domingo, 2 de dezembro de 2012


O padre que cagou um diabo


Apesar de ter sido chamado por Deus, Padre Álvaro era um homem perverso.
Tal desalinho moral não foi de se surpreender, pois quando atendeu a inspiração do Senhor, vislumbrou em sua epifania a entidade do primeiro testamento, o Senhor dos Exércitos, crendo, não de maneira clara e racional, pois isto implicaria em pecado de pensar, que o deus amoroso dos evangelhos era uma versão emasculada do primeiro, um cortesão eunuco e complacente com os fracos.
Menos para empregar o entendimento e estimular o conforto, a Palavra era um instrumento de imposição da Ordem, sendo esta a glorificação do mais forte. Já no seminário demonstrara seu caráter.
Foi delator.
Dedou os seminaristas que demonstravam estar metidos em pensamentos subversivos e fez duas bichas, mesmo com a falta de provas cabais de sodomia, serem expulsas quase em solenidade.
De volta a Arraial, sua cidade natal, no cu do mundo, foi-lhe entregue a paróquia por seus serviços prestados ao Bispo conservador na luta contra o desvio vermelho dentro da Igreja. Lá se empenhou novamente em nome da Ordem.
Mesmo ciente de que o mundo era uma imperfeita caricatura do Céu, não podia admitir qualquer bagunça na composição da realidade, porquanto, isto além de perigoso, ofendia a Deus.
Destarte, apoiou, ou melhor, ordenou que para prefeito os fiéis votassem em seu primo, Gustavo Calamar, cuja família mandava e desmandava naquela terra empoeirada desde antes da lembrança dos mais velhos.
Usou inicialmente do tradicional esquema de convencimento cristão, a ameaça de danação infernal. Quem votasse em Gustavo estava perdoado dos pecados automaticamente, sem nem precisar de confissão, quem votasse na oposição, estaria condenado sem indulto.
O adversário era Alexandre Laguna, dono do único jornal do município, o Clamor de Arraial.
Varão de outro clã truculento que concorria pelo poder na região, mas que caiu longe da árvore bichada, revelando-se um liberal simpático às melhorias para a gente da terra e à imprevisível democracia. Mesmo tênue, um leve mea culpa pelas cagadas ancestrais, esse progressismo era visto pelos olhos do sacerdote como um radicalismo disfarçado que tendia certamente a uma tentativa de ebulição da escória a acabar numa sublevação geral.
Temendo que o tráfico do perdão não resolvesse, Padre Álvaro, partiu para a peleja. Literalmente. Seja abençoando as armas dos jagunços de seu primo, seja botando uma arma na cintura sobre a batina preta e ir em diligencia com os paus mandados a aterrorizar os aliados de Alexandre na alta noite.
Um dia, no entanto, ao contrário da passividade a qual esperava, encontrou resistência. À bala! Se no início da investida contra a casa do caboclo que propagandeava simpatia ao inimigo o padre gritou: “Deus está conosco!”, Deus depois fugiu com ele deixando a jagunçada sozinha para resolver a escaramuça, que deu errado, pois o caboclo era bom de mira como o diabo e fez os capangas retrocederem.
Calhou que vieram as eleições e o voto secreto fez mais que as orações e as balas abençoadas. Alexandre levou a vitória, com pouca margem, mas levou.
Padre Álvaro se emputeceu.
Amaldiçoou Alexandre, amaldiçoou a cidade e se tivesse parado nas maldições teria ficado por isso mesmo. O sacerdote ignorou todo louvor ao perdão pregado por sua instituição e partiu para a mais mesquinha e destrutiva vingança, retornando ao seu antigo vício de delação.
Pegou o compromisso de confidencialidade do confessionário e enfiou no rabo.
Nenhum segredo estava seguro com ele. Os devotos mesmo sabendo que o homem de Deus não era flor que se cheirasse, entendiam estar protegidos ao contar os pecados no confessionário. Não, não mais...
Maridos logo saberiam da infidelidade das esposas, sócios dos furtos e trapaças dos outros sócios, pais dos deslizes dos filhos, moças tiveram a perda da virgindade relatada, até a mais prosaica bobagem era contada a outra parte envolvida.
Se por falta de treino ou hábito, as balas durante a cavalgada com os peões de seu primo não feriram ninguém, as revelações de Padre Álvaro foram empreiteiras de muita dor e muita tragédia.
Um homem retalhou o rosto da mulher adultera ao ponto de que nenhum outro macho a desejasse.
Um pai arrastou a filha desvirginada até o ermo e, após surrá-la com gosto, largou a pobre a própria sorte.
Dois irmãos, sócios num boteco, se mataram a facadas, porque um desviava o lucro e o outro surrupiava carinhos da cunhada.
Um senhor unha de fome metera uma bala entre as órbitas do jovem que o furtara para alimentar o filho que nascera.
O bordel da cidade tivera as portas trancadas e depois incendiado. Queimaram vivas as putas! Obra de mulheres indignadas com as aventuras de seus maridos no lupanar.
E mais outras anedotas terríveis, e mais morte, e mais sangue.
Padre Álvaro bispou inteiro o quadro de terror que pintou. Sem culpa e sem remorso, não viu o mal que semeara. Achou o terror gracioso. Na verdade, sentiu-se orgulhoso por ter levado justiça à cidade.
E como o Orgulho é o pai de todos os pecados, a barriga lhe doeu tremendamente.
Era dor de caganeira, contudo era uma dor espantosa. Esbraseavam as tripas. Uma ardentia assombrosa.
Uma dor de parto.
Tentou correr para latrina, porém não conseguiu. Levantou a batina, acocorou-se e se pôs a obrar ali mesmo, dentro da igreja vazia, em frente ao altar.
Primeiro, peidou brabo. Ruidoso e cheiroso. O fedor chamuscou-lhe o nariz na textura do enxofre.
Segundo, soltou ao longe um jato de líquida diarreia sanguínea, cuja magmática fervura cozinhou as pregas.  
Terceiro, dando a excrescência líquida lugar a sólida, algo áspero, espinhoso e duro desceu pelo seu reto com muito custo, caindo no chão num som oco, dando um alívio semelhante ao resultado de uma boa fornicação.
Padre Álvaro, ainda suado, trêmulo, virou-se para ver a bosta que fizera, deu de cara com o impossível e entendeu que a merda era muito maior.
_Puta que o pariu!
Puta não. Padre.
Ele parira um demoniozinho.
O padre cagara um diabo.
Estava lá, meio abobado ainda, do tamanho de um camundongo com carinha de bebê, olhinhos fechados, entretanto com o aparato clássico de sua espécie: Chifres, rabo, cascos e asas de morcego.
O que fazer? O que fazer?
Sorte que Padre Álvaro era um menino muito atento ás histórias que seu avô contava em torno da fogueira e se lembrou dos contos em que caipiras chocavam no sovaco por dias a fio ovos botados por galos negros a meia-noite de onde saiam cabrunhãozinhos para servi-los com boa sorte e condenar suas almas.
Rapidamente, tratou de arrumar uma garrafa de vinho, o qual era usado na missa como sangue de Cristo, tirou a rolha, dispensou o conteúdo, catou com cuidado o diabrete, o enfiou pelo gargalo e, por fim, tampou o recipiente fazendo uma cruz na rolha com uma faca, que conforme os causos do seu avô serviriam para prender o maligno lá dentro.
O pequeno demônio acordou e encarou o sacerdote que lhe colocara no mundo. Não era um olhar de ódio, era uma espera pacifica por algum comando.
No começo veio-lhe o horror.
Compreendera que tal fenômeno não viria de graça. Pessoas não defecavam diabos. Ainda mais homens de Deus. Nunca tinha ouvido falar de tal fato, a não ser da ideia de que o Anticristo nasceria de uma mulher mortal. Mas aquele lá na garrafa não podia ser o Anticristo. Era um diabinho. Um fruto intestinal seu.
Sendo assim, bem sabia, que como o mal só poderia vir do mal (não, na verdade pode vir do bem também ou o mal às vezes não é o mal, podendo ser o bem em outra perspectiva, mas deixe: Padre Álvaro não era muito refinado em assuntos filosóficos), ele estava condenado.
Chorou de pavor.
Que mal havia cometido para tamanha profanação ser a recompensa? Claro, que todos seus pecados, todos seus atos malvados que provocaram dor passaram em revista em sua memória, todavia, os camuflou num sofisma pessoal para o seu entendimento como ações necessárias para um bem maior.
Sim! O mal pode vir do bem e o bem pode vir do mal!
Esse inovador exercício do beabá da Moral, filosofada esforçada de última hora, estava mais para um subterfúgio, uma corda para salvá-lo do abismo, do que alguma tonificação da inteligência sobre a relação entre as coisas.
E concluiu que ele não era um pecador, mas um justo e que o próprio Deus enviara o diabrete para os seus propósitos divinos.
Se o mal, que ele fez, foi arma para a vitória do bem, porque não sofisticar a prática com um instrumento definitivo?
E sabendo que estava salvo (sim, ele se convenceu!) o sacerdote dançou pela igreja com a garrafa encarando todo sublime a criatura dentro dela.
Não tardou a usar seu brinquedo demoníaco para consertar o mundo que estava bagunçado.
Alexandre Laguna, o prefeito eleito, morreu precipitado dentro da prensa de seu jornal, ato estranho que mesmo remetendo a suspeita de suicídio, Padre Álvaro fez questão de enterrar com todo rito cristão.
Estranhamente, o Juiz eleitoral decidiu que quem deveria ser eleito não era o vice, mas o adversário, Gustavo Calamar. Os partidários de Alexandre protestaram, mas logo saíram da luta política, acometidos por doenças venéreas e bexiguentas, que o médico da cidade, rapaz novo e modernizado, nunca tinha ouvido falar.
Em seguida, as terras da família Laguna secaram e atraíram toda sorte de peçonha e miasma, tornando a propriedade inabitável, gerando o abandono e os rumores de ser mal-assombrada.
A vida de certas pessoas na cidade era encerrada de maneira surpreendente e inusitada. Ataque de cães negros. Olhos arrancados por pássaros sombrios. Gente gulosa que comeu até morrer. Luxuriosos que fornicaram até as partes arderem e o coração falhar. Suicídios exóticos surtaram pela cidade, como a costureira que engoliu o vestido de noiva que ela fez para o próprio casamento, o farmacêutico afeminado que decepou membro e o colocou em exibição na vitrine antes de morrer por sangramento, e outros mais.
Todos os pecadores que Padre Álvaro achava que precisavam, por um motivo ou outro, serem encaminhadas para o inferno.  Muitas vezes nem havia um pecado para ser punido, apenas o infeliz cometera o erro de importunar o sacerdote dono do diabo que lhe atendia desejos.
E o pequeno ser na garrafa fazia sair o melhor do religioso, ou seja, a maldade! Cada vez que usava seu diabinho mais perverso se tornava e, como viciado, mal esperava para pedir outra iniquidade.
A cidade estava perplexa com o festival de trevas que a cobrira, no entanto, mas do que as ações do maldito, o que acabou alarmando os moradores foi a aproximação de comunistas armados.
Tratava-se de um grupo revolucionário de guerrilheiros, ex-militares desgostosos com os rumos do país. Iniciaram a marcha pelo campo para recrutar camaradas a fim de derrubar o governo, instaurar a chamada ditadura do proletariado e alcançar a felicidade igualitária.
(Ou se tornar a nação em mais um satélite submisso da URSS na América – Latina com uma nova plutocracia, vai lá saber.)
Eram liderados pelo Capitão Josias Juliano, apelidado de Capitão Crepúsculo por seus admiradores, os homens de letras nas grandes cidades, por sempre preferir lutar nesse horário e pela poesia explícita e cafona, a conjugar a cor carmim do céu crepuscular com a da causa radical.
Atravessavam a caatinga esmigalhando as forças federais e estaduais, com armadilhas e tocaias típicas dos caçadores da região, armadas por jagunços que revoltados com os desmandos dos seus senhores resolveram aderir aos subversivos.
Sabendo que as forças de Capitão Crepúsculo estavam próximas a cidade, Padre Álvaro, para demonstrar poder, ordenou ao seu capeta destruí-los.
Entretanto, para o azar do religioso, havia um fato o qual não contava. Era um bando de ateus materialistas já vacinados por doutrinação contra o ópio do povo. Como os deuses e demônios são mais efetivos contra os crédulos, o diabrete pela primeira vez encontrou problemas de eficiência.
Enviou uma matilha de cães negros para destroçar a horda vermelha, no entanto, as bestas de olhos de fogo foram demovidos de sua ferocidade, primeiro por coronhadas dos fuzis e depois por nacos de carne seca jogados pelos guerrilheiros. Encantados com generosidade de suas vítimas, as bestas largaram a causa do diabo e aderiram como mascotes dos marxistas.
A seguir, veio um ataque de pássaros negros, o qual foi recebido a tiros de fuzil, abatendo todas as aves profanas, as quais viraram churrascos saborosos nas fogueiras da tropa, cujos ossos sobraram para os cães convertidos.
Por fim, tentou atiçar os pecados capitais dos homens de Crepúsculo a fim de desmontar as fileiras. Preguiça, Gula, Luxuria e o resto do pacote. Não obstante, seu capitão era homem de mão de ferro e voz trovejante, logo ao ver aqueles estranhos desvios, uns queriam parar para descansar, outros desejavam saquear o gado de fazendas vizinhas para se proverem de enormes banquetes, havia aqueles que pretendiam reencenar o rapto das Sabinas no primeiro vilarejo que encontrassem, sem contar as brigas risca-facas motivadas por picuinhas, tratou de botar de volta a disciplina tanto apreciada na vida marcial.
Deu –lhes uma descompostura no pessoal que até os cactus próximos se coraram. Vexados os homens abandonaram seu comportamento tresloucado e bateram perfilados os calcanhares. A marcha continuava.
Com tudo em vão, os comunistas já se encontravam na entrada da cidade. Os jagunços de Gustavo Calamar e os homens do delegado em conjunto bem que tentaram, mas fizeram uma resistência pífia. Os que não foram abatidos, foram enxotados, fugindo em nuvens alta de poeira.
Agora, a tropa se dirigia a igreja, onde acreditavam ainda se encontrar algum resto de aferro contra sua passagem pela cidade, da qual confiscariam víveres antes de seguir jornada, além de realizar a sua propaganda ideológica de sempre.   
Rangendo os dentes, Padre Álvaro cobrou esforço do diabinho que gastou o que tinha em efeitos especiais.
A terra tremeu.
O chão vibrou. As casas racharam. O mundo ia cair.
Podia cair, mas Capitão Crepúsculo e seus homens permaneceriam em pé, mesmo com o esqueleto tremulante e os dentes batendo, correndo risco de perder a língua numa dentada involuntária.
Choveu granizo ardente.
No trajeto de estrelas cadentes, petardos de fogo desciam do céu, análogos ao fim de Sodoma e Gomorra.
O plágio da ira de Deus, no entanto, não abalou os vermelhos, pois estes já tiveram sob banho de chumbo quente da artilharia do governo, deste modo já endurecendo seu couro. O que o divino faz, o homem nunca está muito longe de imitar ou até de superar.
Criou zumbis de cadáveres de pecadores do cemitério.
Dono da confissão final de muitos mortos, o padre pode dar o direito ao espírito engarrafado de convocar aqueles que ainda não descansavam no outro lado. Ordenou-lhes a vestir a carne podre e a assaltar contra os comunistas.
Os  adversários putrefatos também não impressionaram os descrentes. Em paragens anteriores um coronel beato que se travestia antes de padre e depois de santo, ordenou aos seus devotos, famintos esqueléticos, vítimas de uma seca eterna e da pilhagem de seus mestres donos de terras, que se militassem e atacassem os ímpios. Um arranca-rabo resolvido no cacete, pois Capitão Crepúsculo teve dó daquela gente. Que viessem os defuntos! Não há muita diferença, entre um morto ambulante e um morto de fome que teima em não cair onde esteja!   
Levantaram-se línguas de fogo em torno da igreja tecendo um círculo protetor.
Pronto, pensou Padre Álvaro, estas faixas infernais farão os subversivos fugirem com o rabo entre as pernas, além de enfiar a fé cristã goela abaixo deles, porque entenderiam estes fatos como provas do divino.
Nisto, quando gozava por ter salvado a cidade do comunismo e, talvez, reconvertido algumas almas, a porta da igreja explodiu numa porrada!
Era Capitão Crepúsculo e seus camaradas.
Eles carregavam os mortos-vivos em chamas. O grupo havia pegado os cadáveres ambulantes e os usados como escudos para atravessar o círculo chamejante, depois como aríetes contra a porta do templo.
Jogando os defuntos a arder no chão da igreja, Capitão Crepúsculo avançou com seu passo pesado para sacerdote que agora tremia todo.
 _ É só você que está aqui, Padreco?
Apavorado, Padre Álvaro ergueu a garrafa com o diabinho dentro e implorou para seu bruxedo:
_Proteja-me!
O Capitão ao ver o diabinho não conteve o desprezo. Tomou a garrafa e jogou-a no chão, espatifando-a.
O Padre quase se cagou de novo.
_O que você fez? Estamos todos perdidos agora!
O diabrete arremessado se restabelecia do impacto, pronto para destruir todos a sua volta, agora que estava livre, quando a bota negra do Capitão Crepúsculo o esmagou numa pisada, como uma barata.
Destruído o diabinho, cessou o círculo de fogo, parou a chuva de granizo ardente e os zumbis que sobraram caíram como sacos cheios de batatas.
_ Mera ilusão religiosa!
O padre se abobou.
_ C-como?
_ Era assim que você enganava o povo? Com truques de mágica?
_ M-mas como você...
_Agora escute, corvo de sacristia, temos necessidades. Vá e reúna seu rebanho no meio da praça. Vamos confiscar alguma comida e bebida para a causa de libertação nacional. Não queremos explorar, apenas o bastante para continuarmos nossa marcha até a capital.
Padre Álvaro ainda boquiaberto, num esgar de espanto diante de tudo.
_ Anda, homem de Deus! Antes que eu te cape e lhe dê motivos reais pra você usar essa saia.
O sacerdote despertou de seu transe e correu, em meio as gargalhadas dos homens de Crepúsculo, para fora da igreja a fim de atender ao que líder ateu ordenou.
Ele reuniu o povo que deu os mantimentos para os guerrilheiros, os quais se retiraram no trote de seus cavalos sem causar qualquer outro dano, a não ser nas consciências dos cidadãos sobreviventes de Arraial, nas quais fora destilado o absinto do grande perigo vermelho, uma vez que Capitão Crepúsculo se deteve para mais um deslumbrante discurso que enfeitiçava as massas estúpidas.
Já não mais tão estúpidas e cientes de que poderiam ser mais do que eram, as pessoas reconstruíram a cidade, dessa vez sem jagunços e famílias mandatórias, todas expulsas uma a uma na medida em que a ideia crepuscular se espalhava nos passos de uma peste.
O único edifício que não foi recuperado foi a igreja. Ela permaneceu abandonada, habitada pelo sacerdote, transformado em pária devido não apenas aos seus crimes, mas também pela sua inutilidade na nova Arraial.
(A qual poderia ter sido um paraíso igualitário, a não ser por um grupelho que assumiu o poder na comunidade, expurgou toda gente adversária e implantou uma cruel ditadura provisória a qual virou permanente até entrar em colapso anos depois.)
Dentro das paredes do templo, o padre, isolado da revolução de bolso que acontecia ao seu redor, vestindo uma batina maltrapilha, todo dia comia folhas e raízes de plantas com qualidades purgativas e orava ao Senhor na tentativa amargurada de cagar outro diabo. O resultado é que se produzia quilos de bosta em fracassadas cagadas, executadas em frente ao altar, na esperança de que, se se repetisse as condições iniciais, reveria a profanação que o fez avatar da Ira Divina.
Nunca mais Padre Álvaro conseguiu recuperar aquela obra infernal, não obstante, a igreja ficou fedida como sovaco de Satã.


8 comentários:

  1. Valeu a espera!
    até enxerguei a coluna Prestes na brincadeira...
    Cara, cada dia melhor!

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    1. E aí, mulher!
      Jura que enxergou a coluna Prestes???
      Gostei muito dete blog tb!

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  2. Agoraaa sim!!!! reclamei e deu certo!!!

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  3. UAU... ótima história! A "cagada" do padre... Muito bom!!

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  4. Adorei Adorei Esse Padre foi concebido por Satã !!!

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  5. Gostei bastante. Bem escrito, estiloso. Só achei que o grupo comunista do crepúsculo ganhou ares de super-homens, o que ficou um pouco exagerado.

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  6. Muito bom!! Um humor recheado de picardia! E caraca, cagar um diabinho não é mole não. Já imaginou se ele estivesse com uma constipação intestinal (diarréia, caganeira), iria sair um diabinho liquido e escorrido e muito mais fedido!! Muito bom, adorei!!

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