terça-feira, 5 de março de 2013



(Realmente, ela não sabia.)

O inferno não era acordar.
Era depois.
Majorie se lamentava por antecipação. Sentava-se na cama, ia ao chuveiro, tomava banho, pousava na mesa e consumia seu café com aquele temor rosnando em seu ventre até a hora de seu assalto matutino.
Primeiro a meia. Depois, após respirar muito, seu sapato. Às vezes, postergava mesurando se podia passar o dia sem ir ao trabalho.
Descalça.
Porém, as contas não se pagavam espontaneamente.  Sem chance.  Precisava ir trabalhar.
Majorie deu a última fungada e colocou os calçados.
Ai!
Como toda vez que o fez, desde quando se tornou adulta, eles esmagaram seus pés. Eram torniquetes! Todos seus sapatos! Cada um deles, máquinas cruéis de espremer falanges, de destruir dedinhos, prensa a dobrá-los ao meio. Enfim, calçados fechados eram invenções do diabo, nada mais.
Apenas os usava quando era inescapável a necessidade. O trabalho, balconista numa farmácia de manipulação, ou um evento do qual não conseguia fugir. No resto, vivia de chinelos e até, maluca a moça, com os pés nus. Apreciava tocar o taco encerrado do chão de seu apartamento sem nada cerceando os limites de sua carne.
Se fosse menos estúpida, sim, ela detinha aquela estupidez popular/pop que viceja entre todas as classes sociais em que se orgulha de apenas se saber de coisas úteis ou reconfortantes, facilitadoras da vida, confie, conflito é inimigo, se ela fosse menos estúpida com certeza colecionaria analogias de seu sofrimento com a história e o mito.
Elegeria em primeiro lugar a terrível bota de ferro, instrumento de tortura da Inquisição Católica, como referência em seu horror diário, sentindo que uma válvula semelhante ao do brinquedo de metal estaria sempre sendo fechada sobre seu pé por uma mão invisível.  
Depois, se identificaria com os pés deformados das damas do Japão de outra era para o efeito de beleza. Primeiro, por não achar seus pés belos, pé bonito? Onde já se viu? Especialmente os dela, e, em segundo, por crer que um dia ficariam do mesmo jeito daquelas mulheres do oriente distante.
 Por fim, tomaria para si a beleza fabulosa do castigo da Rainha Má, madrasta da Branca de Neve, aplicado nas versões anteriores a suavização para crianças consumirem: Dançar até a morte em tamancos incandescentes, sim, pois isso o que era sua vida calçada, uma dança num tablado em brasas.
Todavia, se lhe faltava essas informações que desse ao seu sofrimento uma pitada de poesia para tornar seu martírio mais sofisticado, a dor estava lá, bem presente, realista e contábil.  
Doía e pronto.
E, ainda mais, se lhe faltava sofisticação do saber, como a todos que padecem dessa lacuna, transbordava a fé.  A crença sólida de que todos os seres humanos que botaram um calçado no pé também padecessem dessa dolorosa condição.
Como toda suburbana, encontrava Deus nas compras, com exceção, lógico, em comprar sapatos. Era na sapataria que encontrava o Diabo encarnado como vendedor de sapatos, o ser que apresentava novos tormentos.
Não necessita de muita imaginação para compuser a ideia de que Majorie postergava a compra de novos atrozes bens.  Ia ao máximo que podia  com os  antigos, até  o ridículo do desgaste, até quando o sapato falava, soltando a sola e fazendo uma  boca  muda que  batia a matraca no meio da rua.
Ia ao extremo da espera e quando lá chegou, tomou uma coragem quase masoquista e partiu para loja para se atormentar.
Qual foi a surpresa quando o vendedor lhe soltou ao olha-la morder seu lábio quando enfiava o sapato desgraçado no pé:
_Tem certeza que seu número é 38?
Sim, era. Sempre foi. Quando usava os sapatos da mãe e da irmã mais velha, quando morava com elas, que eram...
_Nós temos números especiais.
Menores do que ela...
_A senhora não quer experimentar para ver se ficam mais confortáveis?
_Eu sempre usei o número 38.
Ele sorriu. Seus dentes são perfeitos. Até então, não percebera como o moço da loja era bonito.
_Vai por mim, moça.
Ele retirou o sapato, alívio, porra, e mediu a sola do pé de Marjorie com a palma da mão.
_São anos de experiência.
O toque dele em seu pé liberto era inesperadamente gostoso.
_Eu sempre... Tudo bem, que número?
_Surpresa. Vamos ver se eu acerto.
Foi e voltou com uma caixa. Mesmo modelo. Ele mesmo colocou em seus  pés. Majorie se lembrou da versão animada de Disney da Cinderela, seja porque todo idiota no ocidente é capaz de reconhecer as imagens dessa bosta, seja porque a sensação de libertação de uma realidade ruim para um conforto nababesco, órfã explorada para princesa mimada, se revelou idêntica.
_ Não dói.
_Pois, é.
_ C-como?
_ Muitas mulheres grandinhas acabam usando um número menor.
Sentiu-se desengonçada ao ouvir isso.
_ Que número?
_40.
Não era a toa que doesse tanto. Sentiu-se tola. Tão tola quanto uma mulher traída pelo amor da sua vida. Seus sapatos a traíram.
_ Meu Deus, eu tenho uma lancha!
_Calma. As meninas imaginam que o ideal é o pé  pequeno, mas não é assim.
_E qual é o ideal?
_Ideal é o pé que você tem. Os outros são os outros. 
_E o que você sabe disso? _ Disse ainda envergonhada e raivosa consigo mesma.
_ Muito. Anos de experiência.
Não só como vendedor de sapatos, mas também como podolatra. Sim, havia uma malicia em sua profissão. O mistério era saber se ele entrou no ramo por esse fetiche ou o fetiche brotou de seu labor. Mistério que não interessou muito a Majorie, que não era muito de questionar nada, como já se viu.
E se, por isso, antes ela sofreu, depois se deleitou quando o vendedor beijou seus pés mais tarde no motel, afinal, ele era seu príncipe encantado que a libertou da maldição dos sapatos, portanto, nada mais justo no mundo do que dar para ele.
Pena que o vendedor, na mesma medida da balança um santo libertador e um diabo canalha, nunca telefonou após ter se refestelado.
Foi-se o bofe, ficou o pé.
Hoje, Majorie, mais calejada, faz questão de carinhos diversos naquela parte que a aguentou tudo em nome da ignorância, como conditio sine qua non de se entregar a um homem e ser mulher.

(Claro que sabemos que uma mulher não precisa de um homem para se ser plena, mas quem terá paciência de explicar essa obviedade para ela?)

Um comentário:

  1. CA RA CA!!!! até dei risada hoje - olha, me fazer rir HOJE, especialmente hoje, é A proeza, meu bruxo.
    Adorei a construção da sua personagem.

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