O
amante sentou no túmulo desconhecido e apoiou as mãos na bengala ao encarar
mais uma vez a porta do mausoléu da família Frutuoso. Teófilo Bandeira já não
mais vicejava a juventude, porém estava lá no cemitério à espera como ininterruptamente
esteve desde moço a aguardar seu amor ressurgir toda a noite desde que morrera.
Falemos do finado:
Carlos
Frutuoso não aguentou.
Sodomita
descoberto pela família!
Um primo, Reinaldo, contou ao pai com o gosto
doce da maldade em sua boca delatora (Reinaldo era um idiota). O malsim não se
escandalizou por Carlos se abrir em quartos imundos e receber um homem dentro
de si. Entregou-o apenas para vê-lo craquelado e desmoronar pedaço por pedaço
na sua frente. Pelo prazer mais puro e honesto que um homem mau teria! Tal qual
faz um infante com um invertebrado em suas mãozinhas.
A
verdade caiu como um trovão nos
ouvidos do Patriarca e reverberou
por toda a casa a balança-la espasmódica.
Discussão.
Agressão.
Expulsão.
O
pai catou o filho pelo pescoço e declarou com a ênfase tradicionalista que em
sua família não haveria invertido. Carlos o mirou com o olho roxo, colorido
pelo soco, e sabia que algo que mal existia, o tênue amor paternal, havia se
rompido, desintegrado e que a partir de então não restaria nada mais, além da
porta da rua, da miséria da sarjeta, da chacota do populacho e do terror do
desconhecido.
Andando
pelas vielas, tendo o chão como seu mirante, não tardou a escolher um destino
pessoal como rebeldia contra a anti-vida que em seu peito se fazia constrita. Apelou
para os últimos tostões no bolso e comprou uma corda, com a qual amarrou o
galho de uma sete-copas, cuja sombra era aprazível e fornecia guarida para
os cansados, e, sem se enrolar
muito, enforcou-se com pouca solenidade.
Nada espetaculoso, apenas um ranger, um
grunhido, um gozo e um mijo.
Ninguém pensou na Mandrágora, a qual brotara
anônima com sua raiz fetal sossegada, ninguém também ouviu o aviso que seria
prudente deixar a podridão decapitá-lo na própria forca para o morto não voltar
a fim de se vingar ou meramente importunar sentado na mesa de jantar a
tagarelar, sem restrições civilizadas, sobre as falhas morais dos familiares.
Disputaram-no,
na verdade. Primeiro, seu amor Teófilo, o qual retornara de viagem cuja dor
desnudou seu segredo uranista em choro para toda gente ver e condenar. Ele
mesmo o enterraria e zelaria por suas lembranças.
Contudo,
os pais culposos e com desejo de vingança contra quem seu filho amou, fizeram
valer a lei. Tomaram dele o direito do luto. Responsabilizaram-se pelos restos
de Carlos e os sepultaram no mausoléu dos Frutuosos.
E
lá teria ficado a se pulverizar pela passagem das eras se, em três dias depois,
gente morta sem sangue não começasse a aparecer aos montes pelos sítios ao
redor.
“Vampiro!”
Alertaram
os velhos em suas rugas a jazer nas bodegas, ensopados de cachaça e de
analfabeta sabedoria. Conforme se avaliou, Carlos seria o defunto indicado a se
procurar para benzer, estaquear, decapitar e queimar como demanda a cautela. Porém,
os Frutuosos, chocados com a violenta profilaxia, recusaram-se a cumpri-la e
mais mortes vieram à vista.
Antes
do povo se reunir para em bando ir aniquilar o morto-vivo, Teófilo, que
estudara sobre o tema do desmorto, se propôs na Câmara da Cidade a dar paz ao
antigo amante.
Isso
agradou ao povo, pois não só se livrariam da praga vampira, mas também veriam
um dos seus se redimir de sua temporária anormalidade.
Teófilo
foi a necrópoles, sozinho, ao anoitecer, e nos dias seguintes todo o povo
comemorou, pois ninguém mais morreu. Teófilo foi aclamado herói, com vinhos,
carnes assadas, danças e moças se oferecendo ao jovem matador de monstros. A
história teria terminado, se não houvesse mais a se desenrolar.
Acontece
que escondido Teófilo ainda ia ao cemitério, toda noite, pois havia um negócio
que não conhecia data para acabar. Ele aguardava, entre a bruma a se desfraldar
pelo chão, a porta do mausoléu se abrir e sair seu habitante, o qual não havia
destruído porque seu coração o deteve e o cérebro oferecera uma motejada
alternativa.
Deve
o morto-vivo se alimentar da força vital dos que respiram para poder caminhar
sobre terra. Normalmente se faz isso pelo sangue, mas há outros jeitos menos sabidos
pelos folhetins de contos de horror, os quais, no entanto, Teófilo conhecia por
seu empenho acadêmico nos tomos de bruxaria e de satanismo.
Teófilo
se ofereceu em holocausto pela salvação do povo e pela integridade de seu
amado. Todavia, o jovem era astuto e não se deixaria imolar ofertando o
pescoço, mesmo porque sua morte pouparia os outros das terríveis sangrias
apenas por uma noite.
Quando
Carlos, em sua roupa de enterro, aproximou-se flutuando na névoa para rasgar a
jugular de seu ex-amante, fazendo juras de amor e imortalidade, Teófilo abriu a
calça e exibiu o membro riste e o ofereceu ao espectro, que, nostálgico de seus
tempos de vida libertina ou faminto de prazeres vívidos para se contrapor ao
vazio da quase vida, ajoelhou- se frente
a sua vítima e a felou como fazia antes
de ter sua existência implodida pela
boataria.
Apesar
do incômodo que os dentes agudos e afiados proporcionavam à sua carne, Teófilo
fez-se firme até o fim. Quando sua semente satisfez o vampiro, este se recolheu
satisfeito por ter tomado um pouco de fluído da vida.
Assim
a Teófilo foi dado uma missão pelo universo, ou por sua mera vontade, salvar a pequena vila dos dentes do vampiro e
ao mesmo tempo acalmar seu amado em todo anoitecer.
Por
anos, ele foi diligente. Estava lá a alimentar Carlos com seu esperma, não
somente pela boca, mas pela pele do rosto e, também, grande descoberta, pelo vaso
traseiro, pelos quais era absorvido (Será que sangue também tinha essa
propriedade de absorção? Poderia um
vampiro sobreviver por enemas de sangue?).
Entretanto,
enquanto Carlos permanecia sempre jovem, Teófilo envelheceu e o Tempo como fez
com o Céu, cortou-lhe a potência e ele não mais poderia fornecer alimento para
seu amor soturno.
Na
noite exata em que sabia que não conseguiria nada, foi ao cemitério resolver o
impasse. E, como toda vez, esperou a porta da cripta se abrir. Carlos surgiu
sob a luz do luar. O vampiro correu até Teófilo e se ajoelhou quase da maneira
de uma criança faminta. Surpreendeu-se por não ver o membro de fora da calça, esperando
em prontidão para seus lábios pálidos.
_Desculpe-me.
Não consigo mais.
O
vampiro se levantou e encarou com seus olhos tristes.
_Por
favor! Senão serei obrigado a matar você.
Teófilo
pediu perdão outra vez e admitiu o seu egoísmo.
_Devia
ter lhe libertado antes, mas...
Ele
o amava demais.
Então,
antes do morto atacar o seu pescoço, o vivo tirou do bolso um punhado de arroz
e o jogou na frente da criatura, que se pós a contar lentamente grão por grão,
como exige a obseção dos vampiros por contagem, um transtorno obsessivo
compulsivo nato dessa espécie sobrenatural.
A
cada momento que Carlos se aproximava por terminar, Teófilo renovava com outra
carga de arroz e o vampiro recomeçava. Assim foi até o sol nascer.
Quando
a luz solar transformou demoradamente Carlos em cinzas, uma escultura de areia
se desmanchando na praia pelo bater das ondas, elas foram recolhidas entre
lágrimas de seu amante, naquele instante liberto e abandonado, e seladas numa
urna de fino marfim, a qual acompanhou Teófilo até término de seus dias.
amay!!!
ResponderExcluiradoreiiiii
ResponderExcluirComo sempre, surpreendente!
ResponderExcluirAmei.
Isso foi impressionante, primeira vez que leio um final redentor numa história sua, Jean (mentira, nas HQs do Belasco e do Olho que Tudo Vê tinham. Falei daqui do seu blog).
ResponderExcluirUma pena que de agora em diante irá soprar o vento negro da mudança, implacável, inclemente e inexorável... como o personagem do Lian Neeson no filme do Seth McFarlane (eu e minhas malditas referências obscuras e onanistas!)
Isso foi impressionante, primeira vez que leio um final redentor numa história sua, Jean (mentira, nas HQs do Belasco e do Olho que Tudo Vê tinham. Falei daqui do seu blog).
ResponderExcluirUma pena que de agora em diante irá soprar o vento negro da mudança, implacável, inclemente e inexorável... como o personagem do Lian Neeson no filme do Seth McFarlane (eu e minhas malditas referências obscuras e onanistas!)
Isso foi impressionante, primeira vez que leio um final redentor numa história sua, Jean (mentira, nas HQs do Belasco e do Olho que Tudo Vê tinham. Falei daqui do seu blog).
ResponderExcluirUma pena que de agora em diante irá soprar o vento negro da mudança, implacável, inclemente e inexorável... como o personagem do Lian Neeson no filme do Seth McFarlane (eu e minhas malditas referências obscuras e onanistas!)