quinta-feira, 8 de maio de 2014

Leite


Beijei seu ventre saliente.
Ela estava grávida. Tudo bem. Não era meu.
Fiz-me estéril há anos atrás, após a primeira ameaça de paternidade acidental.
Confesso, todavia, meu egoísmo roleta-russa. Não temia a AIDS e afins, apesar de ser do tempo em que se viam cazuzas derreterem sob a luz do espetáculo. Não agia adequado para me manter incólume às moléstias sexuais, das quais, por injustiça cósmica, sempre me vi a salvo. Contudo, condenar alguém a esse mundo madmax onde água será negociada por filhos da puta como petróleo não era um pecado que eu quero ter no meu currículo moral.
 A cria é do marido mesmo.
_Parabéns.
_Obrigada.
Ela veio me visitar após um breve sumiço e apareceu barriguda. Falou como tudo estava ótimo entre ela e o esposo. Vida de propaganda de café da manhã. Manteiga ou margarina? Não importa desde que se passado no pão fique cremoso. Cereais matinais com leite e achocolatado. Tudo vitaminado. E o açúcar industrializado? Tanto faz. Ela até parou de fumar. Nunca se sentiu tão contente. Nunca se sentiu tão bonita...
De fato, a gravidez torna as mulheres mais bonitas. Deve ser um recurso evolutivo. As fêmeas que ficavam mais bonitas eram melhores protegidas pelos machos, as que não se embelezavam pela gravidez pereciam abandonadas comendo restos com os cães e os genes naufragavam. Darwinismo de boteco.
_Sim, estou feliz.
_Se tá tão feliz, porque veio me ver?
_Eu disse que estou feliz, mas não satisfeita.
Então, despiu-se como sempre se despiu. Sem prosa. Silenciosa.
Toquei-lhe a barriga antes de qualquer lugar.  Para sentir o bebê. Fazer aquela coisa sagrada ser minha presa na arena de carne. Para desconsagrar. Desgraçar com minha desgraçada língua. Deixar um rastro de lesma com minha saliva.
Um beijo no filho que não era meu.
Depois tomei a mulher. Ela também não era minha e a possui como um ladrão o faz, sem, no entanto, a indelicadeza do bandido da luz vermelha... Lembrando-me de que ela seria mãe e que eu a comia de todo jeito. Do cu aos peitos. Fodia uma instituição basilar da sociedade ocidental. Um dinamiteiro a bombardear algum sítio burguês no final dos 1800. Vítimas fotografadas e reproduzidas milhares de vezes na impressão das páginas amarelas dos jornais.
Veio o gozo.
Bilateral.
Paramos. Houve, então, a muda conferência existencial pós-sexo, quando nada está sempre em pauta. Olhamos para o teto e os insetos no teto. Ela acendeu um cigarro. O fumo correu pelo organismo até ter um encontro peçonhento com o feto. Ninguém se importou com a nicotina e as substâncias nocivas na composição do cigarro, entre elas os gases tóxicos, os pesticidas e quarenta substâncias cancerígenas.
_Não vou voltar.
_Humm?
_É a última vez...
Uma dose cowboy, sem água, sem gelo, sem açúcar de culpa cristã. Começou a se vestir. Olhando para qualquer coisa, menos para mim.
_Duvido.
_Não aposte, cara! Vai perder!
_Tudo bem.
Saiu pela porta com um beijo no meu franco esquerdo. Não apostei. Devia ter apostado.
Passou uma estação. Tempo bastante para ela parir e andar por aí. Veio dar na minha porta com o pequeno no colo.
_Não é lindo?
Não. Cara de joelho. Se não é a porra hormonal da ocitocina...
_É, sim, lindo como a mãe. Está feliz?
_Estou.
Beijamos-nos. Ela segurando a criança, entre a pressão suave das nossas caixas torácicas.
Perguntei-lhe como foi o parto e como era o pequeno. Ela tagarelou como tagarelam as mulheres em matracas de felicidade sobre sua maternidade. Enquanto discorria sobre o que pariu, fui para trás, juntando o cabelo dela em rabo de cavalo e o colocando de lado, liberando a nuca para o assalto oscular.
_Satisfeita?
Nada disse e eu continuei beijando, pelo franco do rosto até o lóbulo da orelha, o qual mordisquei. Minha mão desceu no passo de aranha pela espinha até o cóccix. De repente, um sussurro... E o leite vazou, escorrendo em duas linhas onduladas pelo mamilo endurecido.
Desvencilhou-se.
_É hora de dar de mamar. Importa-se? É só um instantinho.
_Não. À vontade...
Afastei-me, um voyeur cansado do ménage a trois, para observar a consequência dos hormônios do amor. A ocitocina! Bendita ocitocina! Oh, adversária do cortisol! Anticristo do estresse! Cortesã da reprodução!  Um truque evolucionário do hipotálamo para não estrangularmos nossos filhos no primeiro choro. 
Ela pós o pequeno em posição, botou nu o mamilo que transbordara e menino tratou de seguir a natureza.
Vi o enlace da mãe e do filho e, encantado, aproximei-me.
O encanto em questão não era desses pasteurizados de rosadas fadas, Disney Copyright, onde se fica admirado com o mais tolo e mecânico ato prosaico. Era, na verdade, mais um bruxedo.
Sem avisar, sem pedir permissão, sem dar sinal, peguei o outro seio, que estava coberto, e com a mão forte o arrastei para fora da vestimenta.
_Hã, espera...
_ Cala a boca.
E tratei de mamar na teta capturada.
Veio o leite salgado e o gosto de lágrima não me agradou, mas a situação era melhor do que a refeição. A tensão permaneceu. Eu de um lado, a criança do outro. Nutrindo de nossa vaca, até que a mão dela, movida por aquela excitação secreta que as mulheres têm ao amamentar, tocou o regaço entre suas coxas e iniciou a dedilhada das cordas femininas. 
Não sei por quanto tempo o festim se dilatou, mas, nós, os três amantes, a mãe, o filho e o invasor, terminamos empatados em satisfação. E na vitória da quietude, durante a digestão, solapada pelo respirar do bebê, de repente, ela disse com uma ou outra nota de cólera em sua voz.
_Não volto nunca mais aqui, seu merda!
_Você toparia uma aposta sobre isso?
E, vendo-a se retirar em pé de guerra, sorri ao me lembra das anedotas dos velhos tios-avôs, que diziam que na roça havia infante alimentado no bico do seio até os seus sete anos.

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