Vagabunda
Certo
dia, o esposo com ódio, dedicação e uma faca escreveu “vagabunda” no ventre de sua
companheira, antes e depois de muitas mutilações.
A página
de carne não gritou. Cria que ninguém viria ajudá-la, dosando a dor com o conformismo
feminino, uma sujeição de santa, uma coragem amazona, a paciência da puta,
aceitando-se merecedora do desgosto.
Ela
estava errada.
(Nunca
se trata de merecer. Apenas é)
Todavia,
nenhuma alma veio refutá-la.
A vida
pingava aos poucos, quando seu talhador, após uma parada para o cigarro, voltou
aos berros. O som trovejante de sempre.
_Eu não
queria fazer isso!
Mentira.
Fez porque houve vontade. Antes de qualquer verbo, vem o querer. E, querendo, o
fez.
_Tudo
culpa sua!
Sim.
Culpa dela. Também. Não por ter burlado o contrato nupcial selado por Deus.
Nenhuma galhada brotou daquele crânio, apesar da sensação de chifres fantasmas.
A moça era culpada por ter escolhido a ele e ele era culpado por sê-lo assim.
(Isto é,
se nos esquivarmos da indiferença da natureza e abraçarmos alguma moral que cuide
bem da igualdade entre os pares)
Ela o
amava, mesmo sabendo ser furioso, quase maligno, um câncer como parceiro, e o
quis, a despeito de todo perigo à carne e à alma a orbitá-la. Já o homem a tomou para si, mesmo dono da
ciência do quão nocivo era, apesar de amá-la e querer, talvez, o melhor para a amada.
Então,
se há responsabilidade ou, quiçá, culpa era tanto do algoz quanto da vítima.
_O que
eu vou fazer?
_Você,
eu não sei. Eu... Eu vou morrer.
O anúncio
da morte da esposa era uma vingança. Ou simples
retribuição. A paixão entre os dois oscilava entre amar e odiar e era de idêntica
qualidade quanto à potência nos apaixonados.
_Não!
_Não?
_Não...
Você não pode morrer.
Sabia ela
que não que o temor de seu consorte homicida não se devia a ameaça de ser punido
pelo assassínio que se completava, mas sim de não mais tê-la.
Quem ele
iria amar? Quem ele iria odiar?
Assim,
com um sorriso, ela goza a morte.
A qual
veio devido á falência do corpo.
Ele... Só,
tão só, desesperou-se.
_Vagabunda!
Entre
lágrimas e um nariz escorrendo, chutou-a. Socou-a. Esfaqueou-a. Como se a
violência tivesse o efeito reverso que sempre teve e a revivesse. Trouxesse-a
de volta para dar fim àquele horror a violá-lo. Em vão. Sem ressurreição.
O jogo
entre o homem e a mulher terminou.
Enfim, ele a perdeu.
Ela ganhou.
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