André era o que se chama de
repositor. Trabalhava no supermercado, obviamente, repondo produtos de consumo
nas prateleiras. Já estava velho e o trabalho era de jovem, os quais riam dele
pelas costas por não ser tão moço e estúpido como eles.
Para os novos de baixa renda, esse
cansativo trabalho era a porta de entrada no mercado de trabalho. Para André,
que já passou por tanta aventura trabalhista, agora era tudo ou nada, ter
comida na mesa ou não. Por isso não se rendia a bagunça da molecada que se
esmerava na feitura da mais desnecessária bobagem. Isto causava uma boa
impressão à chefia, que era abalada pela falta de força física em relação aos
seus colegas, alguns ainda frequentadores de academia mesmo após a labuta dura.
O tempo conspirava contra sua carne e nada mais restava a fazer se não resistir
à dor de cada dia com analgésicos de farmácia.
Sobre aquele que reposita: Este é
um dos vários afazeres subalternos a possuírem o encanto de tornar
imperceptível o labutador ao olho burguês. Faxineiro, segurança, porteiro,
qualquer um desses cargos notadamente ocupados por indivíduos de fenótipo
escuro e totalmente dispensáveis no grande plano das coisas ditadas pelo senso
comum da tapa de cavalo.
O cliente entretido no equilíbrio
entre escudar a integridade do orçamento familiar e ceder a luxuria do consumo
não vê, sequer dá conta do esforço dos repositores em manter as prateleiras
cheias e limpas (aparentemente). Simplesmente observa o preço, estende o braço,
no máximo, compara mercadorias, põe ou não no carrinho e se retira.
Deve haver em algumas fantasias
infantis enunciados aristotélicos em que óleos, macarrões, molhos de tomate
brotam espontaneamente nas prateleiras. Quão surpreendente deve ser para o
infante flagrar um estanho homem uniformizado trazendo produtos e atualizando
as fileiras expostas!
Se esse é um mistério para as
crianças, o que se dirá dos segredos não revelados aos adultos? Que os produtos
ficam armazenados em condições indignas muitas vezes fazendo sua validade se
antecipar além do prazo na embalagem.Não raro, André encontrava uma lata de
tomate estourada com uma nação de vermes a nadar em seu infinito carmesim,
futuras baratas a correr com suas perninhas cheias de cerdas entre as
guloseimas a nos dar água na boca... E
a sujeira dos produtos que mal eram limpos por paninhos com álcool? A urina dos
ratos sempre presente anunciando o rastro do roedor. E, claro as prateleiras. O
consumidor não está apto a ver a imundice pegajosa atrás de belas embalagens
enfileiradas ou produtos vencidos e lixo enfiados atrás de rótulos sedutores.
Ser repositor era arfar com peso e se sentir imundo durante oito horas, quando
não mais.
Todavia, deixemos os sortilégios
das grandes cadeias de consumo em paz e
toquemos em outras invisibilidades.
André se percebia um fantasma
andando pelo corredor entre compradores de olhar perdido em si mesmo. Solitário
entre os colegas de trabalho, notou-se assim também em relação aos clientes, porém, quando um o parava para se
informar sobre alguma coisa não era um alívio de ser reconhecido pelo outro,
mas um mal a lhe cotucar a nuca. O
cliente pedia esclarecimento sobre um produto ou fato qualquer e a pergunta,
quando não agressiva e nada urbana, era desesperada e ligeira, como se doesse
falar com o empregado da loja. Se houvesse, muita informação a ser dada, o
cliente saia, empurrando o carrinho, falando como se desculpando, fugindo de
novo para sua segurança de não ver o quem era inferior a ele.
Esse encontro entre espíritos
piorava o retorno à invisibilidade, o qual assumia contornos de uma prisão mais
confortável, sensação demolidora para qualquer esperança de alteração.
Um dia, no entanto, André trombou
com gente conhecida. Não, talvez conhecida. Um primo. Menino de 12 anos, com o
qual nunca tivera contato e conhecera afinal na festa de família dias antes.
A família de André, do tempo antes
de André, mas do pai de André, era pobre e solidária, trabalhou bastante e aí a
geração de André veio ao mundo rica (remediada) e egocentrada. Menos o André,
cuja morte prematura do pai quando cedo comprometeu sua entrada na classe
média, pois parou de estudar para ser arrimo de sua mãe.
Ele ia às festas de família por
respeito aos mais velhos, mas lá só cumprimentava a todos e depois se aninhava
no seu canto sem falar com ninguém, pois a conversa entre os profissionais
liberais de seu sangue, não devia, lógico, abrangê-lo.
_Oi, você não é o Victor?
O menino, o qual estava com roupa
azul babaca de sua escola particular bem arrumadinha, constrangeu-se, estava
tudo no rosto torto de um tímido nojo, e negou quem era. O peão, na melhor e na
mais ingênua intenção, insistiu.
Veio do nada, no voo da harpia, a
tia socorrer o pobre garoto assediado.
Do outro lado da família de Victor e mulher de
um arquiteto de muitas obras erguidas, com contatos na prefeitura, os quais
lhes permitiam algumas jogadas imobiliárias e políticas valiosas, que talvez se
desnudadas o ministério público interessar-se-ia em esmaga-las.
A mulher de permanentes caracóis
louros na cabeça se postou ao lado do garoto e André também a reconheceu da
mesma festa. Do alto de seu blasé, a dona positivou a negação.
Não era o Victor.
Ou, na verdade, era!
Era mesmo!
Poderia protestar, dizer que a
criança era a porra do seu primo e que ele, o repositor, existia para ser reconhecido.
Tanto no supermercado, quanto na festa, como em qualquer chão onde pusesse os
pés. Mas o pagamento no final do mês e a paz com os patriarcas da família
exigiram que André continuasse equivocado e Victor não fosse Victor.
André pediu desculpas pelo
incômodo e sumiu em seu trabalho servil, entre frascos de vinagre e donas de
casa com cara de cu a comprá-los, tendo uma pequena nuvem negra grávida de
aversão a orbitar o crânio.
Noutro dia, semanas depois, num
churrasco de outro primo, esses encontros familiares eram necessários para se
emular uma vida social para a família, pois após casório e procriação já não
mais interagiam com mais ninguém fora das ligações de sangue, André começou a
peregrinação de cumprimentar quem não se interessava por ele, quando
reencontrou o mesmo Victor que não era Victor.
André pensou em evitá-lo, porém
queria ver a reação de seus olhos. Demonstrar-se-ia algum reflexo do encontro
no mercado... Não demonstrou. Nada nos olhos. Só o aperto de mão mole e aquele
ar irmanado nos parentes de puro tédio existencial (O que poderia levar algum
filosofo a tecer posteriores perguntas
eugênicas sobre o tema).
Além do pequeno, estava a tia que foi
testemunha da confusão ontológica. Diferente do sobrinho, esta foi socialmente
mais hábil, veio toda sorrisos, beijou o rosto como se o proletário lhe valesse
algum vintém.
_Como vai o trabalho?
O... Trabalho?
_Vai bem. Vai bem...
Sorriu, deu um tchauzinho e foi
contar vantagens dos últimos eletrodomésticos que comprou com as outras tias e primas,
deixando o repositor sozinho.
André, nem chocado, nem
conformado, nem revoltado, apenas absorto, de olhos arregalados, pegou uma
cadeira e foi para o canto usar sua habilidade de se tornar invisível aos seus
iguais, a qual, pela primeira vez em seus dias de miséria, viu como uma benção
dada pela fatalidade.
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