Humilhado por sua
essência se diluir no novo mundo a se desfraldar entre os crânios humanos, o
unicórnio se lançou contra o filosofo, doutor em ciências da natureza (em cuja
aventura se metera na brenha para capturar e classificar coleópteros e
borboletas), com a sanha de que se empalasse o cientista com seu chifre
perolado teria valido seu último suspiro antes de ser mortificado em mito, sem
mais carne, sangue, cascos e olhos vítreos.
Todavia, o homem
científico estava escoltado por soldados da República, que atiraram contra o
alvo equino com espingardas de pederneira e o fuzilaram, tombando-o e gerando
uma poça de sangue argênteo, na qual afundou a criatura para o terreno das
quimeras, onde jaz seu destino na imaginação.
Correu em vão o
filosofo para resgatar o maravilhoso cadáver. Nem uma amostra do fluído
prateado conseguiu recolher, pois quando o corpo do unicórnio afundou, abriu-se
um vórtice por onde toda a sua lembrança líquida ou não escorreu.
Toda? Nem toda! Um tiro
fortuito partiu o chifre na fuzilaria e este se meteu no húmus negro da
floresta. Recolhido por um soldado e dado para o filosofo, que o examinou toda
a vida tentando compreender em seus poros a tessitura da fantasia.
O naturalista morreu
sem saber o bastante para escrever qualquer revelação para seus iguais e deixou
o chifre numa cúpula de vidro em seu gabinete, do qual tudo seria herdado por
sua filha que ia e voltava do sanatório devido à histeria.
Certa noite, quando a
loucura a acossava, rodeando pelos cantos, na mise-en-scène da raposa a caçar,
o chifre cantou e pelos sussurros, que se alongavam o bastante para passar
pelas frestas das paredes, prometeu-lhe a cura ditando seu próprio evangelho
sensualista.
A filha do filósofo se
fez crente na palavra da peça fraturada, desceu até o gabinete, tirou-a da cúpula
transparente e a tomou para si, dando repouso em seu regaço. Conhecendo a paz,
cometeu a mágica em toda noite, até quando percebera que o chifre a fertilizara
e a inchara em proporções maternas.
Passado o tempo,
pariu um menino, meio gente, meio sonho, o qual aos 10 se fez mago das
novelas de cavalaria e supercientista das histórias em quadrinhos e, aos 15,
ditador benigno de toda a península, tendo como figura no seu estandarte a
feição maravilhosa de seu pai.
Mais um bom texto de um autor que o Brasil precisa conhecer...
ResponderExcluirObrigado, Edna. Quem sabe, um dia?
ExcluirSabe aquele sorriso que parece vir de um sonho? Seu conto me fez sorrir assim.
ResponderExcluirLindo!
Uau! Fiquei feliz!
ExcluirDaria um louco curta-metragem, hein?
ResponderExcluirDaria sim! Imaginei dirigido pelo Neal jordan ou pelo terry gillian...
ExcluirParabéns Jean. Não tenho palavras...mas sei que o reconhecimento deve ser unânime.
ResponderExcluirMuito obrigado, meu caro!
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