Atormentado por
ter olhado para trás, Orfeu se recusou a celebrar com as Mênades.
Aquelas cujo
cortejo com as feras e o vento seguia o vinho dançando e agitando ramos, nuas
ou pouco vestidas. Loucas putas bêbadas.
_Não festejarei
o bode preto, senhoras.
Enfureceram e o
esquartejaram!
A cabeça de
Orfeu, jogada ao mar, chegou até Lesbos. Lá, uma cripta foi erguida, onde uma
lira, em certas ocasiões, por quem ama demais é ouvida (Safo, dizem, ouviu mais
de uma vez).
Do resto, as
doidas devoraram sua carne. Uma jovenzinha, de um menstruar só, ficou com o
prêmio maior. Toda moleca, catou o membro do poeta e correu, exibindo o troféu.
Trepou num alto galho e devorou o suculento fruto, enquanto as outras
protestavam sua inveja.
Tal horror tocou
os deuses. E o coração do deus é tão perigoso quanto o do homem. Piedosos,
elevaram ao céu a lira de Orfeu e a fizeram constelação. Vingativos, puniram.
Moldaram tempestade em calmaria. Pés em raízes, mãos em galhos, cabelos em folhas,
pele em casca, sangue em seiva e carne em lenha. Cárcere de madeira. Tártaro
vegetal. Era a corte das Mênades agora um bosque de oliveiras.
O tormento era a
lembrança do movimento, restrita então à lenta mobilidade do crescimento.
O desespero dos
insetos carcomendo, do calor do verão, do frio do inverno, do corte do machado
e do galho quebrado. As feições se deformavam em dor, assombrando os enamorados
que iam a sua sombra, e de seu azeite, fazia-se veneno para enlouquecer.
O Tempo,
entretanto, sempre se enternece. Uma a uma, pelo vento, pela chuva, pelo fogo e
pelo raio, tombaram para liberdade dos espíritos, até sobrar a ultima, que
resistiu a tudo, apenas pela afronta. O flagelo não era mais prerrogativa do
verdugo e sim da vítima.
Ela persistia!
A condenada
alegava injustiça e inocência. Pedia coerência: Pune-se a fera por ser feroz?
Castiga-se a natureza? A planta perdeu os direitos de mulher. Exigiu reparação.
Justiça. Clamou pelo deus da verdade. Mas a verdade nunca é justa. Só é. Seu
protetor não veio. Não obstante, Dionísio, o deus que dança, mandou-lhe a
solução no torpor de um pastor.
Jovem, bonito e
estúpido.
Ignorava o conto
do castigo e foi pastorear suas cabras perto da árvore fêmea. Deitou-se sobre a
sombra de outra arvore qualquer, de modo a vigiar os animais, livre do sol. Viu
a árvore de cara amarrada. Parece uma megera. Riu e bebeu do vinho o qual
trouxe consigo. A bebida era vulgar na aurora. Agora, estranho, parecia... Dia
quente. Lugar seguro. Deixou-se ser indolente. Encanto do vinho, que evoluiu a
excelência. Bebia. Olhava para a oliveira.
Atentou ao
invisível.
Um vibrante
arcano.
Quis comer de
seus frutos arriscados. Depois quis mais riscos. Era uma bela árvore.
Finalmente, ébrio e solto, percebeu o tronco... Curvas e ancas.
(Safada, crescera
e se torcera para parecer formosa mulher).
Tocou doce a
face de madeira. Disse sincero. Se respirasse, seria a dama mais bonita... A
Mênade lascou. O furor se dissipou no vago rosto. Continuou a examina-la.
Foi atrás.
Encontrou.
A mutação poupou
a fenda de mulher.
Febril do vinho
transubstanciado em suco do deus em sua boca, tomou a árvore. Fez sua esposa.
Os galhos tremeram. Olivas e folhas caíram. No fim, o vento correu pelo esgar
que lembrava sua boca, simulando um feliz gemido.
O jovem
abandonou a família e foi morar sob a sombra de sua consorte. De onde vigiava
as cabras, expulsava suas pragas e se alimentava de seus frutos, então,
saudáveis.
Certo dia, algo
novo.
Duas grandes
vagens nasceram da Mênade. Arrebentaram. Explodiram. Seu teor fetal afundou na
terra e dela brotaram, firmes e gentis, um rapaz e uma moça, dos cabelos pretos
do pai e dos olhos verdes da mãe.
Um perfeito e
feliz arranjo familiar.
Um dia, porém,
veio a amarga seca.
O homem e os
filhos foram com as cabras em busca de verde, abandonando a pobre hera.
Magoada. Solitária. Nua de seu viço.
Não resistiu aos
avanços de uma víbora amante, que se esfregou sensual em seu tronco, invadiu o
regaço e fez ninho em deleite demorado.
Retornou a chuva
e o pastor.
Saudoso.
Pendular.
Quente.
Tomou-a.
Possuiu-a.
Gozou morte na
picada da áspide, abraçado à amada. O réptil deslizou. Fugiu.
Desgosto!
A Mênade se
ergueu.
Arrancou as
raízes do chão.
Tombou.
Findou.
Os filhos
chegaram apenas para salvar a semente final de sua mãe suicida, da qual tiraram
de seu útero de madeira - um macio ovo esmeraldino a ondular vivo.
Plantaram-no e
cuidaram até brotar e se erigir.
Uma árvore górgona...
Cujos galhos eram serpentes da mais terrível peçonha.
Uau!!!! isso ficou muito bom, cara!
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