Porquinha
_Porquinha?
_Peeela amor de Deuuus, paraaa!
_Porquinha... Porquinha...
Antes, ela o destruiu. Agora, ele a destrói.
Na cama de hospital (onde ele a
conseguiu?), ela jazia amarrada pelos pulsos com fivelas de couro.
Engordando.
A cada gota que caia pela sonda ela aumentava
em uma grotesca, imensa, bola de carne inchada.
Desesperadamente, Elisa fechava
seus olhinhos perdidos em meio ao rosto macilento, fugindo dos espelhos suspensos
no teto e postos nos francos e à frente. Não podia escapar de sua feiura que se
expandia globalmente, a pele puxada, as veias saltadas, os poros purulentos,
tomando o mundo conhecido por ela, aquele quarto escuro, como uma praga
infinita de banha e suor.
Antes, era bela. Bonita de
verdade. Dessas que podem escolher homens como quem escolhe um bombom numa
caixa e consumi-los até o sabor se tornar uma lembrança decadente na língua e
nos lábios carnosos.
E assim fazia.
Adorava ter homens inteiros entre
os seus dentes e mastigá-los para cuspir fora quando o que restava não mais
pudesse nutri-la.
De tal modo, ergueu seu ego. Seu patrimônio. Bolso atrás de bolso, deixando uma trilha de
sobreviventes chorosos e arruinados atrás das pegadas de saltos altos, caros e
semi-exclusivos. Iria assim até o corpo de violoncelo ceder à mortal música do
tempo e não ser mais capaz de caçar, sobrando apenas as lembranças de seus
safáris amorosos e a lista de troféus, numa merecida aposentadoria de vadia
laboriosa.
Caberia aqui, no entanto,
ressaltar a inadequada ingenuidade da caçadora. Ela cria estar no topo da
cadeia alimentar sexual. Engano. Confiança
hipertrofiada de quem sempre ganha sem perdas pedagógicas a prepararmo-nos para
o desastre.
Lei Natural: Quem devora há de
ser devorado. Cada predador um dia conhecerá o seu.
_Porquinha...
Gustavo foi amoroso como todos os
outros. Cedia a tudo. A cada pedido. A cada capricho. E quando a fonte secou.
Ela o encarou e disse que não podia continuar com um fracassado. E se foi,
atrás de outro campeão para roubar a vitória da vida.
A partida era um processo longo.
Ela precisava sair e para isso desmontava seus amores, quebrando-os aos poucos
para que não pudesse reagir, lutar, força-la a ficar. Tornava-os nulos e quando
estavam fracos demais, cravava suas garras no coração e ia embora.
_Porquinha...
Ele se tornou rancoroso.
Um portador do rancor no estado
da arte.
O artista tocou quase sexualmente
o tubo fino de borracha macia como uma vulva, que, introduzido pelo nariz, descia
até o estômago.
A dieta extremante calórica
pingava 60 gotas por minuto do frasco colocado ao alto da cama para dentro da
criatura aprisionada. Todo dia, ele
trocava a substância nunca a deixando faltar. Alternava com água para evitar a desidratação
e a limpava de suas excrescências, tirando e recolocando suas fraldas.
Amante ele era ainda. Porém, sua paixão
era o ódio.
“Eles se conheceram pela internet
e se apaixonaram.”
Não!
Depois ele soube, na visão clara
e perfeita do vingador: Somente ele se apaixonou e, após se recuperar das suas
ruínas, concluiu que ela não possuía essa qualidade humana.
Elisa o devastou.
Com pequenas maldades.
Corrosivas conspirações.
Crueldade crescente.
A cada dia tirou um pouquinho
dele.
Dinheiro. Autoestima. Saúde.
Quando terminou. Não havia ninguém. Apenas uma sombra.
E foi essa sombra que um dia se
ergueu e se refez com o propósito de retribuição.
A sombra a seguia. Sabia de tudo
sobre sua vida. O que fazia. Suas novas vítimas. Poder-se-ia criar um grande
clube de sobreviventes a sua sanha. Mas nem todos querem viver em busca de reparação
após serem aniquilados. A maioria quer tocar o que sobrou da vida. Sem vingança,
preferem outras esperanças.
A sombra sabia de suas mentiras.
A sombra sabia que ela mentiu ao
declarar-se anoréxica e sofrer de bulimia.
A falsa anorexia era parte do
teatro da sua crueldade e a bulimia era seu desempenho. Ele sentava ao lado dela e oferecia alimentos
à exaustão que ela negava levando-o ao desespero por temer por seu bem estar,
enquanto ela comia escondido fazendo-o de tolo.
A sombra ria lembrando-se de
todas as vezes que ela tentou vomitar e não conseguia. Uma anoréxica gostosa, de fartas carnes, um
pneuzinho triunfante ali, uma bulímica incapaz de vomitar. Maldito amor sincero e juvenil que venda os
olhos!
Quando a venda foi retirada pelo
abandono, pela pobreza, pela aniquilação de tudo, aí as coisas se encaixaram
num panorama reservado aos oráculos.
E veio a criatividade.
O sequestro.
A cama de hospital.
E os espelhos.
Num dia, ele a assaltou em sua própria
casa. Nocauteou-lhe com uma injeção fulminante e a levou para o ermo. Uma casa,
onde esperava a cama de hospital. Amarrou-a e quando Elisa despertou, sentiu a
sonda no nariz.
Ao seu lado, Gustavo, a sombra.
_Vou fazer uma mágica, Elisa. Vou
te transformar no que você sempre foi: uma porca!
Ela gritou, mas não conseguiu
ajuda.
Obviamente, ela não ouviu ninguém derrubar a
porta em seu resgate.
Apenas seu amante cuidando de sua
alimentação, se livrando de seus cueiros cagados de merda líquida e mantendo a
cantilena que nunca parava, como se fosse vital para completar o encanto de
transformação suína num mimetismo de Circe, apostando consigo qual órgão de sua
odiada amante entraria em colapso primeiro para livrá-los dessa mórbida
paixão.
_Porquinha... Porquinha...
Torcia, muito, muito mesmo,
confiante num sortilégio, de que fosse o coração.
_Porquinha...
Nossa no fim a lei do retorno caiu sobre ela Jean !!!Putz
ResponderExcluirJá disse, né, cê anda no fio da navalha...
ResponderExcluirOlha, essa navalha tá ficando cada dia mais afiada.
Bem escrito. Você já sabe brincar muito bem com as palavras. E a história é interessante.
ResponderExcluirSinistro.
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