quinta-feira, 8 de maio de 2014

Leite


Beijei seu ventre saliente.
Ela estava grávida. Tudo bem. Não era meu.
Fiz-me estéril há anos atrás, após a primeira ameaça de paternidade acidental.
Confesso, todavia, meu egoísmo roleta-russa. Não temia a AIDS e afins, apesar de ser do tempo em que se viam cazuzas derreterem sob a luz do espetáculo. Não agia adequado para me manter incólume às moléstias sexuais, das quais, por injustiça cósmica, sempre me vi a salvo. Contudo, condenar alguém a esse mundo madmax onde água será negociada por filhos da puta como petróleo não era um pecado que eu quero ter no meu currículo moral.
 A cria é do marido mesmo.
_Parabéns.
_Obrigada.
Ela veio me visitar após um breve sumiço e apareceu barriguda. Falou como tudo estava ótimo entre ela e o esposo. Vida de propaganda de café da manhã. Manteiga ou margarina? Não importa desde que se passado no pão fique cremoso. Cereais matinais com leite e achocolatado. Tudo vitaminado. E o açúcar industrializado? Tanto faz. Ela até parou de fumar. Nunca se sentiu tão contente. Nunca se sentiu tão bonita...
De fato, a gravidez torna as mulheres mais bonitas. Deve ser um recurso evolutivo. As fêmeas que ficavam mais bonitas eram melhores protegidas pelos machos, as que não se embelezavam pela gravidez pereciam abandonadas comendo restos com os cães e os genes naufragavam. Darwinismo de boteco.
_Sim, estou feliz.
_Se tá tão feliz, porque veio me ver?
_Eu disse que estou feliz, mas não satisfeita.
Então, despiu-se como sempre se despiu. Sem prosa. Silenciosa.
Toquei-lhe a barriga antes de qualquer lugar.  Para sentir o bebê. Fazer aquela coisa sagrada ser minha presa na arena de carne. Para desconsagrar. Desgraçar com minha desgraçada língua. Deixar um rastro de lesma com minha saliva.
Um beijo no filho que não era meu.
Depois tomei a mulher. Ela também não era minha e a possui como um ladrão o faz, sem, no entanto, a indelicadeza do bandido da luz vermelha... Lembrando-me de que ela seria mãe e que eu a comia de todo jeito. Do cu aos peitos. Fodia uma instituição basilar da sociedade ocidental. Um dinamiteiro a bombardear algum sítio burguês no final dos 1800. Vítimas fotografadas e reproduzidas milhares de vezes na impressão das páginas amarelas dos jornais.
Veio o gozo.
Bilateral.
Paramos. Houve, então, a muda conferência existencial pós-sexo, quando nada está sempre em pauta. Olhamos para o teto e os insetos no teto. Ela acendeu um cigarro. O fumo correu pelo organismo até ter um encontro peçonhento com o feto. Ninguém se importou com a nicotina e as substâncias nocivas na composição do cigarro, entre elas os gases tóxicos, os pesticidas e quarenta substâncias cancerígenas.
_Não vou voltar.
_Humm?
_É a última vez...
Uma dose cowboy, sem água, sem gelo, sem açúcar de culpa cristã. Começou a se vestir. Olhando para qualquer coisa, menos para mim.
_Duvido.
_Não aposte, cara! Vai perder!
_Tudo bem.
Saiu pela porta com um beijo no meu franco esquerdo. Não apostei. Devia ter apostado.
Passou uma estação. Tempo bastante para ela parir e andar por aí. Veio dar na minha porta com o pequeno no colo.
_Não é lindo?
Não. Cara de joelho. Se não é a porra hormonal da ocitocina...
_É, sim, lindo como a mãe. Está feliz?
_Estou.
Beijamos-nos. Ela segurando a criança, entre a pressão suave das nossas caixas torácicas.
Perguntei-lhe como foi o parto e como era o pequeno. Ela tagarelou como tagarelam as mulheres em matracas de felicidade sobre sua maternidade. Enquanto discorria sobre o que pariu, fui para trás, juntando o cabelo dela em rabo de cavalo e o colocando de lado, liberando a nuca para o assalto oscular.
_Satisfeita?
Nada disse e eu continuei beijando, pelo franco do rosto até o lóbulo da orelha, o qual mordisquei. Minha mão desceu no passo de aranha pela espinha até o cóccix. De repente, um sussurro... E o leite vazou, escorrendo em duas linhas onduladas pelo mamilo endurecido.
Desvencilhou-se.
_É hora de dar de mamar. Importa-se? É só um instantinho.
_Não. À vontade...
Afastei-me, um voyeur cansado do ménage a trois, para observar a consequência dos hormônios do amor. A ocitocina! Bendita ocitocina! Oh, adversária do cortisol! Anticristo do estresse! Cortesã da reprodução!  Um truque evolucionário do hipotálamo para não estrangularmos nossos filhos no primeiro choro. 
Ela pós o pequeno em posição, botou nu o mamilo que transbordara e menino tratou de seguir a natureza.
Vi o enlace da mãe e do filho e, encantado, aproximei-me.
O encanto em questão não era desses pasteurizados de rosadas fadas, Disney Copyright, onde se fica admirado com o mais tolo e mecânico ato prosaico. Era, na verdade, mais um bruxedo.
Sem avisar, sem pedir permissão, sem dar sinal, peguei o outro seio, que estava coberto, e com a mão forte o arrastei para fora da vestimenta.
_Hã, espera...
_ Cala a boca.
E tratei de mamar na teta capturada.
Veio o leite salgado e o gosto de lágrima não me agradou, mas a situação era melhor do que a refeição. A tensão permaneceu. Eu de um lado, a criança do outro. Nutrindo de nossa vaca, até que a mão dela, movida por aquela excitação secreta que as mulheres têm ao amamentar, tocou o regaço entre suas coxas e iniciou a dedilhada das cordas femininas. 
Não sei por quanto tempo o festim se dilatou, mas, nós, os três amantes, a mãe, o filho e o invasor, terminamos empatados em satisfação. E na vitória da quietude, durante a digestão, solapada pelo respirar do bebê, de repente, ela disse com uma ou outra nota de cólera em sua voz.
_Não volto nunca mais aqui, seu merda!
_Você toparia uma aposta sobre isso?
E, vendo-a se retirar em pé de guerra, sorri ao me lembra das anedotas dos velhos tios-avôs, que diziam que na roça havia infante alimentado no bico do seio até os seus sete anos.

sábado, 3 de maio de 2014

Invisível

André era o que se chama de repositor. Trabalhava no supermercado, obviamente, repondo produtos de consumo nas prateleiras. Já estava velho e o trabalho era de jovem, os quais riam dele pelas costas por não ser tão moço e estúpido como eles.
Para os novos de baixa renda, esse cansativo trabalho era a porta de entrada no mercado de trabalho. Para André, que já passou por tanta aventura trabalhista, agora era tudo ou nada, ter comida na mesa ou não. Por isso não se rendia a bagunça da molecada que se esmerava na feitura da mais desnecessária bobagem. Isto causava uma boa impressão à chefia, que era abalada pela falta de força física em relação aos seus colegas, alguns ainda frequentadores de academia mesmo após a labuta dura. O tempo conspirava contra sua carne e nada mais restava a fazer se não resistir à dor de cada dia com analgésicos de farmácia.
Sobre aquele que reposita: Este é um dos vários afazeres subalternos a possuírem o encanto de tornar imperceptível o labutador ao olho burguês. Faxineiro, segurança, porteiro, qualquer um desses cargos notadamente ocupados por indivíduos de fenótipo escuro e totalmente dispensáveis no grande plano das coisas ditadas pelo senso comum da tapa de cavalo.
O cliente entretido no equilíbrio entre escudar a integridade do orçamento familiar e ceder a luxuria do consumo não vê, sequer dá conta do esforço dos repositores em manter as prateleiras cheias e limpas (aparentemente). Simplesmente observa o preço, estende o braço, no máximo, compara mercadorias, põe ou não no carrinho e se retira.
Deve haver em algumas fantasias infantis enunciados aristotélicos em que óleos, macarrões, molhos de tomate brotam espontaneamente nas prateleiras. Quão surpreendente deve ser para o infante flagrar um estanho homem uniformizado trazendo produtos e atualizando as fileiras expostas! 
Se esse é um mistério para as crianças, o que se dirá dos segredos não revelados aos adultos? Que os produtos ficam armazenados em condições indignas muitas vezes fazendo sua validade se antecipar além do prazo na embalagem.Não raro, André encontrava uma lata de tomate estourada com uma nação de vermes a nadar em seu infinito carmesim, futuras baratas a correr com suas perninhas cheias de cerdas entre as guloseimas a nos dar água na boca...   E a sujeira dos produtos que mal eram limpos por paninhos com álcool? A urina dos ratos sempre presente anunciando o rastro do roedor. E, claro as prateleiras. O consumidor não está apto a ver a imundice pegajosa atrás de belas embalagens enfileiradas ou produtos vencidos e lixo enfiados atrás de rótulos sedutores. Ser repositor era arfar com peso e se sentir imundo durante oito horas, quando não mais.
Todavia, deixemos os sortilégios das grandes cadeias de consumo em paz e  toquemos em outras invisibilidades.
André se percebia um fantasma andando pelo corredor entre compradores de olhar perdido em si mesmo. Solitário entre os colegas de trabalho, notou-se assim também em relação aos  clientes, porém, quando um o parava para se informar sobre alguma coisa não era um alívio de ser reconhecido pelo outro, mas um mal a lhe cotucar a nuca.  O cliente pedia esclarecimento sobre um produto ou fato qualquer e a pergunta, quando não agressiva e nada urbana, era desesperada e ligeira, como se doesse falar com o empregado da loja. Se houvesse, muita informação a ser dada, o cliente saia, empurrando o carrinho, falando como se desculpando, fugindo de novo para sua segurança de não ver o quem era inferior a ele.
Esse encontro entre espíritos piorava o retorno à invisibilidade, o qual assumia contornos de uma prisão mais confortável, sensação demolidora para qualquer esperança de alteração.
Um dia, no entanto, André trombou com gente conhecida. Não, talvez conhecida. Um primo. Menino de 12 anos, com o qual nunca tivera contato e conhecera afinal na festa de família dias antes.
A família de André, do tempo antes de André, mas do pai de André, era pobre e solidária, trabalhou bastante e aí a geração de André veio ao mundo rica (remediada) e egocentrada. Menos o André, cuja morte prematura do pai quando cedo comprometeu sua entrada na classe média, pois parou de estudar para ser arrimo de sua mãe.
Ele ia às festas de família por respeito aos mais velhos, mas lá só cumprimentava a todos e depois se aninhava no seu canto sem falar com ninguém, pois a conversa entre os profissionais liberais de seu sangue, não devia, lógico, abrangê-lo.
_Oi, você não é o Victor?
O menino, o qual estava com roupa azul babaca de sua escola particular bem arrumadinha, constrangeu-se, estava tudo no rosto torto de um tímido nojo, e negou quem era. O peão, na melhor e na mais ingênua intenção, insistiu.
Veio do nada, no voo da harpia, a tia socorrer o pobre garoto assediado.
 Do outro lado da família de Victor e mulher de um arquiteto de muitas obras erguidas, com contatos na prefeitura, os quais lhes permitiam algumas jogadas imobiliárias e políticas valiosas, que talvez se desnudadas o ministério público interessar-se-ia em esmaga-las.
A mulher de permanentes caracóis louros na cabeça se postou ao lado do garoto e André também a reconheceu da mesma festa. Do alto de seu blasé, a dona positivou a negação.
Não era o Victor.
Ou, na verdade, era!
Era mesmo!
Poderia protestar, dizer que a criança era a porra do seu primo e que ele, o repositor, existia para ser reconhecido. Tanto no supermercado, quanto na festa, como em qualquer chão onde pusesse os pés. Mas o pagamento no final do mês e a paz com os patriarcas da família exigiram que André continuasse equivocado e Victor não fosse Victor.
André pediu desculpas pelo incômodo e sumiu em seu trabalho servil, entre frascos de vinagre e donas de casa com cara de cu a comprá-los, tendo uma pequena nuvem negra grávida de aversão a orbitar o crânio.
Noutro dia, semanas depois, num churrasco de outro primo, esses encontros familiares eram necessários para se emular uma vida social para a família, pois após casório e procriação já não mais interagiam com mais ninguém fora das ligações de sangue, André começou a peregrinação de cumprimentar quem não se interessava por ele, quando reencontrou o mesmo Victor que não era Victor.
André pensou em evitá-lo, porém queria ver a reação de seus olhos. Demonstrar-se-ia algum reflexo do encontro no mercado... Não demonstrou. Nada nos olhos. Só o aperto de mão mole e aquele ar irmanado nos parentes de puro tédio existencial (O que poderia levar algum filosofo a tecer  posteriores perguntas eugênicas sobre o tema).
 Além do pequeno, estava a tia que foi testemunha da confusão ontológica. Diferente do sobrinho, esta foi socialmente mais hábil, veio toda sorrisos, beijou o rosto como se o proletário lhe valesse algum vintém.
_Como vai o trabalho?
O... Trabalho?
_Vai bem. Vai bem...
Sorriu, deu um tchauzinho e foi contar vantagens dos últimos eletrodomésticos que comprou com as outras tias e primas, deixando o repositor sozinho.
André, nem chocado, nem conformado, nem revoltado, apenas absorto, de olhos arregalados, pegou uma cadeira e foi para o canto usar sua habilidade de se tornar invisível aos seus iguais, a qual, pela primeira vez em seus dias de miséria, viu como uma benção dada pela fatalidade.

domingo, 27 de abril de 2014

O parto dos não nascidos.


Amanda se jogou satisfeita no sofá. Vitoriosa. Infantil. Dentes a mostra. Riu. Ergueu a camiseta e contemplou o ventre a carregar vida. Não, não eram lombrigas. Prenha. Grávida. Nesse material genético a se erigir dentro dela, também se fundava sua aposentadoria precoce.
Deu. 
Secretária, ela tinha acesso aos papeis, à correspondência e aos emails. Sabia bem! O chefe ficaria pouco tempo na firma. O engenheiro já estava sendo assediado com propostas para consultoria em pelo menos umas três outras empresas. Todas multinacionais poderosas e cuspidoras de fogo. Alta grana (e ele até que era jeitozinho).
Deu.
Há! Como deu! 
Armou direitinho. De roupas mais discretas, passou para a vermelha pomba-gira e o decote edipiano. Nada digno de lupanar, apenas para lembrar que atrás daquela empregada havia instrumentos sexuais femininos passiveis de estímulo ao seu superior em comando. Logo se fez o clima. Amasso no almoço. Na hora extra do expediente. No carro da carona. A mão no pau duro. Ela molhada, atiçada, não pelo desejo pelo presente macho viril, mas pelo vindouro macho provedor.
(Reflexão vulgar: não fantasiou com isso, mas se o sujeito passasse veloz o cartão de crédito em seu regaço, talvez Amanda tivesse gozado em jatos de fluídos lubrificantes como óleos de máquinas a explosão. Não saberemos, pois falta malícia ao varão e o cinismo da moça é limitado à funcionalidade do seu parasitismo feminino. Então nada de artes sexuais, performances de duplas leituras e hipertextos).
A provocação o levou a, enfim, convidá-la ao motel, cuja aceitação a moça postergou até o momento mais fértil de sua sexualidade.  Claro que se ela não embuchasse dessa vez, haveria outras furunfadas até conseguir, mas para isso teria de jogar bem melhor o jogo para que o engenheiro não ficasse entediado e pulasse fora. Seria bem oportuno se a geração ocorresse na primeira fornicação, pois além de se garantir a partida logo de cara, teria um efeito psicológico de pseudodefloramento (Sofisticação cínica que, juramos, não podia estar na clareza da mente, mas se alojava em algum quartinho de vassouras de seu crânio).
Treparam.
Como Amanda imaginou, sendo um homem de educação interiorana, o rapaz não cogitaria em usar camisinha. Suspirou mentalmente um “ainda bem” e foderam num monótono papai e mamãe, feijão com arroz, café  com leite, contas a pagar, sem muitas peripécias, para ela não queimar o filme de futura mãe de seu filho.
Ele era mais velho e experiente e, a despeito de sua aversão ao preservativo como muitos homens conservadores, não a forçou a posições mais ornamentais. Foi tocado pelo mito da moça direita. Afinal, era ele o garanhão que seduziu a secretária. A transa nada inebriante não a estorvou de interpretar uma amante apaixonada, cujos carinhos impressionaram o rapaz.
Aqui um informe sobre Amanda: Ela obviamente não era virgem e já tinha umas boas passadas na grande corrida sexual da vida, porém para o papel era bom simular-se uma atleta tímida e manca para fazer um homem que se acha dono da situação um belo e sólido otário.
Depois era só esperar. Acendeu velas para os santos apoiarem sua picaretagem reprodutiva, menos para a Virgem Maria, pois pareceria desrespeito. Fez o teste de farmácia. Um. Dois. Três. Apenas para confirmar.
Saltitante com o ovulo fecundado foi ter com o chefe no expediente.  
_Precisamos conversar... Clássica brisa antes da tempestade.
Conversaram.
_Mas você não tomou a pílula?
_F-falhou... Ah! As lágrimas. Que belo instrumento de coerção!_ O que vamos fazer?
O homem que não fazia questão de usar camisa de Vênus porque merdas não acontecem com ele, só com os outros, que não se importou com a ética profissional ao foder a secretária, jamais aceitaria um aborto, talvez pagar uma pensão, não, casamento, porque, não? Ele não era avesso à instituição e gostava de crianças como as outras pessoas que gostavam de cãezinhos.
Amanda vai casar!
E após ouvir o pedido e beijá-lo emocionada, voltou para casa na intenção de comunicar aos pais. Todavia era tarde e ela caiu no sofá, onde estava agora a admirar o pote de ouro em seu abdômen. O qual alisou antevendo um futuro seguro e, talvez, feliz. O amor pode ser forjado na convivência, talvez um dia ame o chefe ou talvez um dia se divorcie, pegue uma grana e aí possa arrumar o amor verdadeiro de sonho de menina.
Considerou isso quase dormindo, trilhando a misteriosa fronteira entre cá e o lado de lá, onde abundam os sonhos. Com os olhinhos semicerrados, ainda contemplava o ventre, quando ainda sem se assombrar viu uma pequena elevação em sua carne ir-se para cima e depois abaixar. Há de ser só impressão. Ou não?
Não, pois a elevação se ergueu a um maior patamar e Amanda sentiu a pontada.  Era como se ela fosse uma lona e algo dentro a espetasse. Seus olhos se abriram, de novo o erguimento dolorido da carne e, por fim, numa estocada, uma lâmina atassalha caminho na pele e vai cortando o caminho como as espadas dos antigos filmes de piratas quando seus heróis desciam do mastro rasgando a vela principal do navio.
 Rasgada ao meio e ainda viva, Amanda abismada pela dor infindável dessa vivisseção, viu um braço vermelho sair de dentro de si, acompanhado de seu par, buscando apoio para projetar o resto de seu corpo hediondo para fora.
A coisa rubra saiu. Uma mulher sem pele com os músculos a mostra, como aqueles desenhos de anatomia em enciclopédia, porém com detalhes díspares do ser humano típico feito os pés que lembravam os de um grande inseto e espinhos despontando dos antibraços como os do Batman em seus punhos ou das garras de um louva-deus. No cinto na sua cintura, o sabre que partiu o bucho de Amanda.
Trata-se de Milachar de Belo Cancro, demônio fêmeo do quarto círculo, das legiões de Asmodeus, que resolveu migrar para este plano em busca de conquistas no mercado de almas para o inferno, além de fazer turismo sexual, copulando com o que achasse atraente.
Amanda tenta gritar, mas não havia mais som saindo de sua boca. Grita, grita, e persistia somente o escancarado esgar.
Não se trata, anotem, de uma punição de moral metafísica materializada, mas sim de apenas funcionalidade cósmica. Poder-se-ia ser um útero qualquer corrompido pelo fruto de um estupro, mas a ganância apareceu no caminho do diabo e este desejo comprovadamente garantia mais estabilidade entre as vibrações multidimensionais.
Milachar não deixou Amanda morrer, pois combinou com amigos que seu safári no mundo mortal seria coletivo e divertido. A diabólica ajudou a sair pelo rombo Fergan de Lua Foice, de corpo mecânico e fumegante, e Aluira dos Cacos Virginais, de couro das mil bocas famintas.  Ambos também interessados em investimentos em almas e terrenos especulativos no lado de cá do pesadelo.
Depois, Milachar costurou o ventre com agulha e linha que pegou na máquina de costura da mãe de Amanda e lhe instruiu que, por encanto infernal, a mulher não poderia morrer até os demônios voltarem para abri-la de novo e se precipitarem dentro de Amanda para a casa abissal.
_E - e meu filho?
_Nós o comemos. Sabe Snacks de viagem?
E se foram, porta a fora, pegaram um taxi branco para o centro, onde começariam suas aplicações em investimentos.
Amanda, obviamente, depois dessa merda toda, perdeu o juízo, digerido pelos demônios junto com o filho. Batendo a porta, tomou às ruas, desaparecendo da vida de todo os  outros, sendo vista meses depois por conhecidos como uma mendiga insana sob a sombra de um viaduto na cidade vizinha a tagarelar coisas loucas sobre Satanás e Cia.


domingo, 20 de abril de 2014

Doroteia

Nos Campos de Estupro da Península Ibérica, os primeiros híbridos gerados pelos Varões Violadores nos receptáculos placentários principiam partos ruidosos. São cesarianas rasgadas na cela de pseudocarne de dentro para fora pelos miúdos, os quais em quinze dias estarão no tamanho adulto com todas as memórias implantadas rodando plenamente.
Entre a primeira leva dos novos híbridos já se encontram fêmeas que se mostrarão férteis e reprodutivas, fazendo a horda de humanas cativas ser dispensada e direcionada para os Campos de Pele e Reciclagem.  
Antes da invasão do Matriarcado Magadom, Doroteia era nada. Uma caixa de supermercado ignorável diante dos olhos alheios. Após todas as cidades e nações caíram, ela continua sendo nada, porém com fortes perspectivas em ser reclicada em algum produto útil às Fêmeas Imperatrizes das cidadelas flutuantes agora a assombrar os céus e horizontes do planeta Terra.
Na fila para o vagão de transportes de carga humana, Doroteia marcha lentamente como os jovens estudantes no musical do Pink Floyd caminhavam para a fábrica de fazer salsichas. Ela não sabe por que se lembrou disso... Não, ela sabe. Óbvio. A analogia da lembrança juvenil veio em sua mente trazendo o conforto do passado, quando a realidade era regida pela televisão e pelo cinema, e o horror de um futuro de morte e descaracterização de seus restos.  
Por que caminhar passivamente, como gado, para o fim? Por que não simplesmente lutar ou ao menos fugir para se libertar numa morte rápida e rebelde? 
Porque quem vigia as filas de transporte são os Varões Violadores. Soldados máquinas orgânicas triploides de violação sexual com tentáculos de ponta rotativa. Eles não matam a vítima, eles a seviciam, causando tanto dor física como moral. Doroteia nunca pensou que alienígenas usariam o estupro como arma de guerra. Ainda mais um matriarcado! 
A sociedade Magadom funciona como uma colmeia. Operários, soldados e zangões sem personalidade individual desenvolvida a serviço de um gineceu de rainhas. Os únicos componentes dessa sociedade de metal, plástico e carne com identidade e suas necessidades evoluídos até a individualidade. São estas soberanas que geram seus subalternos em turnos reprodutivos de décadas. 
O povo magadom remete a uma composição a amalgamar características dos nossos artrópodes e moluscos, porém nascem incompletos para a sobrevivência por si só, sendo acoplados mecanismos a lhe garantir a sobrevivência e mobilidade. Trata-se de uma espécie evoluída em simbiose com sua tecnologia, portanto dependente intrinsecamente. 
Doroteia sabe disso porque durante a guerra da queda da humanidade, quando houve esperançosas e fúteis vitórias permitiram ao revirar os restos das naus invasoras caídas os resistentes descobrirem seus segredos, os quais foram difusos pelos restos da mídia de modo que todo terrestre acesso.
Os magadons são saqueadores cósmicos. Drenaram até a última gota de seu planeta natal e agora saltam de mundo em mundo, habitado ou não, fazendo o mesmo para manter o estilo de vida das Fêmeas Imperatrizes. 
Como gafanhotos, devoram tudo.
Dos minérios até a carne da raça dominante, com a qual cruzavam através de estupros por sondas orgânicas mecânicas onde desferiam bombardeamento genético a fim de criar soldados e operários mais aptos ao planeta que destroem. Inoculam seus espermatozoides nanotecnológicos nos corpos das fêmeas dominadas, para em seguida copiar detalhes de glândulas masculinas após vivissecção dos machos e esperam a gestação de híbridos entre as espécies.
Todavia, algumas espécies como a humana não suportam a gestação completa, então, o embrião é extraído e recolocado nos receptáculos placentários para completar todo procedimento gestacional.
 Desse horror, Doroteia escapou, pois com o tempo os operários parteiros aprendem a sintetizar todo processo, incluindo criar um banco de óvulos e espermatozoides sintéticos para esse fim.
No entanto, esquivou do estupro, ela agora está indo para morte e reciclável.
Os magadons não fazem questão de proporcionar uma execução rápida às suas vítimas. Preferem algo certamente econômico de energia, pensou Doroteia.  Pensamento, que a assombrou nos dormitórios dos campos quando viu perfilar filas de milhares de pessoas para os transportes.
Os dormitórios eram depósitos de gente de toda espécie, muito mais gente capazes de comportar, logo a humanidade se transformava em sub-humanidade. Havia aqueles a tentar organizar a prisão, mas não adiantava. Logo tudo se reduziu a tribos ou gangues, cada um com sua violência para sobreviver. Canibalismo não era raro. Mesmo o estupro, arma do invasor para quebrar o espírito do invadido e, portanto, fantasma de todos, foi prática nada incomum.
Doroteia sabia que aquele inferno teria fim, mas pelo menos, trataria de não ter a morte industrial reservada pelos alienígenas. Para mulheres há duas posições nos dormitórios. A de matadora ou negociante para as violentas e a de prostituta para as mortiças. Doroteia é forte fisicamente, quando tentaram violentá-la, ela expulsou os três agressores esmagando narizes. Isso lhe deu respeito no grupo o qual havia se aproximado e cabia a ela uma parte significativa de ração insuficiente que os seus carcereiros distribuíam.
No entanto, ao perceber o fenecimento de tudo, desceu na hierarquia. Fez-se puta e prestou serviços sexuais ao mais forte de todos, cujos músculos não murcharam diante da dieta precária e das condições insalubres (os banheiros eram um cagadouro coletivo, um buraco onde vários sentavam juntos para defecar e relembrar os bons tempos) e o nome fez questão de não saber.
Agora, na grande fila ela o procura entre os milhares, e numa fileira à distância o acha, marchando como resto.
O homem forte está à frente. Doroteia espera uma distração dos varões violadores e corre como seu corpo permitiu até seu antigo cliente. Ela fura a fila e entra na frente dele. Como o resultado da fila não é dos melhores, ninguém reclama da atitude antissociável da moça. 
Caminhando adiante, ela não precisa dizer nada ao homem forte. Apenas que era hora de acertar as contas. Assim, ele envolve o pescoço da mulher com suas mãos possantes e, num segundo, quando a fila para, causando certo engarrafamento momentâneo, Doroteia é estrangulada. 
E antes que os vigias atentem para o ruído da performance da   fileira, são atraídos  pelo corpo de Doroteia que  caiu no solo.
Os varões violentadores se aproximam na intenção de punir, porém avaliam que não há ente senciente para degradar. Mas somente carne a reciclar. Então arrastam o cadáver para uma caçamba onde pousa junto com outros mortos de várias maneiras, alguns como os dela. Livremente.
Doroteia escapou da morte indústrial, apesar do cadáver está para ser reciclado, porém se ela detivesse o dom da clarividência não teria se submetido ao sexo e ao garrote de dedos, e teria esperado o espetáculo do belo crepúsculo atômico.
Não foi toda civilização que caiu de joelhos diante dos Magadom. Partes da China e da Rússia ainda resistem aos invasores. Como decidido antes cada país com tecnologia militar atômica, poupou-se de usar armas nucleares como ferramenta libertadora para  preservar a raça humana. Todavia, a China que restava havia caído naquela tarde e na noite só restavam os russos, e estes sabiam que sua liberdade não passaria da madrugada talvez.
Russos são Russos. Eles lutam até o final. Se eles preferem destruir a pátria mãe a entregá-la a um invasor, porque seriam diferentes com a mãe terra?
 Antes do jantar, o Comitê de Resistência da Rússia decide detonar todas suas ogivas nucleares aniquilando o planeta terra e livrando o universo da praga magadom.
Se Doroteia estivesse viva teria sido, talvez, desintegrada sem sofrimentos, vislumbrando a beleza arrasadora do sol artificial antes da cegueira final, entretanto, apesar do preço pago, ela se foi satisfeita de ter dobrado a mão do destino.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A Libertação de Daniel

A roupa era listrada.
(Realmente, passaria por um pijama...)
Convencia, todavia, não era verdadeira. Simulacro sob encomenda. Obra de um alfaiate acostumado a costurar figurinos para peças de teatro, filmes e comerciais. Daniel trouxe as fotos dos prisioneiros como exemplo. O velho judeu olhou silencioso as imagens. Suspirou. O pai dele morreu num desses matadouros. Daniel se juntou à narrativa:
_ Meu avô era um sobrevivente. Sempre contava de seu tempo no campo. Sempre...
Em todo encontro. Todo jantar. Toda data. Todo dia!
Era para não deslembrar. Esquecer como é difícil ser judeu. Ou para coçar uma maldita ferida que nunca se apaziguava. Daniel ouvia quieto, com os olhos pesados do avô sobre seu pequeno crânio infantil, enquanto, com a manga dobrada, o patriarca exibia a identificação numérica. Os cristãos não rememoravam o Judeu Eterno? Eis o certificado de vítima eterna.
_Qual?
A voz rouca resgatou Daniel de suas lembranças.
_Hã?
_ Em qual campo seu avô estava?
_ Treblinka.
_Papa morreu em Chełmno.
Pausa.
_É para que o uniforme?
_Para uma peça. Teatro.
_Respeitosa, espero.
_Totalmente.
_Passa segunda que vai tá pronta.
Daniel desceu a escadinha do predinho no Bexiga, lar dos  judeus pés-rapados, antipodes dos endinheirados  de Higienópolis onde morava, e entrou no carro de propriedade da empresa de seu pai.
Absorto.
A tatuagem no punho de seu avô.
O membro que um foi dia poderoso, pois quando jovem e cativo, o velho foi kapo. Liderou o comando de prisioneiros lenhadores, encarregados de desmatar os bosques circundantes ao campo. Ainda antes de morrer possuía no branco braço os traços titânicos de homem possante, naufragados na rosada flacidez aquosa.
Onde flutuavam os malditos números.
_Ô, filho da puta! O sinal abriu!
Desperto pelas buzinas e xingamentos, Daniel seguiu adiante erguendo o dedo médio.

Daniel passava as instruções ao zelador. A academia era sua responsabilidade agora. Haviam decidido o pai e os irmãos. Disseram:
_Você já é um homem feito, precisa aprender a cuidar dos negócios da família...
Negócios da família. Isso significa trabalhar finais de semana, esquentar a cabeça com números e lidar, droga, com gente...
Se dependesse de Daniel, ele venderia tudo e viveria de juros, aprenderia uma profissão útil como sapateiro ou carpinteiro e ia tentar ser gente.
O zelador era um maranhense. Aquele tipo de pessoa que trabalha muito e nunca aparenta estar cansado. Os familiares de Daniel gostam dele, mas nunca demonstraram. Mora nos fundos da academia com a família. Esposa, duas filhas adolescentes, um menino mais velho adotado...
Não.
O menino não estava mais lá. Parece que tentou violar uma das filhas. Coitada. História mundo cão. Perfeita para programas de televisão mundo cão. Mas não era assunto seu.
Não foram muitas as instruções a serem dadas. O zelador já sabia o que fazer. Era mais para demonstrar que ele, o novo chefe, conhecia suas obrigações e não poderia ser enganado.
 O novo administrador tentava aparentar ser rígido como seus irmãos, mas sem ser aquele tipo de cuzão que eles gostam de interpretar. Não sabe se estava conseguindo, mas tinha que falar todo o roteiro da peça  patrão versus eempregado.
Daniel palestrava para o empregado na frente da casa do zelador. Pela porta aberta, viu a menina mais velha. Aquela que teria sido quase violada. Ela o olhava com um indisfarçável desdém. Quase uma raiva. O que teria acontecido com irmão adotivo?
Quando terminou a entrevista, despediram-se. Daniel tomou o corredor. Por intuição, o rapaz se voltou e encostou o ouvido na porta, de onde ouviu:
_Judeu do caralho!
O zelador a repreendeu, relembrando de onde vinha o sustento da família. A menina cita a crucificação de Jesus e culpa os judeus como resposta. Pelo o que ouviu depois, Daniele concluiu que a menina havia se tornado uma crente fleumática, pois começou a profetizar desconexamente sobre celebridades televisivas. Quem morreria para pagar seus pecados. Quem se converteria e teria final feliz.
Aparentemente o irmão adotivo fez mesmo as vezes de Caim e deixou a sua marca na irmã.

O tatuador recomendou usar o filme plástico por três dias, mas dane-se se infeccionar. Esperou meses pela encomenda que veio da Tailândia, passando fora da alfândega para não dar buchicho e podia aguentar um dia. Podia. Mas não devia confiar na sorte.
Vai que o cara muda de cidade, ou muda de ponto, tem muito lugar pra trotuar hoje em dia, ou é preso por alguma merda.
Sobre essa gente não se sabe.
Pensou que podia importar alguém do sul, ou ele mesmo viajar, mas aí é se expor demais.
Retirou o filme que envolvia o pulso e viu que ela estava cicatrizada. Bom. Também se não estivesse...
_Dane-se!   

Na USP, Daniel estudava no prédio palaciano da FEA, mas gostava de ir mijar e cagar  no predinho de filosofia e sociologia, o coração da FFLCH. Não era pela limpeza. Os banheiros de lá eram imundos e fediam a urina. Os da FEA brilhavam e cheiravam a esterilização, que combinavam perfeitamente com o aspecto de Shopping Center de luxo que o prédio da instituição detinha. Fruto de doações de ex-alunos que se tornaram capitalistas poderosos,  mas mantinham um coração nostálgico e um apreço pelo desconto no imposto de renda. Não raro deviam constranger quem fosse lá excretar qualquer coisa e desdourar as paredes de porcelana daqueles vasos impecáveis.
Além da caminhada, o atrativo do banheiro filosófico estava realmente na decoração. Os banheiros humanistas eram todos pichados com mensagens pertencentes a três grupos distintos entre si: Esquerdistas de vários tons de vermelho e preto proclamando guerra contra as injustiças do mundo.  Propostas de encontros para coito homossexual, junto com telefones e desenhos de pintos diversos, porém sempre longos e possantes. E nazistas.
Aparentemente, proliferava um número não desprezível de neonazistas, antissemitas e racistas em geral, de vários sabores, a odiar pretos, nordestinos, orientais, etc., por aqueles corredores humanistas. Os intolerantes estudavam tanto na sociologia como na filosofia. Claro que na surdina, discretos, sem nunca revelar seus gostos eugênicos, pois, pelo menos sábios nesse quesito,  teriam que enfrentar uma maioria vermelha  ou, pelo menos, progressista, que lhes desceria o cacete até  o linchamento chegar ao estado da arte.
Daniel, lá mijava, cagava, ou ambos, e os admirava.
Cada palavra.

No espelho, viu a máquina desbastar os loiros cabelos encaracolados de querubim. Os cachos caiam um por um remetendo a obvia tosa de ovelha. Do carneiro tosado, nasceu o leão. Sem juba, seria uma leoa? O leão de Israel emasculado? Não, não era o que indicava na sua calça. Na sua pélvis. Sorte que o avental o oculta, se não ele teria que se explicar para o barbeiro.
Daniel coçou as cascas de ferida dos números de seu braço esquerdo.
Seu pai perguntaria por que raspou o cabelo. Sua vontade era de dizer:
_Virei skinhead, pai.
Só para ver a cara de bosta do pai.
Mas vai responder:
_É o calor. Melhor assim.
Sorte que morava num país tropical, abençoado por Deus, aquele mesmo todo-poderoso que meio século antes estava com os nazistas, conforme os escritos de seus cintos, Gott mit uns, quando o povo escolhido foi selecionado para virar mão de obra escrava e sabão não biodegradável.

_Será que o tio Max vai, pai?
_Ir aonde?
E mostrou a matéria no tablet sobre o bando de saudosos velhinhos senis e de variados tipos de sociopata com problemas de aprendizado os quais resolveram reeditar a Marcha da Família com Deus, cuja primeira versão cravou o selo de legitimidade ao Golpe Militar de 1964. Defendiam uma nova intervenção militar para salvar o país da corrupção, matar um monte de gente de quem não gostavam e ganhar um dinheiro fácil sem trabalhar com alguma boquinha parasitária no novo e radiante governo verde-oliva.
O pai engoliu o café com leite.
_E Tio Max por que ele iria?
Daniel passou margarina no pão e o mordiscou. Mastigou o pedaço. Depois falou.
_Ele não ganhou bastante dinheiro com a ditadura?
_Aff! De novo isso.
_É o que ele fala direto.
_ O tio tava bêbado! (pausa) E muita gente ganhou dinheiro...
De fato nas festinhas de família, o tio – avô de Daniel se reencostava na poltrona com o obvio copinho de uísque na mão e começava a contar dos bons tempos. Daniel fizera uma matéria optativa em dramaturgia na ECA, para refrescar a cabeça da economia, e lá ouviu que Dionísio era o deus da verdade. OK que ele era o deus do vinho e a preferência de tio Max era uísque, mas botemos um kilt na cintura e um chapéu de cowboy na cachola do deus grego que tudo se adéqua.
_Ele ficava falando direto de um tal de Albert, que  foi assassinado. Pareciam que eram bons amigos. Andei pesquisando... Maravilha a internet, não?
_E?
_Ele foi justiçado pelo pessoal da guerrilha, parecia que além de levantar caixa pra tortura...
O pai de Daniel abandonou a geleia importada.
_Tortura?
_Parece que o amigo do tio gostava de ver o pessoal tomar choque no saco. Será que o velho também...
_Chega! Não quero saber.
 _Um dia vou perguntar pro tio: Tio foi você que  deu choque  no saco do Raul Seixas?
_Vai nada. Eu te proíbo. Já me estragou o dia logo de manhã com essa história... Nem sabia que o Raul Seixas tinha sido torturado.
Os dois se quietaram. O pai tentou voltar a comer. O filho terminou o pão.
_Pelo menos, me deixa telefonar pra ele pra ver se quer ir na marcha.
_Daniel, pela amor de Deus! Como ele vai... Ele usa andador. Não dá...
_Eu acompanho. Vai ter um monte de gente da idade dele lá. Deve ter até o pelotão dos andadores ou a patrulha das cadeiras de roda...
_Não!
Mais uma vez o pai tentou voltar ao bendito café, mas desistiu, empurrou a comida e pegou o jornal. Estava de saída para a varanda quando o filho, sem mudar a expressão vazia o chamou.
_ O que foi agora?
_O Tio Max não passou pelos campos, não é?
_Não.  Meus avôs o conseguiram fazer passar pela fronteira. Por quê?
_ Nada. Só pensando que se ele tivesse isso...
Daniel mostrou os números tatuados no punho.
_Que merda é essa?
_Talvez ele não tivesse ganho tanto dinheiro quanto ganhou, não é.
O pai ignorou a questão levantada por Daniel e o interrogou, vermelho de braveza como uma pimenta ardida, sobre a tatuagem. Quase foi as vias de fato. Daniel sem se alterar explicou que não se tratava de uma brincadeira, mas de uma homenagem ao avô.
_Para não esquecer o holocausto.
Não esquecer o inesquecível.

Hoje é o dia.
(Daniel brincou:)
Dia D.
 (Apesar de que foram os Russos que mais campos libertaram.)
Porém, que esse seja o Dia D.
Ligou para o rapaz no apartamento da São João.
A família não sabia do apartamento. Não era pra saber. Um segredo para abrigar outros segredos.
Perguntou se estava tudo bem. Disse que podia se servir de qualquer coisa, pelo menos até se trocar. Era para se hidratar bem antes de se vestir, pois enquanto estiver arrumado para seu papel não consumiria mais nada.
_Entendido?
Não queria que derrubasse nada na roupa. Uma raridade...
Foi tiro no escuro dar a chave do apartamento para ele. Roleta Russa. Será que esse filho da puta iria roubá-lo? Tantos casos que terminam mal... Claro que Daniel vai tomar a chave de volta quando tudo terminar e também não irá se esquivar de trocar a fechadura assim que puder.
O jovem judeu estava obviamente nervoso, entretanto, estacionou o carro no seu espaço na garagem sem fazer nenhuma barbeiragem. Na hora, cogitou em subir pela escada, mas o apartamento ficava no décimo segundo andar. Prédio velho, milagre o elevador estar funcionando. Imaginou que grande merda seria se o elevador parasse e ele ficasse preso justo nessa noite.
Contudo, o elevador não apresentou problemas. Chegou são e salvo no seu andar, passou pelos corredores com várias portas de madeira, aquele visual antigo de anos remotos, e colocou a chave na porta.
Era um apartamento pequeno, de classe média remediada de antigamente, dois quartos, sala e cozinha. Daniel poderia morar aí, bem diferente do apartamento de andar inteiro, onde mora com os pais. Os irmãos, cada um tem sua casa. Daniel foi ficando, cultivando certo desagrado entre os familiares por sua falta de iniciativa em fugir das asas paternas. Ele ainda iria morar sozinho. Talvez nesse ano ou no outro. Em outro lugar. Esse ficaria como investimento e, como dizem os moços de família que querem economizar com motéis, abatedouro.
Daniel entrou na sala. A luz estava acesa. A porta do quarto a direita estava fechada. O da esquerda aberta. Conforme combinado. Daniel entra no quarto à esquerda e se despe. Retira da maleta de executivo, 007, a roupa que parecia um pijama. Pensou em tomar banho, mas o suor daria, talvez, mais sustância a fantasia. Afinal, chuveiro para os prisioneiros significava outra coisa...
Daniel vestiu a roupa listrada. Calçou os sapatos e colocou o boné sobre a cabeça. Olhou para a estrela amarela em seu peito e por instantes ponderou que poderia ser um xerife de faroeste de comédia caído da cama para enfrentar um bandido o qual decidiu aprontar na alta madrugada, e imaginou uma cena azulada do estilo noite americana.  Não, ele enfrentaria o bandido, todavia não como um homem da lei do velho oeste faria.
Novamente se questionou se devia usar a estrela de Israel ou o triangulo rosa invertido. Considerou que a estrela era mais impactante. Talvez por estar mais no imaginário popular e, com certeza, por seus conflitos pessoais. O triangulo inverso remetia a um problema o qual nunca enfrentou de verdade, pois sempre se acomodou no armário com seus esqueletos.
Daniel ligou o celular. Do quarto ao lado, ouviu o outro aparelho tocar. O outro atendeu.
_Alô. Sou eu. Já estou aqui e estou pronto. E você, já se vestiu?
_Está tudo certo.
_O uniforme ficou bem?
_Você vai ver...
Saiu de seu quarto e foi ao outro. Tocou a maçaneta. Respirou fundo. Abriu a porta...
 E lá estava o oficial da Schutzstaffel, a SS, em seu uniforme negro, com quepe, botas e seus adornos de caveiras, com as mãos na cintura, esperando sua vítima.
Não. Não abriu alguma fenda temporal e o vilão histórico, um legítimo nazista alemão da força de segurança e extermino sob o comando do Reichsführer Heinrich Himmler, escapou para o nosso tempo, no lugar de fugir em um submarino para a Argentina ou Chile e contribuir no futuro para ditaduras vindouras.  Tratava-se de um prostituto, desses que se vendem pelas ruas da urbe, vestido com um legítimo traje escuro da sanha totalitarista do nacional-socialismo, escavado por Daniel nos mercados eletrônicos da internet profunda.
O michê é um moço que veio do sul do país, tentar a sorte com as mariconas de São Paulo e fazer um pé de meia. Se não abrisse a boca e soltasse seu português carregado de sotaque do Brasil meridional, passaria por um jovem alemão de olhar impertinente.
Daniel estava rondando o centro em busca de companhia sexual de aluguel, quando pela janela do carro, viu o viadinho fazendo ponto na praça cravejada de craqueiros. Chamou-o para conversar, pagou-lhe um lanche e fascinado por aquela brancura ariana que o faria de exemplo positivo em qualquer seminário de eugenia no começo do século XX, tratou de sabatiná-lo.
O michê contou que nasceu numa daquelas cidades de imigração alemã, onde o português era língua secundária em relação ao falar germânico. Os olhos verdes do judeu brilharam com a possibilidade dele ser descendente do pessoal que fez parte do Partido Nazista no Brasil, o maior do mundo fora da Alemanha, mas não perguntou isso logo de cara. Pelo nível intelectual rasteiro que o garoto demonstrava, talvez não soubesse dizer. Ou, se soubesse, talvez se ofendesse.  De toda forma, usou da linguagem universal: perguntou se queria um bom dinheiro. O puto, obviamente, se interessou.
Foram mais de um mês de instruções, preparações, como devia se portar, agir; Daniel sempre pagando, dando presentes, sustentou o seu aluguel num cortiço e ainda o adiantou por um bom tempo. Como o rapaz fosse uma noiva prometida, Daniel não o tocou, apesar dele se oferecer mais de uma vez, certamente em busca de mais agrados monetários. Também fez questão de não vê-lo vestido como queria até o grande dia. E finalmente o casamento chegou.
Estavam frente a frente o oficial da SS e o prisioneiro de roupa listrada. Como havia sido treinado, o nazista de faz de conta se aproximou do judeu de verdade e o esbofeteou.
Não foi um tabefe muito forte. Estava mais para um tapa de mulherzinha.  A despeito da parca potência, no entanto, Daniel se jogou no chão, com o rosto próximo às botas negras. O SS, então, moveu o pé para próximo do rosto do condenado. Este timidamente botou a língua para fora e começou a lambê-lo.
O michê totalitário sentou na cama, Daniel rastejou um tanto até alcança-lo e continuou a lustrar o calçado com a língua. Deu um trato nas duas botas, quando terminou, desamarrou os cadarços e experimentou a carne branca dos dedos, dos calcanhares, das batatas da perna  e até  do sabor exótico, algo meio queijo, da frieira que comia a carne entre os dedos.
Depois subiu pelas pernas como um gato escalando uma árvore, desatou o cinto e abriu a calça quando se assustou como se encontrasse no lugar do caralho uma víbora a gotejar peçonha.
-Porra!
_O que foi? Perguntou o facínora de mentirinha.
_Pelo amor de Deus! Me diga que  você teve fimose!
_Hã?
_Fimose, me diga, que  você teve fimose.
Não era nada disforme, na verdade, era um belo pinto, contudo, o cacete estava sem seu prepúcio. A lembrança da aliança do homem com Deus, se esse filho da puta fosse judeu seria o fim. Tudo o que planejou, seu grande momento iria escorrer pela sarjeta.
_Sim, tive fimose, sim!
_Quando cortou?
Num momento raro em sua vida, o michê fez uma escolha boa, no meio de tantas trapalhadas que o arremessaram para baixo. Cortaram sua pele peniana ao nascer, não porque era judeu também (seria uma coincidência de merda, não), mas por questões de limpeza. Então, mentiu.
_Aos 16.
Aliviado, Daniel retornou à mise-en-scène uranista e abocanhou o pedaço de carne desencapado e o felou como se faminto mamasse em uma teta bovina.  Agora, era só seguir o roteiro básico. Algumas agressões simbólicas, uns tapas e cusparadas na cara e o ato final: o empregado erótico jogar o patrão na cama de costas, rasgar os fundilhos das calças, sem problemas já que  o uniforme de prisioneiroera falso e podia ser destruído ao contrário do uniforme legítimo da SS, e sodomiza-lo,  montando em Daniel com a paixão de personagens bíblicos do primeiro testamento.
 A cada estocada, Daniel mordia seu punho, afundando os números de seu avô na marca de suas dentadas.
O teatro estava para terminar, entretanto, o putinho de roupas negras teve uma iniciativa que encantou Daniel. Prestes a ejacular tirou seu membro do rabo, desnudou-o da camisinha (Sexo seguro, sim, por que não?) e esporrou no chão. Depois catou o judeu pelo braço e o arrastou para baixo em direção àquela alva poça.
Daniel levou alguns segundos para processar a iniciativa de seu servo dominador, mas a ficha logo caiu e logo sorveu a porra dispensada como deliciosa guloseima.
Terminada a foda ditirâmbica, Daniel deitou extenuado na cama e se recolheu em posição fetal. O pseudototalitário também esfalfado foi se juntar ao seu contratante, mas este o deteve com a mão e se levantou.
Saiu do quarto, andando com a calça de fundilhos rasgado, exibindo o traseiro que foi fodido, e logo retornou com um maço de notas. O michê não creu na quantidade de dinheiro. Sabia que ia levar uma bolada, mas não tanto.
_Agora, tire o uniforme e pode ir.
O garoto de programa estava acostumado a frieza dos clientes após a transa, mas esperava mais entusiasmo do cliente dessa vez. Quer dizer, a foda foi perfeita... Já despido da indumentária e vestido em suas roupas de grife, que o próprio Daniel o presenteara e prestes a sair, perguntou, já prevendo que a fonte secara.
_ A gente se vê?
_ Claro.
Disse o empregador naquele tom que o rapaz já conhecia.  Acabou, pensou e saiu pela porta, para sua vida que a partir daquele instante nos escapa.
Daniel se livra da roupa de prisioneiro de campo de concentração e vai até a frente do espelho da penteadeira. Mirou-se e sorriu.
Apesar dos prazeres da humilhação e da penetração, ele ainda não ejaculara, então com o pau ereto novamente, masturbou-se.

Quando a fricção de suas falanges deu-lhe a erupção que faltara, ele colocou o punho na frente da cabeça circuncidada e viu a porra cobrir a numeração de seu avô, libertando-o daquela merda toda.