segunda-feira, 24 de dezembro de 2012


A assassina de si própria



Ane possuía uma vida estranha?
Não no geral. Vista pelo todo, qualquer um vaticinaria o império da normalidade, isto é, como nós do mesmo tempo e do mesmo lugar da moça, século XXI, Brasil urbano, a entendemos e concordamos.
Afirmamos, contudo, não se tratar de uma existência desejada, a qual qualquer imaginador queira para si. As pessoas preferem planear a passagem feliz sobre a Terra como uma série de rocambolescas aventuras melodramáticas culminadas em vários sucessos exemplares, no entanto, a vida de Ane não era de se repugnar, porque, apesar de mansa, era boa.
Ela se formou em biblioteconomia, saiu da casa dos pais, morou sozinha, teve uns namorados, infelizmente nenhum relacionamento que se desabrochasse em laço duradouro, e seguia muito bem para os trinta, quando se alertou para uma inconveniência crescente.
Numeremos:
1) Todo dia quando acordava encontrava a casa levemente mudada. Detalhes. Coisas pequenas. Objetos fora do lugar. Mudados. Virados. Usados. Sem ela se recordar de ter agido sobre eles.  No começo, ela atribuiu a uma perda de memória irrelevante, tê-los-ia manipulado antes de dormir e o sono apagou o registro.
2) A coisa começou a preocupar quando o dinheiro que ela havia retirado do caixa eletrônico e deixado em casa para usos ocasionais começou a se alterar. Num dia havia mais do que lembrara tirar, no outro menos sem que ela soubesse dizer aonde tivesse gastado. Justo ela, que controlava suas economias com seriedade a ponto de acumular uma poupança razoável para sua idade. Foi conferir seu extrato do banco e a surpresa ganhara novo vigor. Depósitos e retiradas também estranhos a ela. Será que Ane teve sua senha furtada e estava sendo vítima de algum esquema ilegal? Na soma de tudo não havia perda, havia até ganho, mas a movimentação era obviamente preocupante.
3) Roupas e objetos que ela não havia adquirido, sim, ela poderia jurar, se solidificaram em seu apartamento. A vestimenta nova não era de seu estilo sóbrio, mas sim de uma expansividade que a acabrunharia, que a faria se sentir cafona e atirada se usasse, mesmo ela tendo corpo para tal farreada. Sapatos e sandálias novos, que cabiam perfeitamente em seu pé, mas que ela nunca compraria. E a lingerie que apareceu em sua gaveta? Ela era prática nesse assunto. Preferia calcinhas confortáveis de algodão, não aquelas coisas caras, sensuais, que mulheres usam para tirarem rápido em alguma alcova programada, se não suas partes íntimas sofreriam de assaduras se usassem por muito tempo.
4) Se o chão começou a faltar no item anterior, nesse o mundo foi para o espaço, com carros e vacas flutuando no éter. Primeiro, ligavam para o telefone fixo procurando por uma tal de Cibele. Engano, óbvio. Tudo bem. Todavia, a quantidade de telefonemas a levou se questionar se essa tal de Cibele não aplicava golpes e estava dando seu número por aí. Segundo, pessoas que ela não conhecia a cumprimentavam na rua, ônibus, metrô. Ela respondia sem jeito, vai que estava com problema de memória e não as reconhecia. Tudo tolerável e insuspeito, até que um dia:
_E aí, Cibele, sua louca! Me liga!
Ligar? Cibele? Ela não era Cibele. Quem era Cibele? Por que a confundiam com Ane? No primeiro instante, só teve certeza de uma coisa sobre essa figura. Que ela tinha um caso, pois seu amante de surpresa abraçou e beijou Ane, como se fosse a coisa mais  corriqueira. Ane se desesperou e gritou. O beijoqueiro sem entender o que se passava, pedia que ela se acalmasse e a chamava de Cibele.
Ao ouvir esse nome, Ane cessou o chilique e disse num misto de raiva e embasbaque:
_ Não sou Cibele!
_Ah! Cibele para de brincadeira.
Discutiram, por fim, Ane conseguiu convencer Jair, que se apresentou mais tarde, de que ela não era a bendita Cibele.
O rapaz, o qual era bonitinho, fato que retirou um pouco do peso do assalto do ósculo, mostrou uma foto no celular dele com a criatura que começou a atormentar a vida de Ane como uma justificativa de seu erro.
_ Incrível como vocês são parecidas.
Incrível mesmo! Tirando o queixo mais fino, o nariz menos arrebitado, as sobrancelhas feitas e o cabelo mais longo, Cibele era uma gêmea de Ane.
_Me envia essa foto por email?
Depois em casa, após ter recebido a foto e olhando-a por vários minutos decidiu encontrar essa tal de Cibele. Perguntou, também por email, a Jair o sobrenome e telefone dela.
Esperou em vão o namorado da outra responder. Cansada pelo dia de novidades, rendeu-se ao chamado da cama. Com a cabeça no travesseiro, conjecturou novamente.
E se Cibele e quem a assola fossem pessoas diferentes? E se no lugar de uma moça semelhante a ela fosse um tarado? Um pervertido brincando com ela antes do estupro fatal?
Se coisas aparecem em sua casa é porque alguém entra. E se sua invasão não fosse quando estivesse fora, mas dormindo?
 Um calafrio, um sentimento de medo brotou num instante ameaçando-a com a insônia vigilante. Entretanto, se não aconteceu nada de grave até, então, talvez fosse seguro apostar mais uma noite de relativa segurança e poder dormir.
Antes de, por fim, dormir, pensou em soluções e a melhor que lhe veio seria colocar uma câmera ligada quando estivesse fora e dormindo. Porém, era tarde para se municiar com uma. Novamente, insônia. Não poderia dormir, não sem uma providência naquela  noite.
O travesseiro assoprou-lhe duas ideias. Uma prática e outra lúdica. A prática: dormir com uma faca debaixo do travesseiro.
A lúdica: Espalhou talco pelo chão.
Ia espalhar farinha, mas desistiu, pois viraria uma meleca.
Dormiu.
Despertou no horário de sempre. A faca estava lá. OK! Olhou para o chão.
_A-ah!
Pegadas!
Havia alguém mais na casa. Pensou de logo num invasor, todavia, as pegadas saiam e voltavam para a cama. Seria ela sonâmbula?
Essa perspectiva retomada deu-lhe alívio. Não seria uma golpista ou um estuprador a assombrar sua vida e sim ela mesma adormecida.
No entanto, isso não explica o dinheiro, as movimentações financeiras e as roupas.
Cada vez mais confusa, pensou até em fantasma.  No início, séria, depois se riu.
A resposta de Jair chegou a sua caixa de entrada.
_ O telefone e o sobrenome... Não pode ser! É brincadeira!
Uma câmera urgia.

A qual instalou uma apropriada para a ausência de luz prontamente na noite seguinte e foi dormir um sono sem sonhos.
Ao despertar, mesmo sonolenta, tateando escuro, foi cambaleante ver as imagens.
Uma hora de filmagem: Nada. A não ser ela dormindo. Tédio.
Duas horas: Nada de novo.
Terceira hora: Acontece.
Ela se agita, vira de um lado para o outro até parar e ficar de barriga para baixo.
De repente, suas costas se abrem, como que rasgadas por duas mãos.
Um braço feminino se ergue dramaticamente.
Outro braço.
Finalmente, emerge Cibele nua.

O despertador tocou.
Ane correu até a câmera e conferiu.
Cibele veio e se foi.
Vestiu-se e saiu.
Pelo marcador, foi há poucos minutos. Ane mete uma roupa fácil e a foi atrás de sua inquilina como fizera noutras noites.
Ane Filomenna seguiu Cibele Filomenna até a farmácia onde trabalhava cinco noites seguidas. As duas teriam o mesmo sobrenome, conforme o namorado Jair, que a pedido dela não contou que conhecera sua gêmea porque queria fazer uma surpresa.
A surpresa quase aconteceu numa das noitadas na folga de Cibele quando ela ia a casas noturnas dançar até cansar. Ane a acompanhava a distância sempre, o que lhe rendeu noites mal dormidas e queda no desempenho, tanto que até solicitou adiantamento das férias para continuar sua exploração.
Podia ter detido sua companheira de quarto e corpo em qualquer lugar, mas preferiu a privacidade do lar para resolver isso.
Numa madrugada, Cibele se aproximou da cama. Ane dormia. Suas mãos foram as costas da adormecida para abrir seu casulo e encontrar o repouso, quando foram detidas por sua anfitriã, que rapidamente se virou e encostou a faca no pescoço de Cibele.
_Explique!
Cibele se aterrorizou, tanto talvez como Ane tenha ficado quando viu aquelas imagens pela primeira vez.
A hóspede inesperada não podia explicar. Disse que somente existia daquele jeito.
_Há quanto tempo?
_Há dois anos.
_Meu Deus! Dois anos!
Cibele chorou. Olhou a hora e o planto aumentou, pois, apesar de não saber como existia, intuía como deixaria de existir.
_Deixe-me entrar. Se não, eu vou morrer.
_Entrar em mim? Não. Acabou.
Cibele, em perfeito desespero, saltou contra Ane tentando lhe tomar a faca. Entretanto, o corpo que comportava era mais forte do que o que era comportado. Ane se livrou da agressora num belo chute que a jogou contra o criado mudo.
Se o barulho teria acordado os vizinhos, não importava, pois agora o sol nascia e Cibele morria.
Sua pele cristalizava gradualmente, o que lhe retirava os movimentos e a calava. Por fim flocou-se e depois desintegrou-se numa nuvem de pó brilhante.
Ane tocou o pó. Sentiu a textura agradável e o guardou numa caixa de joias, não saberia dizer o porquê.

Talvez saiba, lá no fundo, e se nós não sabíamos, saberemos agora.
Imagine a vida num caminho que sempre se bifurca.
Em cada bifurcação, temos duas possibilidades.
Escolhemos uma, que se cristaliza como real.
A outra, um EU nosso em um universo próprio, ou foi abortada por ter sido declinada pelo andarilho que somos todos nós e que escolheu o outro caminho.
Ou ficou existindo em uma variante da existência que nos escapa.
Um EU paralelo num mundo paralelo.
Talvez, às vezes, a escolha pela bifurcação não seja tão perfeita e uma corrompa a outra, tangenciando-a.
Talvez Ane tivesse sido Cibele se a mãe desta escolhesse outro nome, se Ane escolhesse não fazer faculdade, se Ane fosse mais festeira... Se.
Talvez Cibele seja uma apenas uma bifurcação de Ane, que resistente a sua anulação se apegou e brotou da outra para sobreviver além da hipótese e, que, quando confrontadas prevaleceu a mais forte.
O pó de Cibele, Cibele em pó, era uma lembrança do que poderia ter sido, o que de fato foi por dois anos. Mesmo precisando destruir a outra para se certificar de que a sua exclusividade existencial não seria ameaçada (temeridade inconsciente, nota-se), Ane não poderia deixar de se apegar a Cibele, pois negá-la totalmente após conhecê-la, seria anular não somente uma versão, mas um substancial apêndice de sua profundeza.
Portanto, a assassina de si própria guardou o souvenir da vítima, numa auto-piedade definitiva.

4 comentários:

  1. Uau! Cibele em pó... e se ambas saíssem juntas pra balada?
    Acho que essa Ane é meio bundamól total!
    Sorte e saúde!

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  2. CARACA, estou em êxtase total!! O Próximo peseudõnimo que eu tiver com certeza será: CIBELE NUA!!

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  3. Poxa Jean você se superou tipo eu tb acho que tenho uma cibele dentro de mim

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