domingo, 14 de setembro de 2014

A Herança do Unicórnio

Humilhado por sua essência se diluir no novo mundo a se desfraldar entre os crânios humanos, o unicórnio se lançou contra o filosofo, doutor em ciências da natureza (em cuja aventura se metera na brenha para capturar e classificar coleópteros e borboletas), com a sanha de que se empalasse o cientista com seu chifre perolado teria valido seu último suspiro antes de ser mortificado em mito, sem mais carne, sangue, cascos e olhos vítreos.
Todavia, o homem científico estava escoltado por soldados da República, que atiraram contra o alvo equino com espingardas de pederneira e o fuzilaram, tombando-o e gerando uma poça de sangue argênteo, na qual afundou a criatura para o terreno das quimeras, onde jaz seu destino na imaginação.
Correu em vão o filosofo para resgatar o maravilhoso cadáver. Nem uma amostra do fluído prateado conseguiu recolher, pois quando o corpo do unicórnio afundou, abriu-se um vórtice por onde toda a sua lembrança líquida ou não escorreu.
Toda? Nem toda! Um tiro fortuito partiu o chifre na fuzilaria e este se meteu no húmus negro da floresta. Recolhido por um soldado e dado para o filosofo, que o examinou toda a vida tentando compreender em seus poros a tessitura da fantasia.
O naturalista morreu sem saber o bastante para escrever qualquer revelação para seus iguais e deixou o chifre numa cúpula de vidro em seu gabinete, do qual tudo seria herdado por sua filha que ia e voltava do sanatório devido à histeria.
Certa noite, quando a loucura a acossava, rodeando pelos cantos, na mise-en-scène da raposa a caçar, o chifre cantou e pelos sussurros, que se alongavam o bastante para passar pelas frestas das paredes, prometeu-lhe a cura ditando seu próprio evangelho sensualista.
A filha do filósofo se fez crente na palavra da peça fraturada, desceu até o gabinete, tirou-a da cúpula transparente e a tomou para si, dando repouso em seu regaço. Conhecendo a paz, cometeu a mágica em toda noite, até quando percebera que o chifre a fertilizara e a inchara em proporções maternas.
Passado o tempo, pariu  um menino, meio gente, meio sonho, o qual aos 10 se fez mago das novelas de cavalaria e supercientista das histórias em quadrinhos e, aos 15, ditador benigno de toda a península, tendo como figura no seu estandarte a feição maravilhosa de seu pai.

8 comentários:

  1. Mais um bom texto de um autor que o Brasil precisa conhecer...

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  2. Sabe aquele sorriso que parece vir de um sonho? Seu conto me fez sorrir assim.
    Lindo!

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  3. Respostas
    1. Daria sim! Imaginei dirigido pelo Neal jordan ou pelo terry gillian...

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  4. Parabéns Jean. Não tenho palavras...mas sei que o reconhecimento deve ser unânime.

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