quarta-feira, 6 de março de 2013


Vagabunda

Certo dia, o esposo com ódio, dedicação e uma faca escreveu “vagabunda” no ventre de sua companheira, antes e depois de muitas mutilações.
A página de carne não gritou. Cria que ninguém viria ajudá-la, dosando a dor com o conformismo feminino, uma sujeição de santa, uma coragem amazona, a paciência da puta, aceitando-se merecedora do desgosto.
Ela estava errada.
(Nunca se trata de merecer. Apenas é)
Todavia, nenhuma alma veio refutá-la.
A vida pingava aos poucos, quando seu talhador, após uma parada para o cigarro, voltou aos berros. O som trovejante de sempre.
_Eu não queria fazer isso!
Mentira. Fez porque houve vontade. Antes de qualquer verbo, vem o querer. E, querendo, o fez.
_Tudo culpa sua!
Sim. Culpa dela. Também. Não por ter burlado o contrato nupcial selado por Deus. Nenhuma galhada brotou daquele crânio, apesar da sensação de chifres fantasmas. A moça era culpada por ter escolhido a ele e ele era culpado por sê-lo assim.
(Isto é, se nos esquivarmos da indiferença da natureza e abraçarmos alguma moral que  cuide  bem da igualdade entre os  pares)
Ela o amava, mesmo sabendo ser furioso, quase maligno, um câncer como parceiro, e o quis, a despeito de todo perigo à carne e à alma a orbitá-la.  Já o homem a tomou para si, mesmo dono da ciência do quão nocivo era, apesar de amá-la e querer, talvez, o melhor para a amada.
Então, se há responsabilidade ou, quiçá, culpa era tanto do algoz quanto da vítima.
_O que eu vou fazer?
_Você, eu não sei. Eu... Eu vou morrer.
O anúncio da morte  da esposa era uma vingança. Ou simples retribuição. A paixão entre os dois oscilava entre amar e odiar e era de idêntica qualidade quanto à potência nos apaixonados.
_Não!
_Não?
_Não... Você não pode morrer.
Sabia ela que não que o temor de seu consorte homicida não se devia a ameaça de ser punido pelo assassínio que se completava, mas sim de não mais tê-la.
Quem ele iria amar? Quem ele iria odiar?
Assim, com um sorriso, ela goza a morte.
A qual veio devido á falência do corpo.
Ele... Só, tão só, desesperou-se.
_Vagabunda!
Entre lágrimas e um nariz escorrendo, chutou-a. Socou-a. Esfaqueou-a. Como se a violência tivesse o efeito reverso que sempre teve e a revivesse. Trouxesse-a de volta para dar fim àquele horror a violá-lo. Em vão.  Sem ressurreição.
O jogo entre o homem e a mulher terminou.
 Enfim, ele a perdeu.
 Ela ganhou.

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