sábado, 3 de maio de 2014

Invisível

André era o que se chama de repositor. Trabalhava no supermercado, obviamente, repondo produtos de consumo nas prateleiras. Já estava velho e o trabalho era de jovem, os quais riam dele pelas costas por não ser tão moço e estúpido como eles.
Para os novos de baixa renda, esse cansativo trabalho era a porta de entrada no mercado de trabalho. Para André, que já passou por tanta aventura trabalhista, agora era tudo ou nada, ter comida na mesa ou não. Por isso não se rendia a bagunça da molecada que se esmerava na feitura da mais desnecessária bobagem. Isto causava uma boa impressão à chefia, que era abalada pela falta de força física em relação aos seus colegas, alguns ainda frequentadores de academia mesmo após a labuta dura. O tempo conspirava contra sua carne e nada mais restava a fazer se não resistir à dor de cada dia com analgésicos de farmácia.
Sobre aquele que reposita: Este é um dos vários afazeres subalternos a possuírem o encanto de tornar imperceptível o labutador ao olho burguês. Faxineiro, segurança, porteiro, qualquer um desses cargos notadamente ocupados por indivíduos de fenótipo escuro e totalmente dispensáveis no grande plano das coisas ditadas pelo senso comum da tapa de cavalo.
O cliente entretido no equilíbrio entre escudar a integridade do orçamento familiar e ceder a luxuria do consumo não vê, sequer dá conta do esforço dos repositores em manter as prateleiras cheias e limpas (aparentemente). Simplesmente observa o preço, estende o braço, no máximo, compara mercadorias, põe ou não no carrinho e se retira.
Deve haver em algumas fantasias infantis enunciados aristotélicos em que óleos, macarrões, molhos de tomate brotam espontaneamente nas prateleiras. Quão surpreendente deve ser para o infante flagrar um estanho homem uniformizado trazendo produtos e atualizando as fileiras expostas! 
Se esse é um mistério para as crianças, o que se dirá dos segredos não revelados aos adultos? Que os produtos ficam armazenados em condições indignas muitas vezes fazendo sua validade se antecipar além do prazo na embalagem.Não raro, André encontrava uma lata de tomate estourada com uma nação de vermes a nadar em seu infinito carmesim, futuras baratas a correr com suas perninhas cheias de cerdas entre as guloseimas a nos dar água na boca...   E a sujeira dos produtos que mal eram limpos por paninhos com álcool? A urina dos ratos sempre presente anunciando o rastro do roedor. E, claro as prateleiras. O consumidor não está apto a ver a imundice pegajosa atrás de belas embalagens enfileiradas ou produtos vencidos e lixo enfiados atrás de rótulos sedutores. Ser repositor era arfar com peso e se sentir imundo durante oito horas, quando não mais.
Todavia, deixemos os sortilégios das grandes cadeias de consumo em paz e  toquemos em outras invisibilidades.
André se percebia um fantasma andando pelo corredor entre compradores de olhar perdido em si mesmo. Solitário entre os colegas de trabalho, notou-se assim também em relação aos  clientes, porém, quando um o parava para se informar sobre alguma coisa não era um alívio de ser reconhecido pelo outro, mas um mal a lhe cotucar a nuca.  O cliente pedia esclarecimento sobre um produto ou fato qualquer e a pergunta, quando não agressiva e nada urbana, era desesperada e ligeira, como se doesse falar com o empregado da loja. Se houvesse, muita informação a ser dada, o cliente saia, empurrando o carrinho, falando como se desculpando, fugindo de novo para sua segurança de não ver o quem era inferior a ele.
Esse encontro entre espíritos piorava o retorno à invisibilidade, o qual assumia contornos de uma prisão mais confortável, sensação demolidora para qualquer esperança de alteração.
Um dia, no entanto, André trombou com gente conhecida. Não, talvez conhecida. Um primo. Menino de 12 anos, com o qual nunca tivera contato e conhecera afinal na festa de família dias antes.
A família de André, do tempo antes de André, mas do pai de André, era pobre e solidária, trabalhou bastante e aí a geração de André veio ao mundo rica (remediada) e egocentrada. Menos o André, cuja morte prematura do pai quando cedo comprometeu sua entrada na classe média, pois parou de estudar para ser arrimo de sua mãe.
Ele ia às festas de família por respeito aos mais velhos, mas lá só cumprimentava a todos e depois se aninhava no seu canto sem falar com ninguém, pois a conversa entre os profissionais liberais de seu sangue, não devia, lógico, abrangê-lo.
_Oi, você não é o Victor?
O menino, o qual estava com roupa azul babaca de sua escola particular bem arrumadinha, constrangeu-se, estava tudo no rosto torto de um tímido nojo, e negou quem era. O peão, na melhor e na mais ingênua intenção, insistiu.
Veio do nada, no voo da harpia, a tia socorrer o pobre garoto assediado.
 Do outro lado da família de Victor e mulher de um arquiteto de muitas obras erguidas, com contatos na prefeitura, os quais lhes permitiam algumas jogadas imobiliárias e políticas valiosas, que talvez se desnudadas o ministério público interessar-se-ia em esmaga-las.
A mulher de permanentes caracóis louros na cabeça se postou ao lado do garoto e André também a reconheceu da mesma festa. Do alto de seu blasé, a dona positivou a negação.
Não era o Victor.
Ou, na verdade, era!
Era mesmo!
Poderia protestar, dizer que a criança era a porra do seu primo e que ele, o repositor, existia para ser reconhecido. Tanto no supermercado, quanto na festa, como em qualquer chão onde pusesse os pés. Mas o pagamento no final do mês e a paz com os patriarcas da família exigiram que André continuasse equivocado e Victor não fosse Victor.
André pediu desculpas pelo incômodo e sumiu em seu trabalho servil, entre frascos de vinagre e donas de casa com cara de cu a comprá-los, tendo uma pequena nuvem negra grávida de aversão a orbitar o crânio.
Noutro dia, semanas depois, num churrasco de outro primo, esses encontros familiares eram necessários para se emular uma vida social para a família, pois após casório e procriação já não mais interagiam com mais ninguém fora das ligações de sangue, André começou a peregrinação de cumprimentar quem não se interessava por ele, quando reencontrou o mesmo Victor que não era Victor.
André pensou em evitá-lo, porém queria ver a reação de seus olhos. Demonstrar-se-ia algum reflexo do encontro no mercado... Não demonstrou. Nada nos olhos. Só o aperto de mão mole e aquele ar irmanado nos parentes de puro tédio existencial (O que poderia levar algum filosofo a tecer  posteriores perguntas eugênicas sobre o tema).
 Além do pequeno, estava a tia que foi testemunha da confusão ontológica. Diferente do sobrinho, esta foi socialmente mais hábil, veio toda sorrisos, beijou o rosto como se o proletário lhe valesse algum vintém.
_Como vai o trabalho?
O... Trabalho?
_Vai bem. Vai bem...
Sorriu, deu um tchauzinho e foi contar vantagens dos últimos eletrodomésticos que comprou com as outras tias e primas, deixando o repositor sozinho.
André, nem chocado, nem conformado, nem revoltado, apenas absorto, de olhos arregalados, pegou uma cadeira e foi para o canto usar sua habilidade de se tornar invisível aos seus iguais, a qual, pela primeira vez em seus dias de miséria, viu como uma benção dada pela fatalidade.

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