quinta-feira, 6 de dezembro de 2012


A Droga do Terror Super X


Alencar emergiu do metrô e tomou os cenários das ruas de Desejo de Matar. Onde pretos e pobres oprimiam o pequeno burguês branco com sua delinquente sobrevivência em meio a casas de stripes e cinemas pornôs. Charles Bronson até o final da película os exterminaria em nome da decência e da recuperação imobiliária.
Ou, talvez nem tanto, apenas Robert de Niro, com seu taxi em movimento, revolver no bolso e moicano no crânio para salvar Jodie Foster de seu destino inglório de ninfa puta na mão de cafetões hippies, malditos hippies, porém com o universo continuando na mesma decadência a escandalizar e a erotizar a audiência, ignorando qualquer heroísmo individual, pelo menos até que algum maldito governo liberal assuma a prefeitura e desenvolva uma revitalização social da região com centros cívicos, bibliotecas, escolas e outros comunismos.
Era a boca do lixo. Cinematográfica, bela e feia boca do lixo, com o glamour de neon crepuscular e o fedor de urina dos que não tem teto ou sanidade. Todavia, não era entre os vulgares prazeres sensualistas de cada dia e cada noite onde compraria aquilo porque se moveu até ali.
Avançando, além do mercado das carnes e de alienações de boticário, alguns quarteirões, chegou aos conjuntos habitacionais feitos para proletários, hoje abandonados pelo homem e ocupados por gangues de nosferatus anarquistas, lobisomens conservadores que devoram mendigos e viciados desavisados, zumbis politicamente organizados em células, almas penadas que comercializam o ectoplasma e outras criaturas de pesadelo marginalizadas.
Um jovem duende travestido, um adorável Peter Pan vestido de Sininho e cinta-liga, maquiado como uma vadia psicodélica, usando uma corrente que nasce num brinco na orelha e morre em outro no nariz, veio voando faceiro e ofereceu o rabo rodado em troca de um pensamento alegre, moeda rara nessas paragens. Alencar não aceitou. Então, ele mostrou seu pênis imberbe e pechinchou sua porra tênue por uma história com final feliz.
Novamente, recusou com cortesia e perguntou aonde encontraria o que procurava. Suspirando, frustrada, a bicha voadora apontou o prédio de seu destino. Em retribuição, deu-lhe uma lembrança feliz do tempo de criança que a satisfez e lhe deu força para continuar o seu trotuar .
Era um pardieiro assombrado como os outros. A diferença é que havia guardas na escadinha da portaria, como leões de mármore ás portas de uma biblioteca.
Um mutante cabeçudo, um homem do amanhã, no mínimo telepata, ao lado uma garota oriental com olhos de mangá, sem braços e pernas naturais, mas próteses aracnídeas metálicas. Do seu quadril brilham os dentes de uma armadilha de urso na sua vagina e, no lugar dos seios, permanecem duas metralhadoras giratórias.
Antes de Alencar dizer uma palavra o telepata dá o aval e, junto com a ciborgue hentai, liberaram sua entrada.
No hall do prédio, um alienígena com cara de sapo, membro de uma força invasora que tentou dominar a Terra na edição n° 02 do Incrível Hulk, Volume 01, 1962, roteiro por Stan Lee, lápis por Jack Kirby e arte final por Steve Dikto, e foi frustrada pelo protagonista do gibi, óbvio, e acabou ficando aqui, no submundo dos seres imaginários, me perguntou com sotaque batráquio:





_O que vai ser, cara real? Porra de anjo? Temos um querubim na ordenha. Mão de virgem que extrai.
_Não. Obrigado. Eu quero um pouco de super X.
O invasorzinho se abalou. Estava acostumado só a oferecer coisas baratas.
_Vejo que estou diante de um apreciador distinto de produtos finos.
_Pode ser.
_Venha, por favor, venha.
Entramos num elevados de grade. Estava quebrado. Um golem judeu expressionista o ergueu manualmente puxando os cabos até o terceiro andar.
_Se o senhor quiser, pode extrair pessoalmente. Muita gente gosta.
Dentro do quarto, numa poltrona de barbeiro, amarrada por correntes estava uma super-heroína da Era de Prata dos Comics. Não a identifiquei. Ela sofria de uma magreza que nada fazia lembrar o modelo idealizado com o qual ela foi desenhada. Seu uniforme dourado está imundo e rasgado. O braço direito estava esticado, apoiado num descanso para injeções. Uma grande ferida vicejava em seu antebraço. Um círculo escavado que sugeriria alguma bela infecção prolongada, talvez ameaçando uma gangrena em breve. A campeã dos fracos e oprimidos percebeu a entrada de Alencar e sussurrou drogada/desesperada:
_Me ajude... Por favor...
_Não, pode tirar que eu espero lá fora.
O alienígena riu e concordou. Antes de sair, o cliente viu um sacerdote de algum culto lovecraftniano, talvez de Dagon, deixar de ler seu jornal, pegar um bisturi e ir trabalhar na extração do Super X. Lá de dentro, Alencar ainda ouviu:
_Não me deixe aqui! Me ajude! Eu já salvei o mundo... Eu lutei contra o...
E de quem deveria ser o sacerdote:
_Cale a boca!
E do batráquio do espaço sideral:
_Droga ela! Corta ela!
O silêncio retornou. O pequeno e nojento ET já apareceu com um frasco com pedaço de carne dentro, o qual é pago com cartas ente mãe e filha carregadas de emoção, gravações de escutas de telefonemas apaixonados entre amantes adúlteros e fotografias de tempos melhores gotejando nostalgia.
Rapidamente, Alencar, ignorando os ecos dos pedidos de socorro da fonte do produto, abandonou esse apêndice do mundo irreal, a ferida do contar-histórias na textura da realidade e se viu de volta em seu apartamento, num lado um pouco melhor da cidade, o qual constantemente precisa de uma limpeza.
Puxou uma cadeira, sentou-se a mesa, retirou o fragmento de carne, colocou em uma colher de sopa, acendeu um isqueiro e profundamente desejou que derretesse como cera. A carne imaginária, influenciada pela vontade, tornou-se líquida, então, pelo império do fogo.
Alencar despejou o líquido verde com alguns fragmentos de carne numa seringa grande.
SUPER X
Xarope de super-herói.
Pronto. Bastava aplicar.
Não. Ainda não.
Precisava de mais simbolismo. Uma alegoria para tonificar o horror.
Pensando, como bom filosofo caseiro, olhou para o teto e sorriu. Levantou-se. Pegou a cadeira e a levou para o centro do quarto. Subiu e desenroscou a abóboda que protegia a lâmpada .
Estava tenso, por isso freava-se, agora, em suas ações. Seja para fazer bem feito o que tinha que  fazer, seja para executar com prazer, gozando cada volta que libertava o globo.
Segurando o objeto com a seriedade de quem levava o cálice da comunhão dentro do templo, desceu da cadeira, foi a cozinha e voltou com um prato na outra mão. Na mesa, despejou sobre este o que havia se acumulado na abóboda empoeirada durante os anos em que  ficou olhando para o teto, tentando medir o mundo com a simetria de seu sofrimento.
Insetos mortos.
Mariposas, moscas, besouros e, que sorte, alguns escaravelhos. Todos atraídos pela luz, mortos pelo calor. Secos, áridos, estorricados, crocantes. Alguns haviam virado pó.
Mexeu-os com os dedos. Revolvia-os. Brincava. Separava os mortos por suas qualidades como se escolhesse feijões.
_Ótimo!
Era o tempero faltoso. Uma especiaria para dar valor à base que importava. Algo a lhe dar asco, nauseá-lo, um sacrifício a si mesmo. Se sentisse horrorizado, como verdadeiramente sentiu ao fazer essa nojeira, seria mais feliz o resultado de seu atentado.
Despejou os animais fenecidos dentro da seringa, os quais flutuaram em seu banho esverdeado.
Com o vomito lhe roçando a boca:
_Agora, sim!
Arregaçou a manga da camisa, preparou-se e aplicou na veia. Picada e ardor.
Poucos minutos para fazer efeito. Saiu do apartamento, desceu até a praça próxima do deu prédio e sentou num banco.
Olhou para o céu como olhava para o teto a lhe esmagar.
Vislumbrou a lua cheia, esperou até essa fase lunar para engendrar o seu plano, e mirou-a como mirava a luz do seu quarto, a qual foi seu claustro solitário dos últimos anos.
Convém explicar: Alencar era um terrorista incubado. Hoje, impulsionado pela infelicidade, ele sairá da casca.
O terror do homem largado no banco da via pública não é de bombas, mas de sonho.
A lua jazia no céu como sempre estava.
De repente, ela se converteu numa caveira.
Um sorriso feliz nasceu nos lábios do nosso arquiteto do terror.
Ondas telepáticas de história em quadrinhos se irradiam de Alencar como se ele fosse a pedra arremessada na água do cotidiano.
E as pessoas em volta, os passantes apressados doidos para chegar em casa, tirar os  sapatos e assistir seus seriados televisionados, são os patos no lago a sentirem a reverberação psíquica do rapaz. Eles olharam para céu e dividiram o pesadelo da lua morta.
A visão do astro cadavérico gerou um espasmo apocalíptico e toda a gente correu buscando alguma salvação.
O pavor se espalhou. Cada aterrorizado era um vetor que contaminava outro com o medo do que de fato não acontecera.
Enquanto, o terror tocava a todos, carcomendo a ordem da cidade, Alencar gozava, pois finalmente democratizava o mal estar, a loucura cortante, que ele, infeliz privilegiado sempre carregou.

4 comentários:

  1. Tentei ler. Viajado demais, não consegui chegar até o final. É importante dar uma viajada, mas o excesso termina saturando e dispersando. Pelo menos é a minha opinião.

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  2. Tá aí o tipo de coisa que a gente deve mostrar pras mocinhas felizes e contentes que acreditam em contos de fadas!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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