terça-feira, 8 de abril de 2014

A Libertação de Daniel

A roupa era listrada.
(Realmente, passaria por um pijama...)
Convencia, todavia, não era verdadeira. Simulacro sob encomenda. Obra de um alfaiate acostumado a costurar figurinos para peças de teatro, filmes e comerciais. Daniel trouxe as fotos dos prisioneiros como exemplo. O velho judeu olhou silencioso as imagens. Suspirou. O pai dele morreu num desses matadouros. Daniel se juntou à narrativa:
_ Meu avô era um sobrevivente. Sempre contava de seu tempo no campo. Sempre...
Em todo encontro. Todo jantar. Toda data. Todo dia!
Era para não deslembrar. Esquecer como é difícil ser judeu. Ou para coçar uma maldita ferida que nunca se apaziguava. Daniel ouvia quieto, com os olhos pesados do avô sobre seu pequeno crânio infantil, enquanto, com a manga dobrada, o patriarca exibia a identificação numérica. Os cristãos não rememoravam o Judeu Eterno? Eis o certificado de vítima eterna.
_Qual?
A voz rouca resgatou Daniel de suas lembranças.
_Hã?
_ Em qual campo seu avô estava?
_ Treblinka.
_Papa morreu em Chełmno.
Pausa.
_É para que o uniforme?
_Para uma peça. Teatro.
_Respeitosa, espero.
_Totalmente.
_Passa segunda que vai tá pronta.
Daniel desceu a escadinha do predinho no Bexiga, lar dos  judeus pés-rapados, antipodes dos endinheirados  de Higienópolis onde morava, e entrou no carro de propriedade da empresa de seu pai.
Absorto.
A tatuagem no punho de seu avô.
O membro que um foi dia poderoso, pois quando jovem e cativo, o velho foi kapo. Liderou o comando de prisioneiros lenhadores, encarregados de desmatar os bosques circundantes ao campo. Ainda antes de morrer possuía no branco braço os traços titânicos de homem possante, naufragados na rosada flacidez aquosa.
Onde flutuavam os malditos números.
_Ô, filho da puta! O sinal abriu!
Desperto pelas buzinas e xingamentos, Daniel seguiu adiante erguendo o dedo médio.

Daniel passava as instruções ao zelador. A academia era sua responsabilidade agora. Haviam decidido o pai e os irmãos. Disseram:
_Você já é um homem feito, precisa aprender a cuidar dos negócios da família...
Negócios da família. Isso significa trabalhar finais de semana, esquentar a cabeça com números e lidar, droga, com gente...
Se dependesse de Daniel, ele venderia tudo e viveria de juros, aprenderia uma profissão útil como sapateiro ou carpinteiro e ia tentar ser gente.
O zelador era um maranhense. Aquele tipo de pessoa que trabalha muito e nunca aparenta estar cansado. Os familiares de Daniel gostam dele, mas nunca demonstraram. Mora nos fundos da academia com a família. Esposa, duas filhas adolescentes, um menino mais velho adotado...
Não.
O menino não estava mais lá. Parece que tentou violar uma das filhas. Coitada. História mundo cão. Perfeita para programas de televisão mundo cão. Mas não era assunto seu.
Não foram muitas as instruções a serem dadas. O zelador já sabia o que fazer. Era mais para demonstrar que ele, o novo chefe, conhecia suas obrigações e não poderia ser enganado.
 O novo administrador tentava aparentar ser rígido como seus irmãos, mas sem ser aquele tipo de cuzão que eles gostam de interpretar. Não sabe se estava conseguindo, mas tinha que falar todo o roteiro da peça  patrão versus eempregado.
Daniel palestrava para o empregado na frente da casa do zelador. Pela porta aberta, viu a menina mais velha. Aquela que teria sido quase violada. Ela o olhava com um indisfarçável desdém. Quase uma raiva. O que teria acontecido com irmão adotivo?
Quando terminou a entrevista, despediram-se. Daniel tomou o corredor. Por intuição, o rapaz se voltou e encostou o ouvido na porta, de onde ouviu:
_Judeu do caralho!
O zelador a repreendeu, relembrando de onde vinha o sustento da família. A menina cita a crucificação de Jesus e culpa os judeus como resposta. Pelo o que ouviu depois, Daniele concluiu que a menina havia se tornado uma crente fleumática, pois começou a profetizar desconexamente sobre celebridades televisivas. Quem morreria para pagar seus pecados. Quem se converteria e teria final feliz.
Aparentemente o irmão adotivo fez mesmo as vezes de Caim e deixou a sua marca na irmã.

O tatuador recomendou usar o filme plástico por três dias, mas dane-se se infeccionar. Esperou meses pela encomenda que veio da Tailândia, passando fora da alfândega para não dar buchicho e podia aguentar um dia. Podia. Mas não devia confiar na sorte.
Vai que o cara muda de cidade, ou muda de ponto, tem muito lugar pra trotuar hoje em dia, ou é preso por alguma merda.
Sobre essa gente não se sabe.
Pensou que podia importar alguém do sul, ou ele mesmo viajar, mas aí é se expor demais.
Retirou o filme que envolvia o pulso e viu que ela estava cicatrizada. Bom. Também se não estivesse...
_Dane-se!   

Na USP, Daniel estudava no prédio palaciano da FEA, mas gostava de ir mijar e cagar  no predinho de filosofia e sociologia, o coração da FFLCH. Não era pela limpeza. Os banheiros de lá eram imundos e fediam a urina. Os da FEA brilhavam e cheiravam a esterilização, que combinavam perfeitamente com o aspecto de Shopping Center de luxo que o prédio da instituição detinha. Fruto de doações de ex-alunos que se tornaram capitalistas poderosos,  mas mantinham um coração nostálgico e um apreço pelo desconto no imposto de renda. Não raro deviam constranger quem fosse lá excretar qualquer coisa e desdourar as paredes de porcelana daqueles vasos impecáveis.
Além da caminhada, o atrativo do banheiro filosófico estava realmente na decoração. Os banheiros humanistas eram todos pichados com mensagens pertencentes a três grupos distintos entre si: Esquerdistas de vários tons de vermelho e preto proclamando guerra contra as injustiças do mundo.  Propostas de encontros para coito homossexual, junto com telefones e desenhos de pintos diversos, porém sempre longos e possantes. E nazistas.
Aparentemente, proliferava um número não desprezível de neonazistas, antissemitas e racistas em geral, de vários sabores, a odiar pretos, nordestinos, orientais, etc., por aqueles corredores humanistas. Os intolerantes estudavam tanto na sociologia como na filosofia. Claro que na surdina, discretos, sem nunca revelar seus gostos eugênicos, pois, pelo menos sábios nesse quesito,  teriam que enfrentar uma maioria vermelha  ou, pelo menos, progressista, que lhes desceria o cacete até  o linchamento chegar ao estado da arte.
Daniel, lá mijava, cagava, ou ambos, e os admirava.
Cada palavra.

No espelho, viu a máquina desbastar os loiros cabelos encaracolados de querubim. Os cachos caiam um por um remetendo a obvia tosa de ovelha. Do carneiro tosado, nasceu o leão. Sem juba, seria uma leoa? O leão de Israel emasculado? Não, não era o que indicava na sua calça. Na sua pélvis. Sorte que o avental o oculta, se não ele teria que se explicar para o barbeiro.
Daniel coçou as cascas de ferida dos números de seu braço esquerdo.
Seu pai perguntaria por que raspou o cabelo. Sua vontade era de dizer:
_Virei skinhead, pai.
Só para ver a cara de bosta do pai.
Mas vai responder:
_É o calor. Melhor assim.
Sorte que morava num país tropical, abençoado por Deus, aquele mesmo todo-poderoso que meio século antes estava com os nazistas, conforme os escritos de seus cintos, Gott mit uns, quando o povo escolhido foi selecionado para virar mão de obra escrava e sabão não biodegradável.

_Será que o tio Max vai, pai?
_Ir aonde?
E mostrou a matéria no tablet sobre o bando de saudosos velhinhos senis e de variados tipos de sociopata com problemas de aprendizado os quais resolveram reeditar a Marcha da Família com Deus, cuja primeira versão cravou o selo de legitimidade ao Golpe Militar de 1964. Defendiam uma nova intervenção militar para salvar o país da corrupção, matar um monte de gente de quem não gostavam e ganhar um dinheiro fácil sem trabalhar com alguma boquinha parasitária no novo e radiante governo verde-oliva.
O pai engoliu o café com leite.
_E Tio Max por que ele iria?
Daniel passou margarina no pão e o mordiscou. Mastigou o pedaço. Depois falou.
_Ele não ganhou bastante dinheiro com a ditadura?
_Aff! De novo isso.
_É o que ele fala direto.
_ O tio tava bêbado! (pausa) E muita gente ganhou dinheiro...
De fato nas festinhas de família, o tio – avô de Daniel se reencostava na poltrona com o obvio copinho de uísque na mão e começava a contar dos bons tempos. Daniel fizera uma matéria optativa em dramaturgia na ECA, para refrescar a cabeça da economia, e lá ouviu que Dionísio era o deus da verdade. OK que ele era o deus do vinho e a preferência de tio Max era uísque, mas botemos um kilt na cintura e um chapéu de cowboy na cachola do deus grego que tudo se adéqua.
_Ele ficava falando direto de um tal de Albert, que  foi assassinado. Pareciam que eram bons amigos. Andei pesquisando... Maravilha a internet, não?
_E?
_Ele foi justiçado pelo pessoal da guerrilha, parecia que além de levantar caixa pra tortura...
O pai de Daniel abandonou a geleia importada.
_Tortura?
_Parece que o amigo do tio gostava de ver o pessoal tomar choque no saco. Será que o velho também...
_Chega! Não quero saber.
 _Um dia vou perguntar pro tio: Tio foi você que  deu choque  no saco do Raul Seixas?
_Vai nada. Eu te proíbo. Já me estragou o dia logo de manhã com essa história... Nem sabia que o Raul Seixas tinha sido torturado.
Os dois se quietaram. O pai tentou voltar a comer. O filho terminou o pão.
_Pelo menos, me deixa telefonar pra ele pra ver se quer ir na marcha.
_Daniel, pela amor de Deus! Como ele vai... Ele usa andador. Não dá...
_Eu acompanho. Vai ter um monte de gente da idade dele lá. Deve ter até o pelotão dos andadores ou a patrulha das cadeiras de roda...
_Não!
Mais uma vez o pai tentou voltar ao bendito café, mas desistiu, empurrou a comida e pegou o jornal. Estava de saída para a varanda quando o filho, sem mudar a expressão vazia o chamou.
_ O que foi agora?
_O Tio Max não passou pelos campos, não é?
_Não.  Meus avôs o conseguiram fazer passar pela fronteira. Por quê?
_ Nada. Só pensando que se ele tivesse isso...
Daniel mostrou os números tatuados no punho.
_Que merda é essa?
_Talvez ele não tivesse ganho tanto dinheiro quanto ganhou, não é.
O pai ignorou a questão levantada por Daniel e o interrogou, vermelho de braveza como uma pimenta ardida, sobre a tatuagem. Quase foi as vias de fato. Daniel sem se alterar explicou que não se tratava de uma brincadeira, mas de uma homenagem ao avô.
_Para não esquecer o holocausto.
Não esquecer o inesquecível.

Hoje é o dia.
(Daniel brincou:)
Dia D.
 (Apesar de que foram os Russos que mais campos libertaram.)
Porém, que esse seja o Dia D.
Ligou para o rapaz no apartamento da São João.
A família não sabia do apartamento. Não era pra saber. Um segredo para abrigar outros segredos.
Perguntou se estava tudo bem. Disse que podia se servir de qualquer coisa, pelo menos até se trocar. Era para se hidratar bem antes de se vestir, pois enquanto estiver arrumado para seu papel não consumiria mais nada.
_Entendido?
Não queria que derrubasse nada na roupa. Uma raridade...
Foi tiro no escuro dar a chave do apartamento para ele. Roleta Russa. Será que esse filho da puta iria roubá-lo? Tantos casos que terminam mal... Claro que Daniel vai tomar a chave de volta quando tudo terminar e também não irá se esquivar de trocar a fechadura assim que puder.
O jovem judeu estava obviamente nervoso, entretanto, estacionou o carro no seu espaço na garagem sem fazer nenhuma barbeiragem. Na hora, cogitou em subir pela escada, mas o apartamento ficava no décimo segundo andar. Prédio velho, milagre o elevador estar funcionando. Imaginou que grande merda seria se o elevador parasse e ele ficasse preso justo nessa noite.
Contudo, o elevador não apresentou problemas. Chegou são e salvo no seu andar, passou pelos corredores com várias portas de madeira, aquele visual antigo de anos remotos, e colocou a chave na porta.
Era um apartamento pequeno, de classe média remediada de antigamente, dois quartos, sala e cozinha. Daniel poderia morar aí, bem diferente do apartamento de andar inteiro, onde mora com os pais. Os irmãos, cada um tem sua casa. Daniel foi ficando, cultivando certo desagrado entre os familiares por sua falta de iniciativa em fugir das asas paternas. Ele ainda iria morar sozinho. Talvez nesse ano ou no outro. Em outro lugar. Esse ficaria como investimento e, como dizem os moços de família que querem economizar com motéis, abatedouro.
Daniel entrou na sala. A luz estava acesa. A porta do quarto a direita estava fechada. O da esquerda aberta. Conforme combinado. Daniel entra no quarto à esquerda e se despe. Retira da maleta de executivo, 007, a roupa que parecia um pijama. Pensou em tomar banho, mas o suor daria, talvez, mais sustância a fantasia. Afinal, chuveiro para os prisioneiros significava outra coisa...
Daniel vestiu a roupa listrada. Calçou os sapatos e colocou o boné sobre a cabeça. Olhou para a estrela amarela em seu peito e por instantes ponderou que poderia ser um xerife de faroeste de comédia caído da cama para enfrentar um bandido o qual decidiu aprontar na alta madrugada, e imaginou uma cena azulada do estilo noite americana.  Não, ele enfrentaria o bandido, todavia não como um homem da lei do velho oeste faria.
Novamente se questionou se devia usar a estrela de Israel ou o triangulo rosa invertido. Considerou que a estrela era mais impactante. Talvez por estar mais no imaginário popular e, com certeza, por seus conflitos pessoais. O triangulo inverso remetia a um problema o qual nunca enfrentou de verdade, pois sempre se acomodou no armário com seus esqueletos.
Daniel ligou o celular. Do quarto ao lado, ouviu o outro aparelho tocar. O outro atendeu.
_Alô. Sou eu. Já estou aqui e estou pronto. E você, já se vestiu?
_Está tudo certo.
_O uniforme ficou bem?
_Você vai ver...
Saiu de seu quarto e foi ao outro. Tocou a maçaneta. Respirou fundo. Abriu a porta...
 E lá estava o oficial da Schutzstaffel, a SS, em seu uniforme negro, com quepe, botas e seus adornos de caveiras, com as mãos na cintura, esperando sua vítima.
Não. Não abriu alguma fenda temporal e o vilão histórico, um legítimo nazista alemão da força de segurança e extermino sob o comando do Reichsführer Heinrich Himmler, escapou para o nosso tempo, no lugar de fugir em um submarino para a Argentina ou Chile e contribuir no futuro para ditaduras vindouras.  Tratava-se de um prostituto, desses que se vendem pelas ruas da urbe, vestido com um legítimo traje escuro da sanha totalitarista do nacional-socialismo, escavado por Daniel nos mercados eletrônicos da internet profunda.
O michê é um moço que veio do sul do país, tentar a sorte com as mariconas de São Paulo e fazer um pé de meia. Se não abrisse a boca e soltasse seu português carregado de sotaque do Brasil meridional, passaria por um jovem alemão de olhar impertinente.
Daniel estava rondando o centro em busca de companhia sexual de aluguel, quando pela janela do carro, viu o viadinho fazendo ponto na praça cravejada de craqueiros. Chamou-o para conversar, pagou-lhe um lanche e fascinado por aquela brancura ariana que o faria de exemplo positivo em qualquer seminário de eugenia no começo do século XX, tratou de sabatiná-lo.
O michê contou que nasceu numa daquelas cidades de imigração alemã, onde o português era língua secundária em relação ao falar germânico. Os olhos verdes do judeu brilharam com a possibilidade dele ser descendente do pessoal que fez parte do Partido Nazista no Brasil, o maior do mundo fora da Alemanha, mas não perguntou isso logo de cara. Pelo nível intelectual rasteiro que o garoto demonstrava, talvez não soubesse dizer. Ou, se soubesse, talvez se ofendesse.  De toda forma, usou da linguagem universal: perguntou se queria um bom dinheiro. O puto, obviamente, se interessou.
Foram mais de um mês de instruções, preparações, como devia se portar, agir; Daniel sempre pagando, dando presentes, sustentou o seu aluguel num cortiço e ainda o adiantou por um bom tempo. Como o rapaz fosse uma noiva prometida, Daniel não o tocou, apesar dele se oferecer mais de uma vez, certamente em busca de mais agrados monetários. Também fez questão de não vê-lo vestido como queria até o grande dia. E finalmente o casamento chegou.
Estavam frente a frente o oficial da SS e o prisioneiro de roupa listrada. Como havia sido treinado, o nazista de faz de conta se aproximou do judeu de verdade e o esbofeteou.
Não foi um tabefe muito forte. Estava mais para um tapa de mulherzinha.  A despeito da parca potência, no entanto, Daniel se jogou no chão, com o rosto próximo às botas negras. O SS, então, moveu o pé para próximo do rosto do condenado. Este timidamente botou a língua para fora e começou a lambê-lo.
O michê totalitário sentou na cama, Daniel rastejou um tanto até alcança-lo e continuou a lustrar o calçado com a língua. Deu um trato nas duas botas, quando terminou, desamarrou os cadarços e experimentou a carne branca dos dedos, dos calcanhares, das batatas da perna  e até  do sabor exótico, algo meio queijo, da frieira que comia a carne entre os dedos.
Depois subiu pelas pernas como um gato escalando uma árvore, desatou o cinto e abriu a calça quando se assustou como se encontrasse no lugar do caralho uma víbora a gotejar peçonha.
-Porra!
_O que foi? Perguntou o facínora de mentirinha.
_Pelo amor de Deus! Me diga que  você teve fimose!
_Hã?
_Fimose, me diga, que  você teve fimose.
Não era nada disforme, na verdade, era um belo pinto, contudo, o cacete estava sem seu prepúcio. A lembrança da aliança do homem com Deus, se esse filho da puta fosse judeu seria o fim. Tudo o que planejou, seu grande momento iria escorrer pela sarjeta.
_Sim, tive fimose, sim!
_Quando cortou?
Num momento raro em sua vida, o michê fez uma escolha boa, no meio de tantas trapalhadas que o arremessaram para baixo. Cortaram sua pele peniana ao nascer, não porque era judeu também (seria uma coincidência de merda, não), mas por questões de limpeza. Então, mentiu.
_Aos 16.
Aliviado, Daniel retornou à mise-en-scène uranista e abocanhou o pedaço de carne desencapado e o felou como se faminto mamasse em uma teta bovina.  Agora, era só seguir o roteiro básico. Algumas agressões simbólicas, uns tapas e cusparadas na cara e o ato final: o empregado erótico jogar o patrão na cama de costas, rasgar os fundilhos das calças, sem problemas já que  o uniforme de prisioneiroera falso e podia ser destruído ao contrário do uniforme legítimo da SS, e sodomiza-lo,  montando em Daniel com a paixão de personagens bíblicos do primeiro testamento.
 A cada estocada, Daniel mordia seu punho, afundando os números de seu avô na marca de suas dentadas.
O teatro estava para terminar, entretanto, o putinho de roupas negras teve uma iniciativa que encantou Daniel. Prestes a ejacular tirou seu membro do rabo, desnudou-o da camisinha (Sexo seguro, sim, por que não?) e esporrou no chão. Depois catou o judeu pelo braço e o arrastou para baixo em direção àquela alva poça.
Daniel levou alguns segundos para processar a iniciativa de seu servo dominador, mas a ficha logo caiu e logo sorveu a porra dispensada como deliciosa guloseima.
Terminada a foda ditirâmbica, Daniel deitou extenuado na cama e se recolheu em posição fetal. O pseudototalitário também esfalfado foi se juntar ao seu contratante, mas este o deteve com a mão e se levantou.
Saiu do quarto, andando com a calça de fundilhos rasgado, exibindo o traseiro que foi fodido, e logo retornou com um maço de notas. O michê não creu na quantidade de dinheiro. Sabia que ia levar uma bolada, mas não tanto.
_Agora, tire o uniforme e pode ir.
O garoto de programa estava acostumado a frieza dos clientes após a transa, mas esperava mais entusiasmo do cliente dessa vez. Quer dizer, a foda foi perfeita... Já despido da indumentária e vestido em suas roupas de grife, que o próprio Daniel o presenteara e prestes a sair, perguntou, já prevendo que a fonte secara.
_ A gente se vê?
_ Claro.
Disse o empregador naquele tom que o rapaz já conhecia.  Acabou, pensou e saiu pela porta, para sua vida que a partir daquele instante nos escapa.
Daniel se livra da roupa de prisioneiro de campo de concentração e vai até a frente do espelho da penteadeira. Mirou-se e sorriu.
Apesar dos prazeres da humilhação e da penetração, ele ainda não ejaculara, então com o pau ereto novamente, masturbou-se.

Quando a fricção de suas falanges deu-lhe a erupção que faltara, ele colocou o punho na frente da cabeça circuncidada e viu a porra cobrir a numeração de seu avô, libertando-o daquela merda toda.

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