Pé
(Realmente, ela não sabia.)
O inferno não era acordar.
Era depois.
Majorie se
lamentava por antecipação. Sentava-se na cama, ia ao chuveiro, tomava banho,
pousava na mesa e consumia seu café com aquele temor rosnando em seu ventre até
a hora de seu assalto matutino.
Primeiro a meia. Depois, após respirar muito, seu
sapato. Às vezes, postergava mesurando se podia passar o dia sem ir ao
trabalho.
Descalça.
Porém, as
contas não se pagavam espontaneamente. Sem chance.
Precisava ir trabalhar.
Majorie deu a última fungada e colocou os calçados.
Ai!
Como toda vez que o fez, desde quando se tornou
adulta, eles esmagaram seus pés. Eram torniquetes! Todos seus sapatos! Cada um
deles, máquinas cruéis de espremer falanges, de destruir dedinhos, prensa a
dobrá-los ao meio. Enfim, calçados fechados eram invenções do diabo, nada mais.
Apenas os usava quando era inescapável a necessidade.
O trabalho, balconista numa farmácia de manipulação, ou um evento do qual não
conseguia fugir. No resto, vivia de chinelos e até, maluca a moça, com os pés
nus. Apreciava tocar o taco encerrado do chão de seu apartamento sem nada
cerceando os limites de sua carne.
Se fosse menos estúpida, sim, ela detinha aquela
estupidez popular/pop que viceja entre todas as classes sociais em que se
orgulha de apenas se saber de coisas úteis ou reconfortantes, facilitadoras da
vida, confie, conflito é inimigo, se ela fosse menos estúpida com certeza
colecionaria analogias de seu sofrimento com a história e o mito.
Elegeria em primeiro lugar a terrível bota de ferro,
instrumento de tortura da Inquisição Católica, como referência em seu horror
diário, sentindo que uma válvula semelhante ao do brinquedo de metal estaria
sempre sendo fechada sobre seu pé por uma mão invisível.
Depois, se identificaria com os pés deformados das
damas do Japão de outra era para o efeito de beleza. Primeiro, por não achar
seus pés belos, pé bonito? Onde já se viu? Especialmente os dela, e, em
segundo, por crer que um dia ficariam do mesmo jeito daquelas mulheres do oriente
distante.
Por fim,
tomaria para si a beleza fabulosa do castigo da Rainha Má, madrasta da Branca
de Neve, aplicado nas versões anteriores a suavização para crianças consumirem:
Dançar até a morte em tamancos incandescentes, sim, pois isso o que era sua
vida calçada, uma dança num tablado em brasas.
Todavia, se lhe faltava essas informações que desse
ao seu sofrimento uma pitada de poesia para tornar seu martírio mais
sofisticado, a dor estava lá, bem presente, realista e contábil.
Doía e pronto.
E, ainda mais, se lhe faltava sofisticação do saber,
como a todos que padecem dessa lacuna, transbordava a fé. A crença sólida de que todos os seres humanos
que botaram um calçado no pé também padecessem dessa dolorosa condição.
Como toda suburbana, encontrava Deus nas compras,
com exceção, lógico, em comprar sapatos. Era na sapataria que encontrava o
Diabo encarnado como vendedor de sapatos, o ser que apresentava novos
tormentos.
Não necessita de muita imaginação para compuser a
ideia de que Majorie postergava a compra de novos atrozes bens. Ia ao máximo que podia com os
antigos, até o ridículo do
desgaste, até quando o sapato falava, soltando a sola e fazendo uma boca
muda que batia a matraca no meio
da rua.
Ia ao extremo da espera e quando lá chegou, tomou
uma coragem quase masoquista e partiu para loja para se atormentar.
Qual foi a surpresa quando o vendedor lhe soltou ao
olha-la morder seu lábio quando enfiava o sapato desgraçado no pé:
_Tem certeza que seu número é 38?
Sim, era. Sempre foi. Quando usava os sapatos da mãe
e da irmã mais velha, quando morava com elas, que eram...
_Nós temos números especiais.
Menores do que ela...
_A senhora não quer experimentar para ver se ficam
mais confortáveis?
_Eu sempre usei o número 38.
Ele sorriu. Seus dentes são perfeitos. Até então, não
percebera como o moço da loja era bonito.
_Vai por mim, moça.
Ele retirou o sapato, alívio, porra, e mediu a sola
do pé de Marjorie com a palma da mão.
_São anos de experiência.
O toque dele em seu pé liberto era inesperadamente gostoso.
_Eu sempre... Tudo bem, que número?
_Surpresa. Vamos ver se eu acerto.
Foi e voltou com uma caixa. Mesmo modelo. Ele mesmo
colocou em seus pés. Majorie se lembrou
da versão animada de Disney da Cinderela, seja porque todo idiota no ocidente é
capaz de reconhecer as imagens dessa bosta, seja porque a sensação de
libertação de uma realidade ruim para um conforto nababesco, órfã explorada
para princesa mimada, se revelou idêntica.
_ Não dói.
_Pois, é.
_ C-como?
_ Muitas mulheres grandinhas acabam usando um número
menor.
Sentiu-se desengonçada ao ouvir isso.
_ Que número?
_40.
Não era a toa que doesse tanto. Sentiu-se tola. Tão tola
quanto uma mulher traída pelo amor da sua vida. Seus sapatos a traíram.
_ Meu Deus, eu tenho uma lancha!
_Calma. As meninas imaginam que o ideal é o pé pequeno, mas não é assim.
_E qual é o ideal?
_Ideal é o pé que você tem. Os outros são os outros.
_E o que você sabe disso? _ Disse ainda envergonhada
e raivosa consigo mesma.
_ Muito. Anos de experiência.
Não só como vendedor de sapatos, mas também como
podolatra. Sim, havia uma malicia em sua profissão. O mistério era saber se ele
entrou no ramo por esse fetiche ou o fetiche brotou de seu labor. Mistério que
não interessou muito a Majorie, que não era muito de questionar nada, como já se
viu.
E se, por isso, antes ela sofreu, depois se deleitou
quando o vendedor beijou seus pés mais tarde no motel, afinal, ele era seu
príncipe encantado que a libertou da maldição dos sapatos, portanto, nada mais
justo no mundo do que dar para ele.
Pena que o vendedor, na mesma medida da balança um santo
libertador e um diabo canalha, nunca telefonou após ter se refestelado.
Foi-se o bofe, ficou o pé.
Hoje, Majorie, mais calejada, faz questão de
carinhos diversos naquela parte que a aguentou tudo em nome da ignorância, como
conditio sine qua non de se entregar
a um homem e ser mulher.
(Claro que sabemos que uma mulher não precisa de um
homem para se ser plena, mas quem terá paciência de explicar essa obviedade
para ela?)
CA RA CA!!!! até dei risada hoje - olha, me fazer rir HOJE, especialmente hoje, é A proeza, meu bruxo.
ResponderExcluirAdorei a construção da sua personagem.