O Lixo
(O Horror sempre mora ao lado.)
Os olhos prateados espiaram o
mundo fora da sujeira e ele viu a maldade das crianças. Cometida por crianças,
entre crianças. Tamanho desamor apenas o fez salivar e, no nado do tubarão,
esgueirou-se entre o lixo sem ser visto.
Os ratos fugiram quando ele
chegou. Sentiram sua antinatureza. Ao
contrário de seus primos não dominava as feras, apenas as assombrava. Sem
nenhum animal inferior para comer, aqueles miúdos de cérebro altamente desenvolvido
a se maltratarem de maneira tão cruel seriam a interrupção do jejum com um belo
manjar.
(Uma bocada valorizada pelas
especiarias da iniquidade: Estupro é tão gostoso!)
Somente uns tremores entre latas,
plásticos e papeis. Ninguém não alertado sobre o que havia de baixo daquela
imundice sentiria sua chegada e os meninos estavam entretidos com seus jogos de
violação.
Pobre vítima.
Pobres predadores, que esquecem
que para cada perseguidor, há sempre outro maior em seu encalço.
À frente da favelinha,
atravessando a rua, cruzando um terreno baldio, havia o barranco, uma grande
queda cuja vertigem terminava na avenida movimentada longamente a baixo. Para
ninguém cair, fizeram um muro. Um muro pequeno, uma mureta, da qual ninguém
distraído despencaria e poder-se-ia ver o mundo adiante, o mar de casas, rabiscado
pelas vias públicas.
Feito o obstáculo à queda livre,
na ausência dos caminhões de lixo, os moradores optaram por acumular entulho
longe de suas portas ao lado da mureta. Os anos se foram e uma montanha de porcaria
se ergueu tampando a vista numa ânsia de Babel de se tocar o céu.
Obviamente, ratos e baratas a
assolar as casas de madeira vizinhas aumentavam na semitria do volume do lixão
improvisado, assim como as jornadas das crianças a escalar a sujeira para
brincar nos caminhos secretos, somente conhecidos pelos pequenos, e ver o
horizonte distante, já que do chão o lixo não mais permitia.
As mães, como toda mãe,
inicialmente se preocuparam com a exploração de seus filhos, porém logo deixaram
de lado seus temores, pois numa vida sem muito sentido, onde perseveram muitos
medos, grandes e ferozes, a ameaça latente se tornava familiar, depois
invisível. Infecções? Doenças? Violências? Desimportante, pois sempre há em
todo lugar.
Além dos ratos, das baratas e das
crianças, fuçavam no lixão os catadores. Gente que pegava o que foi recusado e
vendia a quem podia interessar. E coletavam comida rejeitada que ainda podia
ser comida. Uma disputa com os ratos e cães vadios também defendendo o direito
a vida.
Certo dia, no entanto, houve uma
diáspora: os ratos fugiram em debandada. Uma torrente negra evadiu tal qual de um
navio a afundar. As baratas também fiveram êxodo. Cães não mais perscrutavam o
lixo em busca de alimentos. Os cachorros se aproximavam da pútrida colina,
farejavam e saiam num espasmo assustado com o rabo entre as pernas.
Os catadores de lixo também não
iam mais recolher subsistência lá.
Somente as crianças, na sua
estupidez prodigiosa, ainda faziam suas viagens ao amontoado. As mães, entretidas
em seus problemas e em suas bobagens, não perceberam que algo havia mudado no
ambiente e não censuraram os passeios dos seus rebentos.
Nem quando o catador de lixo,
homem místico portador de um patuá com cores de cobra coral e ilustrado com
tatuagens delineadas em traço sofrível de São Jorge e outros santos, chamou uma
matrona preta, bem preta, de um negro liso e belíssimo, a fofocar no portão de
ripas de madeira desinformes.
_Que cê quer, homem? Aqui não tem
comida nem pra mim, quanto mais para você.
Mesmo na miséria, há hierarquia,
o que possui um barraco de madeira mal pregada olha o sem-teto com os mesmos
maus olhos que o pequeno burguês bem apessoado encara o maldito proletário
passando pelo frente de seu portão.
_Não parei pra pedir, moça. Parei
pra avisar.
A mulher negra obesa foi atacada pela
necessidade de bani-lo, a intolerância sai em sonora voz dos beiços grossos.
_Tá com fome? Vai no lixão catar
comida.
As duas vizinhas riem.
O caboclo, já de couro duro pelo
açoite de sua vida, ignora os risos e continua a sua bondade de advertir.
_Moça, não deixa seus filhos brincar
lá no lixão. Não é bom!
A mãe, empapando uma indignação
quase aristocrática, botou as mãos na cintura.
_Meus filhos brincam aonde
quiserem.
_Lá não é bom pra criança. Não é
bom pra ninguém. Ninguém cata mais lá.
_Não cata porque é vagabundo e
não gosta de trabalhar.
_Tem coisa ruim no lixo!
_Vai embora se conto pro meu
marido quando ele chegar do serviço. Ele vai te matar se te pegar aqui.
Ele jogou o saco nas costas e
começou a sua retirada.
_Só to avisando. Cuida dos seus
filhos.
E se foi.
A negra, ainda com sua repulsa
teatral, fungou.
_Quem cuida dos meus meninos sou
eu.
A vizinha que se divertiu com a
humilhação do sem-teto ajeitou o lenço na cabeça, sobre o capacete de rolos de cabeleireiro,
e perguntou.
_Falando disso, onde tão eles?
_Eles quem?
_Teus filhos.
Uma nova fungada.
_Vou saber?
Se a pobre mulher tivesse o
hábito de assistir filmes de terror em sua TV em preto e branco, teria
reconhecido o clichê, o aviso do homem estranho sobre o mal inefável, e tomado
providências adequadas. Porém, quando não era noveleira, não perdia um episódio
do “Povo na TV”. Logo, carecia de
instrumentos para se precaver contra o sobrenatural em suas várias formas.
A mãe sabia onde estavam. Se prestasse
mais atenção, saberia que a meninada estava no lugar de sempre a brincar de
fazer o mal.
Timóteo, o mais fraco da turma da
Favela da Beirada, chorava agachado no
meio do lixo. Estava nu da cintura para baixo e tentava ocultar seu sexo.
Encurralando-o estava Afonso, Adalberto e André. Os três irmãos tinham convencido o menor a ir
ao extremo do lixão para mostrar uma caixa de revista de mulher pelada. Era um
convite para todo mundo bater punheta junto, como amigo. Sem viadagem. Mentira.
Não havia revista nenhuma. Tudo um plano para currar Timóteo. Quando
chegaram ao ermo, trataram de arrancar seu shorts e amaciá-lo com umas
porradas, da quais brotaram muitas lágrimas.
_Mas é uma mulherzinha, mesmo!
Falou o André, o mais velho e
perverso.
_Não sou mulherzinha.
_O Leleco contou tudo, Timóteo.
Timóteo sempre fazia troca-troca
com o Leleco. A questão é que quando chegava à vez de Timóteo ser o homem, ele
não conseguia. O pintinho não endurecia. Nas últimas vezes, quando Leleco terminava de
comer o Timóteo e este vinha retomar sua virilidade na bunda de quem lhe fez de
mulher, o parceiro nem mais se dava ao trabalho se curvar para ser montado,
levantava as calças e ia embora. Timóteo, abandonado, protestava contra a quebra da ética do
troca-troca. Leleco se justificava quase entediado.
_Pra quê se você não consegue?
Mesmo assim Timóteo continuou se
encontrando com Leleco, o qual se sentindo homem por só comer, começou a se
exibir aos amigos, falando que Timóteo era bicha. Sua bicha. Os três irmãos
ouviram a conversa e planejaram ter o Timóteo para eles. Bichas eram odiadas, mas também era um
achado, pois significavam um ensaio para as mulheres. Além do mais, comer uma
bicha era melhor do que fazer troca-troca, pois só comia e não tomava no cu,
correndo o risco de gostar e virar viado também.
Para não ter problemas com o
Leleco, que era grande e gordo e podia bater nos três, trataram de comprar o
passe de Timóteo por um pião de ponta afiada e todo colorido bonitão, que quando
rodava, ficava branco, e uma revista de mulher pelada, daquelas boas, suecas.
Donos do garoto agora, apenas
faltavam estrear. Fizeram a armadilha, o atiçaram com musas nuas e quando
chegaram ao coração do lixão, trataram de lhe puxar as calças e contar sua nova
função de escravo sexual dos três valentões.
O choro não demoveu os irmãos de
seu projeto, pelo contrário, o desespero do menino os excitava e endurecia os
paus semi-imberbes. Agarram-no, deitaram-no no lixo, sua bunda branca nua
pareceu feminina aos garotos, tanto que Adalberto a comparou com a de Melissa,
a menina retardada dois barracos acima que, quando ninguém estava vendo,
permitia que a tocassem em suas partes.
Surgiu um impasse. Estava seu
pedaço de carne grudado no chão fedido e aí? Quem ia primeiro? André, folgado,
disse que tinha direito porque era o mais velho. Afonso protestou e quase se
socaram, quando Adalberto pacificador sugeriu tirar na sorte. No dois ou um.
Concordaram e ainda Adalberto
arrematou:
_Tá fazendo sucesso, hein,
Timóteo? Tão novinho e já tem homem brigando pela boneca.
Risos.
Renderam as mãos e depois a
esticaram sobre o rabo do cativo. Disseram a uma só voz:
_Doooooois ou um?
Afonso e Adalberto foram de dois.
André foi de um. Vitória do mais velho.
O vencedor se vangloriou e todo
sorriso e maligno montou em Timóteo iniciando a coisa ruim.
O coitado urrou.
Afonso satirizou:
_Credo, parece que tá matando
porco!
Risos. Sardônicos. Convulsivos.
Se todos não estivessem
entretidos em seus jogos de violação, teriam talvez notado o lixo se mexer levemente
ao redor e esperado o bote de alguma besta, talvez uma cobra, mas a antecipação
para qualquer bestiário, não bastaria para antecipar ao que emergiu do entulho.
Uma ciclópica mão negra e áspera
explodiu do solo de detritos, seguida por seu par. Os dedos, cujas unhas eram
cinzas e quebradiça, envolveram, primeiro, o tronco de André, sim, eram
realmente colossais, e depois o
sodomizado Timóteo.
Separados de seu coito, vítima e
predador, agora, ambos eram vítimas de um caçador superior. Para Timóteo, não
se tratou de novidade quanto ao sentimento. Prevalecia o horror, apenas que
agora, vigorava outra qualidade. Já para André o sentimento de controle se
perdera totalmente e ele se vira no polo oposto a que estava acostumado.
Entretanto, ambos gritavam na
mesma gravidade.
Afonso e Adalberto se congelaram
diante do impossível a ocorrer diante de seus narizes, membros grotescos
emergiram do chão e capturam seu irmão e a bicha que compraram.
A primeira reação da dupla foi em
fugir, deram uma corridinha, mas as suplicas do mano os demoveram da covardia e
eles voltaram para o resgate. Um
recolheu um porrete, um pé de mesa branca, e o outro uma garrafa verde de cidra.
Deram carga ao ataque.
Agrediram o braço que segurava o
irmão. O estouro da garrafa no punho e as pancadas do cacete não surtiram
efeito. As mãos detiam os dois meninos como
bonecos articulados e os sacudiam feito chocalhos de merengue. Movimento que
foi substituído pelo ato da imersão.
Começaram a afundar no lixo. Os
prisioneiros iriam se afogar nos restos materiais do capitalismo, quando
Adalberto se tocou que seu porrete tinha na sua extremidade fina uma ponta
lascada. Aquilo era uma estaca e, como vira certa vez num filme da sessão “Calafrio”
a passar na TV Record, meteu a estaca no antebraço da criatura fantástica como
se fosse empalar um vampiro.
Na verdade, sem que eles
soubessem, a coisa era um tipo de vampiro.
Sim, são várias as qualidades de
vampiros, mas essa dissertação deve ser
composta outro dia, o que nós
interessa é que a madeira encravada causou dor ao ser sombrio e este largou
André o qual ainda estava com seu membro para fora da calça jeans.
Ferido, o vampiro gigantesco
tratou de se recolher afundando rapidamente no lixão, levando Timóteo junto. O
coitado semidesnudo gritou e gritou, mas nem os céus, nem os irmãos
estupradores se comoveram, aliás, moveram-se, correram deixando –o sozinho em
sua abdução.
O corpo do menino afundou no chão
e sua boca berrante foi soterrada pela sujeira.
Naquela noite, os irmãos não
quiseram a comida, muito boa por sinal,
da matrona negra. Ela insultada ranhou
com seus filhos, mas logo se desinteressou porque começara a novela das sete.
Os garotos haviam aprendido cedo a
arte da dissimulação para enganar os adultos, então, camuflaram seu horror
muito bem. À medida que as horas corriam, se sentiam livre para falar entre
eles sobre o acontecido.
Estavam felizes por terem escapado
daquilo e salvado seu irmão. E quanto a Timóteo? A mãe dele passou nas casas
perguntando sobre o filho.
Afonso concluiu harmonioso que
estavam no lucro por terem salvado o irmão. Afinal, irmão é irmão e bicha tem
um monte por aí.
André que ficara religioso após o
ataque, segurava um rosário, herança de sua avó, discorreu um pouco de teologia
pueril. Arguiu imbatível: O que fizeram era pecado e que, por isso, o diabo
tinha vindo pegá-los, porém acabou levando apenas Timóteo porque ele era mais
pecador (já que era o passivo). Isto era uma segunda chance dada por Deus e que
não deviam mais se meter sexualmente com viados.
Os irmãos comovidos com a
sabedoria divina de André concordaram quase em lágrimas de culpa. Não por terem
feito tanto mal ao Timóteo, mas por
tê-lo desejado e pretendido se aliviarem de sua masculinidade nele.
Ao nascer do sol, mal tinham dormido, todavia
a calma já os amortecia, e teciam planos para retornarem a normalidade.
Jogos de pelada. Bolinha de gude.
Caçar e matar um pássaro bonito o qual tinha avistado outro dia. E comer a Melissa porque já passou da hora de
dar um trato naquela puta retardada.
De pé, pra ela não engravidar.
E, claro, bem longe do lixão.
No lixão, o vampiro sentia-se
satisfeito. Sorvera da massa cinzenta do cérebro de Timóteo feito uma uva,
deleitando-se com o terror do estupro que ainda maculava a memória de seus restos.
Mesmo sendo um a preocupação distante, sabia que logo sentiria fome novamente,
e a fome é especialmente terrível para os imortais, pois não há o limite da
morte para ela. Sente-se fome enquanto seu vazio durar.
No entanto, pensou, a providência
era gentil para com os monstros, pois se enamorou do bêbado cambaleante na
beira do lixão a mijar.
(Tonhão não era de beber,
todavia, nascera seu primeiro filho, um varão sacudo, como ele. Então, toma-se
um porre com a rapaziada. Só aquela vez. A última vez.)
Comovido com a própria sorte, o
vampiro do lixo agradeceu a Deus e foi rastejar para abocanhar o novo lanche.
Achei ótimo!
ResponderExcluirRealmente lembra Sade nesse aspecto ético. Aliás, acho que seu estilo, com floreios ocasionais como a "dissertação para outro dia" também tem semelhanças.
ResponderExcluirA chave, onde o bêbado ocasional (apesar de ficar subentendido o contrário) é a próxima vítima finaliza completamente a semelhança por não recompensar a "virtude" (vivemos em uma porra de sociedade onde ter filhos é bom, por algum motivo obscuro), mas acho que o lapso temporal podia ficar mais evidente (o parágrafo parece começar logo após o banquete, já que o vampiro está satisfeito, mas termina parecendo que já não comia há algum tempo) ou evidenciar que esta segunda morte não se dá por necessidade, mas por gula.