, camaradinha, você tá bem vivo.
_Eu vou...
_ Não, não vai.
Brilho metálico no escuro.
Sensação fria na mão do policial.
Ele olha para o chão. Algo caiu. Um dedo. Depois outro. Mais  dois e a pistola. Em sua mão só há sangue e um polegar. O mutilado grita segurando o membro ferido. Num reflexo de sobrevivente, tenta recuperar a arma caída.
Novos brilhos metálicos.
Cortes explodem nos seus braços, pernas, rosto e, por fim, os tendões dos calcanhares são rompidos. A autoridade cai.
No chão, ainda se arrasta para pegar a arma.
Um sapato branco a chuta para longe.
O PM olha de baixo para cima: Sapatos brancos, calça branca, paletó e camisa brancos, chapéu branco e o rosto escuro.
(1930, 1920, 1910,1900, antes? De época é esse figurino, meu Deus?)
Na dor, o caído não percebe. O seu agressor ainda está um pouco transparente. Como uma aurora maligna. Entretanto, ele nota, não há como não notar, seu rosto retalhado, seu sorriso estendido pelas faces do rosto rasgadas, costuradas por pontos negros que se esticam ao falar.
Ah! Se o vampiro se desse ao trabalho de se apresentar enquanto a navalha que o ferira antes rasga seu uniforme e suas costas pela espinha dorsal, o PM entenderia o nome dado a ele pela marginalia enquanto vivia: Rascunho.
Pois era tão feio quanto o rascunho do Inferno e tão cruel e hábil na maldade quanto qualquer demônio de suas profundezas. Qualidades para as quais o policial militar se tornou, nos momentos agonizantes antes da morte, formidável testemunha de sua positividade.

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