terça-feira, 8 de abril de 2014

A Libertação de Daniel

A roupa era listrada.
(Realmente, passaria por um pijama...)
Convencia, todavia, não era verdadeira. Simulacro sob encomenda. Obra de um alfaiate acostumado a costurar figurinos para peças de teatro, filmes e comerciais. Daniel trouxe as fotos dos prisioneiros como exemplo. O velho judeu olhou silencioso as imagens. Suspirou. O pai dele morreu num desses matadouros. Daniel se juntou à narrativa:
_ Meu avô era um sobrevivente. Sempre contava de seu tempo no campo. Sempre...
Em todo encontro. Todo jantar. Toda data. Todo dia!
Era para não deslembrar. Esquecer como é difícil ser judeu. Ou para coçar uma maldita ferida que nunca se apaziguava. Daniel ouvia quieto, com os olhos pesados do avô sobre seu pequeno crânio infantil, enquanto, com a manga dobrada, o patriarca exibia a identificação numérica. Os cristãos não rememoravam o Judeu Eterno? Eis o certificado de vítima eterna.
_Qual?
A voz rouca resgatou Daniel de suas lembranças.
_Hã?
_ Em qual campo seu avô estava?
_ Treblinka.
_Papa morreu em Chełmno.
Pausa.
_É para que o uniforme?
_Para uma peça. Teatro.
_Respeitosa, espero.
_Totalmente.
_Passa segunda que vai tá pronta.
Daniel desceu a escadinha do predinho no Bexiga, lar dos  judeus pés-rapados, antipodes dos endinheirados  de Higienópolis onde morava, e entrou no carro de propriedade da empresa de seu pai.
Absorto.
A tatuagem no punho de seu avô.
O membro que um foi dia poderoso, pois quando jovem e cativo, o velho foi kapo. Liderou o comando de prisioneiros lenhadores, encarregados de desmatar os bosques circundantes ao campo. Ainda antes de morrer possuía no branco braço os traços titânicos de homem possante, naufragados na rosada flacidez aquosa.
Onde flutuavam os malditos números.
_Ô, filho da puta! O sinal abriu!
Desperto pelas buzinas e xingamentos, Daniel seguiu adiante erguendo o dedo médio.

Daniel passava as instruções ao zelador. A academia era sua responsabilidade agora. Haviam decidido o pai e os irmãos. Disseram:
_Você já é um homem feito, precisa aprender a cuidar dos negócios da família...
Negócios da família. Isso significa trabalhar finais de semana, esquentar a cabeça com números e lidar, droga, com gente...
Se dependesse de Daniel, ele venderia tudo e viveria de juros, aprenderia uma profissão útil como sapateiro ou carpinteiro e ia tentar ser gente.
O zelador era um maranhense. Aquele tipo de pessoa que trabalha muito e nunca aparenta estar cansado. Os familiares de Daniel gostam dele, mas nunca demonstraram. Mora nos fundos da academia com a família. Esposa, duas filhas adolescentes, um menino mais velho adotado...
Não.
O menino não estava mais lá. Parece que tentou violar uma das filhas. Coitada. História mundo cão. Perfeita para programas de televisão mundo cão. Mas não era assunto seu.
Não foram muitas as instruções a serem dadas. O zelador já sabia o que fazer. Era mais para demonstrar que ele, o novo chefe, conhecia suas obrigações e não poderia ser enganado.
 O novo administrador tentava aparentar ser rígido como seus irmãos, mas sem ser aquele tipo de cuzão que eles gostam de interpretar. Não sabe se estava conseguindo, mas tinha que falar todo o roteiro da peça  patrão versus eempregado.
Daniel palestrava para o empregado na frente da casa do zelador. Pela porta aberta, viu a menina mais velha. Aquela que teria sido quase violada. Ela o olhava com um indisfarçável desdém. Quase uma raiva. O que teria acontecido com irmão adotivo?
Quando terminou a entrevista, despediram-se. Daniel tomou o corredor. Por intuição, o rapaz se voltou e encostou o ouvido na porta, de onde ouviu:
_Judeu do caralho!
O zelador a repreendeu, relembrando de onde vinha o sustento da família. A menina cita a crucificação de Jesus e culpa os judeus como resposta. Pelo o que ouviu depois, Daniele concluiu que a menina havia se tornado uma crente fleumática, pois começou a profetizar desconexamente sobre celebridades televisivas. Quem morreria para pagar seus pecados. Quem se converteria e teria final feliz.
Aparentemente o irmão adotivo fez mesmo as vezes de Caim e deixou a sua marca na irmã.

O tatuador recomendou usar o filme plástico por três dias, mas dane-se se infeccionar. Esperou meses pela encomenda que veio da Tailândia, passando fora da alfândega para não dar buchicho e podia aguentar um dia. Podia. Mas não devia confiar na sorte.
Vai que o cara muda de cidade, ou muda de ponto, tem muito lugar pra trotuar hoje em dia, ou é preso por alguma merda.
Sobre essa gente não se sabe.
Pensou que podia importar alguém do sul, ou ele mesmo viajar, mas aí é se expor demais.
Retirou o filme que envolvia o pulso e viu que ela estava cicatrizada. Bom. Também se não estivesse...
_Dane-se!   

Na USP, Daniel estudava no prédio palaciano da FEA, mas gostava de ir mijar e cagar  no predinho de filosofia e sociologia, o coração da FFLCH. Não era pela limpeza. Os banheiros de lá eram imundos e fediam a urina. Os da FEA brilhavam e cheiravam a esterilização, que combinavam perfeitamente com o aspecto de Shopping Center de luxo que o prédio da instituição detinha. Fruto de doações de ex-alunos que se tornaram capitalistas poderosos,  mas mantinham um coração nostálgico e um apreço pelo desconto no imposto de renda. Não raro deviam constranger quem fosse lá excretar qualquer coisa e desdourar as paredes de porcelana daqueles vasos impecáveis.
Além da caminhada, o atrativo do banheiro filosófico estava realmente na decoração. Os banheiros humanistas eram todos pichados com mensagens pertencentes a três grupos distintos entre si: Esquerdistas de vários tons de vermelho e preto proclamando guerra contra as injustiças do mundo.  Propostas de encontros para coito homossexual, junto com telefones e desenhos de pintos diversos, porém sempre longos e possantes. E nazistas.
Aparentemente, proliferava um número não desprezível de neonazistas, antissemitas e racistas em geral, de vários sabores, a odiar pretos, nordestinos, orientais, etc., por aqueles corredores humanistas. Os intolerantes estudavam tanto na sociologia como na filosofia. Claro que na surdina, discretos, sem nunca revelar seus gostos eugênicos, pois, pelo menos sábios nesse quesito,  teriam que enfrentar uma maioria vermelha  ou, pelo menos, progressista, que lhes desceria o cacete até  o linchamento chegar ao estado da arte.
Daniel, lá mijava, cagava, ou ambos, e os admirava.
Cada palavra.

No espelho, viu a máquina desbastar os loiros cabelos encaracolados de querubim. Os cachos caiam um por um remetendo a obvia tosa de ovelha. Do carneiro tosado, nasceu o leão. Sem juba, seria uma leoa? O leão de Israel emasculado? Não, não era o que indicava na sua calça. Na sua pélvis. Sorte que o avental o oculta, se não ele teria que se explicar para o barbeiro.
Daniel coçou as cascas de ferida dos números de seu braço esquerdo.
Seu pai perguntaria por que raspou o cabelo. Sua vontade era de dizer:
_Virei skinhead, pai.
Só para ver a cara de bosta do pai.
Mas vai responder:
_É o calor. Melhor assim.
Sorte que morava num país tropical, abençoado por Deus, aquele mesmo todo-poderoso que meio século antes estava com os nazistas, conforme os escritos de seus cintos, Gott mit uns, quando o povo escolhido foi selecionado para virar mão de obra escrava e sabão não biodegradável.

_Será que o tio Max vai, pai?
_Ir aonde?
E mostrou a matéria no tablet sobre o bando de saudosos velhinhos senis e de variados tipos de sociopata com problemas de aprendizado os quais resolveram reeditar a Marcha da Família com Deus, cuja primeira versão cravou o selo de legitimidade ao Golpe Militar de 1964. Defendiam uma nova intervenção militar para salvar o país da corrupção, matar um monte de gente de quem não gostavam e ganhar um dinheiro fácil sem trabalhar com alguma boquinha parasitária no novo e radiante governo verde-oliva.
O pai engoliu o café com leite.
_E Tio Max por que ele iria?
Daniel passou margarina no pão e o mordiscou. Mastigou o pedaço. Depois falou.
_Ele não ganhou bastante dinheiro com a ditadura?
_Aff! De novo isso.
_É o que ele fala direto.
_ O tio tava bêbado! (pausa) E muita gente ganhou dinheiro...
De fato nas festinhas de família, o tio – avô de Daniel se reencostava na poltrona com o obvio copinho de uísque na mão e começava a contar dos bons tempos. Daniel fizera uma matéria optativa em dramaturgia na ECA, para refrescar a cabeça da economia, e lá ouviu que Dionísio era o deus da verdade. OK que ele era o deus do vinho e a preferência de tio Max era uísque, mas botemos um kilt na cintura e um chapéu de cowboy na cachola do deus grego que tudo se adéqua.
_Ele ficava falando direto de um tal de Albert, que  foi assassinado. Pareciam que eram bons amigos. Andei pesquisando... Maravilha a internet, não?
_E?
_Ele foi justiçado pelo pessoal da guerrilha, parecia que além de levantar caixa pra tortura...
O pai de Daniel abandonou a geleia importada.
_Tortura?
_Parece que o amigo do tio gostava de ver o pessoal tomar choque no saco. Será que o velho também...
_Chega! Não quero saber.
 _Um dia vou perguntar pro tio: Tio foi você que  deu choque  no saco do Raul Seixas?
_Vai nada. Eu te proíbo. Já me estragou o dia logo de manhã com essa história... Nem sabia que o Raul Seixas tinha sido torturado.
Os dois se quietaram. O pai tentou voltar a comer. O filho terminou o pão.
_Pelo menos, me deixa telefonar pra ele pra ver se quer ir na marcha.
_Daniel, pela amor de Deus! Como ele vai... Ele usa andador. Não dá...
_Eu acompanho. Vai ter um monte de gente da idade dele lá. Deve ter até o pelotão dos andadores ou a patrulha das cadeiras de roda...
_Não!
Mais uma vez o pai tentou voltar ao bendito café, mas desistiu, empurrou a comida e pegou o jornal. Estava de saída para a varanda quando o filho, sem mudar a expressão vazia o chamou.
_ O que foi agora?
_O Tio Max não passou pelos campos, não é?
_Não.  Meus avôs o conseguiram fazer passar pela fronteira. Por quê?
_ Nada. Só pensando que se ele tivesse isso...
Daniel mostrou os números tatuados no punho.
_Que merda é essa?
_Talvez ele não tivesse ganho tanto dinheiro quanto ganhou, não é.
O pai ignorou a questão levantada por Daniel e o interrogou, vermelho de braveza como uma pimenta ardida, sobre a tatuagem. Quase foi as vias de fato. Daniel sem se alterar explicou que não se tratava de uma brincadeira, mas de uma homenagem ao avô.
_Para não esquecer o holocausto.
Não esquecer o inesquecível.

Hoje é o dia.
(Daniel brincou:)
Dia D.
 (Apesar de que foram os Russos que mais campos libertaram.)
Porém, que esse seja o Dia D.
Ligou para o rapaz no apartamento da São João.
A família não sabia do apartamento. Não era pra saber. Um segredo para abrigar outros segredos.
Perguntou se estava tudo bem. Disse que podia se servir de qualquer coisa, pelo menos até se trocar. Era para se hidratar bem antes de se vestir, pois enquanto estiver arrumado para seu papel não consumiria mais nada.
_Entendido?
Não queria que derrubasse nada na roupa. Uma raridade...
Foi tiro no escuro dar a chave do apartamento para ele. Roleta Russa. Será que esse filho da puta iria roubá-lo? Tantos casos que terminam mal... Claro que Daniel vai tomar a chave de volta quando tudo terminar e também não irá se esquivar de trocar a fechadura assim que puder.
O jovem judeu estava obviamente nervoso, entretanto, estacionou o carro no seu espaço na garagem sem fazer nenhuma barbeiragem. Na hora, cogitou em subir pela escada, mas o apartamento ficava no décimo segundo andar. Prédio velho, milagre o elevador estar funcionando. Imaginou que grande merda seria se o elevador parasse e ele ficasse preso justo nessa noite.
Contudo, o elevador não apresentou problemas. Chegou são e salvo no seu andar, passou pelos corredores com várias portas de madeira, aquele visual antigo de anos remotos, e colocou a chave na porta.
Era um apartamento pequeno, de classe média remediada de antigamente, dois quartos, sala e cozinha. Daniel poderia morar aí, bem diferente do apartamento de andar inteiro, onde mora com os pais. Os irmãos, cada um tem sua casa. Daniel foi ficando, cultivando certo desagrado entre os familiares por sua falta de iniciativa em fugir das asas paternas. Ele ainda iria morar sozinho. Talvez nesse ano ou no outro. Em outro lugar. Esse ficaria como investimento e, como dizem os moços de família que querem economizar com motéis, abatedouro.
Daniel entrou na sala. A luz estava acesa. A porta do quarto a direita estava fechada. O da esquerda aberta. Conforme combinado. Daniel entra no quarto à esquerda e se despe. Retira da maleta de executivo, 007, a roupa que parecia um pijama. Pensou em tomar banho, mas o suor daria, talvez, mais sustância a fantasia. Afinal, chuveiro para os prisioneiros significava outra coisa...
Daniel vestiu a roupa listrada. Calçou os sapatos e colocou o boné sobre a cabeça. Olhou para a estrela amarela em seu peito e por instantes ponderou que poderia ser um xerife de faroeste de comédia caído da cama para enfrentar um bandido o qual decidiu aprontar na alta madrugada, e imaginou uma cena azulada do estilo noite americana.  Não, ele enfrentaria o bandido, todavia não como um homem da lei do velho oeste faria.
Novamente se questionou se devia usar a estrela de Israel ou o triangulo rosa invertido. Considerou que a estrela era mais impactante. Talvez por estar mais no imaginário popular e, com certeza, por seus conflitos pessoais. O triangulo inverso remetia a um problema o qual nunca enfrentou de verdade, pois sempre se acomodou no armário com seus esqueletos.
Daniel ligou o celular. Do quarto ao lado, ouviu o outro aparelho tocar. O outro atendeu.
_Alô. Sou eu. Já estou aqui e estou pronto. E você, já se vestiu?
_Está tudo certo.
_O uniforme ficou bem?
_Você vai ver...
Saiu de seu quarto e foi ao outro. Tocou a maçaneta. Respirou fundo. Abriu a porta...
 E lá estava o oficial da Schutzstaffel, a SS, em seu uniforme negro, com quepe, botas e seus adornos de caveiras, com as mãos na cintura, esperando sua vítima.
Não. Não abriu alguma fenda temporal e o vilão histórico, um legítimo nazista alemão da força de segurança e extermino sob o comando do Reichsführer Heinrich Himmler, escapou para o nosso tempo, no lugar de fugir em um submarino para a Argentina ou Chile e contribuir no futuro para ditaduras vindouras.  Tratava-se de um prostituto, desses que se vendem pelas ruas da urbe, vestido com um legítimo traje escuro da sanha totalitarista do nacional-socialismo, escavado por Daniel nos mercados eletrônicos da internet profunda.
O michê é um moço que veio do sul do país, tentar a sorte com as mariconas de São Paulo e fazer um pé de meia. Se não abrisse a boca e soltasse seu português carregado de sotaque do Brasil meridional, passaria por um jovem alemão de olhar impertinente.
Daniel estava rondando o centro em busca de companhia sexual de aluguel, quando pela janela do carro, viu o viadinho fazendo ponto na praça cravejada de craqueiros. Chamou-o para conversar, pagou-lhe um lanche e fascinado por aquela brancura ariana que o faria de exemplo positivo em qualquer seminário de eugenia no começo do século XX, tratou de sabatiná-lo.
O michê contou que nasceu numa daquelas cidades de imigração alemã, onde o português era língua secundária em relação ao falar germânico. Os olhos verdes do judeu brilharam com a possibilidade dele ser descendente do pessoal que fez parte do Partido Nazista no Brasil, o maior do mundo fora da Alemanha, mas não perguntou isso logo de cara. Pelo nível intelectual rasteiro que o garoto demonstrava, talvez não soubesse dizer. Ou, se soubesse, talvez se ofendesse.  De toda forma, usou da linguagem universal: perguntou se queria um bom dinheiro. O puto, obviamente, se interessou.
Foram mais de um mês de instruções, preparações, como devia se portar, agir; Daniel sempre pagando, dando presentes, sustentou o seu aluguel num cortiço e ainda o adiantou por um bom tempo. Como o rapaz fosse uma noiva prometida, Daniel não o tocou, apesar dele se oferecer mais de uma vez, certamente em busca de mais agrados monetários. Também fez questão de não vê-lo vestido como queria até o grande dia. E finalmente o casamento chegou.
Estavam frente a frente o oficial da SS e o prisioneiro de roupa listrada. Como havia sido treinado, o nazista de faz de conta se aproximou do judeu de verdade e o esbofeteou.
Não foi um tabefe muito forte. Estava mais para um tapa de mulherzinha.  A despeito da parca potência, no entanto, Daniel se jogou no chão, com o rosto próximo às botas negras. O SS, então, moveu o pé para próximo do rosto do condenado. Este timidamente botou a língua para fora e começou a lambê-lo.
O michê totalitário sentou na cama, Daniel rastejou um tanto até alcança-lo e continuou a lustrar o calçado com a língua. Deu um trato nas duas botas, quando terminou, desamarrou os cadarços e experimentou a carne branca dos dedos, dos calcanhares, das batatas da perna  e até  do sabor exótico, algo meio queijo, da frieira que comia a carne entre os dedos.
Depois subiu pelas pernas como um gato escalando uma árvore, desatou o cinto e abriu a calça quando se assustou como se encontrasse no lugar do caralho uma víbora a gotejar peçonha.
-Porra!
_O que foi? Perguntou o facínora de mentirinha.
_Pelo amor de Deus! Me diga que  você teve fimose!
_Hã?
_Fimose, me diga, que  você teve fimose.
Não era nada disforme, na verdade, era um belo pinto, contudo, o cacete estava sem seu prepúcio. A lembrança da aliança do homem com Deus, se esse filho da puta fosse judeu seria o fim. Tudo o que planejou, seu grande momento iria escorrer pela sarjeta.
_Sim, tive fimose, sim!
_Quando cortou?
Num momento raro em sua vida, o michê fez uma escolha boa, no meio de tantas trapalhadas que o arremessaram para baixo. Cortaram sua pele peniana ao nascer, não porque era judeu também (seria uma coincidência de merda, não), mas por questões de limpeza. Então, mentiu.
_Aos 16.
Aliviado, Daniel retornou à mise-en-scène uranista e abocanhou o pedaço de carne desencapado e o felou como se faminto mamasse em uma teta bovina.  Agora, era só seguir o roteiro básico. Algumas agressões simbólicas, uns tapas e cusparadas na cara e o ato final: o empregado erótico jogar o patrão na cama de costas, rasgar os fundilhos das calças, sem problemas já que  o uniforme de prisioneiroera falso e podia ser destruído ao contrário do uniforme legítimo da SS, e sodomiza-lo,  montando em Daniel com a paixão de personagens bíblicos do primeiro testamento.
 A cada estocada, Daniel mordia seu punho, afundando os números de seu avô na marca de suas dentadas.
O teatro estava para terminar, entretanto, o putinho de roupas negras teve uma iniciativa que encantou Daniel. Prestes a ejacular tirou seu membro do rabo, desnudou-o da camisinha (Sexo seguro, sim, por que não?) e esporrou no chão. Depois catou o judeu pelo braço e o arrastou para baixo em direção àquela alva poça.
Daniel levou alguns segundos para processar a iniciativa de seu servo dominador, mas a ficha logo caiu e logo sorveu a porra dispensada como deliciosa guloseima.
Terminada a foda ditirâmbica, Daniel deitou extenuado na cama e se recolheu em posição fetal. O pseudototalitário também esfalfado foi se juntar ao seu contratante, mas este o deteve com a mão e se levantou.
Saiu do quarto, andando com a calça de fundilhos rasgado, exibindo o traseiro que foi fodido, e logo retornou com um maço de notas. O michê não creu na quantidade de dinheiro. Sabia que ia levar uma bolada, mas não tanto.
_Agora, tire o uniforme e pode ir.
O garoto de programa estava acostumado a frieza dos clientes após a transa, mas esperava mais entusiasmo do cliente dessa vez. Quer dizer, a foda foi perfeita... Já despido da indumentária e vestido em suas roupas de grife, que o próprio Daniel o presenteara e prestes a sair, perguntou, já prevendo que a fonte secara.
_ A gente se vê?
_ Claro.
Disse o empregador naquele tom que o rapaz já conhecia.  Acabou, pensou e saiu pela porta, para sua vida que a partir daquele instante nos escapa.
Daniel se livra da roupa de prisioneiro de campo de concentração e vai até a frente do espelho da penteadeira. Mirou-se e sorriu.
Apesar dos prazeres da humilhação e da penetração, ele ainda não ejaculara, então com o pau ereto novamente, masturbou-se.

Quando a fricção de suas falanges deu-lhe a erupção que faltara, ele colocou o punho na frente da cabeça circuncidada e viu a porra cobrir a numeração de seu avô, libertando-o daquela merda toda.

domingo, 16 de março de 2014

A Promiscuidade do Tempo



No círculo que é o tempo, o homem imortal se encontrou consigo mesmo, várias vezes sem entender que dividia o recinto com uma versão mais nova e mais velha de sua pessoa, a qual não reconhecia, pois ele evoluía junto com os mortais, encaixando- se entre os tempos que existiam, existem, existirão, a fim de pertencer ao mundo e não se perder na solidão que o perecimento dos outros acarreta àquele a persistir sobre os ossos alheios e ruínas enterradas por novas Babilônias e areias assombradas.
Ele, quando o cheiro do mamute ainda lhe era fresco, viu-se no bar subterrâneo onde era servido uísque traficado do Canadá, maldita lei seca, a contemplar seu próprio semblante do crânio ampliado, pois a cabeça humana cresceria eras vindouras, assim como os olhos ficariam enormes e o dedo mindinho cairia. Temeu-o, apesar da misteriosa familiaridade, pois era do momento do Homem quando cada espasmo  natural era um deus a rebentar seu humor contra o mundo e tentou ignorá-lo, como fazemos com aquilo que  nos  incomoda para que desapareça em virtude de nossa sorte.
Todavia, o homem a porvir para o caçador sorriu, contaminado por uma nostalgia esclarecedora pagou uma bebida a si mesmo, do passado, e puxou assunto, firmando-se um bate-papo, o que acalmou seu ser antecessor. A conversa veio, a conversa foi e a conversa virá e ambos, sobre o patrocínio de Narciso, enamoraram-se, terminando a madrugada do tempo num formidável coito anal. Autofágico.


domingo, 8 de dezembro de 2013

A Mão Materna.

Terra. Chão. Pó.  O Vermelho é fértil.
Céu.  O Azul talvez seja eterno.
Insulam-se vapores. Nuvens prateadas. A atmosfera é dialética.  Nuvens chumbadas, quase mais pesadas do que o ar. Relampeja! Troveja! Chove!
Nasce a poça. O terreno explode, bombardeado, metralhado por grossas e cristalinas gotas de água. Finda a precipitação, volta o império do silêncio e do não movimento.
A subversão da placidez acontece com poucas feras a voar e a rastejar e com as plantas elevando-se enamoradas pelo ardor solar, todavia, tolerável para a política da letargia ambiental .
Na bonança, no charco breve, antes da morte pela secura, em meio à água turva, emerge o movimento que irá abalar essa era de inatividade.
Emerge a mão.
Deitada como um sapo a se esquentar o dorso sob o sol, uma mão, possivelmente símia, altamente complexa com um polegar opositor desenvolvido, feito do mesmo barro que a circunda.  
No arrepio de uma aranha naufragada, falanges se articulam, mexem-se os dedos, a mão rasteja. Esmagada pela urgência, precisa agir antes que seu berço seque, a mão trabalha.
Molda a matéria úmida e gera sua oposição, a mão fraterna.
Mão esquerda recém-nascida, mão direita primogênita e progenitora. Amigas. Cúmplices. Amantes. Comunicam-se pelo tato, pela ponta dos  dedos conspiram. Orquestram o trabalho.
Forjam braços iguais. Uma para cada. Amparadas por eles, esculpem um tronco, perfeito e assexuado.
Para sustentá-lo, duas pernas e seus nobres primos, os pés, que enfrentariam as pedras e as sujeiras do mundo.
O corpo quase composto gera em suas artesãs um terror respeitoso, um momento hesitante antes da terminal tarefa. Superado, as mãos moldam a cabeça calva, a princípio sem inteligência até os olhos se abrirem e por suas órbitas ver o que o ser é.
Sendo, vê-se no mundo e se vê solitário e pleno. 
Antes de se levantar e de se fazer Bípede, sente-se grávido de devir e se fende em simetria, inventando dois gêneros (podia ter inventado mais, porém no gozo procrastinou), pois antes nada como eles havia e agora hão, condenados a saudade da unida nulidade.
Fêmea e macho, insatisfeitos para sempre por existirem distintos e afastados, contemplaram-se e, contaminados por uma  simpatia  atávica, fizeram brotar amizade inata.
Os amigos se erguem e trilham juntos um destino quase conhecido e quase construído, espalhando-se como hera invasora e moldando o globo como fizeram consigo.
Eras a frente, os filhos de suas conjunções nostálgicas, esquecidos do solitário parto no barro uterino, quando a lama se tornou carne por si e pela vontade de existir do que  não estava lá, e temendo a liberdade, a sapiência, tocar pelo seu suor a antiguidade das estrelas  e devassar com sua  fúria as profundezas ínferas, criariam, num tremor parvo, Deus.
Invejoso, falho e absoluto, Deus.
Com o qual comungariam a ignorância sobre a Mão Materna, crendo no criador perfeito e na humanidade, a cria inferior, tese blindada a qualquer antítese pela Fé de todos os devotos, terrenos, NÓS,  ou divino, ELE,  pois Deus precisa crer em sua  própria  mentira para vender sua  ideologia como o maior tartufo.
Assim, Jaz a humanidade, feita por si mesma, fugindo de si mesma com as mãos artesãs a segurar redes de pegar borboletas, correndo atrás de mariposas fantasmas.


domingo, 17 de novembro de 2013

Distópico


De repente, a utopia cedera à infâmia. O império ruíra. O inverno começara. Máfias e Ortodoxos assaltavam ao Estado tendo velhos e corrompidos generais como pontas de lança.
E o que antes era dado agora era cobrado.
Pela primeira vez, M teria que pagar pelo aquecimento. Ele possuía o valor para tanto. Porém, significava se amasiar com a fome pelos próximos meses. Se fosse só ele, a amante seria tolerável e na alcova se daria um jeito. Por acaso, seus ancestrais não passaram óleo de motor no pão e o comeram glutões enquanto resistiam ao invasor na marcha do Grande General Inverno?
Todavia, M não carregava sozinho a vida. A mulher morrera anos antes e as Graças lhe deixaram um filho como compensação pela perda da companheira. Um belo menino. Quatro invernos. Agora, corre o risco de conhecer intimamente o quinto.
O que escolher?
Gelar ou esfomear?
Tentou uma terceira via. Arrumou um bico depois do trabalho. Mesmo sendo burocrata do clero baixo, de mãos macias que só conheceram o papel e a tinta do carimbo, sabia soldar.
Coisa de pai para filho, o qual lhe mostrou como fazia com o maçarico, contando histórias de monumentos e armas grandes que fundira. Como a de um majestoso submarino que poderia trazer o fim do mundo a superfície e que patrulhou entre icebergs, protegendo a nação do mal que hoje assola a todos.  Se estivesse vivo, talvez seu pai perguntasse de que adiantou ter soldado as placas da poderosa nau? 
No entanto, como ele, havia muitos desesperados por aí, o que fez com o que angariava num mês mal dar para pagar a primeira semana de aquecimento.
Exausto e sem soluções, o diabo, sim, o diabo, sempre há um diabo e ele aproveita essas horas para aparecer, o diabo veio ter com M quando este chegou fraco do trabalho. Às 3 da madrugada, hora de vela, pentagrama e cabala.
Dessa vez, o demônio veio como o vizinho, F, um homem bonito e dono de um carro de linhas aerodinâmicas e vestes caras. Um novo rico, suspeitava-se, como de todos os outros, de riquezas ilícitas e pobretão de bom gosto.
Que aqui se saiba que o caráter demoníaco é somente uma metáfora para essa escrita, apesar de M, considerá-lo tão concreto quanto à maçaneta de sua porta.
F, atento as misérias e maravilhas da vida, havia notado o menino de M.
_Menino bonito.
_...
Um garoto rechonchudo de cabelos lisos pretos que tinha aquele olhar pidão dos quais os ciganos aproveitam em seus filhos para esmolar.
_ É, seu filho. Muito bonito.
 Vira-o quando o miúdo voltava da mulher gorda de inchadas e cartográficas pernas das  mil varizes que cuidava dele (e mais cinco seres pequenos e remelentos do mesmo quarteirão e disso tirava o sustento) e avaliou, como bom capitalista, as possibilidades de lucro. Diagnosticou positivamente essa adesão a um dos seus empreendimentos.
Quando um homem se interessa por uma cabra, fala com seu dono. Quando o moço quer tomar a moça para si, fala com a família. Certos comerciantes quando querem propõe negócios aos pais.
_Não!
Já falou de antemão antes de ouvir a reposta de sua oferta!
_Garanto! Pode ficar tranquilo.
O menino não perderia pedaço. Nem entenderia como ruim. Talvez achasse até divertido.  Uma brincadeira. Quem não gosta de brincar? Brincar sempre é bom.
Todavia, M não concordou com os sofismas e quase meteu o punho contra F.
(Só não o fez porque F era o demônio e o inferno que este lançaria sobre M era incógnito, apesar de correr rumores a que círculo infernal o propositor pertenceria)
F não se abalou. Estava acostumado nesse negócio com os colaterais. Disse que M poderia pensar e sumiu, talvez, num peido de enxofre.

M, ai, Deus, pensou.
Pelo menos agora havia Deus para se apegar. Aí, lembrou-se da época em que o deus estatal respondia ao seu chamado, ao contrário da deidade muda que prometia assombrar o mundo. Saudades do tempo que Deus estava proibido e se seus usuários se reuniam escondidos para adorá-lo como toxicômanos ou leitores de Bradbury. Hoje, celebra-se o demiurgo nome em meio aos sítios de luxo e de fome.
Irritou-se e se orgulhou de sua raiva.
Porém, as fantasias de dignidade se diluíram no frio da alta madrugada, abraçado ao seu pequeno e envolto em todos os cobertores e ácaros que encontrou no guarda-roupa.
Toda hora tocava a pele de seu filho para sentir se alguma febre brotara, mas, por sorte, sentia nada. A não ser a maciez da pele alva como a neve lá de fora.
M também sentiu a mão endurecer. Com algum esforço, os dedos se estalaram e o sangue circulou. Lembrou-se de um tio que perdera os dedos no frio trabalhando na industria  pesada no norte. Às vezes, ele bebia demais e contava como enfrentou a polícia num reboliço injusto que o meteram, que ele perdera os dedos para o alicate de um oficial, mas não perdera a compostura. Mentira. Perdeu um por um, erguendo oleodutos por entre montanhas. Se os procurar, quem sabe os ache?
Nada, sem febre, que parecia inevitável sua  vinda, até quando?
Medicamentos escasseavam.
Hospitais fechavam.
Remédios, antes vulgares a todo canto, agora escorriam para o mercado negro dos preços inflados e cruéis.
Fez um esforço para mover os seus pés. Quis tirar a meia, mas temeu vê-los pretos e mortos. Então, deixou-se em paz, na torcida que ao ignorá-los, eles não estariam condenados ao serrote. No, entanto, os dedos dos pés se mexeram e ele se aliviou ao saber que amanhã conseguiria trabalhar.
Assim, não podia ficar. Uma hora assalta a gripe e um febrão basta para levar quem está em nos braços do pai à mãe que está do outro lado.
Então, M pensou de novo. Irritou-se novamente.
E dessa vez não se orgulhou.

Noutro dia, M não foi trabalhar e nem fazer bico. Estava no apartamento de F, com boa calefação e móveis pessimamente coloridos. O lugar remetia a uma propaganda de refrigerante de laranja. Ou limão.
_Não se preocupe se ele colocar na boca. Eu mesmo esterilizei.
M não respirava.
Justificava-se.
_ Não tenha pressa, meu amigo. Tirei o dia só para isso.
Havia ironia. Não havia ironia. Havia ameaça? Importa, agora? E F arrumou a câmera que iria captar ao vivo o que adviria naquela sala cítrica, sobre o tapete cor de tangerina e entre os sofás verdejantes e transmitir por um criptograma de endereços secretos a computadores do velho ao novíssimo mundo.
M  não havendo o que mais se justificar e vendo o demônio paciente, sendo incapaz de fugir novamente para seu purgatório gelado, engoliu alguma coisa e soltou:
_Filho! Vem... Vem brincar na sala do tio F.
 O filho de M entrou nu pela sala. Sentou desleixadamente naquele maldito tapete e brincou com um colorido falo de silicone, fazendo dele em sua imaginação uma nave espacial.


domingo, 1 de setembro de 2013

O Conjurador


Veja! Atente! Atine para a coruja a observar tudo dentro do cesto do conjurador!  Aos pés do mágico, não deixe escapar da sua vista, ora, um pequeno cão levado, ora, um macaco de rabo, ora qualquer outra coisa nanica, mas sempre em trajes de bobo a gracejar! Seriam familiares a serviço do mago? Quem sabe?

(O conto não é tão explicativo assim, então fique você com essa dúvida).

No domingo, após a missa, na praça, onde toda a gente se reúne, no mercado, onde os negócios são feitos, o conjurador, recém-chegado esta manhã como uma brisa, gesticula e – obviamente - conjura.
O bruxo materializa sapos na boca de um burguês.
 O descrente vendedor de tecidos riu do poder mago, de seu aro de bronze, de seus copos de cobre, de seu tabuleiro de carvão e de sua mesa de madeira. O batráquio pula e pousa sobre ela, estacionando e esperando ordem. Um segundo anfíbio já é parido pela boca do arrogante e está a ensaiar entre os dentes sua liberdade.
Aqueles que observam, o povo da vila e da roça, são vários e muito é o que acontece em seus corações. A alguns falta o interesse. Outros se fascinam. A criança ao lado do vomitador de sapos se extasia.

(Se a boa mãe do menino abobado com o feito estivesse por perto, talvez temesse que ele fosse garfado pela magia. Pelo mal. Pelo Cão. Que o miúdo se afastasse das rezas e das bênçãos e se seduzisse pela mandraca. Mas a mulher está do outro lado da praça, na Igreja. No canto escuro do braço norte do transepto. Dando sua vulva para língua do vizinho. Então o menino está livre para escolher entre céu e o inferno. Ou nenhum dos dois.)

Enquanto todos olham para o milagre oral da patética vítima, ninguém nota - ou se alguém percebe se faz de mudo - um homem aparece atrás do enfeitiçado. E olhando para céus, como se orasse com horror para se precaver de diabruras, está ao mesmo tempo, retirando do cinto do encantado a algibeira carregada.
Após expurgar a última criatura, o burguês humilhado corre, entre as risadas da multidão, para a igreja a fim de se benzer. O mago, vaticinando a ira do padre e a punição da milícia recolhe suas coisas enfiando tudo em seus bolsos infinitos.

(Espere. Como? E a mesa de madeira maciça? Bolsos infinitos são dimensões compactas onde cabe facilmente uma casa.  O que se dirá de uma mesa?)

O punguista comparsa e seu sócio de conjuros se encontram fora da vila, no fim do dia. Tomam a estrada para longe de seu público. Já na penumbra noturna, em frente à crepitante fogueira, dividem as moedas dadas e furtadas.
Mais uma vez pergunta o batedor de carteiras:
_Por que obrigar os tolos vomitarem sapos ou invés de fazer alguém cuspir peças de ouro?
E responde, também mais uma vez, o feiticeiro entediado:
_Por que furtar se você pode trabalhar honestamente?
De outra, o ladrão se silenciou diante da filosofia do mago, mas pensou e pensou e se encontra agora armado para o debate.
_Por que é mais fácil.  Com pouco esforço se faz muitas moedas.
_Só isso?
_E há o prazer do medo... Do medo de ser pego... e ser mandado ao pelourinho onde o chicote estrala e os dedos se quebram.
_Hummm...
A coruja que estava na cesta do mago jaz sobre uma árvore, talvez em vigilância para seu mestre. 
_E você? Por que não produz ouro como produz sapos?
_Pelos mesmos motivos.
O ora, cachorro, ora, macaco, então uma cobra que se liberta dos trajes bobo escorregando por entre eles, e se  enrola na carinhosamente perna do feiticeiro.
_ É mais fácil fazer seres vivos do que coisas inanimadas?
_ É.
_Mas não há razão nisso.
_ Se houvesse, não seria mágica.
O ladrão toma um naco de carne do coelho a assar sobre o fogo. Mastiga o pedaço torrado e, ainda de boca cheia, volta a conversa, limpando a gordura em sua roupa.
_E o medo?
_ O evito.
_Então, fazer ouro o apavora?
_Não traz bem consigo a riqueza trazida diretamente pela mágica. Por isso faço magia honestamente, enquanto você toma a bolsa das pessoas.
_E roubar com a ajuda da mágica, traz menos mal?
_Sim.
O malandro põe seus punhos na cintura teatralizando sua indignação.
_Mas, bosta, não há sentido nisso!
_Se quer razão ou sentido pergunte a um sábio. De um mágico não ouvirá.
_Você é um idiota!
_Não, idiotas são bruxos que cultivam a magia no mundo dentro de si.  Os magos são idiotas que a exibem para os olhos do nosso mundo.
_Chega de me tomar por parvo, vou dormir.
Vira-se o vigarista, aninha-se e, logo, ronca. O místico tira um cachimbo de pito de um de seus bolsos infinitos e fuma auspicioso. Então, aproxima-se do ladrão e diz sem despertá-lo:
_ Aproveite! Um dia, os sábios prenderão a ambos, os mágicos e os idiotas, e nos curarão de nossa magia e de nossa idiotice.
O mago solta uma baforada de muita fumaça azulada na face do punguista adormecido.
_Até lá, você pode sonhar com a cidade dourada ou um império de rubis ou o que quiser...
E, no sonho, o bandido é um rei vestido de prata num palácio entre o Sol e as nuvens, cercado por manjares perfumados e jovens dançarinas que o entretém com seus umbigos tremulantes, adornados com brincos de pedras de brilho estelar.

sábado, 3 de agosto de 2013

Foda Fluvial

A filha do pescador perdeu o cabaço antes de morrer.
Foi numa festa de ralar o bucho, um baile de comemorar não – sei – o – que.
O culpado teria sido um vampiresco camarada de belo chapéu de feltro, jamais visto antes na  vila, a não ser momentos anteriores, caminhando pela prainha, todo majestoso,  como se o lugar fosse seu.
No baile, ele a escolheu e a retirou do seu canto, onde se escondia do mundo. Bailou com uma habilidade tão boa e experiente que emprestou desenvoltura para filha do pescador, a qual nunca havia dançado antes nessa vida, para não fazer feio.
Fizeram bonito e depois desapareceram, lá antes das  três da manhã.
Depois das três, a filha do pescador retornou a casa da família e dormiu sem dar um piu.
Uma febre terrível, então, a fez braseiro vivo e quando percebeu que já estava mais pra lá do que pra cá, confessou a mãe que se desencaminhara lá na orla da praia.
A mulher do pescador, emputecida pela puta da filha, só não a espancou porque logo após a confissão, como se aliviada de uma caganeira repremida, a pobre enferma se convulsionou  e suspirou para morrer tranquila.
A mãe ofendida, então, decidiu castigar e reparar.
Tomou um anzol curvo para peixe grande e um fio de aço quase inquebrantável e selou a buceta da filha, costurando os lábios vaginais numa nova virgindade.
A nova virgem morta pode então ser enterrada em solo cristão sem prejuízo para sua alma e para a honra  da família.
Todavia, antes da missa de sétimo dia, uma cheia atípica, fora de época e proporção, uma maré alienígena cobriu toda vila, inclusive a terra sagrada do cemitério. Passado um dia, o líquido retornou ao seu lugar, levando o corpo nu, como se tivesse sido parido de novo, da filha do pescador a deslizar sobre a água barrenta.
Seus familiares alarmados com a profanação trataram de pegar seus barcos e pescar o corpo da falecida, o qual  contemplaram após  inça-lo, a mãe que viu, havia sido profanado.
O fio de aço havia sido rompido e o regaço libertado.
Desencabaçada novamente, apostaram no arrepio as mulheres e os maridos da gente que mora na beira da margem, por um espectro safado!

O danado do espírito do rio.

terça-feira, 2 de julho de 2013

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Vadia

Eles se conheceram na internet.
Onde mais?
Magali, ah, Magali, com seus cabelos negros, com os pelos grossos de sua gente ancestral, os espanhóis, mais ainda se nos despencarmos na árvore genealógica, dos mouros de Andaluzia; Magali não saia de casa a não ser se a casa caísse, numa emergência, num susto, algo inesperado e absoluto. Até lá, antes disso, era retirada, cansada, desdenhosa, mimada, vivia da pensão do ex-marido, incrustada na cama, deitada, esparramada frente ao computador portátil, tanto tempo que já engordava, via-se uma pancinha no horizonte a ameaçar a beleza que um dia já lhe facilitou  muito a vida.
Marco era um nerd. Sem mais. Sem menos. Quem se importa?
Foi na sala de bate-papo. Sala sobre TV. Haviam se envolvido numa polemica sobre o lance de um seriado, o qual nascera entre outros usuários e os contaminaram como uma gargalha, quando um começa a rir e, de repente, todos no velório, até a viúva está rindo. Cada um deu pitaco e logo se enlaçara, na multidão de mensagens, um lero.
Começaram com discordância sobre se a tal série, extinta nesse ano, seria boa ou não. Ter-se-iam tornado inimigos virtuais... mortais porque suas opiniões sobre esse fragmento da trivialidade se chocavam como animais de chifres em peleja por alguma coisa instintiva, territorial, quando Marco soltou que apreciava outra série, cuja sobrevivência vicejava mais  uma  temporada na guerra da audiência.
Surpresa! Ela era também adepta do tal sitcom. A fraternidade posterior superou a inimizade inicial e ficaram amigos. Primeiro fofocavam sobre os personagens feito gente real que conheciam, e conheciam! Como não? Quase tão reais quanto pessoas de apertos de mãos firme! Combinavam apostas sobre os destinos das quimeras a cabo e riam juntos das piadas por elas interpretadas.
Num dia, como a morte vem para todos, veio o fim do tal programa. A atração não se sustentava, os executivos a mandaram para abate e anunciaram o último episódio. Tristes, confidenciaram um ao outro sua tristeza, fazendo-os íntimos em seu luto televisivo.
Traficaram informações sobre suas vidas. Inclusive fotos batidas por câmeras digitais plugadas nos computadores, depois foi um passo para a videoconferência diária e depois outro para um encontro... Real.
Sim, turbilhoaram os sentimentos, revelações, insatisfações, ela mais velha, experiente em muita coisa, por isso cansara e ficava em casa mesmo com o mundo rodando em torno dele mesmo e girando em torno de uma estrela a qual já foi deus fálico para muitos, ele não vivera quase nada, levou esmerado a vida vicária, filmes, seriados, games, livros, um quase cabaço, pois a mulher que ia comer só o chupou num carro e o deixou lamber, o que a surpreendeu pois ele era tão bom quando uma  lésbica rodada num convento, num reformatório ou num gineceu qualquer de uma revista ou filme pornô.
Marco queria tudo. Magali queria mais uma chance. Veio o sexo virtual. Ela viu o pênis em pixel do garoto muito antes de exibir os seios num movimento teatral quando se sentiu especial, sexualmente especial, em muito tempo.
Eles moravam em diferentes estados, não no fim do mundo cada um, mas de um para o outro era uma viagem maior do que ir a esquina ou  mesmo atravessar a cidade.
_Foda-se, disse Marco para si, sim ele falava sozinho quando estava só, como quando um personagem de cinema explica sobre si ou sobre a trama num solóquio para o público, disse foda-se vendo a conta no banco pelo sítio da instituição.
 Dava para viajar e viajou.
Chegou à estação. Ligou no celular.
Ela não viria apanhá-lo. Ele que andasse pelas ladeiras da cidade morros de névoa constante, carregando a mala pensou que poderia ser feito um belo filme de terror bem ali, algo britânico, tipo a Hammer, produtora de filme de terror dos 50,60 e 70, quando o Drácula se tornou satânico e sexual, que seduzia as vítimas, que comia as mulheres metidas em vestidos que favoreciam os seios e os pescoços, queria ser ele esse Drácula e carregar, sequestrar, uma dama gostosa para desgraçar seu corpo e sua alma.
Enfim, a casa.
Tava lá! Era um sobradinho pintado de azul. Nem feio, nem fofo. Uma casa.
Tocou a companhia.
Magali não desceu para atender. Quem abriu a porta foi a filha. Uma menina de 10 anos.
_Oi, Fernanda. Eu sou o Marco.
Eles já se conheciam de algumas videoconferências. Volta e meia, a menina aparecia curiosa sobre o amigo da mãe, seria um namorado?
_Eu sei, tio Marco, entra.
Tio Marco. Não tinha sobrinhos. Era estranho ser chamado de tio. Aliás, ser visto como adulto, mesmo por uma criança.
Fernanda deu a mão para Tio Marco e amos subiram a escada do sobrado. Ele encontrou a amada deitada no colchão inflável no meio da sala do segundo andar, com seu lap top, ainda acorrentada a internet.
_Oi, fez boa viagem?
Fechou a máquina.
_Seja bem vindo.
E estendeu a mão puxando-o para cama. Olharam-se. Se alguém os visse, perceberia certamente que queriam se beijar a exaustão.
Mas não na frente da menina.
_Querida, não quer ir brincar no seu quarto?
A menina sacou o ardor. Queria ficar de curiosa, mas sabia que se ficasse lá sobrando esse beijo não sairia naquele dia. E se foi.
E veio o beijo.
Fernanda, em seu quarto, folheando um gibi para meninas de sua idade, soube da chegada( porque um ar quente se moveu feito um diabo pela casa) e aí sorriu aprovando como se tivesse poderes para tal autoridade.

ELIPSE PASSAGEM DE TEMPO CINEMATOGRÁFICA CORTA PARA NOITE.

Ambos ainda no colchão inflável. Magali não levantou para nada. Pediu pizza e Fernanda foi buscar na porta. Se ela não tivesse mexido as pernas enquanto namoravam, talvez Marco cogitasse que a mulher fosse inválida. Comeram a pizza e viram novela. Juntinhos. De namorico.
O rapaz estava ansioso. Doido para a hora de dormir. Quando a menina iria para seu quarto e eles iriam para o da mulher, quando daria saída pelo tesão que martelava a bigorna dentro de si, como o alívio de não ser mais virgem de todo, quando se certificaria sua hombridade ao se aliviar entre as pernas de uma consorte.
A mulher era paciente. Gostava de admirar o desejo tremendo dentro do rapaz, em tocar o membro petrificado debaixo das cobertas enquanto a filha  brinca  no mesmo leito com uma boneca, a favorita dela.
Nisto, a menina larga o brinquedo e corre para o quarto da mãe. Eles aproveitam para dar uma bitoquinha que morre quando a pequena volta com um batom.
Fernanda usa um espelho de brinquedo e passa a pintura nos lábios, muito bem passado.
_Nossa, você já usa batom?
Disse Marco tentando ser amigável, mas sendo retardado como fazem os  adultos sem habilidade com os  pequenos
_A mãe deixa usar em casa.
_Você passa muito bem.
Magali interveio.
_Ela já sabe muito bem.
_ A mãe que ensinou.
_Ensinei bem, afinal é ela que me moqueia.
_Sério?
_Sim, lembra daqueles bustos da Barbie em que as crianças brincavam de maquiagem.
_Vagamente.
_Não é do seu tempo, né, criança? Bom, como não se acha mais desse busto por aí, deixei ela  treinar em mim. E ela virou uma maquiadora quase profissional.
_Ah, é!? Quero ver.
_Boa ideia! Querida, pega o estojo de maquiagem da mãe.
Fernanda foi e voltou.
_Tá aqui, ô!
_Maquia sua mãe  bem bonita, Fê.
Magali riu.
_Que foi?
_Não sou eu que vai ser maquiada.
A mãe começa a maquiar o surpreso Marco.
_Mas o que...?
_Shiii
_Mas, mãe, ele é menino.
_E daí?
_Tá.
A menina passou a lhe pintar a cara.
_Faz ele ficar bem bonito.
A menina realmente era boa, a pintura foi  se apossando da derme e o rosto do amante da mãe se emasculava e se afeminava. Indignado no começo, deixou-se levar, primeiro pela promessa de coito e segundo pela brincadeira.
_Pronto, mãe.
_Tá lindo!
Estava mesmo, numa prisão poderia conseguir muitos maços de cigarro.
E agora?
_Os brincos. Vai pegar os brincos da mãe.
_Mas ele não tem orelha furada.
_Pega os de pressão, então.
E lá foi ela correndo feito doída.
Magali beijou–o e sua boca saiu pintada também enquanto sua mão descia pelas costas até o traseiro.
Já se avistava a menina retornando quando a mulher enfiou o dedo no cu do moço que, surpreso e invadido, ele gemeu um tantinho até ser interrompido por um sussurro da violadora num ouvido enquanto a orelha oposta era adornada pela criança alheia a aquele drama de leve sodomia:
_Vadia...