quinta-feira, 19 de junho de 2014

A semente da serpente



Atormentado por ter olhado para trás, Orfeu se recusou a celebrar com as Mênades.
Aquelas cujo cortejo com as feras e o vento seguia o vinho dançando e agitando ramos, nuas ou pouco vestidas. Loucas putas bêbadas.
_Não festejarei o bode preto, senhoras.
Enfureceram e o esquartejaram!
A cabeça de Orfeu, jogada ao mar, chegou até Lesbos. Lá, uma cripta foi erguida, onde uma lira, em certas ocasiões, por quem ama demais é ouvida (Safo, dizem, ouviu mais de uma vez).
Do resto, as doidas devoraram sua carne. Uma jovenzinha, de um menstruar só, ficou com o prêmio maior. Toda moleca, catou o membro do poeta e correu, exibindo o troféu. Trepou num alto galho e devorou o suculento fruto, enquanto as outras protestavam sua inveja.
Tal horror tocou os deuses. E o coração do deus é tão perigoso quanto o do homem. Piedosos, elevaram ao céu a lira de Orfeu e a fizeram constelação. Vingativos, puniram. Moldaram tempestade em calmaria. Pés em raízes, mãos em galhos, cabelos em folhas, pele em casca, sangue em seiva e carne em lenha. Cárcere de madeira. Tártaro vegetal. Era a corte das Mênades agora um bosque de oliveiras.

O tormento era a lembrança do movimento, restrita então à lenta mobilidade do crescimento.
O desespero dos insetos carcomendo, do calor do verão, do frio do inverno, do corte do machado e do galho quebrado. As feições se deformavam em dor, assombrando os enamorados que iam a sua sombra, e de seu azeite, fazia-se veneno para enlouquecer.
O Tempo, entretanto, sempre se enternece. Uma a uma, pelo vento, pela chuva, pelo fogo e pelo raio, tombaram para liberdade dos espíritos, até sobrar a ultima, que resistiu a tudo, apenas pela afronta. O flagelo não era mais prerrogativa do verdugo e sim da vítima.
Ela persistia!
A condenada alegava injustiça e inocência. Pedia coerência: Pune-se a fera por ser feroz? Castiga-se a natureza? A planta perdeu os direitos de mulher. Exigiu reparação. Justiça. Clamou pelo deus da verdade. Mas a verdade nunca é justa. Só é. Seu protetor não veio. Não obstante, Dionísio, o deus que dança, mandou-lhe a solução no torpor de um pastor.

Jovem, bonito e estúpido.
Ignorava o conto do castigo e foi pastorear suas cabras perto da árvore fêmea. Deitou-se sobre a sombra de outra arvore qualquer, de modo a vigiar os animais, livre do sol. Viu a árvore de cara amarrada. Parece uma megera. Riu e bebeu do vinho o qual trouxe consigo. A bebida era vulgar na aurora. Agora, estranho, parecia... Dia quente. Lugar seguro. Deixou-se ser indolente. Encanto do vinho, que evoluiu a excelência. Bebia. Olhava para a oliveira.
Atentou ao invisível.
Um vibrante arcano.
Quis comer de seus frutos arriscados. Depois quis mais riscos. Era uma bela árvore. Finalmente, ébrio e solto, percebeu o tronco... Curvas e ancas.
(Safada, crescera e se torcera para parecer formosa mulher).
Tocou doce a face de madeira. Disse sincero. Se respirasse, seria a dama mais bonita... A Mênade lascou. O furor se dissipou no vago rosto. Continuou a examina-la.
Foi atrás.
Encontrou.
A mutação poupou a fenda de mulher.
Febril do vinho transubstanciado em suco do deus em sua boca, tomou a árvore. Fez sua esposa. Os galhos tremeram. Olivas e folhas caíram. No fim, o vento correu pelo esgar que lembrava sua boca, simulando um feliz gemido.

O jovem abandonou a família e foi morar sob a sombra de sua consorte. De onde vigiava as cabras, expulsava suas pragas e se alimentava de seus frutos, então, saudáveis.
Certo dia, algo novo.
Duas grandes vagens nasceram da Mênade. Arrebentaram. Explodiram. Seu teor fetal afundou na terra e dela brotaram, firmes e gentis, um rapaz e uma moça, dos cabelos pretos do pai e dos olhos verdes da mãe.
Um perfeito e feliz arranjo familiar.

Um dia, porém, veio a amarga seca.
O homem e os filhos foram com as cabras em busca de verde, abandonando a pobre hera. Magoada. Solitária. Nua de seu viço.
Não resistiu aos avanços de uma víbora amante, que se esfregou sensual em seu tronco, invadiu o regaço e fez ninho em deleite demorado.
Retornou a chuva e o pastor.
Saudoso.
Pendular.
Quente.
Tomou-a.
Possuiu-a.
Gozou morte na picada da áspide, abraçado à amada. O réptil deslizou. Fugiu.
Desgosto!
A Mênade se ergueu.
Arrancou as raízes do chão.
Tombou.
Findou.
Os filhos chegaram apenas para salvar a semente final de sua mãe suicida, da qual tiraram de seu útero de madeira - um macio ovo esmeraldino a ondular vivo. 
Plantaram-no e cuidaram até brotar e se erigir.
Uma árvore górgona...
Cujos galhos eram serpentes da mais terrível peçonha.

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