quarta-feira, 12 de junho de 2013

A caixa

Eu a comprei em um leilão.
Na velha cidade, ilhado por perdição e alguma esperança.
Confesso que o que me fez adquiri-la foi o mais desonesto desejo em seu estado basilar.  O humor infrator jazia dentro de meu estojo torácico e me determinou a erguer o braço sucessivamente até tê-la.
Pelo o que nela em seu útero de madeira se encerrava.
Havia outras coisas da mesma natureza, digamos, limítrofe entre lá e cá sendo ofertadas, mas o dinheiro na minha conta bancária restringia a gula. O indecente e o inefável quando somados dão em conta muito cara.
Então, era minha a caixa.
Uma arca vulgar. Não era uma mala sofisticada de viagem dos grandes burgueses.  Em seu oco nada de mandamentos de um deus ciumento e beligerante.  Não se tratava de um baú de tesouro.
Ao abri-lo você não encontraria nada mais do que mera palha seca compondo um áspero forro.
Sua fechadura não vinha a chave correspondente, perdida por suas transladações pelos anos. Todavia, isso não impacientaria qualquer novo dono, já que a tampa estava aberta.
Abri e fechei algumas vezes, brincando de transtorno obsessivo compulsivo, talvez.
Deixei a tampa descansar.
Peguei a Mandaglore.
A Mão Gloriosa
A mão do morto mumificada, arranjada conforme a receita do Dictionnaire Infernal Collin Plancy: A mão de um criminoso enforcado à beira da estrada_ no caso, não se tratava um bandido e, sim, de um militante das Ligas Camponesas, enforcado em 1969 por jagunços por falar demais contra o mestre deles e posto no caminho para a igreja para que toda a gente aprendesse com sua sorte. O que o qualificava como matéria  prima era que o sujeito fora morto por  ir  contra a ordem, seja  ela  justa ou não. Então se colocou o pedaço do defunto dentro de um vaso de barro com uma solução de azinhavre, nitrato, sal e pimentas pulverizadas, onde curtiu quinze dias, até ser retirada e exposta ao sol quente a fim de secar e esturricar como jabá.
Acendi as velas nas pontas dos dedos.
Tais velas eram compostas com a gordura do enforcado, cera virgem, gergelim e esterco de cavalo.
E ouvi o click!
Tentei abrir novamente. Não consegui. Estava trancada.
Tentei movê-la. Não pude. Estava pesada.
Cheia.
***
Antônia era uma pecadora.
Não sou eu que estou a inventar calunia sobre a pobre moça. Pergunte a ela. Pergunte, sobretudo, aos pais. Eles dirão seus pecados. Todos. Pecados que ela sabia. Que ela não sabia. Coisas que não eram pecados a priori, mas se tinham o toque da menina, o serão algum dia, se não, naqueles dias.
Mas como se a menina apenas saia para ir a Igreja no santo domingo, acompanhada pelos genitores?
Como ela se tornou filtro de tanto mal apenas nos seus treze anos de vida?
A resposta estava nos hematomas a florir nos braços cobertos pelas mangas compridas do vestido de cambraia, gerados certamente por quedas e tombos providenciados pela ira divina e não, de forma alguma, pelo peso justo das mãos dos seus pais.
Está na grande ferida nascente na base do pescoço a descer pelas costas até o cóccix, purgando uma substância verde que torna suas vestes imundas para o desgosto de sua boa mãe a lavar suas roupas com amor. Chaga escavada pela vara justa de seu patriarca para a remissão de seus pecados. Vale notar que amplitude do ferimento pasmou os pais a principio, porém no lugar de duvidarem de seu zelo paternal, significava que o mal de sua filha estava patente e se despontava em cada espancamento, logo a expansão da carne fraturada era sinal de revelação sobre o que se camuflava.
Ou seja, não eram eles e, sim, a criança a causa de seu próprio dano. Maldita prole!
Do mesmo modo, não era nada doentia a lição da espiga de milho. Quando esticam as pernas da pequena e cravam o cereal no seu regaço pecaminoso para preveni-la de usar sua racha em desagravo às indiscutíveis normas da correção.
No entanto, tamanho esmero não bastava.
Os procedimentos supracitados cerceavam o mal imanente de Antônia, porém, os pais duvidavam se bastava. A entrega da menina aos arranjos e a aceitação de sua culpa não bastavam. Precisavam controla-la definitivamente. Precisavam conte-la.
Por isso a caixa.
***

Ela continuava trancada.
Se, então, tinha a fechadura, se fazia necessária a chave.
Apaguei a chama da mão do morto. Observei a fumaça incensada subir e formar etéreos arabescos fantasmais na escuridão do quarto. Então, com o pontiagudo osso de um gato estrangulado numa encruzilhada, afiado na lápide de um suicida bedáat do povo de YHVH, abri um talho na ponta do dedo anular e fiz um ponto de sangue.
Gesticulei o dedo ferido entre a fumaça, até o gás ser capturado e, pela  minha  vontade, se solidificar em chave de marfim, ou de material incógnito semelhante, e a detive em  minha mão.
Acendi de novo a Mão da Glória e coloquei a clave na fechadura. Encaixou sem restrições. Contei uns números até o fumo místico tomar de novo o quarto e membrana que separa lá e cá se fazer tênue e frágil.
Fácil de rasgar como um hímen delicado.

***

Os pais adquiriram a caixa de um marceneiro. Zelosos também com o dinheiro, deram a cama da menina em troca, não ia ser mais usada mesmo, cujo valor superior rendeu uma cadeira e um criado mudo de troco.
Em casa, forraram munidos de amor quase abraâmico com a dita palha e disseram a Antônia:
_Eis seu leito, onde descansará livre de pecado.
E a menina, sabendo que isso era para seu bem, quiçá, para o bem do mundo, deitou-se e os pais fecharam a tampa de seu caixão.
Dentro do esquife, mesmo com o arranhão da palha, com as picadas dos percevejos e o movimento das baratas, as quais lá se instalaram, a reclusa encontrou o conforto de se sentir segura com a ciência de que seu mal estava enquadrado.
Toda noite, todo dia quando os pais precisavam sair, ela era fechada em seu claustro. No começo, suas pernas estavam quase esticadas, porém à medida que crescia, ela se encolhia, até o momento de ser obrigada a voltar-se em posição fetal.  Apostar-se-ia um observador, se alguém verdadeiramente a visse além de fonte de pecados, que ela não se sentia tão feliz desde quando estava presa na carne materna.
 Como é certo de que o sofrimento não seja eterno, por isso a falsidade do Inferno, também não há felicidade que um dia não pereça, por isso o fracasso do Paraíso diante do tédio.  O corpo faliu.  Antônia morreu.
Foi enterrada com desgosto, pois sempre será pecadora, além da redenção. Seus pais, incólumes às leis do Homem, certos dos favores em terem acertado os desígnios divinos, sumiram quando uma gripe que cavalgava pelo mundo derrubando nações, levou-os, junto com pios e ímpios, para os reinos da poeira e da sombra, onde não encontraram sua filha, e, sim, certa disciplina demoníaca.
***
Girei a chave.
Click!
Aberta.
Levantei a tampa.
A princípio, nada.
Havia somente a palha.
Dela, no entanto, emergiu um miasma grosso que gasificou o éter, concorrendo com a fumaça da mão do morto. Das brumas que infestaram, vi o contorno.
Dezesseis anos. Idade de sua morte. Sua pele pálida de prisioneira. Seu cabelo loiro de uma fêmea cuja vaidade foi extraída a alicates. Olhos de órbitas claras, perdidas em autoacusação.
Engolindo o assombro, sim, mesmo magos experientes, mas que  oram criados no cristianismo sempre se assombram com sua própria obra fantasmagórica, perguntei:
_Antônia?
Um sopro respondeu um sim muito mal ouvido.
_Antônia Francisco Xavier?
Novamente, o mesmo sussurro.
_ Antônia Francisco Xavier! Conheço seu nome e agora eu a prendo!
***
Admito que meu interesse pela magia, em especial, pela necromancia, deve-se a covardia.
Várias vezes, masturbei-me pensando nas moças que passavam por mim na rua. Esquematizava o rastreio, a perseguição e o estupro. Porém, quando o sêmen escorria entre meus dedos, via-me o terror de ser morto, ou pior, de ser preso e entregue a moral violadora dos colegas de detenção.
Porém, ao invés de me reprimir, passei a utilizar a criatividade e desenvolver alternativas para a minha tara.
Inspirado num estrangeiro, um alemão, pensei em sequestrar uma única mulher e mantê-la em cárcere isolado, numa cela no chão, e violentá-la o máximo de anos que conseguir. No entanto, havia a ameaça perene de fuga.
Sofistiquei mais a ideia. Cogitei em roubar um bebê e cria-lo com a intenção de me servir sexualmente quando seu corpo remetesse a de uma  mulher adulta.  Doutrinaria-a para nunca querer sair dali e aceitar minha penetração como fato inescapável de sua existência.
Aqui teríamos três problemas:
Primeiro, na evolução da pequena poderia surgir o desejo rebelde de fugir e conquistar o mundo. Segundo a criança poderia morrer dentro desse tipo de prisão dada a sua  delicada natureza. Terceiro, não suportaria tantos anos a esperar para receber o meu prêmio, podendo comprometer a saúde da pequena antes do tempo com um avanço faminto.
Foi quando comecei, anos atrás, a mexer com devassos satanistas ocultos do Partido Conservador que me veio a ideia de ter Antônia.
Conheci a história de Antônia num livro de psicologia que reunia relatos de abuso familiares. Eu o li quando estava na  pré – adolescência para me  masturbar com as descrições de crueldade sexual por parte dos  pais.
O causo de Antônia foi o que me capturou pela originalidade e pelo erotismo. Mantive na cabeça e anos veio–me a tona, quando pesquisava sobre objetos assombrados. Havia uma arca que trazia ao seu dono a visão de uma garota atormentada.
Nada mais adequado a um abusador virgem em sua  arte do que uma vítima conformada pela eternidade.
Violações são muito comuns nas alcovas infernais. Um espírito preso em sua estúpida autocomiseração pode ser violado eternamente sem prejuízo a sua existência. E, segundo uma variação da Chave de Salomão desenvolvida na renascença por teosóficos interessados em apertar as mãos de grandes homens póstumos, fez–se possível tornar concreta uma alma desencarnada nesta esfera usando de feitiços simples, desde que a força de vontade estivesse bem focada e ancorada em poderosos símbolos.
Assim, ao prender Antônia pelo nome, fiz de seu ectoplasma uma imitação de carne, segurei o seu queixo fantasmal com meu punho e a esbofeteei.
Arranquei seu vestidinho, o mesmo com o qual foi enterrado, joguei-a nua por cima da arca e a sodomizei miseravelmente.
Então, enquanto ela chorava a tranquei no seu caixão, no qual ela passou a aguardar a satisfação do meu apetite.
***
Olhei no espelho.
Arrumei a gravata.
Nada errado no terno.
Nenhuma culpa pairando em mim.
Hoje, terei a civilização de um encontro familiar, visitarei mamãe, e, quando voltar eu terei a minha barbárie caseira.
Certamente, se não fosse sua caixa, onde a culpa era seu grilhão, onde cada abuso meu a prenderá cada vez mais, Antônia talvez fosse para algum inferno, arrastada pelo pesar, onde sofreria o mesmo  que padecia sob o meu odioso falo.
Talvez eu seja o demônio dela. Talvez eu seja parte de um esquema maior.
Ou não.
Talvez eu e ela sejamos apenas parte da natureza... Ou da sobrenatureza, que não se importa com a alegria ou tristeza de seus germes.

terça-feira, 30 de abril de 2013



Das Tripas

Santo André, ABC fuliginoso paulista, é um lugar de sobe e desce.
Morros. Colinas. Declives. Romeu arrasta a carroça ladeira acima.
Pesada?
Não. Pesado.
A carroça vazia. Ele cheio.
Romeu sabe o que tem que perpetrar.

Sísifo. Atlas. Cristo.
Pode escolher.
Romeu leva o mundo nas suas costas, a Rocha de Sísifo, o Céu de Atlas e a Cruz de Cristo, metaforicamente e realmente, se quiser consumir, se quiser comer, se quiser ser, se quiser existir, Romeu carrega o carrinho nas suas costas, pois o velho é carroceiro e cata latinha.
(E outros recicláveis.)
Agora, você, leitor, de posse de seu mito preferido, sigamos.

Ele vira a esquina na travessa para encontrá-los.
Antes de ser um consumidor, Romeu é um homem. E um homem faz o que tem que fazer.
E vai fazer.
Lá estão eles.  Os vagabundos. Sentados como sempre no degrau da viela. Tão dedicados ao nada!
Ás vezes, soltam pipa. Moço de 18 anos soltando pipa, correndo atrás de pipa, invadindo quintais, brigando com menino menor. Batendo nos menores. Olho roxo. Dente quebrado. Tudo por uma pipa. Às vezes, puxando fumo, malditos maconheirinhos!
Filhos, netos, bisnetos de imigrantes. Italianos, mineiros, nordestinos, nessa ordem de ocupação territorial. Se se diferem em origens, unem-se ao serem também filhos do proletariado. Metalúrgicos, operários, pedreiros, pintores, mecânicos. Os quais numa geração ascenderam para a classe média e, hoje, olham para o passado com pudor, feito se em suas raízes vicejasse a nódoa da vergonha, de provirem de uma imunda e intocável casta.
Também se unem em mais de uma qualidade que os torna um grupo sem deformidades: A estupidez. 
Unidos na força da falange, sentem-se fortes sendo um e não sendo ninguém (se não fossem preguiçosos e prestassem atenção nas aulas de História, talvez usassem camisas pretas italianas ou a verde oliva tupiniquim), e por isso bulem com as pessoas.
Mexem com os passantes.
Nem todos.
Apenas com os que merecem.  As meninas bonitas, pecaminosas na beleza. Os viados, por serem perigosos com seus paus e cus soltos por aí. Os fracos de todos os tipos. Os pobres. Os mendigos.  O carroceiro.
Já mexeram com o Romeu.
Xingaram. Zombaram. Tacaram coisas. E uma vez até pularam dentro da carroça enquanto ele puxava desavisado.
Quando era com ele, Romeu suportou.
Ascético, não esboçou nada que denotassem raiva, mesmo porque não havia raiva.  Coisas da vida. Existiam pessoas como ele e pessoas como os garotos.  Só isso.
Todavia, a conformidade naufragou quando mexeram com sua Julieta.
Que fique claro que sua esposa não se chamava Julieta. Era Dirce, mas ele era Romeu, o queijo, e Dirce, sua goiabada. Um casamento tão gostoso quanto a guloseima.
Dirce, como Romeu, mais do que Romeu, era uma presa perfeita.
Era mulher, pobre e velha. Passava arrastando seus chinelos em sua touca de lenço de cetim na rua deles. Na rua deles! Uma provocação para a cretina índole dos rapazes.
Obviamente, disseram impropérios. Como Romeu, ela não demonstrou constrangimento.   Depois, alisaram os caralhos sob as bermudas. Ela quase chorou, mas não desabou. Na terceira vez, a derradeira, tacaram uma pedra.
O objeto voador atingiu a cabeça da velha, que quase caiu. Quando o violeta brotou em sua face, não teve como segurar as lágrimas e as ofensas. A molecada caiu na risada. No deboche. Nas ameaças.  Dirce fugiu. Foi para casa e esperou o marido, entre a raiva e o medo, temendo a reação, as consequências.
Ela ocultara a mágoa do esposo, porém, o roxo do ferimento não permitia mascaramentos. Quando o carroceiro adentrou ao barraco, viu e se alarmou. Dirce disse que não era nada, que caiu e bateu no não-sei-no-quê. Romeu não é bobo e a azucrinou em busca da verdade. Que numa hora saiu numa erupção chorosa.
Armado com a raiva, o homem deixou a mulher sozinha em busca de punição. Andou pelas ruas até dar de fuça com alguns daqueles pestes coçando o saco numa esquina. Sem erguer os punhos, sem tocá-los, destruiu-os com a mais bela descompostura. O sorriso dos vagabundos murchou e eles ouviram a bronca em silêncio, constrangidos, humilhados e, quando Romeu terminou, ficaram os olhos lacrimosos.
Romeu, tendo vomitado o que o carcomia, virou as costas e se foi.
Não sumiu, sem antes ouvir de um dos garotos.
_ Véio filha da puta! Vamo contar tudo pro lindão.
Lindão era o líder dos folgados.  O maior, o mais brigão, o encrenqueiro-mor, diziam que tinha até passagem na polícia.
_Conta!
Respirou fundo.
_Pode me rabiscar com quem cês quiserem!
Romeu foi cuidar da esposa e deixou a molecada blasfemando sozinha, eles que não tiveram coragem de interrompê-lo.

Os apóstolos contaram ao seu messias. Logo, correu nas bocas que o Lindão, para manter a moral dos camaradas, queria pegar Romeu. O que faria seria uma incógnita, apesar das muitas, violentas e imaginosas especulações.
Dirce se apavorou. Temia pelo marido. Romeu, apenas a acarinhava e dizia que não era nada.
_Nada? Esse Lindão é coisa ruim.
_Tsc! É um cagão como os outros.
Era? Não se sabia. Talvez fosse um tremendo malfeitor, talvez fosse só um bosta.  Porém, no bairro a conversa cresceu e, para alguns, Romeu já estava morto.
O morto resolveu conferir o caso com o carrasco.

Romeu pára.
Adiante, a molecada matraqueia nos degraus de cimento. Emudecem ao verem, depois o murmúrio.
Cochicham.
O corpo de gente se abre para a passagem do rapaz alto e barbudo.

Lindão, homem já feito, mas leva a vida de moleque, sem trabalhar, sem estudar, furtando coisa ali, arrumando briga lá. Como se fosse para compensar a malandragem juvenil a qual ainda está preso, deixou crescer a barba e ser mais velho aos olhos dos outros.
Os outros. Os outros são muito importantes para Lindão. Ser o líder da matilha de vadios das ruas vizinhas é o que entendia como o topo de tudo aonde poderia chegar. Não que houvesse algo mais no mundo e ele não se achasse capaz de outra obra. Para ele não há mais nada, além do respeito e o temor daquela meninada desencaminhada.
Soube da esfregada do velho sobre seus meninos. Providências urgem, pois um fato anterior já ameaçava minar a autoridade do voivoda das vielas.
Certa vez, sentou sobre o muro e ordenou a uma senhora em seu quintal que pegasse uma jaca da arvore para ele. A velha recusou e o pilantra se emputeceu. Descarregou intimidações e insultos. O barulho fez emergir do nada o filho da velha, um gordo baixinho com cara de mau. Somente com o olhar e umas três palavras, o homem desmontou a macheza do garotão, que pediu desculpas e saiu rapidinho. Sem jaca e sem brio.
Histórias tomavam galope naquela vizinhança e não tardou para o causo cavalgar o vento. Os meninos começaram a debater, às suas costas, se Lindão não era mais o mesmo campeão de antes.
Lindão sabia que seu poder era questionado e medidas eram necessárias para a manutenção da ordem. O velho era perfeito. Amedrontaria-o com seus olhos fixos e palavras rudes, se necessário, meteria um sopapo, pelos cálculos bastava um para derrubá-lo, e seria o rei da rua de novo.  
Isso!

A figura de Lindão se destacou da meninada.
Romeu não se mexe.
Aos olhos de um covarde, Lindão seria um colosso entre os anões que o seguiam.
Romeu o espera.
Lindão avança.  O jovem estaca a frente do idoso.
Silêncio.
_Que merda você falou pros irmãos?
Romeu não responde.
_Por que não fala pra mim, agora?
Romeu sorri.
_É tudo irmão seu?
_Você é um velho muito folgado!
_E ocês tudo covarde por tacar pedra n a minha velha.
_Cai fora daqui, se não te quebro a cara. Aliás, não quero mais ver a tua carroça suja por aqui
_ Não. A constituição diz que eu posso andar aonde quiser.
_Constituição?
Lindão ri.
_ Enfia a constituição no cu, veio do caralho! Você não passa mais por aqui.
_ Passo sim.
_ Se passar, sabe o que acontece?
_Não faço ideia.
_Tu morre!
Ah!
Romeu esperava pela deixa. No fundo, estava dividido. Uma parte queria, outra não. Deixou para o destino decidir a vitória de qual hemisfério  nessa guerra moral.
_Entendeu, seu merda!?
Tranquilamente, retira o canivete do bolso.
_Ei!
Saca a lâmina.
  _Calma aí, tio.
O tio está calmo. Com tranquilidade de um artista marcial, encrava a arma no tronco de Lindão, um pouco abaixo da caixa torácica, e a desce abrindo o bucho num corte reto.
 Quando as tripas do valentão pousam no asfalto, os meninos saltam, gelam e fogem, deixando o líder cair finado no chão. Solitário, na companhia de seu estripador.
Romeu, então, abandona a carroça.
Vai até o barraco, manda a mulher fazer as malas e se vão. Talvez para a casa do irmão dele na Bahia ou dos pais dela em Goiânia, não se sabe, a polícia não procurou saber, não com muita energia, afinal, o morto era um tranqueira mesmo e sua morte uma benção para a vizinhança.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Curioso.

Eu, sem desejar, cometi um conto que está carregado da filosofia sadeana. Só percebi após publicá-lo no Blog. Nele os personagens principais são movidos por variados apetites, os quais para serem satisfeitos os atores devem destruir outrem, trabalho que não penaliza sua consciência. Essa imoralidade não é punida pelo universo, ao contrário, os eventos de interferência demonstram que o cosmos não está nem aí para a dor humana.

Se eu tivesse planejado em escrever algo ideologicamente ligado ao Marques de Sade, aposto meus dentes que não teria conseguido.

segunda-feira, 18 de março de 2013


O Lixo

(O Horror sempre mora ao lado.)

Os olhos prateados espiaram o mundo fora da sujeira e ele viu a maldade das crianças. Cometida por crianças, entre crianças. Tamanho desamor apenas o fez salivar e, no nado do tubarão, esgueirou-se entre o lixo sem ser visto.
Os ratos fugiram quando ele chegou. Sentiram sua antinatureza.  Ao contrário de seus primos não dominava as feras, apenas as assombrava. Sem nenhum animal inferior para comer, aqueles miúdos de cérebro altamente desenvolvido a se maltratarem de maneira tão cruel seriam a interrupção do jejum com um belo manjar.
(Uma bocada valorizada pelas especiarias da iniquidade: Estupro é tão gostoso!)
Somente uns tremores entre latas, plásticos e papeis. Ninguém não alertado sobre o que havia de baixo daquela imundice sentiria sua chegada e os meninos estavam entretidos com seus jogos de violação.
Pobre vítima.
Pobres predadores, que esquecem que para cada perseguidor, há sempre outro maior em seu encalço.

À frente da favelinha, atravessando a rua, cruzando um terreno baldio, havia o barranco, uma grande queda cuja vertigem terminava na avenida movimentada longamente a baixo. Para ninguém cair, fizeram um muro. Um muro pequeno, uma mureta, da qual ninguém distraído despencaria e poder-se-ia ver o mundo adiante, o mar de casas, rabiscado pelas vias públicas.
Feito o obstáculo à queda livre, na ausência dos caminhões de lixo, os moradores optaram por acumular entulho longe de suas portas ao lado da mureta. Os anos se foram e uma montanha de porcaria se ergueu tampando a vista numa ânsia de Babel de se tocar o céu.
Obviamente, ratos e baratas a assolar as casas de madeira vizinhas aumentavam na semitria do volume do lixão improvisado, assim como as jornadas das crianças a escalar a sujeira para brincar nos caminhos secretos, somente conhecidos pelos pequenos, e ver o horizonte distante, já que do chão o lixo não mais permitia.
As mães, como toda mãe, inicialmente se preocuparam com a exploração de seus filhos, porém logo deixaram de lado seus temores, pois numa vida sem muito sentido, onde perseveram muitos medos, grandes e ferozes, a ameaça latente se tornava familiar, depois invisível. Infecções? Doenças? Violências? Desimportante, pois sempre há em todo lugar.
Além dos ratos, das baratas e das crianças, fuçavam no lixão os catadores. Gente que pegava o que foi recusado e vendia a quem podia interessar. E coletavam comida rejeitada que ainda podia ser comida. Uma disputa com os ratos e cães vadios também defendendo o direito a vida.
Certo dia, no entanto, houve uma diáspora: os ratos fugiram em debandada. Uma torrente negra evadiu tal qual de um navio a afundar. As baratas também fiveram êxodo. Cães não mais perscrutavam o lixo em busca de alimentos. Os cachorros se aproximavam da pútrida colina, farejavam e saiam num espasmo assustado com o rabo entre as pernas.
Os catadores de lixo também não iam mais recolher subsistência lá.
Somente as crianças, na sua estupidez prodigiosa, ainda faziam suas viagens ao amontoado. As mães, entretidas em seus problemas e em suas bobagens, não perceberam que algo havia mudado no ambiente e não censuraram os passeios dos seus rebentos.
Nem quando o catador de lixo, homem místico portador de um patuá com cores de cobra coral e ilustrado com tatuagens delineadas em traço sofrível de São Jorge e outros santos, chamou uma matrona preta, bem preta, de um negro liso e belíssimo, a fofocar no portão de ripas de madeira desinformes.
_Que cê quer, homem? Aqui não tem comida nem pra mim, quanto mais para você.
Mesmo na miséria, há hierarquia, o que possui um barraco de madeira mal pregada olha o sem-teto com os mesmos maus olhos que o pequeno burguês bem apessoado encara o maldito proletário passando pelo frente de seu portão.
_Não parei pra pedir, moça. Parei pra avisar.
A mulher negra obesa foi atacada pela necessidade de bani-lo, a intolerância sai em sonora voz dos beiços grossos.
_Tá com fome? Vai no lixão catar comida.
As duas vizinhas riem.
O caboclo, já de couro duro pelo açoite de sua vida, ignora os risos e continua a sua bondade de advertir.
_Moça, não deixa seus filhos brincar lá no lixão. Não é bom!
A mãe, empapando uma indignação quase aristocrática, botou as mãos na cintura.
_Meus filhos brincam aonde quiserem.
_Lá não é bom pra criança. Não é bom pra ninguém. Ninguém cata mais lá.
_Não cata porque é vagabundo e não gosta de trabalhar.
_Tem coisa ruim no lixo!
_Vai embora se conto pro meu marido quando ele chegar do serviço. Ele vai te matar se te pegar aqui.
Ele jogou o saco nas costas e começou a sua retirada.
_Só to avisando. Cuida dos seus filhos.
E se foi.
A negra, ainda com sua repulsa teatral, fungou.
_Quem cuida dos meus meninos sou eu.
A vizinha que se divertiu com a humilhação do sem-teto ajeitou o lenço na cabeça, sobre o capacete de rolos de cabeleireiro, e perguntou.
_Falando disso, onde tão eles?
_Eles quem?
_Teus filhos.
Uma nova fungada.
_Vou saber?

Se a pobre mulher tivesse o hábito de assistir filmes de terror em sua TV em preto e branco, teria reconhecido o clichê, o aviso do homem estranho sobre o mal inefável, e tomado providências adequadas. Porém, quando não era noveleira, não perdia um episódio do “Povo na TV”.  Logo, carecia de instrumentos para se precaver contra o sobrenatural em suas várias formas.

A mãe sabia onde estavam. Se prestasse mais atenção, saberia que a meninada estava no lugar de sempre a brincar de fazer o mal.
Timóteo, o mais fraco da turma da Favela da Beirada,  chorava agachado no meio do lixo. Estava nu da cintura para baixo e tentava ocultar seu sexo. Encurralando-o estava Afonso, Adalberto e André.  Os três irmãos tinham convencido o menor a ir ao extremo do lixão para mostrar uma caixa de revista de mulher pelada. Era um convite para todo mundo bater punheta junto, como amigo. Sem viadagem.  Mentira.  Não havia revista nenhuma. Tudo um plano para currar Timóteo. Quando chegaram ao ermo, trataram de arrancar seu shorts e amaciá-lo com umas porradas, da quais brotaram muitas lágrimas.
_Mas é uma mulherzinha, mesmo!
Falou o André, o mais velho e perverso.
_Não sou mulherzinha.
_O Leleco contou tudo, Timóteo.
Timóteo sempre fazia troca-troca com o Leleco. A questão é que quando chegava à vez de Timóteo ser o homem, ele não conseguia. O pintinho não endurecia.  Nas últimas vezes, quando Leleco terminava de comer o Timóteo e este vinha retomar sua virilidade na bunda de quem lhe fez de mulher, o parceiro nem mais se dava ao trabalho se curvar para ser montado, levantava as calças e ia embora. Timóteo, abandonado,  protestava contra a quebra da ética do troca-troca. Leleco se justificava quase entediado.
_Pra quê se você não consegue?
Mesmo assim Timóteo continuou se encontrando com Leleco, o qual se sentindo homem por só comer, começou a se exibir aos amigos, falando que Timóteo era bicha. Sua bicha. Os três irmãos ouviram a conversa e planejaram ter o Timóteo para eles.  Bichas eram odiadas, mas também era um achado, pois significavam um ensaio para as mulheres. Além do mais, comer uma bicha era melhor do que fazer troca-troca, pois só comia e não tomava no cu, correndo o risco de gostar e virar viado também.
Para não ter problemas com o Leleco, que era grande e gordo e podia bater nos três, trataram de comprar o passe de Timóteo por um pião de ponta afiada e todo colorido bonitão, que quando rodava, ficava branco, e uma revista de mulher pelada, daquelas boas, suecas.
Donos do garoto agora, apenas faltavam estrear. Fizeram a armadilha, o atiçaram com musas nuas e quando chegaram ao coração do lixão, trataram de lhe puxar as calças e contar sua nova função de escravo sexual dos três valentões.
O choro não demoveu os irmãos de seu projeto, pelo contrário, o desespero do menino os excitava e endurecia os paus semi-imberbes. Agarram-no, deitaram-no no lixo, sua bunda branca nua pareceu feminina aos garotos, tanto que Adalberto a comparou com a de Melissa, a menina retardada dois barracos acima que, quando ninguém estava vendo, permitia que a tocassem em suas partes. 
Surgiu um impasse. Estava seu pedaço de carne grudado no chão fedido e aí? Quem ia primeiro? André, folgado, disse que tinha direito porque era o mais velho. Afonso protestou e quase se socaram, quando Adalberto pacificador sugeriu tirar na sorte. No dois ou um.
Concordaram e ainda Adalberto arrematou:
_Tá fazendo sucesso, hein, Timóteo? Tão novinho e já tem homem brigando pela boneca.
Risos.
Renderam as mãos e depois a esticaram sobre o rabo do cativo. Disseram a uma só voz:
_Doooooois ou um?
Afonso e Adalberto foram de dois. André foi de um. Vitória do mais velho.
O vencedor se vangloriou e todo sorriso e maligno montou em Timóteo iniciando a coisa ruim.
O coitado urrou.
Afonso satirizou:
_Credo, parece que tá matando porco!
Risos. Sardônicos. Convulsivos.
Se todos não estivessem entretidos em seus jogos de violação, teriam talvez notado o lixo se mexer levemente ao redor e esperado o bote de alguma besta, talvez uma cobra, mas a antecipação para qualquer bestiário, não bastaria para antecipar ao que emergiu do entulho.
Uma ciclópica mão negra e áspera explodiu do solo de detritos, seguida por seu par. Os dedos, cujas unhas eram cinzas e quebradiça, envolveram, primeiro, o tronco de André, sim, eram realmente  colossais, e depois o sodomizado Timóteo.
Separados de seu coito, vítima e predador, agora, ambos eram vítimas de um caçador superior. Para Timóteo, não se tratou de novidade quanto ao sentimento. Prevalecia o horror, apenas que agora, vigorava outra qualidade. Já para André o sentimento de controle se perdera totalmente e ele se vira no polo oposto a que estava acostumado.
Entretanto, ambos gritavam na mesma gravidade.
Afonso e Adalberto se congelaram diante do impossível a ocorrer diante de seus narizes, membros grotescos emergiram do chão e capturam seu irmão e a bicha que compraram.
A primeira reação da dupla foi em fugir, deram uma corridinha, mas as suplicas do mano os demoveram da covardia e eles voltaram para  o resgate. Um recolheu um porrete, um pé de mesa branca, e o outro uma garrafa verde de cidra. Deram carga ao ataque.
Agrediram o braço que segurava o irmão. O estouro da garrafa no punho e as pancadas do cacete não surtiram efeito.  As mãos detiam os dois meninos como bonecos articulados e os sacudiam feito chocalhos de merengue. Movimento que foi substituído pelo ato da imersão.
Começaram a afundar no lixo. Os prisioneiros iriam se afogar nos restos materiais do capitalismo, quando Adalberto se tocou que seu porrete tinha na sua extremidade fina uma ponta lascada. Aquilo era uma estaca e, como vira certa vez num filme da sessão “Calafrio” a passar na TV Record, meteu a estaca no antebraço da criatura fantástica como se fosse empalar um vampiro.
Na verdade, sem que eles soubessem, a coisa era um tipo de vampiro.
Sim, são várias as qualidades de vampiros, mas essa dissertação deve ser  composta outro dia, o que  nós interessa é que a madeira encravada causou dor ao ser sombrio e este largou André o qual ainda estava com seu membro para fora da calça jeans.
Ferido, o vampiro gigantesco tratou de se recolher afundando rapidamente no lixão, levando Timóteo junto. O coitado semidesnudo gritou e gritou, mas nem os céus, nem os irmãos estupradores se comoveram, aliás, moveram-se, correram deixando –o sozinho em sua abdução.
O corpo do menino afundou no chão e sua boca berrante foi soterrada pela sujeira.

Naquela noite, os irmãos não quiseram a comida, muito boa  por sinal, da matrona  negra. Ela insultada ranhou com seus filhos, mas logo se desinteressou porque começara a novela das sete.
Os garotos haviam aprendido cedo a arte da dissimulação para enganar os adultos, então, camuflaram seu horror muito bem. À medida que as horas corriam, se sentiam livre para falar entre eles sobre o acontecido.
Estavam felizes por terem escapado daquilo e salvado seu irmão. E quanto a Timóteo? A mãe dele passou nas casas perguntando sobre o filho.
Afonso concluiu harmonioso que estavam no lucro por terem salvado o irmão. Afinal, irmão é irmão e bicha tem um monte por aí.
André que ficara religioso após o ataque, segurava um rosário, herança de sua avó, discorreu um pouco de teologia pueril. Arguiu imbatível: O que fizeram era pecado e que, por isso, o diabo tinha vindo pegá-los, porém acabou levando apenas Timóteo porque ele era mais pecador (já que era o passivo). Isto era uma segunda chance dada por Deus e que não deviam mais se meter sexualmente com viados.
Os irmãos comovidos com a sabedoria divina de André concordaram quase em lágrimas de culpa. Não por terem feito tanto mal ao Timóteo,  mas por tê-lo desejado e pretendido se aliviarem de sua masculinidade nele.
 Ao nascer do sol, mal tinham dormido, todavia a calma já os amortecia, e teciam planos para retornarem a normalidade.
Jogos de pelada. Bolinha de gude. Caçar e matar um pássaro bonito o qual tinha avistado outro dia.  E comer a Melissa porque já passou da hora de dar um trato naquela puta retardada.
De pé, pra ela não engravidar.
E, claro, bem longe do lixão.

No lixão, o vampiro sentia-se satisfeito. Sorvera da massa cinzenta do cérebro de Timóteo feito uma uva, deleitando-se com o terror do estupro que ainda maculava a memória de seus restos. Mesmo sendo um a preocupação distante, sabia que logo sentiria fome novamente, e a fome é especialmente terrível para os imortais, pois não há o limite da morte para ela. Sente-se fome enquanto seu vazio durar.
No entanto, pensou, a providência era gentil para com os monstros, pois se enamorou do bêbado cambaleante na beira do lixão a mijar.
(Tonhão não era de beber, todavia, nascera seu primeiro filho, um varão sacudo, como ele. Então, toma-se um porre com a rapaziada. Só aquela vez. A última vez.)
Comovido com a própria sorte, o vampiro do lixo agradeceu a Deus e foi rastejar para abocanhar o novo lanche.

quarta-feira, 6 de março de 2013


Vagabunda

Certo dia, o esposo com ódio, dedicação e uma faca escreveu “vagabunda” no ventre de sua companheira, antes e depois de muitas mutilações.
A página de carne não gritou. Cria que ninguém viria ajudá-la, dosando a dor com o conformismo feminino, uma sujeição de santa, uma coragem amazona, a paciência da puta, aceitando-se merecedora do desgosto.
Ela estava errada.
(Nunca se trata de merecer. Apenas é)
Todavia, nenhuma alma veio refutá-la.
A vida pingava aos poucos, quando seu talhador, após uma parada para o cigarro, voltou aos berros. O som trovejante de sempre.
_Eu não queria fazer isso!
Mentira. Fez porque houve vontade. Antes de qualquer verbo, vem o querer. E, querendo, o fez.
_Tudo culpa sua!
Sim. Culpa dela. Também. Não por ter burlado o contrato nupcial selado por Deus. Nenhuma galhada brotou daquele crânio, apesar da sensação de chifres fantasmas. A moça era culpada por ter escolhido a ele e ele era culpado por sê-lo assim.
(Isto é, se nos esquivarmos da indiferença da natureza e abraçarmos alguma moral que  cuide  bem da igualdade entre os  pares)
Ela o amava, mesmo sabendo ser furioso, quase maligno, um câncer como parceiro, e o quis, a despeito de todo perigo à carne e à alma a orbitá-la.  Já o homem a tomou para si, mesmo dono da ciência do quão nocivo era, apesar de amá-la e querer, talvez, o melhor para a amada.
Então, se há responsabilidade ou, quiçá, culpa era tanto do algoz quanto da vítima.
_O que eu vou fazer?
_Você, eu não sei. Eu... Eu vou morrer.
O anúncio da morte  da esposa era uma vingança. Ou simples retribuição. A paixão entre os dois oscilava entre amar e odiar e era de idêntica qualidade quanto à potência nos apaixonados.
_Não!
_Não?
_Não... Você não pode morrer.
Sabia ela que não que o temor de seu consorte homicida não se devia a ameaça de ser punido pelo assassínio que se completava, mas sim de não mais tê-la.
Quem ele iria amar? Quem ele iria odiar?
Assim, com um sorriso, ela goza a morte.
A qual veio devido á falência do corpo.
Ele... Só, tão só, desesperou-se.
_Vagabunda!
Entre lágrimas e um nariz escorrendo, chutou-a. Socou-a. Esfaqueou-a. Como se a violência tivesse o efeito reverso que sempre teve e a revivesse. Trouxesse-a de volta para dar fim àquele horror a violá-lo. Em vão.  Sem ressurreição.
O jogo entre o homem e a mulher terminou.
 Enfim, ele a perdeu.
 Ela ganhou.

terça-feira, 5 de março de 2013



(Realmente, ela não sabia.)

O inferno não era acordar.
Era depois.
Majorie se lamentava por antecipação. Sentava-se na cama, ia ao chuveiro, tomava banho, pousava na mesa e consumia seu café com aquele temor rosnando em seu ventre até a hora de seu assalto matutino.
Primeiro a meia. Depois, após respirar muito, seu sapato. Às vezes, postergava mesurando se podia passar o dia sem ir ao trabalho.
Descalça.
Porém, as contas não se pagavam espontaneamente.  Sem chance.  Precisava ir trabalhar.
Majorie deu a última fungada e colocou os calçados.
Ai!
Como toda vez que o fez, desde quando se tornou adulta, eles esmagaram seus pés. Eram torniquetes! Todos seus sapatos! Cada um deles, máquinas cruéis de espremer falanges, de destruir dedinhos, prensa a dobrá-los ao meio. Enfim, calçados fechados eram invenções do diabo, nada mais.
Apenas os usava quando era inescapável a necessidade. O trabalho, balconista numa farmácia de manipulação, ou um evento do qual não conseguia fugir. No resto, vivia de chinelos e até, maluca a moça, com os pés nus. Apreciava tocar o taco encerrado do chão de seu apartamento sem nada cerceando os limites de sua carne.
Se fosse menos estúpida, sim, ela detinha aquela estupidez popular/pop que viceja entre todas as classes sociais em que se orgulha de apenas se saber de coisas úteis ou reconfortantes, facilitadoras da vida, confie, conflito é inimigo, se ela fosse menos estúpida com certeza colecionaria analogias de seu sofrimento com a história e o mito.
Elegeria em primeiro lugar a terrível bota de ferro, instrumento de tortura da Inquisição Católica, como referência em seu horror diário, sentindo que uma válvula semelhante ao do brinquedo de metal estaria sempre sendo fechada sobre seu pé por uma mão invisível.  
Depois, se identificaria com os pés deformados das damas do Japão de outra era para o efeito de beleza. Primeiro, por não achar seus pés belos, pé bonito? Onde já se viu? Especialmente os dela, e, em segundo, por crer que um dia ficariam do mesmo jeito daquelas mulheres do oriente distante.
 Por fim, tomaria para si a beleza fabulosa do castigo da Rainha Má, madrasta da Branca de Neve, aplicado nas versões anteriores a suavização para crianças consumirem: Dançar até a morte em tamancos incandescentes, sim, pois isso o que era sua vida calçada, uma dança num tablado em brasas.
Todavia, se lhe faltava essas informações que desse ao seu sofrimento uma pitada de poesia para tornar seu martírio mais sofisticado, a dor estava lá, bem presente, realista e contábil.  
Doía e pronto.
E, ainda mais, se lhe faltava sofisticação do saber, como a todos que padecem dessa lacuna, transbordava a fé.  A crença sólida de que todos os seres humanos que botaram um calçado no pé também padecessem dessa dolorosa condição.
Como toda suburbana, encontrava Deus nas compras, com exceção, lógico, em comprar sapatos. Era na sapataria que encontrava o Diabo encarnado como vendedor de sapatos, o ser que apresentava novos tormentos.
Não necessita de muita imaginação para compuser a ideia de que Majorie postergava a compra de novos atrozes bens.  Ia ao máximo que podia  com os  antigos, até  o ridículo do desgaste, até quando o sapato falava, soltando a sola e fazendo uma  boca  muda que  batia a matraca no meio da rua.
Ia ao extremo da espera e quando lá chegou, tomou uma coragem quase masoquista e partiu para loja para se atormentar.
Qual foi a surpresa quando o vendedor lhe soltou ao olha-la morder seu lábio quando enfiava o sapato desgraçado no pé:
_Tem certeza que seu número é 38?
Sim, era. Sempre foi. Quando usava os sapatos da mãe e da irmã mais velha, quando morava com elas, que eram...
_Nós temos números especiais.
Menores do que ela...
_A senhora não quer experimentar para ver se ficam mais confortáveis?
_Eu sempre usei o número 38.
Ele sorriu. Seus dentes são perfeitos. Até então, não percebera como o moço da loja era bonito.
_Vai por mim, moça.
Ele retirou o sapato, alívio, porra, e mediu a sola do pé de Marjorie com a palma da mão.
_São anos de experiência.
O toque dele em seu pé liberto era inesperadamente gostoso.
_Eu sempre... Tudo bem, que número?
_Surpresa. Vamos ver se eu acerto.
Foi e voltou com uma caixa. Mesmo modelo. Ele mesmo colocou em seus  pés. Majorie se lembrou da versão animada de Disney da Cinderela, seja porque todo idiota no ocidente é capaz de reconhecer as imagens dessa bosta, seja porque a sensação de libertação de uma realidade ruim para um conforto nababesco, órfã explorada para princesa mimada, se revelou idêntica.
_ Não dói.
_Pois, é.
_ C-como?
_ Muitas mulheres grandinhas acabam usando um número menor.
Sentiu-se desengonçada ao ouvir isso.
_ Que número?
_40.
Não era a toa que doesse tanto. Sentiu-se tola. Tão tola quanto uma mulher traída pelo amor da sua vida. Seus sapatos a traíram.
_ Meu Deus, eu tenho uma lancha!
_Calma. As meninas imaginam que o ideal é o pé  pequeno, mas não é assim.
_E qual é o ideal?
_Ideal é o pé que você tem. Os outros são os outros. 
_E o que você sabe disso? _ Disse ainda envergonhada e raivosa consigo mesma.
_ Muito. Anos de experiência.
Não só como vendedor de sapatos, mas também como podolatra. Sim, havia uma malicia em sua profissão. O mistério era saber se ele entrou no ramo por esse fetiche ou o fetiche brotou de seu labor. Mistério que não interessou muito a Majorie, que não era muito de questionar nada, como já se viu.
E se, por isso, antes ela sofreu, depois se deleitou quando o vendedor beijou seus pés mais tarde no motel, afinal, ele era seu príncipe encantado que a libertou da maldição dos sapatos, portanto, nada mais justo no mundo do que dar para ele.
Pena que o vendedor, na mesma medida da balança um santo libertador e um diabo canalha, nunca telefonou após ter se refestelado.
Foi-se o bofe, ficou o pé.
Hoje, Majorie, mais calejada, faz questão de carinhos diversos naquela parte que a aguentou tudo em nome da ignorância, como conditio sine qua non de se entregar a um homem e ser mulher.

(Claro que sabemos que uma mulher não precisa de um homem para se ser plena, mas quem terá paciência de explicar essa obviedade para ela?)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


A Escova

Na alcova, na cama, o ódio da companheira não mais se continha em seus salões mentais. Borbulhava. Escorria pelas frestas de sua pessoa quebrada. Se antes se ensaiava em grunhidos, naquela hora tudo se desnudou de seu hábito restritivo nos arranhões, nas costas de seu parceiro, sulcados pelas cerdas duras da escova de pentear.
Ela sempre se penteava antes de dormir.  Um número definido de passadas que ele nunca memorizou.  Ao contrário de sua pele a sustentar então a memória da ofensiva.
A resposta do homem: nada.
Ou tudo: a maldita sujeição.
O silêncio, cujo eco que veio da consorte foi um rosnado.  A mulher magoada, indignada pela superior moral da inércia do corpo que cavava, largou a arma e, natural, primitiva, honesta, cadela, gata, macaca, usou das garras e usou dos dentes.
(Aquelas pintadas gracinhas a francesinha. Estes domesticados quadradinhos pela tirania de aparelhos odontológicos na adolescência)
Tascou-lhe da furiosa boca um (nhac!) beijo canibal!
MOR-DI-DA!
Se partidarizássemos pela lógica, não haveria motivo real que servisse para o combustível de tanta chama destruidora. Desconfiança de traição? Sim!  Por que não? Toda mulher é inimiga da mulher, começando pela mãe e pela filha. Se perdurasse a ausência de evidências, bastava uma olhada no espelho e a percepção da erosão da vida para a dedução: Ele teria outra. Ou pior: Ele desejaria outra que não fosse ela. Traída por uma maldita ideia.
Prenha de raiva contra si mesma, irradiada no macho, que sem paciência respondia as reclamações da fêmea com tiradas jocosas, as quais anos antes ela acharia inteligentes e sensuais e hoje a golpeavam a caveira feito crava.
Cansado, ele se livrou num espasmo da besta a torturá-lo. E sem limpar o machucado na omoplata, uma coroa de vermelhas marcas dentárias, botou a camisa sobre ferida, o tecido manchou sanguíneo, pegou algumas coisas necessárias e saiu sem um pio.
Desapareceu pela porta.
Talvez ficasse num hotel, talvez um amigo fornecesse abrigo. Ela não sabia. Nem saberia.  Ele nunca voltaria. Não como seu macho a rachar-lhe ao meio com seu falo antes de adormecer junto ao seu corpo estimulado. Não! Nem isso a preocupava. Eles estavam ligados.
Fizeram um filho.
Uma experiência biológica em comum, quando ainda se amavam.
Mirou seu inimigo zombeteiro, o espelho.
Eles tiveram um filho.
Ele estava preso a ela e ela estava livre para destruí-lo.
Todo dia um pouquinho.
Transmitindo-lhe o craquelê de seu ser até que ambos se desmanchassem em pó.
Contemplou os resíduos criminais em seu brinquedo de torturador.
Pegou a escova e lambeu o sangue.
Vampira, gostou.