A Escova
Na alcova, na cama, o ódio da
companheira não mais se continha em seus salões mentais. Borbulhava. Escorria pelas
frestas de sua pessoa quebrada. Se antes se ensaiava em grunhidos, naquela hora
tudo se desnudou de seu hábito restritivo nos arranhões, nas costas de seu
parceiro, sulcados pelas cerdas duras da escova de pentear.
Ela sempre se penteava antes de
dormir. Um número definido de passadas
que ele nunca memorizou. Ao contrário de
sua pele a sustentar então a memória da ofensiva.
A resposta do homem: nada.
Ou tudo: a maldita sujeição.
O silêncio, cujo eco que veio da
consorte foi um rosnado. A mulher
magoada, indignada pela superior moral da inércia do corpo que cavava, largou a
arma e, natural, primitiva, honesta, cadela, gata, macaca, usou das garras e usou
dos dentes.
(Aquelas pintadas gracinhas a
francesinha. Estes domesticados quadradinhos pela tirania de aparelhos
odontológicos na adolescência)
Tascou-lhe da furiosa boca um (nhac!)
beijo canibal!
MOR-DI-DA!
Se partidarizássemos pela lógica,
não haveria motivo real que servisse para o combustível de tanta chama
destruidora. Desconfiança de traição? Sim! Por que não? Toda mulher é inimiga da mulher,
começando pela mãe e pela filha. Se perdurasse a ausência de evidências, bastava
uma olhada no espelho e a percepção da erosão da vida para a dedução: Ele teria
outra. Ou pior: Ele desejaria outra que não fosse ela. Traída por uma maldita
ideia.
Prenha de raiva contra si mesma, irradiada
no macho, que sem paciência respondia as reclamações da fêmea com tiradas
jocosas, as quais anos antes ela acharia inteligentes e sensuais e hoje a golpeavam
a caveira feito crava.
Cansado, ele se livrou num
espasmo da besta a torturá-lo. E sem limpar o machucado na omoplata, uma coroa
de vermelhas marcas dentárias, botou a camisa sobre ferida, o tecido manchou
sanguíneo, pegou algumas coisas necessárias e saiu sem um pio.
Desapareceu pela porta.
Talvez ficasse num hotel, talvez
um amigo fornecesse abrigo. Ela não sabia. Nem saberia. Ele nunca voltaria. Não como seu macho a
rachar-lhe ao meio com seu falo antes de adormecer junto ao seu corpo
estimulado. Não! Nem isso a preocupava. Eles estavam ligados.
Fizeram um filho.
Uma experiência biológica em comum,
quando ainda se amavam.
Mirou seu inimigo zombeteiro, o
espelho.
Eles tiveram um filho.
Ele estava preso a ela e ela
estava livre para destruí-lo.
Todo dia um pouquinho.
Transmitindo-lhe o craquelê de
seu ser até que ambos se desmanchassem em pó.
Contemplou os resíduos criminais
em seu brinquedo de torturador.
Pegou a escova e lambeu o sangue.
Vampira, gostou.
Acho que toda mulher deveria ser um pouquinho vampira! Ao menos em certos momentos em que se faz necessário...rss
ResponderExcluirJean, meu rei, cê não sabe da missa metade... mas adivinhou toda a novena!
ResponderExcluirCaramba, véi, a gente vai ter que conversar DE VERDADE!
Valeu a espera!