domingo, 14 de dezembro de 2014

Pellot


Escuro.
O quarto escuro.
Anderson em sua caminha, protegido por um lençol de inúteis super-heróis estampados, olhava quase sem piscar para o nada sombrio.
Mesmo com nove anos, era conhecedor na medida de um homem de negócios experiente que o prazo estava a findar e que certa hipoteca seria cobrada. Tentou elaborar, numa inesperada perspectiva adulta, uma saída para o aliviar do peso rochoso no peito. Teria sido tudo uma fantasia própria das crianças!
Ele era uma criança e, lógico, inventara a trama toda!
Em vão.
Seus dentes, batendo um no outro, não se convenceram com a racionalidade do argumento.
Assim, libertando-se de todas as maduras ilusões, seus olhinhos castanhos perscrutaram a negra ausência a sua frente e ele, confiante da conclusão sobre o seu redor, soltou:
_Eu sei que você está aí.
Silêncio.
Esperança.
_Sim.
Sem esperança.
_Eu estou aqui, Anderson.
No ato da própria treva tomar forma, moldou-se uma mão mais escura que a noite, composta talvez de fumaça preta, fuligem e cinzas mortuárias. Como no ano passado, o dedo indicador foi apontado em riste para o garoto e ele pode ver a unha, a qual remetia a casca de um besouro necrófago.
_Você é um garoto inteligente. Sabe que eu vim fazer.
O menino cobriu o rosto com o lençol.
_Não é justo.
_Pelo contrário, é justíssimo! Não lhe dei o que queria? Seu papai e sua mamãe não pararam de brigar?
_Pararam...
_ Não ficaram menos no trabalho e mais com você?
O rosto do menino ressurgiu do tecido.
_Ficaram...
_ Não foi um ano maravilhoso?
Silêncio.
Anderson mordeu o polegar. Não sentiu o gosto da própria carne pois seus sentidos estavam narcotizados pelo medo. A saliva escorreu pelo dedo num rastro de lesma.
_Vou ver os meus pais de novo?
Os olhos do visitante se fizeram amarelos e hostis. O rosto revelado pela luz das órbitas era de uma beleza helénica, sim, este é um termo aplicável, mesmo ausente no tenro vocabulário de Anderson.
_Vou ver ...?
Os dentes quadradinhos também eram amarelos. No entanto, diferentes.  Dignos de um grande fumante canceroso. E podres. Muito, muito podres.
_Não.
O menino finalmente chorou.  Latiu. Ganiu como um cachorrinho apartado da mãe e de seu leite reconfortante.
_Nunca.
Solitário, a mais solitária das crianças, saltou da cama e, com os pequenos pés descalços, correu clamando pelos pais, crendo desesperadamente que os seus genitores poderiam desfazer o que foi feito.
Que poderiam protege-lo.
Que tudo ficaria bem.
Antes de chegar a misericordiosa maçaneta da porta, quão foi revelador sobre suas chances de salvação quando o abismo se abriu e o tragou sob terríveis e honestos gritos de horror.

Anderson se levantou e olhou onde para o rubi colossal a assombrar o céu amarelado. Estava cercado de horizontes infinitos por todos os lados, sob um crepúsculo o qual se anunciava eterno. A areia branca entrava por entre os dedinhos dos pés desnudos. Apesar da paisagem sugerir calor, a temperatura estava amena e um vento fresco o envolvia vez ou outra.
Anderson andou cambaleante por aquela solidão primeiro tentando se situar e, segundo, tentando vislumbrar uma fuga daquele lugar que era lugar nenhum.
Sua jornada não demorou muito, pois atrás dele, ecoavam passadas sobre a areia. Cascos negros afundavam no solo.
O menino se virou, novamente trêmulo, e viu seu perseguidor. Finalmente o contemplou por inteiro. Nu. Totalmente escuro, com um espinho emergindo ou olho se abrindo pelo tronco perfeito em termos clássicos, o demônio se postou diante de seu cativo.
_O que foi?
_Você me assusta.
_Tem medo de mim? Não se preocupe. Não mais me verá.
O alívio quase surgiu na expressão do menino, abatido pela ciência de que não estava mais em casa.
_Não verá mais ninguém.
Anderson não precisou aguçar a concentração para entender a última afirmação de Pellot.  A irrealidade da situação o tornava mentalmente mais ágil. Por isso, o pranto estampou a triste sabedoria em sua cara.
Pellot se vaporizou e foi levado pelo vento.
O garoto correu atrás da nuvem escura a se diluir aos bramidos.
_Não, volte!
Até tropeçar e comer um pouco de areia do chão.
_Não me deixe aqui sozinho! Por favor.
E a criança, ciente de sua perdição, chorou sozinha, como choraria para sempre.

Pellot segurou a pequena garrafa com a mão de betume e assistiu pelo vidro a alma de Anderson se esgoelar em seu inferno particular.
Satisfeito por uma mais um trabalho bem feito colocou o objeto de danação no espaço vago em uma de suas prateleiras, entre milhares de outras garrafas com milhares de outras almas de crianças condenadas.
Sentou-se, então, em uma cadeira e admirou a sua coleção.
 Ao lado de Anderson estava Tadeu, cujo pai o visitava toda a noite para fins lascivos. Ele vendera sua alma pelo fim daquele tormento e o seu pai ganhou uma singular impotência e um desejo repentino por trens de brinquedo. Um ano depois, prazo padrão que Pellot dá aos seus clientes, estava engarrafado também. Seu inferno era um quarto a noite onde recebia continuamente a visita de um senhor bestial o qual lembrava seu pai, especialmente nos hábitos carnais.
 Do outro lado, estava Lara, uma menina de rua que negociou com Pellot para que o esquadrão da morte de sua cidade na América–Latina não exterminasse seu grupo de meninos de rua, que era sua família. A camarilha de assassinos, composto de policiais pagos por comerciantes ávidos por vingança dos roubos diários, acabou se matando por desavenças relacionadas a times de futebol e o bando de Lara viveu. Um ano depois, dentro de sua garrafa, ela vivia soterrada por cadáveres de crianças, não importando para que lado se arrastasse, para cima ou para o lado, para a esquerda ou para direita, seu mundo era a escuridão do túmulo e do toque da carne fria.
Pellot, o demônio das crianças, estava satisfeito.
Um diabo de sucesso que chegou ao ponto alto em sua carreira de empreendedor demoníaco.
Era filho de uma pequena deusa doméstica da Mesopotâmia, que se mudou para o inferno judaico-cristão quando foi esquecida pelos seus adoradores, com um pequeno demônio atormentador, nativo do inferno e neto de um dos anjos caídos originais, a primeira geração do Reino de Lúcifer.
Começara pequeno, na posição de um simples legionário a soldo de sangue cristão do duque infernal Bellan. Foi durante guerra das Cordilheiras de Cal que viu a oportunidade de se especializar e enriquecer.
O inferno é o lugar da liberdade e da meritocracia, como vaticinaria Ronald Reagan, antes de ser confeccionado em camisa de vênus plus size para um Incubo de falo prodigioso, burgomestre da Vila  do Vale da Fossa de Bílis e das Paredes de  lâminas de barbear enferrujadas.
Notou que as almas de crianças arrastadas para o Avernos tinham um valor especial no mercado da Bolsa de Almas, seja pela qualidade intrínseca da alma pouco contaminada pelo mundo mundano, seja pela sua raridade.
Uma alma somente cai para o abismo infernal por se sentir culpada por seus atos em vida, sejam estes realmente pecados ou não (Sim, isso, para o desencanto de quem aposta na justiça cósmica, quer dizer que psicopatas padecendo no inferno são raríssimos) Esse tipo de culpa é rara em infantes, sendo melhor desenvolvida na adolescência. A maioria das crianças condenadas estão lá porque foram irradiadas pela culpa paterna e atraídas por eles quando morrem juntos para também sofrerem também juntos.
Pellot pensou “por que não compra-las?”.  A compra de almas é uma prática legítima na Criação, negociam-se almas todos dias, porém nunca ouvira falar de algum demônio que saísse por aí adquirindo almas de crianças. Bem, ele seria o primeiro.
Pediu dispensa das legiões de Bellan e se matriculou na escola de Comércio Infernal para estudar as legislações metafísicas e quando teve certeza que nenhuma lei entre as esferas o impediria em seu proposito, conseguiu licença de tráfico entre os planos e partiu para sua sina.
Sempre haverá crianças sofrendo pelo mundo e Pellot, o demônio das crianças, estará pronto para prestar seus serviços em troca de lícito  e reto pagamento.

Pellot se levantou e caminhou pelos corredores de estantes cravejadas de almas engarrafadas.  Sua fortuna já o tornara mais poderoso que muitos pequenos fidalgos do sofrimento. Poderia contratar espíritos mercenários e formar uma, até duas legiões e reivindicar algum título.
Não, legiões são necessárias por proteção, mas a ostentação de poder tão cedo assim atrairia a cobiça de certos senhores da guerra dos quais não poderia se defender se quisessem pilhar suas economias espirituais.
O melhor talvez seria se focar em seu novo projeto.
Pellot havia chegado em frente a sua piscina de fetos.
Espíritos ainda na gestação quando morreram e por isso se mantiveram na forma fetal.
Eles nadavam como peixes ornamentais numa piscina de água transparente.
Pellot esticou a mão, capturou algum anônimo e o observou tentando entender seu mistério.
Não é todo feto ou embrião que possui alma, pelo contrário, são poucos. As almas deles se projetavam na carne na hora do nascimento. No entanto, algumas incorporações já são precoces.
Entre estes, a maioria não vai parao inferno. Apenas alguns aparecem boiando no éter infernal como águas-vivas pedindo para serem pescadas.  São uma iguaria muita apreciada pela nobreza danada. Ele poderia vende-los a um valor altíssimo e quem sabe chegar ao alto círculo e ser convidado para corte de algum imperador.
Todavia, reunir essa pequena quantidade que sobrenadava em sua piscina foi vultuosa em recursos. Pellot teceu um plano ousado em sua cabeça para te rum acesso tão grande a esses manjares espirituais tanto quanto as crianças com quem negocia, sem dispor de tantos recursos quanto os que utilizou.
As mães.  Não poderia traficar a alma do filho com a mãe, no entanto poderia acessar o feto pelos sonhos da mãe e se tivesse uma alma lá poderia conversar...
Mas isso era para o futuro!
Pellot abocanhou o feto e o mastigou sem o menor recato, apreciando seu sabor inigualável. Amanhã, quando o defecar, ele será um espírito condenado qualquer de baixo valor comercial, mas naquela hora era o deleite em seu significado único.
Extasiado com seu luxo glutão, Pellot fez um gesto com as mãos sombrias e os lamentos das crianças nas garrafas puderam ser ouvidas pelas galerias de seu deposito, exaltando a beleza do comércio e da desolação.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Margarida


Ela diz que me ama.
Não duvido.
Ela me olha... Ela tem um nome: Margarida. Igual à flor. Igual a namorada eternamente nua da cintura para baixo do Pato Donald. Ela me olha com a verdade incômoda quando diz que me alberga em seu coração.
Todavia, isso não me comove e nem me constrange.
Eu, do gênero rufião, sei bem que ela, do gênero prostituto, não me ama pelo o que eu sou, mas pelo o que represento. Pelo poder o qual acha que, agora, eu concentro nas mãos, antes ociosas e que então apertam outras mãos, apêndices do Leviatã, que me ergueram sobre a multidão e me deram um oportuno e belo horizonte.
Margarida me beija e me suga. Dormita no mesmo leito segurando o meu membro na superstição de um talismã para bons sonhos. Mesmo assim, ela não é íntima.
Nunca chegou a mim.   
Às vezes, passo a mão em seu cabelo. Cafuné. O prazer do tato.  Ela o percebe. Lava-o com mais frequência e está perfeitamente perfumado. É claro que dedica esta esforçada toalete a mim.
Quão deve ser assombroso para seu cérebro dedicado ao destino burguês dos casais, quando eu mostro a tesoura a qual pertencia a minha finada mãe.
_Se me ama, deixei-me tosa-la.
_Meu cabelo...
Toquei-lhe numa mecha.
_Sim.
Seus olhos, tediosamente meigos, complexam-se em plena fúria indignada.
_Vai a merda!
Lacrimosa, Margarida toma a bolsa, estávamos no fundo, no quintal, pega o corredor e vai para a rua.  Tomo para a mim a percepção de que talvez nunca mais irei vê-la.  Pondero se isso será ruim ou não brincando com a tesoura. Cortando linhas imaginárias.
 Que tipo de felicidade ou não isso me trará?
Antes de qualquer iluminação, ela volta.
Sem lágrimas. De olhos negros fortes. Decidida.
_Corta.
Sentou na cadeira.
_Pode cortar.
Sorrindo, sem saber o motivo, seja o simplório sadismo, seja a descoberta de que ela possa estar de fato comigo, começo a arte do barbeiro enquanto Margarida vomita o silêncio.
Eu cinzelo o visual de penitente nela e teço novos planos de quando eu cavarei mais fundo, quando talvez urine sobre sua boca após ela me servir o saboroso vinho de mesa que sempre me traz ou tatue as mais mortificantes ofensas morais em sua pele de modo que  comprometa para sempre a sua  felicidade quando se despir na frente de um espelho.
Até ela quebrar.
Ou até eu amar.

domingo, 14 de setembro de 2014

A Herança do Unicórnio

Humilhado por sua essência se diluir no novo mundo a se desfraldar entre os crânios humanos, o unicórnio se lançou contra o filosofo, doutor em ciências da natureza (em cuja aventura se metera na brenha para capturar e classificar coleópteros e borboletas), com a sanha de que se empalasse o cientista com seu chifre perolado teria valido seu último suspiro antes de ser mortificado em mito, sem mais carne, sangue, cascos e olhos vítreos.
Todavia, o homem científico estava escoltado por soldados da República, que atiraram contra o alvo equino com espingardas de pederneira e o fuzilaram, tombando-o e gerando uma poça de sangue argênteo, na qual afundou a criatura para o terreno das quimeras, onde jaz seu destino na imaginação.
Correu em vão o filosofo para resgatar o maravilhoso cadáver. Nem uma amostra do fluído prateado conseguiu recolher, pois quando o corpo do unicórnio afundou, abriu-se um vórtice por onde toda a sua lembrança líquida ou não escorreu.
Toda? Nem toda! Um tiro fortuito partiu o chifre na fuzilaria e este se meteu no húmus negro da floresta. Recolhido por um soldado e dado para o filosofo, que o examinou toda a vida tentando compreender em seus poros a tessitura da fantasia.
O naturalista morreu sem saber o bastante para escrever qualquer revelação para seus iguais e deixou o chifre numa cúpula de vidro em seu gabinete, do qual tudo seria herdado por sua filha que ia e voltava do sanatório devido à histeria.
Certa noite, quando a loucura a acossava, rodeando pelos cantos, na mise-en-scène da raposa a caçar, o chifre cantou e pelos sussurros, que se alongavam o bastante para passar pelas frestas das paredes, prometeu-lhe a cura ditando seu próprio evangelho sensualista.
A filha do filósofo se fez crente na palavra da peça fraturada, desceu até o gabinete, tirou-a da cúpula transparente e a tomou para si, dando repouso em seu regaço. Conhecendo a paz, cometeu a mágica em toda noite, até quando percebera que o chifre a fertilizara e a inchara em proporções maternas.
Passado o tempo, pariu  um menino, meio gente, meio sonho, o qual aos 10 se fez mago das novelas de cavalaria e supercientista das histórias em quadrinhos e, aos 15, ditador benigno de toda a península, tendo como figura no seu estandarte a feição maravilhosa de seu pai.

sábado, 30 de agosto de 2014

O Vampiro de esperma II


O amante sentou no túmulo desconhecido e apoiou as mãos na bengala ao encarar mais uma vez a porta do mausoléu da família Frutuoso. Teófilo Bandeira já não mais vicejava a juventude, porém estava lá no cemitério à espera como ininterruptamente esteve desde moço a aguardar seu amor ressurgir toda a noite desde que morrera. Falemos do finado:

Carlos Frutuoso não aguentou.
Sodomita descoberto pela família!
 Um primo, Reinaldo, contou ao pai com o gosto doce da maldade em sua boca delatora (Reinaldo era um idiota). O malsim não se escandalizou por Carlos se abrir em quartos imundos e receber um homem dentro de si. Entregou-o apenas para vê-lo craquelado e desmoronar pedaço por pedaço na sua frente. Pelo prazer mais puro e honesto que um homem mau teria! Tal qual faz um infante com um invertebrado em suas mãozinhas.
A verdade caiu como um trovão nos  ouvidos  do Patriarca e reverberou por toda a casa a balança-la espasmódica.
Discussão.
Agressão.
Expulsão.
O pai catou o filho pelo pescoço e declarou com a ênfase tradicionalista que em sua família não haveria invertido. Carlos o mirou com o olho roxo, colorido pelo soco, e sabia que algo que mal existia, o tênue amor paternal, havia se rompido, desintegrado e que a partir de então não restaria nada mais, além da porta da rua, da miséria da sarjeta, da chacota do populacho e do terror do desconhecido.
Andando pelas vielas, tendo o chão como seu mirante, não tardou a escolher um destino pessoal como rebeldia contra a anti-vida que em seu peito se fazia constrita. Apelou para os últimos tostões no bolso e comprou uma corda, com a qual amarrou o galho de uma sete-copas, cuja sombra era aprazível e fornecia guarida para os  cansados, e, sem se enrolar muito,  enforcou-se com pouca solenidade.
 Nada espetaculoso, apenas um ranger, um grunhido, um gozo e um mijo.
 Ninguém pensou na Mandrágora, a qual brotara anônima com sua raiz fetal sossegada, ninguém também ouviu o aviso que seria prudente deixar a podridão decapitá-lo na própria forca para o morto não voltar a fim de se vingar ou meramente importunar sentado na mesa de jantar a tagarelar, sem restrições civilizadas, sobre as falhas morais dos familiares.
Disputaram-no, na verdade. Primeiro, seu amor Teófilo, o qual retornara de viagem cuja dor desnudou seu segredo uranista em choro para toda gente ver e condenar. Ele mesmo o enterraria e zelaria por suas lembranças.
Contudo, os pais culposos e com desejo de vingança contra quem seu filho amou, fizeram valer a lei. Tomaram dele o direito do luto. Responsabilizaram-se pelos restos de Carlos e os sepultaram no mausoléu dos Frutuosos.
E lá teria ficado a se pulverizar pela passagem das eras se, em três dias depois, gente morta sem sangue não começasse a aparecer aos montes pelos sítios ao redor.
“Vampiro!”
Alertaram os velhos em suas rugas a jazer nas bodegas, ensopados de cachaça e de analfabeta sabedoria. Conforme se avaliou, Carlos seria o defunto indicado a se procurar para benzer, estaquear, decapitar e queimar como demanda a cautela. Porém, os Frutuosos, chocados com a violenta profilaxia, recusaram-se a cumpri-la e mais mortes vieram à vista.
Antes do povo se reunir para em bando ir aniquilar o morto-vivo, Teófilo, que estudara sobre o tema do desmorto, se propôs na Câmara da Cidade a dar paz ao antigo amante.
Isso agradou ao povo, pois não só se livrariam da praga vampira, mas também veriam um dos seus se redimir de sua temporária anormalidade.
Teófilo foi a necrópoles, sozinho, ao anoitecer, e nos dias seguintes todo o povo comemorou, pois ninguém mais morreu. Teófilo foi aclamado herói, com vinhos, carnes assadas, danças e moças se oferecendo ao jovem matador de monstros. A história teria terminado, se não houvesse mais a se desenrolar.
Acontece que escondido Teófilo ainda ia ao cemitério, toda noite, pois havia um negócio que não conhecia data para acabar. Ele aguardava, entre a bruma a se desfraldar pelo chão, a porta do mausoléu se abrir e sair seu habitante, o qual não havia destruído porque seu coração o deteve e o cérebro oferecera uma motejada alternativa.
Deve o morto-vivo se alimentar da força vital dos que respiram para poder caminhar sobre terra. Normalmente se faz isso pelo sangue, mas há outros jeitos menos sabidos pelos folhetins de contos de horror, os quais, no entanto, Teófilo conhecia por seu empenho acadêmico nos tomos de bruxaria e de satanismo.
Teófilo se ofereceu em holocausto pela salvação do povo e pela integridade de seu amado. Todavia, o jovem era astuto e não se deixaria imolar ofertando o pescoço, mesmo porque sua morte pouparia os outros das terríveis sangrias apenas por uma noite. 
Quando Carlos, em sua roupa de enterro, aproximou-se flutuando na névoa para rasgar a jugular de seu ex-amante, fazendo juras de amor e imortalidade, Teófilo abriu a calça e exibiu o membro riste e o ofereceu ao espectro, que, nostálgico de seus tempos de vida libertina ou faminto de prazeres vívidos para se contrapor ao vazio  da quase vida, ajoelhou- se frente a sua  vítima e a felou como fazia antes de ter sua existência  implodida pela boataria.
Apesar do incômodo que os dentes agudos e afiados proporcionavam à sua carne, Teófilo fez-se firme até o fim. Quando sua semente satisfez o vampiro, este se recolheu satisfeito por ter tomado um pouco de fluído da vida.
Assim a Teófilo foi dado uma missão pelo universo, ou por sua  mera vontade,  salvar a pequena vila dos dentes do vampiro e ao mesmo tempo acalmar seu amado em todo anoitecer.
Por anos, ele foi diligente. Estava lá a alimentar Carlos com seu esperma, não somente pela boca, mas pela pele do rosto e, também, grande descoberta, pelo vaso traseiro, pelos quais era absorvido (Será que sangue também tinha essa propriedade de absorção? Poderia  um vampiro sobreviver por enemas de sangue?).  
Entretanto, enquanto Carlos permanecia sempre jovem, Teófilo envelheceu e o Tempo como fez com o Céu, cortou-lhe a potência e ele não mais poderia fornecer alimento para seu amor soturno.
Na noite exata em que sabia que não conseguiria nada, foi ao cemitério resolver o impasse. E, como toda vez, esperou a porta da cripta se abrir. Carlos surgiu sob a luz do luar. O vampiro correu até Teófilo e se ajoelhou quase da maneira de uma criança faminta. Surpreendeu-se por não ver o membro de fora da calça, esperando em prontidão para seus lábios pálidos.
_Desculpe-me. Não consigo mais.
O vampiro se levantou e encarou com seus olhos tristes.
_Por favor! Senão serei obrigado a matar você.
Teófilo pediu perdão outra vez e admitiu o seu egoísmo.
_Devia ter lhe libertado antes, mas...
Ele o amava demais.
Então, antes do morto atacar o seu pescoço, o vivo tirou do bolso um punhado de arroz e o jogou na frente da criatura, que se pós a contar lentamente grão por grão, como exige a obseção dos vampiros por contagem, um transtorno obsessivo compulsivo nato dessa espécie sobrenatural.
A cada momento que Carlos se aproximava por terminar, Teófilo renovava com outra carga de arroz e o vampiro recomeçava. Assim foi até o sol nascer.
Quando a luz solar transformou demoradamente Carlos em cinzas, uma escultura de areia se desmanchando na praia pelo bater das ondas, elas foram recolhidas entre lágrimas de seu amante, naquele instante liberto e abandonado, e seladas numa urna de fino marfim, a qual acompanhou Teófilo até término de seus dias.