O
Exilado
O homem alto entra na casa, tão comum como as outras
da outrora rua de classe média, cuja arquitetura simplória e bonitinha denuncia
a origem operária.
(Os yuppies trataram de valorizar artificialmente o
bairro, ao expulsar os antigos moradores da região que não podiam pagar mais os
alugueis. No entanto, o pêndulo vai e volta: a crise mundial fez os ex-abastados
serem despejados, deixando vários imóveis vazios e perfeitos para a invasão de
quem não tem teto, o que obrigou o seu preço a despencar e os tornou aptos para
compras de quem quer privacidade. Afinal, a vizinhança mais perigosa às vezes é
a mais tranquila.)
O sujeito é forte, não como um atleta saudável, mas
como um cara que pegou pesado desde criança junto a hábitos desaconselháveis. A
única coisa que o destoaria dos proletários grossos e broncos que labutam nas indústrias
próximas desse recanto decadente da cidade é a leveza perspicaz de seu olhar,
não tem aquela marra e nem aquela bronca de quem precisa suar para pagar as
contas do mês e acha que não vai dar, além, é claro, de possuir pontudas orelhas
de duende.
Aqui entra uma consideração: Ninguém apostaria nesse
bruto em jaqueta de couro, que qualquer rude boy cobiçaria, como um ser de
contos de fadas.
Ele carrega uma boneca cuja borracha pintada
passaria fácil por aquelas de porcelana colecionáveis a distância, a qual se
põe a protestar no esbravejo de uma puta do bulevar.
_Me solta, seu filho de uma cadela!
_Calma, que estamos quase chegando!
O brinquedo vivo morde sua mão. O homem sorri.
_Me agradar não vai mudar nada...
_ Já tinha sentido o cheiro! Agora com o gosto
confirmei! Você também é do inferno! Por que está fazendo isso? Aquela menina
era minha! Hoje ela ia abrir o forno e ligar o gás. A família toda morta e ela condenada!
Por quê?
_Tenho os meus motivos, babe.
O demônio de pele férrea e feições análogas ao canadense
gato sphynx subiu na ruína, uma coluna de tijolos nos restos de uma fábrica de
dor destruída durante uma das muitas e fúteis guerras entre a nobreza infernal
e convocou os irmãos da demonidade para ouvi-lo.
No principio apenas um ou outro passante se detinha para
escutar, logo eram mais de algumas dezenas. Em seguida, muitos, mas muitos
mesmo, abandonaram seus afazeres diabólicos e foram ver o que aquele diabo
peculiar protestava:
_Não há porque continuarmos com esse jogo com o
Paraíso, meus irmãos. Ao fazermos o inferno pulsar e moer as almas presas aqui,
damos sentido a Salvação e seguimos o papel de servos do Céu.
Um demônio prateado ergueu seu tentáculo.
_ O que devemos fazer? Render-nos aos anjos?
Uma mulher de cristal liso que destilava absinto
infernal em seu útero transparente pigarreou.
_ O que você espera com isso, querido? Voltar ao
céu?
_Senhora
Lua-Virginal-Que-Me-Corta, lembro-a que nunca conheci a casa de nosso
adversário. Nasci nos campos da danação, como a maioria aqui. Então, não quero
voltar a lugar nenhum, pois não há lugar
para voltar.
A criatura cristalina ainda não convencida insiste:
_ Então, o que você deseja insuflando a rebelião
entre seus filhos dos rebelados?
_O que Lúcifer queria ao erguer a cabeça. Liberdade.
Ele se detém diante de uma porta de metal rugoso,
entre a sala e cozinha. Toca com a palma da mão aonde deveria haver uma
maçaneta. Em seguida emerge outra mão com grandes unhas e toma a dele. Arrastado,
atravessa suavemente o metal como se fosse um miasma.
_Que porra de lugar é esse?
Um corredor amplo e profundo, a perder de vista, incapaz
de caber na casa na qual entrou. O teto é muito alto e comporta vários andares
com outras portas.
_Sabia que você é muito boca suja para uma
bonequinha adorável?
Ele abre uma das portas. É um quarto cheio de
bonecas empoeiradas.
_ Oi, pessoal. Trouxe uma nova amiguinha.
Ele a coloca num espaço vago, ao lado da outras.
_Ei! Não consigo me mexer!
_ É o metal do cofre.
Quem falou foi outra boneca. Em forma de bebê. Ela
tem uma fita no cabelo e roupas cor-de-rosa, mas a voz é de macho forte.
_Ele anula magia.
_Você é como eu!
_Que bom que já estão fazendo amizades. Podem botar
o papo em dia. Eu vou passar um café.
_Volta aqui, seu viado de merda!
Acorrentaram-no com uma liga adamantina e o levaram
ao palácio de gelo sulfuroso. Suas pupilas foram laceradas pela luz que provinha
das paredes alvas e ele ficou cego por alguns segundos até refazer seus olhos
com a qualidade necessária àquele ambiente.
Jogaram-no em meio ao salão principal, onde se
reunia a corte infernal para cuidar de festejos e burocracia. Ele sabia que não
estava lá para festas.
_É esse, meus senhores.
E o guarda com escorpiões cravados com pregos na
pele podre e se retirou respeitosamente.
_ E quem é esse que seus soldados trouxeram,
Belzebu?
Disse a figura da qual não se podia definir o sexo,
pois possuía ambos e possuía nenhum. Era bela como a vida e de si emanava luzes
capazes de competir com as chamas nucleares do Sol. Era lúcifer, levemente
intrigado.
Uma nuvem de moscas negras zumbiu um ruído que poderia
ser entendido assim:
_É o anarquista de quem falávamos, meu senhor.
_Oh! Você é aquele que quer acabar com a guerra com
o Nosso Criador?
O demônio prisioneiro encarou a corte infernal. Não
estava completa. Faltavam, como sempre, alguns príncipes, duques e marqueses.
_Pode falar. Nós permitimos.
_Falo o que o senhor bem sabe, majestade. A guerra
não possui sentido a não ser fortalecer o Paraíso. Ao alimentarmos o Inferno
com sofrimento, alimentamos o Céu com esperança. Os rios de lágrimas, sangue e
intestinos flutuantes, extraídos com nosso esforço dos condenados, apenas
servem para tornar mais suaves os regaços do jardim de nosso declarado inimigo.
Lúcifer sorriu e soltou uma risinha de vadia
indolente.
_E?
_Eu sou um demônio e sou terrível. Destrocei tantos
anjos e arcanjos quanto os príncipes dessa sala e tudo para o quê? Para que o
meu horror sem sentido fortalecesse a obra celestial!
_ Entendo. Orgulho.
_Entenda, Lorde Lúcifer se simplesmente pararmos com
a guerra, com a dor...
_Heresia!
Satã era um dos homens ferozes no seu canto escuro a
direita do trono de Lúcifer. Estava se apoiando no ombro de Baal, que também
feroz, usava cornos dourados. Satã avançou com a espada em punho.
_Dê-me esse filho da puta, Lúcifer.
O Senhor das Trevas mostrou-se entediado virando
seus olhos quase orientais.
_Satã, meu furioso, deixe o pequeno terminar.
Satã, fungando muito, retornou a companhia de Baal
em seu canto sombrio.
_ Se o Inferno parar, o Céu desmontará e nós
poderemos derrotá-los.
_Nós os derrotaremos com a imobilidade?
_S-sim.
_Então devemos nós adotar o pecado da preguiça como
nossa bandeira? Ou melhor, a procrastinação?
_Ou a luxuria _ Manifestou-se de novo a nuvem de
peste negra.
_Perdão, meu amável Belzebu?
_Longe de corrigi-lo, meu senhor, mas a imobilidade
também é uma luxuria.
_ De fato, o
prazer de não fazer.
_Um pecado capcioso. Lembro-me dos santos eremitas
dos desertos que imunes a todos os prazeres, caíram finalmente graças a esse
gozo que se aloja nas bordas da convicção do asceta.
_ Diga-me, pequeno demônio devemos parar o inferno, congelarmos-nos
na luxuria e ficarmos a mercê das espadas dos anjos e os cajados dos santos?
_Não! Os demônios poderão fazer outras coisas
diferentes do que estavam fazendo.
_E fariam o que? Tirar férias eternas? Navegar?
Cultivar flores? Criar galinhas?
_Qualquer coisa. Menos trabalhar para o inimigo.
_Não. Nós dizemos não. Um demônio deve ser o que é.
Um demônio. Nada mais.
_Mas...
_Basta. E nós não permitiremos que você subverta
esse sistema tão simples e eficaz. Você pode escolher: Ou declina de sua
campanha e recebe uma punição de alguns poucos milhares de anos ou conhecerá a
destruição absoluta, ah, você sabe como é.
_Sei...
_Se sabe, então vamos arrancar seu couro para fazer
o documento de abjuração.
_Não. Escolho a destruição.
_Espere. Nós não ouvimos direito. Repita por favor.
_Escolho a destruição.
_Humm... Você sabe para onde vão os demônios quando
morrem?
_Não.
_Nós também não. Acreditamos que a inexistência seja
a resposta.
_Prefiro o balsamo de não existir a viver como um
servo tolo.
_Pois bem, seja feita a vossa vontade...
Uma nova voz:
_Não!
O Homem fecha a porta.
_O que tá acontecendo? Quem é esse cara?
_Você não sabe?
_Se eu to perguntando é porque eu não sei. Pensei
que eu era única como eu.
_ Todas nós pensamos.
_O inferno produziu muitas bonecas da morte e
espalhou por aí.
Disse uma variante da Barbie empresária bem sucedida
que um dia sussurrou para uma executiva influenciar sua empresa a patrocinar o líder
de uma milícia local que usava o estupro como arma de imposição de poder sobre
seus vizinhos.
_Vocês foram feitas no inferno, como eu, para
condenar almas de criança.
_ Bem, nem todas. Adultos também. Algumas de nós só
levam as pessoas à loucura e trazem tormento aos entes queridos delas.
_ Se não fosse o meu desvio de rota eu diria que é
um prazer conhecer vocês, minhas irmãs. Mas o que tá pegando?
_Aquele cara que te roubou de sua vítima...
_ A Miranda, a menina tava aqui, ô na minha mão. Se
eu dissesse: Vai lá amor, come merda! Ela
ia.
_ Ele nos prende aqui nesse cofre que tira nosso
poder mágico e ficamos inúteis.
_ Qual é desse sujeito? Faz trabalho de anjo e fede
como um diabo.
_Por que é mesmo um demônio.
_Entendi tudo, agora.
Um grito ousou interromper a sentença de Lúcifer
_Quem se manifesta? Oh! É você agora Belfegor, o
senhor das invenções. O que inventa agora? Misericórdia na perdição?
O homem com cabeça de burro e corpo humano, contendo
uma enorme e enferrujada engrenagem em seu tronco que girava fazendo uma
espinha dorsal em movimento e transpassando também o seu peito, aproximou-se do
trono e se curvou com o respeito de um bajulador.
_Perdoe-me, meu mestre, mas busco servir e na minha
oficina martela-se e afia-se de tudo, menos bondade e seus assemelhados.
_Então, o que inventa agora?
_ Uma solução. É certo, veja, oh, imperador do
inferno e nobre corte, que algumas linhas teológicas obscuras defendem que a
inexistência é superior em gozo a qualquer nirvana ou paraíso. Corremos o risco
de premiar esse infame no lugar de punir.
_Pertinente, continue.
_ É um risco o qual não podemos aceitar. Proponho
uma solução que será cruel e ao mesmo tempo exemplar para futuros desviados.
Satã de novo, numa troada:
_Qual? Tortura? A linha entre sofrimento e diversão
para nossa raça é tênue, até achar algo que o desgoste perderemos séculos.
_Caríssimos, eu tenho a solução e de um modo
totalmente original.
Lúcifer adorava ficar curioso, pois querer saber é um
alento para sua perene melancolia.
_Então, diga:
Belfegor olhou para o diabo cativo e depois encarou
seu senhor.
_ Exílio.
_Ele é o exilado. Um demônio preso a terra num corpo
imortal, sem nunca poder voltar para casa. E por vingança fica desmontando os
planos do inferno. Comete exorcismos, expulsa demônios e já matou uns dois
anticristos.
_ E eu pensando que era só uma bichona que
colecionava bonecas.
_Ah! Não. Ele recolhe todo objeto maldito que o
inferno soltou no mundo para condenar os homens. Quadros malditos, anéis,
carros, perucas...
_Porra, peruca é sacanagem.
_Mas funciona. Transforma uma freira numa ninfomaníaca
histérica, que se não consegue sexo estrangula quem negou com os fios de
cabelo. É tão mortal quanto a gente.
_ E aí, ele guarda tudo isso e...
_E nada. Ficamos aqui pegando pó... Bem, sempre ele
tira os finais de semana para exorcizar alguma coisa.
_Exorcizar? Mas isso é o nosso fim, não somos
espíritos.
_ Pois é...
_Você tá aqui há quanto tempo?
_ Abril de 1975.
_Ótimo. O tédio ou o fim.
Os agentes do inferno na Terra sequestraram um homem
mau. Que crimes ele fez? O bastante contra si e contra os outros, suficiente
para sua alma ficar pesada pela culpa e não ascender às esferas mais amáveis e
cair aonde se prolifera os infinitos gritos.
Usaram de um galo negro para previr a sua morte. As
bicadas nas runas em torno do círculo de giz deram o dia e os satanistas o
mantiveram em cativeiro até aquele dia, tatuando e talhando na carne arabescos
que possuíam um objetivo somente.
Ser uma prisão.
No corredor, o Exilado toma um gole de café preto.
Despe-se. Seu corpo é todo desenhado por riscados que o prendem a carne. Ele
entra em outra porta que o leva a uma garagem. Há vários carros estacionados.
Modelos clássicos. Tentadores. Quase penianos. Sexuais.
Ele aponta o dedo e começa.
_Unitunidê.
Se os carros tivessem seu poder de movimento como
outrora mataram suas vítimas tremeriam, mas estão imóveis.
_O escolhido foi você.
Uma hora antes de quando seria a morte do homem mau,
os adoradores do diabo fizeram um corte profundo em seu peito, arrancaram seu
coração e o queimaram até as cinzas. Com estas fizeram uma bola com lama negra
e moldaram de forma a parecer com o órgão arrancado.
Dentro dele colocaram uma tripa de pele humana onde
estava escrito o nome do demônio condenado, depositaram onde estava o coração
original e costuraram o peito, sem muito capricho.
Na hora que o homem mau morreria, o demônio exilado
despertou em sua prisão de carne.
Aterrorizado, viu-se desterrado, aquilo que um nascido
no inferno mais teme: não poder retornar ao lar.
E gritou, martirizado.
E apontou para um Chevrolet 51 de Luxe negro e de
bom estado, tirando a poeira. Esse veículo foi um dos 17 carros do diabo que
assolaram as autoestradas do ocidente durante o século XX. Sua quilometragem da
morte conta com mais 39 mortes e o arremesso ao inferno de 27 almas que foram
abatidas antes que tivessem chance de se redimir.
O exilado joga sal grosso sobre o capô e inicia a
ladainha em latim. Em menos de duas horas de ritual de purificação, ele é só
mais um automóvel comum a ser leiloado pela web para custear a missão de seu
atual dono de ferrar o reino das trevas, o qual suspira indo pegar sabão e cera
para deixá-lo pronto para o comércio.
_Merda! Limpar o carro dá mais trabalho que
exorcizá-lo...
Jean te acho um tremendo escritor, percebo ainda seu esmero pelos detalhes, descreve uma porta, uma pessoa, um local nos mínimos detalhes, para que o leitor imagine melhor a cena em que se passa o que você está escrevendo.
ResponderExcluirCongratulations you are the best!!!
Obrigado,Edna! Fiquei feliz de ler isso.
ExcluirEstão excelentes. Dá gosto de ler.
ResponderExcluirQue bom!Estou chegando lá.
Excluirsó agora pude ler...
ResponderExcluircara, cê tem talento pra esse lance de lado negro da força.
Aceita sugestão?
Fale mais sobre as tais bonecas, ficou algo suspenso ali, eu gostaria que cê desenvolvesse.
É que mamãe passou veneno em mim qd eu era bebê.
ExcluirSobe as bonecas malditas?
Pode ser. Não sei. Veja, esse tipo de personagem é usado a exaustão por aí, quis pegá-la como trampolim para o tema do exilado.
Por outro lado, para compensar:
Tenho uma ideia sobre bonecas barbie que há anos venho mastigando...
Tlz faça esse més.
Ah! Sugestões são bem vindas, em especial a sua, desculpe se eu pareço desdenhoso às vezes. Não é desdém, é preguiça mesmo de enfrentar desafios.
ExcluirAdorei ,tb agora que pude ler jean adoro seus textos e depois te conto um sonho ,no qual um homem me pedia para acender o pavio de uma bomba e depois passo por entre seu corpo mutilado!!!Bem esse cenário e o homem era a cara do Nicholas Cage
ResponderExcluirA bomba estava dentro do cara. Pô, conta aí...
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