Vício
Ele procurava.
Cozinha. Sala. Quarto.
Nenhuma garrafa. Nem uma lata. E
aquela puta não tava em casa pra dizer aonde tinha enfiado a bebida. Ela devia saber. Ele comprou. Sempre compra.
Onde tava?
E cadê aquela vaca?
Até nessa hora na rua!
Quer outro olho roxo?
Quer perder outro dente?
Quer morrer?
Só falar!
Fora até essa hora, quando não tem nenhum bar aberto na
vila.
Levou o carro, filha da puta, arreganhada, e desconta
chutando o sofá, a cadeira e quebrando um prato, arremessado, um disco voador
de Ed Wood contra a parede.
Não dava para ir a pé ao mercado comprar algo para molhar a
garganta e encerrar a tremedeira, sinalizadora da abstinência.
Muito longe.
Não ia a pé.
Ela ia ver.
Ele ia.
Foda-se se é longe.
Se vai levar uma hora de caminhada.
Não. Antes a lavanderia.
Talvez tenha um engradado na lavanderia.
Tinha. De garrafas
vazias.
Merda!Merda!Porcaria!
E bagunça tudo! Já tava bagunçado, fica pior. Até achar. Lá
estava, branca, plástica, com um índio africano no rotulo o encarando. Desafiando-o.
A vontade não é grande? A necessidade não é plena? Você não precisa? Seu corpo
não necessita?
Álcool.
Álcool etílico.
(Fórmula: CH3CH2OH)
Simples e comum etanol.
Usado na vodka e na cachaça, pra mover veículos possantes e
pra limpar móveis domésticos.
Tá. Informação demais. Ele não sabia disso. Não prestou
atenção em química na escola. Sabia, no entanto, que ela passava na estante e que
ele acendia a churrasqueira. Nada mais.
Era álcool. Nada mais. Tudo o que precisava.
Enfrentou o negro da ilustração.
Entornou o Zulu.
E o alívio que viria não veio.
Veio a queimação.
O inferno cáustico.
De manhã, a mulher com uma chaga no coração estaciona o carro
em frente a casa. Ansiosa, procura o companheiro pelo lar em ruínas.
Em vão.
Vai até a lavanderia, o encontra aonde ele jaz no chão,
agonizando, ao lado da garrafa de álcool, cujo conteúdo ela esperançosamente
trocou na véspera por soda caustica.
Daquelas de se jogar na privada e limpar o encanamento
entupido de merda.
Apostou que ele faria o que sempre fez, quando no cume da
abstinência não encontrasse suas bebidas, tomaria qualquer porcaria com teor
alcoólico para se aliviar. Ela perdeu vários perfumes nessa palhaçada, mas
ganhou o jogo.
A esposa vai chamar a ambulância, é claro.
Mas antes irá se sentar na frente do bruto abatido, acender
seu cigarro e lentamente curtir o seu vício.
Final surpreendente!!!
ResponderExcluirLendo os belos e inteligentes textos de seu blog fico imaginando que o texto do Mano K será também de arrepiar.
ops.... bom, muito, muito, muito bom!
ResponderExcluirBom deveras!!!
ResponderExcluirOi. O Rogério Marcus me indicou o blog (sei lá se o conhece) e tomei a liberdade de linkar para a página de um projeto literário que eu toco, Eldorado.
ResponderExcluirhttp://www.facebook.com/CronicasDeEldorado
Se não gostar, me avisa que tiro.
No mais, parabéns. Muito bom.
Gostei, a história é muito interessante! E muito bem escrita, estilosa. Mas isso você já sabe.
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