sexta-feira, 2 de novembro de 2012


Porquinha

_Porquinha?
_Peeela amor de Deuuus, paraaa!
_Porquinha... Porquinha...
Antes, ela o destruiu.  Agora, ele a destrói.
Na cama de hospital (onde ele a conseguiu?), ela jazia amarrada pelos pulsos com fivelas de couro.
Engordando.
 A cada gota que caia pela sonda ela aumentava em uma grotesca, imensa, bola de carne inchada.
Desesperadamente, Elisa fechava seus olhinhos perdidos em meio ao rosto macilento, fugindo dos espelhos suspensos no teto e postos nos francos e à frente. Não podia escapar de sua feiura que se expandia globalmente, a pele puxada, as veias saltadas, os poros purulentos, tomando o mundo conhecido por ela, aquele quarto escuro, como uma praga infinita de banha e suor.
Antes, era bela. Bonita de verdade. Dessas que podem escolher homens como quem escolhe um bombom numa caixa e consumi-los até o sabor se tornar uma lembrança decadente na língua e nos lábios carnosos.
E assim fazia.
Adorava ter homens inteiros entre os seus dentes e mastigá-los para cuspir fora quando o que restava não mais pudesse nutri-la.
De tal modo, ergueu seu ego.  Seu patrimônio.  Bolso atrás de bolso, deixando uma trilha de sobreviventes chorosos e arruinados atrás das pegadas de saltos altos, caros e semi-exclusivos. Iria assim até o corpo de violoncelo ceder à mortal música do tempo e não ser mais capaz de caçar, sobrando apenas as lembranças de seus safáris amorosos e a lista de troféus, numa merecida aposentadoria de vadia laboriosa.
Caberia aqui, no entanto, ressaltar a inadequada ingenuidade da caçadora. Ela cria estar no topo da cadeia alimentar sexual. Engano.  Confiança hipertrofiada de quem sempre ganha sem perdas pedagógicas a prepararmo-nos para o desastre.
Lei Natural: Quem devora há de ser devorado. Cada predador um dia conhecerá o seu.
_Porquinha...
Gustavo foi amoroso como todos os outros. Cedia a tudo. A cada pedido. A cada capricho. E quando a fonte secou. Ela o encarou e disse que não podia continuar com um fracassado. E se foi, atrás de outro campeão para roubar a vitória da vida.
A partida era um processo longo. Ela precisava sair e para isso desmontava seus amores, quebrando-os aos poucos para que não pudesse reagir, lutar, força-la a ficar. Tornava-os nulos e quando estavam fracos demais, cravava suas garras no coração e ia embora.
_Porquinha...
Ele se tornou rancoroso.
Um portador do rancor no estado da arte.
O artista tocou quase sexualmente o tubo fino de borracha macia como uma vulva, que, introduzido pelo nariz, descia até o estômago.
A dieta extremante calórica pingava 60 gotas por minuto do frasco colocado ao alto da cama para dentro da criatura aprisionada.  Todo dia, ele trocava a substância nunca a deixando faltar.  Alternava com água para evitar a desidratação e a limpava de suas excrescências, tirando e recolocando suas fraldas.
Amante ele era ainda. Porém, sua paixão era o ódio.
“Eles se conheceram pela internet e se apaixonaram.”
Não!
Depois ele soube, na visão clara e perfeita do vingador: Somente ele se apaixonou e, após se recuperar das suas ruínas, concluiu que ela não possuía essa qualidade humana.
Elisa o devastou.
Com pequenas maldades.
Corrosivas conspirações.
Crueldade crescente.
A cada dia tirou um pouquinho dele.
Dinheiro. Autoestima. Saúde.
Quando terminou.  Não havia ninguém.  Apenas uma sombra.
E foi essa sombra que um dia se ergueu e se refez com o propósito de retribuição.
A sombra a seguia. Sabia de tudo sobre sua vida. O que fazia. Suas novas vítimas. Poder-se-ia criar um grande clube de sobreviventes a sua sanha. Mas nem todos querem viver em busca de reparação após serem aniquilados. A maioria quer tocar o que sobrou da vida. Sem vingança, preferem outras esperanças.
A sombra sabia de suas mentiras.
A sombra sabia que ela mentiu ao declarar-se anoréxica e sofrer de bulimia.
A falsa anorexia era parte do teatro da sua crueldade e a bulimia era seu desempenho.  Ele sentava ao lado dela e oferecia alimentos à exaustão que ela negava levando-o ao desespero por temer por seu bem estar, enquanto ela comia escondido fazendo-o de tolo.
A sombra ria lembrando-se de todas as vezes que ela tentou vomitar e não conseguia.  Uma anoréxica gostosa, de fartas carnes, um pneuzinho triunfante ali, uma bulímica incapaz de vomitar.  Maldito amor sincero e juvenil que venda os olhos!
Quando a venda foi retirada pelo abandono, pela pobreza, pela aniquilação de tudo, aí as coisas se encaixaram num panorama reservado aos oráculos.
E veio a criatividade.
O sequestro.
A cama de hospital.
E os espelhos.
Num dia, ele a assaltou em sua própria casa. Nocauteou-lhe com uma injeção fulminante e a levou para o ermo. Uma casa, onde esperava a cama de hospital. Amarrou-a e quando Elisa despertou, sentiu a sonda no nariz.
Ao seu lado, Gustavo, a sombra.
_Vou fazer uma mágica, Elisa. Vou te transformar no que  você sempre  foi: uma porca!
Ela gritou, mas não conseguiu ajuda.
 Obviamente, ela não ouviu ninguém derrubar a porta em seu resgate.
Apenas seu amante cuidando de sua alimentação, se livrando de seus cueiros cagados de merda líquida e mantendo a cantilena que nunca parava, como se fosse vital para completar o encanto de transformação suína num mimetismo de Circe, apostando consigo qual órgão de sua odiada amante entraria em colapso primeiro para livrá-los dessa  mórbida  paixão.
_Porquinha... Porquinha...
Torcia, muito, muito mesmo, confiante num sortilégio, de que fosse o coração.
_Porquinha...

4 comentários:

  1. Nossa no fim a lei do retorno caiu sobre ela Jean !!!Putz

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  2. Já disse, né, cê anda no fio da navalha...
    Olha, essa navalha tá ficando cada dia mais afiada.

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  3. Bem escrito. Você já sabe brincar muito bem com as palavras. E a história é interessante.

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