A
Droga do Terror Super X
Alencar emergiu do
metrô e tomou os cenários das ruas de Desejo
de Matar. Onde pretos e pobres oprimiam o pequeno burguês branco com sua delinquente
sobrevivência em meio a casas de stripes e cinemas pornôs. Charles Bronson até
o final da película os exterminaria em nome da decência e da recuperação
imobiliária.
Ou, talvez nem tanto,
apenas Robert de Niro, com seu taxi em movimento, revolver no bolso e moicano
no crânio para salvar Jodie Foster de seu destino inglório de ninfa puta na mão
de cafetões hippies, malditos hippies, porém com o universo continuando na
mesma decadência a escandalizar e a erotizar a audiência, ignorando qualquer
heroísmo individual, pelo menos até que algum maldito governo liberal assuma a
prefeitura e desenvolva uma revitalização social da região com centros cívicos,
bibliotecas, escolas e outros comunismos.
Era a boca do lixo.
Cinematográfica, bela e feia boca do lixo, com o glamour de neon crepuscular e
o fedor de urina dos que não tem teto ou sanidade. Todavia, não era entre os
vulgares prazeres sensualistas de cada dia e cada noite onde compraria aquilo
porque se moveu até ali.
Avançando, além do
mercado das carnes e de alienações de boticário, alguns quarteirões, chegou aos
conjuntos habitacionais feitos para proletários, hoje abandonados pelo homem e
ocupados por gangues de nosferatus anarquistas, lobisomens conservadores que
devoram mendigos e viciados desavisados, zumbis politicamente organizados em
células, almas penadas que comercializam o ectoplasma e outras criaturas de
pesadelo marginalizadas.
Um jovem duende
travestido, um adorável Peter Pan vestido de Sininho e cinta-liga, maquiado
como uma vadia psicodélica, usando uma corrente que nasce num brinco na orelha
e morre em outro no nariz, veio voando faceiro e ofereceu o rabo rodado em
troca de um pensamento alegre, moeda rara nessas paragens. Alencar não aceitou.
Então, ele mostrou seu pênis imberbe e pechinchou sua porra tênue por uma
história com final feliz.
Novamente, recusou com
cortesia e perguntou aonde encontraria o que procurava. Suspirando, frustrada,
a bicha voadora apontou o prédio de seu destino. Em retribuição, deu-lhe uma
lembrança feliz do tempo de criança que a satisfez e lhe deu força para
continuar o seu trotuar .
Era um pardieiro
assombrado como os outros. A diferença é que havia guardas na escadinha da
portaria, como leões de mármore ás portas de uma biblioteca.
Um mutante cabeçudo, um
homem do amanhã, no mínimo telepata, ao lado uma garota oriental com olhos de
mangá, sem braços e pernas naturais, mas próteses aracnídeas metálicas. Do seu
quadril brilham os dentes de uma armadilha de urso na sua vagina e, no lugar
dos seios, permanecem duas metralhadoras giratórias.
Antes de Alencar dizer
uma palavra o telepata dá o aval e, junto com a ciborgue hentai, liberaram sua
entrada.
No hall do prédio, um
alienígena com cara de sapo, membro de uma força invasora que tentou dominar a
Terra na edição n° 02 do Incrível Hulk,
Volume 01, 1962, roteiro por Stan Lee, lápis por Jack Kirby e arte final por
Steve Dikto, e foi frustrada pelo protagonista do gibi, óbvio, e acabou ficando
aqui, no submundo dos seres imaginários, me perguntou com sotaque batráquio:
_O que vai ser, cara
real? Porra de anjo? Temos um querubim na ordenha. Mão de virgem que extrai.
_Não. Obrigado. Eu
quero um pouco de super X.
O invasorzinho se
abalou. Estava acostumado só a oferecer coisas baratas.
_Vejo que estou diante
de um apreciador distinto de produtos finos.
_Pode ser.
_Venha, por favor,
venha.
Entramos num elevados
de grade. Estava quebrado. Um golem judeu expressionista o ergueu manualmente
puxando os cabos até o terceiro andar.
_Se o senhor quiser,
pode extrair pessoalmente. Muita gente gosta.
Dentro do quarto, numa
poltrona de barbeiro, amarrada por correntes estava uma super-heroína da Era de
Prata dos Comics. Não a identifiquei. Ela sofria de uma magreza que nada fazia lembrar
o modelo idealizado com o qual ela foi desenhada. Seu uniforme dourado está
imundo e rasgado. O braço direito estava esticado, apoiado num descanso para injeções.
Uma grande ferida vicejava em seu antebraço. Um círculo escavado que sugeriria
alguma bela infecção prolongada, talvez ameaçando uma gangrena em breve. A
campeã dos fracos e oprimidos percebeu a entrada de Alencar e sussurrou
drogada/desesperada:
_Me ajude... Por
favor...
_Não, pode tirar que eu
espero lá fora.
O alienígena riu e
concordou. Antes de sair, o cliente viu um sacerdote de algum culto
lovecraftniano, talvez de Dagon, deixar de ler seu jornal, pegar um bisturi e
ir trabalhar na extração do Super X. Lá de dentro, Alencar ainda ouviu:
_Não me deixe aqui! Me
ajude! Eu já salvei o mundo... Eu lutei contra o...
E de quem deveria ser o
sacerdote:
_Cale a boca!
E do batráquio do
espaço sideral:
_Droga ela! Corta ela!
O silêncio retornou. O
pequeno e nojento ET já apareceu com um frasco com pedaço de carne dentro, o
qual é pago com cartas ente mãe e filha carregadas de emoção, gravações de
escutas de telefonemas apaixonados entre amantes adúlteros e fotografias de
tempos melhores gotejando nostalgia.
Rapidamente, Alencar,
ignorando os ecos dos pedidos de socorro da fonte do produto, abandonou esse
apêndice do mundo irreal, a ferida do contar-histórias na textura da realidade
e se viu de volta em seu apartamento, num lado um pouco melhor da cidade, o
qual constantemente precisa de uma limpeza.
Puxou uma cadeira,
sentou-se a mesa, retirou o fragmento de carne, colocou em uma colher de sopa,
acendeu um isqueiro e profundamente desejou que derretesse como cera. A carne
imaginária, influenciada pela vontade, tornou-se líquida, então, pelo império
do fogo.
Alencar despejou o
líquido verde com alguns fragmentos de carne numa seringa grande.
SUPER X
Xarope de super-herói.
Pronto. Bastava aplicar.
Não. Ainda não.
Precisava de mais
simbolismo. Uma alegoria para tonificar o horror.
Pensando, como bom
filosofo caseiro, olhou para o teto e sorriu. Levantou-se. Pegou a cadeira e a
levou para o centro do quarto. Subiu e desenroscou a abóboda que protegia a
lâmpada .
Estava tenso, por isso freava-se,
agora, em suas ações. Seja para fazer bem feito o que tinha que fazer, seja para executar com prazer, gozando
cada volta que libertava o globo.
Segurando o objeto com
a seriedade de quem levava o cálice da comunhão dentro do templo, desceu da
cadeira, foi a cozinha e voltou com um prato na outra mão. Na mesa, despejou
sobre este o que havia se acumulado na abóboda empoeirada durante os anos em
que ficou olhando para o teto, tentando
medir o mundo com a simetria de seu sofrimento.
Insetos mortos.
Mariposas, moscas,
besouros e, que sorte, alguns escaravelhos. Todos atraídos pela luz, mortos
pelo calor. Secos, áridos, estorricados, crocantes. Alguns haviam virado pó.
Mexeu-os com os dedos.
Revolvia-os. Brincava. Separava os mortos por suas qualidades como se
escolhesse feijões.
_Ótimo!
Era o tempero faltoso. Uma
especiaria para dar valor à base que importava. Algo a lhe dar asco, nauseá-lo,
um sacrifício a si mesmo. Se sentisse horrorizado, como verdadeiramente sentiu
ao fazer essa nojeira, seria mais feliz o resultado de seu atentado.
Despejou os animais fenecidos
dentro da seringa, os quais flutuaram em seu banho esverdeado.
Com o vomito lhe
roçando a boca:
_Agora, sim!
Arregaçou a manga da
camisa, preparou-se e aplicou na veia. Picada e ardor.
Poucos minutos para
fazer efeito. Saiu do apartamento, desceu até a praça próxima do deu prédio e
sentou num banco.
Olhou para o céu como olhava
para o teto a lhe esmagar.
Vislumbrou a lua cheia,
esperou até essa fase lunar para engendrar o seu plano, e mirou-a como mirava a
luz do seu quarto, a qual foi seu claustro solitário dos últimos anos.
Convém explicar:
Alencar era um terrorista incubado. Hoje, impulsionado pela infelicidade, ele
sairá da casca.
O terror do homem
largado no banco da via pública não é de bombas, mas de sonho.
A lua jazia no céu como
sempre estava.
De repente, ela se
converteu numa caveira.
Um sorriso feliz nasceu
nos lábios do nosso arquiteto do terror.
Ondas telepáticas de
história em quadrinhos se irradiam de Alencar como se ele fosse a pedra
arremessada na água do cotidiano.
E as pessoas em volta,
os passantes apressados doidos para chegar em casa, tirar os sapatos e assistir seus seriados
televisionados, são os patos no lago a sentirem a reverberação psíquica do
rapaz. Eles olharam para céu e dividiram o pesadelo da lua morta.
A visão do astro
cadavérico gerou um espasmo apocalíptico e toda a gente correu buscando alguma
salvação.
O pavor se espalhou.
Cada aterrorizado era um vetor que contaminava outro com o medo do que de fato
não acontecera.
Enquanto, o terror
tocava a todos, carcomendo a ordem da cidade, Alencar gozava, pois finalmente
democratizava o mal estar, a loucura cortante, que ele, infeliz privilegiado
sempre carregou.

viajei Amigoo
ResponderExcluirTentei ler. Viajado demais, não consegui chegar até o final. É importante dar uma viajada, mas o excesso termina saturando e dispersando. Pelo menos é a minha opinião.
ResponderExcluirTá aí o tipo de coisa que a gente deve mostrar pras mocinhas felizes e contentes que acreditam em contos de fadas!
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
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