Escuro.
O quarto escuro.
Anderson em sua caminha, protegido por um lençol de inúteis super-heróis
estampados, olhava quase sem piscar para o nada sombrio.
Mesmo com nove anos, era conhecedor na medida de um homem de negócios
experiente que o prazo estava a findar e que certa hipoteca seria cobrada. Tentou
elaborar, numa inesperada perspectiva adulta, uma saída para o aliviar do peso
rochoso no peito. Teria sido tudo uma fantasia própria das crianças!
Ele era uma criança e, lógico, inventara a trama toda!
Em vão.
Seus dentes, batendo um no outro, não se convenceram com a racionalidade
do argumento.
Assim, libertando-se de todas as maduras ilusões, seus olhinhos castanhos
perscrutaram a negra ausência a sua frente e ele, confiante da conclusão sobre
o seu redor, soltou:
_Eu sei que você está aí.
Silêncio.
Esperança.
_Sim.
Sem esperança.
_Eu estou aqui, Anderson.
No ato da própria treva tomar forma, moldou-se uma mão mais escura que a
noite, composta talvez de fumaça preta, fuligem e cinzas mortuárias. Como no
ano passado, o dedo indicador foi apontado em riste para o garoto e ele pode
ver a unha, a qual remetia a casca de um besouro necrófago.
_Você é um garoto inteligente. Sabe que eu vim fazer.
O menino cobriu o rosto com o lençol.
_Não é justo.
_Pelo contrário, é justíssimo! Não lhe dei o que queria? Seu papai e sua
mamãe não pararam de brigar?
_Pararam...
_ Não ficaram menos no trabalho e mais com você?
O rosto do menino ressurgiu do tecido.
_Ficaram...
_ Não foi um ano maravilhoso?
Silêncio.
Anderson mordeu o polegar. Não sentiu o gosto da própria carne pois seus
sentidos estavam narcotizados pelo medo. A saliva escorreu pelo dedo num rastro
de lesma.
_Vou ver os meus pais de novo?
Os olhos do visitante se fizeram amarelos e hostis. O rosto revelado pela
luz das órbitas era de uma beleza helénica, sim, este é um termo aplicável,
mesmo ausente no tenro vocabulário de Anderson.
_Vou ver ...?
Os dentes quadradinhos também eram amarelos. No entanto, diferentes. Dignos de um grande fumante canceroso. E
podres. Muito, muito podres.
_Não.
O menino finalmente chorou. Latiu.
Ganiu como um cachorrinho apartado da mãe e de seu leite reconfortante.
_Nunca.
Solitário, a mais solitária das crianças, saltou da cama e, com os
pequenos pés descalços, correu clamando pelos pais, crendo desesperadamente que
os seus genitores poderiam desfazer o que foi feito.
Que poderiam protege-lo.
Que tudo ficaria bem.
Antes de chegar a misericordiosa maçaneta da porta, quão foi revelador
sobre suas chances de salvação quando o abismo se abriu e o tragou sob
terríveis e honestos gritos de horror.
Anderson se levantou e olhou onde para o rubi colossal a assombrar o céu
amarelado. Estava cercado de horizontes infinitos por todos os lados, sob um
crepúsculo o qual se anunciava eterno. A areia branca entrava por entre os
dedinhos dos pés desnudos. Apesar da paisagem sugerir calor, a temperatura
estava amena e um vento fresco o envolvia vez ou outra.
Anderson andou cambaleante por aquela solidão primeiro tentando se situar
e, segundo, tentando vislumbrar uma fuga daquele lugar que era lugar nenhum.
Sua jornada não demorou muito, pois atrás dele, ecoavam passadas sobre a
areia. Cascos negros afundavam no solo.
O menino se virou, novamente trêmulo, e viu seu perseguidor. Finalmente o
contemplou por inteiro. Nu. Totalmente escuro, com um espinho emergindo ou olho
se abrindo pelo tronco perfeito em termos clássicos, o demônio se postou diante
de seu cativo.
_O que foi?
_Você me assusta.
_Tem medo de mim? Não se preocupe. Não mais me verá.
O alívio quase surgiu na expressão do menino, abatido pela ciência de que
não estava mais em casa.
_Não verá mais ninguém.
Anderson não precisou aguçar a concentração para entender a última
afirmação de Pellot. A irrealidade da
situação o tornava mentalmente mais ágil. Por isso, o pranto estampou a triste sabedoria
em sua cara.
Pellot se vaporizou e foi levado pelo vento.
O garoto correu atrás da nuvem escura a se diluir aos bramidos.
_Não, volte!
Até tropeçar e comer um pouco de areia do chão.
_Não me deixe aqui sozinho! Por favor.
E a criança, ciente de sua perdição, chorou sozinha, como choraria para
sempre.
Pellot segurou a pequena garrafa com a mão de betume e assistiu pelo
vidro a alma de Anderson se esgoelar em seu inferno particular.
Satisfeito por uma mais um trabalho bem feito colocou o objeto de danação
no espaço vago em uma de suas prateleiras, entre milhares de outras garrafas
com milhares de outras almas de crianças condenadas.
Sentou-se, então, em uma cadeira e admirou a sua coleção.
Ao lado de Anderson estava Tadeu,
cujo pai o visitava toda a noite para fins lascivos. Ele vendera sua alma pelo
fim daquele tormento e o seu pai ganhou uma singular impotência e um desejo
repentino por trens de brinquedo. Um ano depois, prazo padrão que Pellot dá aos
seus clientes, estava engarrafado também. Seu inferno era um quarto a noite
onde recebia continuamente a visita de um senhor bestial o qual lembrava seu
pai, especialmente nos hábitos carnais.
Do outro lado, estava Lara, uma
menina de rua que negociou com Pellot para que o esquadrão da morte de sua
cidade na América–Latina não exterminasse seu grupo de meninos de rua, que era
sua família. A camarilha de assassinos, composto de policiais pagos por
comerciantes ávidos por vingança dos roubos diários, acabou se matando por
desavenças relacionadas a times de futebol e o bando de Lara viveu. Um ano
depois, dentro de sua garrafa, ela vivia soterrada por cadáveres de crianças,
não importando para que lado se arrastasse, para cima ou para o lado, para a
esquerda ou para direita, seu mundo era a escuridão do túmulo e do toque da
carne fria.
Pellot, o demônio das crianças, estava satisfeito.
Um diabo de sucesso que chegou ao ponto alto em sua carreira de
empreendedor demoníaco.
Era filho de uma pequena deusa doméstica da Mesopotâmia, que se mudou
para o inferno judaico-cristão quando foi esquecida pelos seus adoradores, com
um pequeno demônio atormentador, nativo do inferno e neto de um dos anjos
caídos originais, a primeira geração do Reino de Lúcifer.
Começara pequeno, na posição de um simples legionário a soldo de sangue cristão
do duque infernal Bellan. Foi durante guerra das Cordilheiras de Cal que viu a
oportunidade de se especializar e enriquecer.
O inferno é o lugar da liberdade e da meritocracia, como vaticinaria
Ronald Reagan, antes de ser confeccionado em camisa de vênus plus size para um Incubo de falo
prodigioso, burgomestre da Vila do Vale
da Fossa de Bílis e das Paredes de lâminas de barbear enferrujadas.
Notou que as almas de crianças arrastadas para o Avernos tinham um valor
especial no mercado da Bolsa de Almas, seja pela qualidade intrínseca da alma
pouco contaminada pelo mundo mundano, seja pela sua raridade.
Uma alma somente cai para o abismo infernal por se sentir culpada por
seus atos em vida, sejam estes realmente pecados ou não (Sim, isso, para o
desencanto de quem aposta na justiça cósmica, quer dizer que psicopatas
padecendo no inferno são raríssimos) Esse tipo de culpa é rara em infantes,
sendo melhor desenvolvida na adolescência. A maioria das crianças condenadas
estão lá porque foram irradiadas pela culpa paterna e atraídas por eles quando
morrem juntos para também sofrerem também juntos.
Pellot pensou “por que não compra-las?”.
A compra de almas é uma prática legítima na Criação, negociam-se almas
todos dias, porém nunca ouvira falar de algum demônio que saísse por aí
adquirindo almas de crianças. Bem, ele seria o primeiro.
Pediu dispensa das legiões de Bellan e se matriculou na escola de
Comércio Infernal para estudar as legislações metafísicas e quando teve certeza
que nenhuma lei entre as esferas o impediria em seu proposito, conseguiu
licença de tráfico entre os planos e partiu para sua sina.
Sempre haverá crianças sofrendo pelo mundo e Pellot, o demônio das
crianças, estará pronto para prestar seus serviços em troca de lícito e reto pagamento.
Pellot se levantou e caminhou pelos corredores de estantes cravejadas de
almas engarrafadas. Sua fortuna já o
tornara mais poderoso que muitos pequenos fidalgos do sofrimento. Poderia
contratar espíritos mercenários e formar uma, até duas legiões e reivindicar
algum título.
Não, legiões são necessárias por proteção, mas a ostentação de poder tão
cedo assim atrairia a cobiça de certos senhores da guerra dos quais não poderia
se defender se quisessem pilhar suas economias espirituais.
O melhor talvez seria se focar em seu novo projeto.
Pellot havia chegado em frente a sua piscina de fetos.
Espíritos ainda na gestação quando morreram e por isso se mantiveram na
forma fetal.
Eles nadavam como peixes ornamentais numa piscina de água transparente.
Pellot esticou a mão, capturou algum anônimo e o observou tentando
entender seu mistério.
Não é todo feto ou embrião que possui alma, pelo contrário, são poucos.
As almas deles se projetavam na carne na hora do nascimento. No entanto,
algumas incorporações já são precoces.
Entre estes, a maioria não vai parao inferno. Apenas alguns aparecem
boiando no éter infernal como águas-vivas pedindo para serem pescadas. São uma iguaria muita apreciada pela nobreza
danada. Ele poderia vende-los a um valor altíssimo e quem sabe chegar ao alto
círculo e ser convidado para corte de algum imperador.
Todavia, reunir essa pequena quantidade que sobrenadava em sua piscina
foi vultuosa em recursos. Pellot teceu um plano ousado em sua cabeça para te
rum acesso tão grande a esses manjares espirituais tanto quanto as crianças com
quem negocia, sem dispor de tantos recursos quanto os que utilizou.
As mães. Não poderia traficar a
alma do filho com a mãe, no entanto poderia acessar o feto pelos sonhos da mãe
e se tivesse uma alma lá poderia conversar...
Mas isso era para o futuro!
Pellot abocanhou o feto e o mastigou sem o menor recato, apreciando seu
sabor inigualável. Amanhã, quando o defecar, ele será um espírito condenado
qualquer de baixo valor comercial, mas naquela hora era o deleite em seu
significado único.
Extasiado com seu luxo glutão, Pellot fez um gesto com as mãos sombrias e
os lamentos das crianças nas garrafas puderam ser ouvidas pelas galerias de seu
deposito, exaltando a beleza do comércio e da desolação.