A
roupa era listrada.
(Realmente,
passaria por um pijama...)
Convencia,
todavia, não era verdadeira. Simulacro sob encomenda. Obra de um alfaiate acostumado
a costurar figurinos para peças de teatro, filmes e comerciais. Daniel trouxe
as fotos dos prisioneiros como exemplo. O velho judeu olhou silencioso as
imagens. Suspirou. O pai dele morreu num desses matadouros. Daniel se juntou à
narrativa:
_
Meu avô era um sobrevivente. Sempre contava de seu tempo no campo. Sempre...
Em
todo encontro. Todo jantar. Toda data. Todo dia!
Era
para não deslembrar. Esquecer como é difícil ser judeu. Ou para coçar uma
maldita ferida que nunca se apaziguava. Daniel ouvia quieto, com os olhos
pesados do avô sobre seu pequeno crânio infantil, enquanto, com a manga
dobrada, o patriarca exibia a identificação numérica. Os cristãos não
rememoravam o Judeu Eterno? Eis o certificado de vítima eterna.
_Qual?
A
voz rouca resgatou Daniel de suas lembranças.
_Hã?
_
Em qual campo seu avô estava?
_
Treblinka.
_Papa
morreu em Chełmno.
Pausa.
_É para que o uniforme?
_Para uma peça. Teatro.
_Respeitosa, espero.
_Totalmente.
_Passa
segunda que vai tá pronta.
Daniel
desceu a escadinha do predinho no Bexiga, lar dos judeus pés-rapados, antipodes dos
endinheirados de Higienópolis onde morava,
e entrou no carro de propriedade da empresa de seu pai.
Absorto.
A
tatuagem no punho de seu avô.
O
membro que um foi dia poderoso, pois quando jovem e cativo, o velho foi kapo. Liderou o comando de prisioneiros lenhadores, encarregados de
desmatar os bosques circundantes ao campo. Ainda antes de morrer possuía no
branco braço os traços titânicos de homem possante, naufragados na rosada flacidez
aquosa.
Onde flutuavam os malditos números.
_Ô,
filho da puta! O sinal abriu!
Desperto
pelas buzinas e xingamentos, Daniel seguiu adiante erguendo o dedo médio.
Daniel
passava as instruções ao zelador. A academia era sua responsabilidade agora. Haviam
decidido o pai e os irmãos. Disseram:
_Você
já é um homem feito, precisa aprender a cuidar dos negócios da família...
Negócios
da família. Isso significa trabalhar finais de semana, esquentar a cabeça com
números e lidar, droga, com gente...
Se
dependesse de Daniel, ele venderia tudo e viveria de juros, aprenderia uma
profissão útil como sapateiro ou carpinteiro e ia tentar ser gente.
O
zelador era um maranhense. Aquele tipo de pessoa que trabalha muito e nunca
aparenta estar cansado. Os familiares de Daniel gostam dele, mas nunca
demonstraram. Mora nos fundos da academia com a família. Esposa, duas filhas
adolescentes, um menino mais velho adotado...
Não.
O
menino não estava mais lá. Parece que tentou violar uma das filhas. Coitada.
História mundo cão. Perfeita para programas de televisão mundo cão. Mas não era
assunto seu.
Não
foram muitas as instruções a serem dadas. O zelador já sabia o que fazer. Era
mais para demonstrar que ele, o novo chefe, conhecia suas obrigações e não poderia
ser enganado.
O novo administrador tentava aparentar ser
rígido como seus irmãos, mas sem ser aquele tipo de cuzão que eles gostam de
interpretar. Não sabe se estava conseguindo, mas tinha que falar todo o roteiro
da peça patrão versus eempregado.
Daniel
palestrava para o empregado na frente da casa do zelador. Pela porta aberta,
viu a menina mais velha. Aquela que teria sido quase violada. Ela o olhava com
um indisfarçável desdém. Quase uma raiva. O que teria acontecido com irmão
adotivo?
Quando
terminou a entrevista, despediram-se. Daniel tomou o corredor. Por intuição, o
rapaz se voltou e encostou o ouvido na porta, de onde ouviu:
_Judeu
do caralho!
O
zelador a repreendeu, relembrando de onde vinha o sustento da família. A menina
cita a crucificação de Jesus e culpa os judeus como resposta. Pelo o que ouviu
depois, Daniele concluiu que a menina havia se tornado uma crente fleumática,
pois começou a profetizar desconexamente sobre celebridades televisivas. Quem
morreria para pagar seus pecados. Quem se converteria e teria final feliz.
Aparentemente
o irmão adotivo fez mesmo as vezes de Caim e deixou a sua marca na irmã.
O
tatuador recomendou usar o filme plástico por três dias, mas dane-se se
infeccionar. Esperou meses pela encomenda que veio da Tailândia, passando fora
da alfândega para não dar buchicho e podia aguentar um dia. Podia. Mas não devia
confiar na sorte.
Vai
que o cara muda de cidade, ou muda de ponto, tem muito lugar pra trotuar hoje
em dia, ou é preso por alguma merda.
Sobre
essa gente não se sabe.
Pensou
que podia importar alguém do sul, ou ele mesmo viajar, mas aí é se expor
demais.
Retirou
o filme que envolvia o pulso e viu que ela estava cicatrizada. Bom. Também se
não estivesse...
_Dane-se!
Na
USP, Daniel estudava no prédio palaciano da FEA, mas gostava de ir mijar e
cagar no predinho de filosofia e
sociologia, o coração da FFLCH. Não era pela limpeza. Os banheiros de lá eram
imundos e fediam a urina. Os da FEA brilhavam e cheiravam a esterilização, que
combinavam perfeitamente com o aspecto de Shopping Center de luxo que o prédio
da instituição detinha. Fruto de doações de ex-alunos que se tornaram
capitalistas poderosos, mas mantinham um
coração nostálgico e um apreço pelo desconto no imposto de renda. Não raro
deviam constranger quem fosse lá excretar qualquer coisa e desdourar as paredes
de porcelana daqueles vasos impecáveis.
Além
da caminhada, o atrativo do banheiro filosófico estava realmente na decoração.
Os banheiros humanistas eram todos pichados com mensagens pertencentes a três
grupos distintos entre si: Esquerdistas de vários tons de vermelho e preto
proclamando guerra contra as injustiças do mundo. Propostas de encontros para coito
homossexual, junto com telefones e desenhos de pintos diversos, porém sempre
longos e possantes. E nazistas.
Aparentemente,
proliferava um número não desprezível de neonazistas, antissemitas e racistas
em geral, de vários sabores, a odiar pretos, nordestinos, orientais, etc., por
aqueles corredores humanistas. Os intolerantes estudavam tanto na sociologia
como na filosofia. Claro que na surdina, discretos, sem nunca revelar seus
gostos eugênicos, pois, pelo menos sábios nesse quesito, teriam que enfrentar uma maioria vermelha ou, pelo menos, progressista, que lhes
desceria o cacete até o linchamento
chegar ao estado da arte.
Daniel,
lá mijava, cagava, ou ambos, e os admirava.
Cada
palavra.
No
espelho, viu a máquina desbastar os loiros cabelos encaracolados de querubim.
Os cachos caiam um por um remetendo a obvia tosa de ovelha. Do carneiro tosado,
nasceu o leão. Sem juba, seria uma leoa? O leão de Israel emasculado? Não, não
era o que indicava na sua calça. Na sua pélvis. Sorte que o avental o oculta,
se não ele teria que se explicar para o barbeiro.
Daniel
coçou as cascas de ferida dos números de seu braço esquerdo.
Seu
pai perguntaria por que raspou o cabelo. Sua vontade era de dizer:
_Virei
skinhead, pai.
Só
para ver a cara de bosta do pai.
Mas
vai responder:
_É
o calor. Melhor assim.
Sorte
que morava num país tropical, abençoado por Deus, aquele mesmo todo-poderoso
que meio século antes estava com os nazistas, conforme os escritos de seus
cintos, Gott mit uns, quando o povo
escolhido foi selecionado para virar mão de obra escrava e sabão não
biodegradável.
_Será
que o tio Max vai, pai?
_Ir
aonde?
E
mostrou a matéria no tablet sobre o
bando de saudosos velhinhos senis e de variados tipos de sociopata com
problemas de aprendizado os quais resolveram reeditar a Marcha da Família com
Deus, cuja primeira versão cravou o selo de legitimidade ao Golpe Militar de
1964. Defendiam uma nova intervenção militar para salvar o país da corrupção,
matar um monte de gente de quem não gostavam e ganhar um dinheiro fácil sem
trabalhar com alguma boquinha parasitária no novo e radiante governo
verde-oliva.
O
pai engoliu o café com leite.
_E
Tio Max por que ele iria?
Daniel
passou margarina no pão e o mordiscou. Mastigou o pedaço. Depois falou.
_Ele
não ganhou bastante dinheiro com a ditadura?
_Aff!
De novo isso.
_É
o que ele fala direto.
_
O tio tava bêbado! (pausa) E muita gente ganhou dinheiro...
De
fato nas festinhas de família, o tio – avô de Daniel se reencostava na poltrona
com o obvio copinho de uísque na mão e começava a contar dos bons tempos.
Daniel fizera uma matéria optativa em dramaturgia na ECA, para refrescar a
cabeça da economia, e lá ouviu que Dionísio era o deus da verdade. OK que ele
era o deus do vinho e a preferência de tio Max era uísque, mas botemos um kilt
na cintura e um chapéu de cowboy na cachola do deus grego que tudo se adéqua.
_Ele
ficava falando direto de um tal de Albert, que
foi assassinado. Pareciam que eram bons amigos. Andei pesquisando...
Maravilha a internet, não?
_E?
_Ele
foi justiçado pelo pessoal da guerrilha, parecia que além de levantar caixa pra
tortura...
O
pai de Daniel abandonou a geleia importada.
_Tortura?
_Parece
que o amigo do tio gostava de ver o pessoal tomar choque no saco. Será que o
velho também...
_Chega!
Não quero saber.
_Um dia vou perguntar pro tio: Tio foi você
que deu choque no saco do Raul Seixas?
_Vai
nada. Eu te proíbo. Já me estragou o dia logo de manhã com essa história... Nem
sabia que o Raul Seixas tinha sido torturado.
Os
dois se quietaram. O pai tentou voltar a comer. O filho terminou o pão.
_Pelo
menos, me deixa telefonar pra ele pra ver se quer ir na marcha.
_Daniel,
pela amor de Deus! Como ele vai... Ele usa andador. Não dá...
_Eu
acompanho. Vai ter um monte de gente da idade dele lá. Deve ter até o pelotão
dos andadores ou a patrulha das cadeiras de roda...
_Não!
Mais
uma vez o pai tentou voltar ao bendito café, mas desistiu, empurrou a comida e
pegou o jornal. Estava de saída para a varanda quando o filho, sem mudar a
expressão vazia o chamou.
_
O que foi agora?
_O
Tio Max não passou pelos campos, não é?
_Não. Meus avôs o conseguiram fazer passar pela
fronteira. Por quê?
_
Nada. Só pensando que se ele tivesse isso...
Daniel
mostrou os números tatuados no punho.
_Que
merda é essa?
_Talvez
ele não tivesse ganho tanto dinheiro quanto ganhou, não é.
O
pai ignorou a questão levantada por Daniel e o interrogou, vermelho de braveza
como uma pimenta ardida, sobre a tatuagem. Quase foi as vias de fato. Daniel
sem se alterar explicou que não se tratava de uma brincadeira, mas de uma
homenagem ao avô.
_Para
não esquecer o holocausto.
Não
esquecer o inesquecível.
Hoje
é o dia.
(Daniel
brincou:)
Dia
D.
(Apesar de que foram os Russos que mais campos
libertaram.)
Porém,
que esse seja o Dia D.
Ligou
para o rapaz no apartamento da São João.
A
família não sabia do apartamento. Não era pra saber. Um segredo para abrigar
outros segredos.
Perguntou
se estava tudo bem. Disse que podia se servir de qualquer coisa, pelo menos até
se trocar. Era para se hidratar bem antes de se vestir, pois enquanto estiver arrumado
para seu papel não consumiria mais nada.
_Entendido?
Não
queria que derrubasse nada na roupa. Uma raridade...
Foi
tiro no escuro dar a chave do apartamento para ele. Roleta Russa. Será que esse
filho da puta iria roubá-lo? Tantos casos que terminam mal... Claro que Daniel vai
tomar a chave de volta quando tudo terminar e também não irá se esquivar de
trocar a fechadura assim que puder.
O
jovem judeu estava obviamente nervoso, entretanto, estacionou o carro no seu
espaço na garagem sem fazer nenhuma barbeiragem. Na hora, cogitou em subir pela
escada, mas o apartamento ficava no décimo segundo andar. Prédio velho, milagre
o elevador estar funcionando. Imaginou que grande merda seria se o elevador parasse
e ele ficasse preso justo nessa noite.
Contudo,
o elevador não apresentou problemas. Chegou são e salvo no seu andar, passou
pelos corredores com várias portas de madeira, aquele visual antigo de anos
remotos, e colocou a chave na porta.
Era
um apartamento pequeno, de classe média remediada de antigamente, dois quartos,
sala e cozinha. Daniel poderia morar aí, bem diferente do apartamento de andar
inteiro, onde mora com os pais. Os irmãos, cada um tem sua casa. Daniel foi
ficando, cultivando certo desagrado entre os familiares por sua falta de
iniciativa em fugir das asas paternas. Ele ainda iria morar sozinho. Talvez
nesse ano ou no outro. Em outro lugar. Esse ficaria como investimento e, como
dizem os moços de família que querem economizar com motéis, abatedouro.
Daniel
entrou na sala. A luz estava acesa. A porta do quarto a direita estava fechada.
O da esquerda aberta. Conforme combinado. Daniel entra no quarto à esquerda e
se despe. Retira da maleta de executivo, 007, a roupa que parecia um pijama.
Pensou em tomar banho, mas o suor daria, talvez, mais sustância a fantasia.
Afinal, chuveiro para os prisioneiros significava outra coisa...
Daniel
vestiu a roupa listrada. Calçou os sapatos e colocou o boné sobre a cabeça.
Olhou para a estrela amarela em seu peito e por instantes ponderou que poderia
ser um xerife de faroeste de comédia caído da cama para enfrentar um bandido o
qual decidiu aprontar na alta madrugada, e imaginou uma cena azulada do estilo noite americana. Não, ele enfrentaria o bandido, todavia não
como um homem da lei do velho oeste faria.
Novamente
se questionou se devia usar a estrela de Israel ou o triangulo rosa invertido.
Considerou que a estrela era mais impactante. Talvez por estar mais no
imaginário popular e, com certeza, por seus conflitos pessoais. O triangulo
inverso remetia a um problema o qual nunca enfrentou de verdade, pois sempre se
acomodou no armário com seus esqueletos.
Daniel
ligou o celular. Do quarto ao lado, ouviu o outro aparelho tocar. O outro
atendeu.
_Alô.
Sou eu. Já estou aqui e estou pronto. E você, já se vestiu?
_Está
tudo certo.
_O
uniforme ficou bem?
_Você
vai ver...
Saiu
de seu quarto e foi ao outro. Tocou a maçaneta. Respirou fundo. Abriu a
porta...
E lá estava o oficial da Schutzstaffel, a SS, em seu uniforme negro, com quepe, botas e seus
adornos de caveiras, com as mãos na cintura, esperando sua vítima.
Não.
Não abriu alguma fenda temporal e o vilão histórico, um legítimo nazista alemão
da força de segurança e extermino sob o comando do Reichsführer Heinrich
Himmler, escapou para o nosso tempo, no lugar de fugir em um submarino para
a Argentina ou Chile e contribuir no futuro para ditaduras vindouras. Tratava-se
de um prostituto, desses que se vendem pelas ruas da urbe, vestido com um
legítimo traje escuro da sanha totalitarista do nacional-socialismo, escavado
por Daniel nos mercados eletrônicos da internet profunda.
O
michê é um moço que veio do sul do país, tentar a sorte com as mariconas de São
Paulo e fazer um pé de meia. Se não abrisse a boca e soltasse seu português
carregado de sotaque do Brasil meridional, passaria por um jovem alemão de olhar
impertinente.
Daniel
estava rondando o centro em busca de companhia sexual de aluguel, quando pela janela
do carro, viu o viadinho fazendo ponto na praça cravejada de craqueiros.
Chamou-o para conversar, pagou-lhe um lanche e fascinado por aquela brancura
ariana que o faria de exemplo positivo em qualquer seminário de eugenia no
começo do século XX, tratou de sabatiná-lo.
O
michê contou que nasceu numa daquelas cidades de imigração alemã, onde o português
era língua secundária em relação ao falar germânico. Os olhos verdes do judeu
brilharam com a possibilidade dele ser descendente do pessoal que fez parte do
Partido Nazista no Brasil, o maior do mundo fora da Alemanha, mas não perguntou
isso logo de cara. Pelo nível intelectual rasteiro que o garoto demonstrava,
talvez não soubesse dizer. Ou, se soubesse, talvez se ofendesse. De toda forma, usou da linguagem universal:
perguntou se queria um bom dinheiro. O puto, obviamente, se interessou.
Foram
mais de um mês de instruções, preparações, como devia se portar, agir; Daniel
sempre pagando, dando presentes, sustentou o seu aluguel num cortiço e ainda o
adiantou por um bom tempo. Como o rapaz fosse uma noiva prometida, Daniel não o
tocou, apesar dele se oferecer mais de uma vez, certamente em busca de mais
agrados monetários. Também fez questão de não vê-lo vestido como queria até o
grande dia. E finalmente o casamento chegou.
Estavam
frente a frente o oficial da SS e o prisioneiro de roupa listrada. Como havia
sido treinado, o nazista de faz de conta se aproximou do judeu de verdade e o
esbofeteou.
Não
foi um tabefe muito forte. Estava mais para um tapa de mulherzinha. A despeito da parca potência, no entanto,
Daniel se jogou no chão, com o rosto próximo às botas negras. O SS, então, moveu
o pé para próximo do rosto do condenado. Este timidamente botou a língua para
fora e começou a lambê-lo.
O
michê totalitário sentou na cama, Daniel rastejou um tanto até alcança-lo e
continuou a lustrar o calçado com a língua. Deu um trato nas duas botas, quando
terminou, desamarrou os cadarços e experimentou a carne branca dos dedos, dos calcanhares,
das batatas da perna e até do sabor exótico, algo meio queijo, da
frieira que comia a carne entre os dedos.
Depois
subiu pelas pernas como um gato escalando uma árvore, desatou o cinto e abriu a
calça quando se assustou como se encontrasse no lugar do caralho uma víbora a
gotejar peçonha.
-Porra!
_O
que foi? Perguntou o facínora de mentirinha.
_Pelo
amor de Deus! Me diga que você teve
fimose!
_Hã?
_Fimose,
me diga, que você teve fimose.
Não
era nada disforme, na verdade, era um belo pinto, contudo, o cacete estava sem
seu prepúcio. A lembrança da aliança do homem com Deus, se esse filho da puta
fosse judeu seria o fim. Tudo o que planejou, seu grande momento iria escorrer
pela sarjeta.
_Sim,
tive fimose, sim!
_Quando
cortou?
Num
momento raro em sua vida, o michê fez uma escolha boa, no meio de tantas
trapalhadas que o arremessaram para baixo. Cortaram sua pele peniana ao nascer,
não porque era judeu também (seria uma coincidência de merda, não), mas por
questões de limpeza. Então, mentiu.
_Aos
16.
Aliviado,
Daniel retornou à mise-en-scène
uranista e abocanhou o pedaço de carne desencapado e o felou como se faminto
mamasse em uma teta bovina. Agora, era
só seguir o roteiro básico. Algumas agressões simbólicas, uns tapas e
cusparadas na cara e o ato final: o empregado erótico jogar o patrão na cama de
costas, rasgar os fundilhos das calças, sem problemas já que o uniforme de prisioneiroera falso e podia
ser destruído ao contrário do uniforme legítimo da SS, e sodomiza-lo, montando em Daniel com a paixão de personagens
bíblicos do primeiro testamento.
A cada estocada, Daniel mordia seu punho,
afundando os números de seu avô na marca de suas dentadas.
O
teatro estava para terminar, entretanto, o putinho de roupas negras teve uma
iniciativa que encantou Daniel. Prestes a ejacular tirou seu membro do rabo,
desnudou-o da camisinha (Sexo seguro, sim, por que não?) e esporrou no chão.
Depois catou o judeu pelo braço e o arrastou para baixo em direção àquela alva
poça.
Daniel
levou alguns segundos para processar a iniciativa de seu servo dominador, mas a
ficha logo caiu e logo sorveu a porra dispensada como deliciosa guloseima.
Terminada
a foda ditirâmbica, Daniel deitou extenuado na cama e se recolheu em posição
fetal. O pseudototalitário também esfalfado foi se juntar ao seu contratante,
mas este o deteve com a mão e se levantou.
Saiu
do quarto, andando com a calça de fundilhos rasgado, exibindo o traseiro que
foi fodido, e logo retornou com um maço de notas. O michê não creu na
quantidade de dinheiro. Sabia que ia levar uma bolada, mas não tanto.
_Agora,
tire o uniforme e pode ir.
O
garoto de programa estava acostumado a frieza dos clientes após a transa, mas
esperava mais entusiasmo do cliente dessa vez. Quer dizer, a foda foi
perfeita... Já despido da indumentária e vestido em suas roupas de grife, que o
próprio Daniel o presenteara e prestes a sair, perguntou, já prevendo que a
fonte secara.
_
A gente se vê?
_
Claro.
Disse
o empregador naquele tom que o rapaz já conhecia. Acabou, pensou e saiu pela porta, para sua
vida que a partir daquele instante nos escapa.
Daniel
se livra da roupa de prisioneiro de campo de concentração e vai até a frente do
espelho da penteadeira. Mirou-se e sorriu.
Apesar
dos prazeres da humilhação e da penetração, ele ainda não ejaculara, então com
o pau ereto novamente, masturbou-se.
Quando
a fricção de suas falanges deu-lhe a erupção que faltara, ele colocou o punho
na frente da cabeça circuncidada e viu a porra cobrir a numeração de seu avô,
libertando-o daquela merda toda.