quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


A Escova

Na alcova, na cama, o ódio da companheira não mais se continha em seus salões mentais. Borbulhava. Escorria pelas frestas de sua pessoa quebrada. Se antes se ensaiava em grunhidos, naquela hora tudo se desnudou de seu hábito restritivo nos arranhões, nas costas de seu parceiro, sulcados pelas cerdas duras da escova de pentear.
Ela sempre se penteava antes de dormir.  Um número definido de passadas que ele nunca memorizou.  Ao contrário de sua pele a sustentar então a memória da ofensiva.
A resposta do homem: nada.
Ou tudo: a maldita sujeição.
O silêncio, cujo eco que veio da consorte foi um rosnado.  A mulher magoada, indignada pela superior moral da inércia do corpo que cavava, largou a arma e, natural, primitiva, honesta, cadela, gata, macaca, usou das garras e usou dos dentes.
(Aquelas pintadas gracinhas a francesinha. Estes domesticados quadradinhos pela tirania de aparelhos odontológicos na adolescência)
Tascou-lhe da furiosa boca um (nhac!) beijo canibal!
MOR-DI-DA!
Se partidarizássemos pela lógica, não haveria motivo real que servisse para o combustível de tanta chama destruidora. Desconfiança de traição? Sim!  Por que não? Toda mulher é inimiga da mulher, começando pela mãe e pela filha. Se perdurasse a ausência de evidências, bastava uma olhada no espelho e a percepção da erosão da vida para a dedução: Ele teria outra. Ou pior: Ele desejaria outra que não fosse ela. Traída por uma maldita ideia.
Prenha de raiva contra si mesma, irradiada no macho, que sem paciência respondia as reclamações da fêmea com tiradas jocosas, as quais anos antes ela acharia inteligentes e sensuais e hoje a golpeavam a caveira feito crava.
Cansado, ele se livrou num espasmo da besta a torturá-lo. E sem limpar o machucado na omoplata, uma coroa de vermelhas marcas dentárias, botou a camisa sobre ferida, o tecido manchou sanguíneo, pegou algumas coisas necessárias e saiu sem um pio.
Desapareceu pela porta.
Talvez ficasse num hotel, talvez um amigo fornecesse abrigo. Ela não sabia. Nem saberia.  Ele nunca voltaria. Não como seu macho a rachar-lhe ao meio com seu falo antes de adormecer junto ao seu corpo estimulado. Não! Nem isso a preocupava. Eles estavam ligados.
Fizeram um filho.
Uma experiência biológica em comum, quando ainda se amavam.
Mirou seu inimigo zombeteiro, o espelho.
Eles tiveram um filho.
Ele estava preso a ela e ela estava livre para destruí-lo.
Todo dia um pouquinho.
Transmitindo-lhe o craquelê de seu ser até que ambos se desmanchassem em pó.
Contemplou os resíduos criminais em seu brinquedo de torturador.
Pegou a escova e lambeu o sangue.
Vampira, gostou.


2 comentários:

  1. Acho que toda mulher deveria ser um pouquinho vampira! Ao menos em certos momentos em que se faz necessário...rss

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  2. Jean, meu rei, cê não sabe da missa metade... mas adivinhou toda a novena!
    Caramba, véi, a gente vai ter que conversar DE VERDADE!
    Valeu a espera!

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