Curioso.
Eu, sem desejar, cometi um conto que está carregado da filosofia sadeana. Só percebi após publicá-lo no Blog. Nele os personagens principais são movidos por variados apetites, os quais para serem satisfeitos os atores devem destruir outrem, trabalho que não penaliza sua consciência. Essa imoralidade não é punida pelo universo, ao contrário, os eventos de interferência demonstram que o cosmos não está nem aí para a dor humana.
Se eu tivesse planejado em escrever algo ideologicamente ligado ao Marques de Sade, aposto meus dentes que não teria conseguido.
Contos de Fantasia & Realismo, muitas vezes temperados com crueldade... Ah! E algum ocasional papo furado...
sexta-feira, 22 de março de 2013
segunda-feira, 18 de março de 2013
O Lixo
(O Horror sempre mora ao lado.)
Os olhos prateados espiaram o
mundo fora da sujeira e ele viu a maldade das crianças. Cometida por crianças,
entre crianças. Tamanho desamor apenas o fez salivar e, no nado do tubarão,
esgueirou-se entre o lixo sem ser visto.
Os ratos fugiram quando ele
chegou. Sentiram sua antinatureza. Ao
contrário de seus primos não dominava as feras, apenas as assombrava. Sem
nenhum animal inferior para comer, aqueles miúdos de cérebro altamente desenvolvido
a se maltratarem de maneira tão cruel seriam a interrupção do jejum com um belo
manjar.
(Uma bocada valorizada pelas
especiarias da iniquidade: Estupro é tão gostoso!)
Somente uns tremores entre latas,
plásticos e papeis. Ninguém não alertado sobre o que havia de baixo daquela
imundice sentiria sua chegada e os meninos estavam entretidos com seus jogos de
violação.
Pobre vítima.
Pobres predadores, que esquecem
que para cada perseguidor, há sempre outro maior em seu encalço.
À frente da favelinha,
atravessando a rua, cruzando um terreno baldio, havia o barranco, uma grande
queda cuja vertigem terminava na avenida movimentada longamente a baixo. Para
ninguém cair, fizeram um muro. Um muro pequeno, uma mureta, da qual ninguém
distraído despencaria e poder-se-ia ver o mundo adiante, o mar de casas, rabiscado
pelas vias públicas.
Feito o obstáculo à queda livre,
na ausência dos caminhões de lixo, os moradores optaram por acumular entulho
longe de suas portas ao lado da mureta. Os anos se foram e uma montanha de porcaria
se ergueu tampando a vista numa ânsia de Babel de se tocar o céu.
Obviamente, ratos e baratas a
assolar as casas de madeira vizinhas aumentavam na semitria do volume do lixão
improvisado, assim como as jornadas das crianças a escalar a sujeira para
brincar nos caminhos secretos, somente conhecidos pelos pequenos, e ver o
horizonte distante, já que do chão o lixo não mais permitia.
As mães, como toda mãe,
inicialmente se preocuparam com a exploração de seus filhos, porém logo deixaram
de lado seus temores, pois numa vida sem muito sentido, onde perseveram muitos
medos, grandes e ferozes, a ameaça latente se tornava familiar, depois
invisível. Infecções? Doenças? Violências? Desimportante, pois sempre há em
todo lugar.
Além dos ratos, das baratas e das
crianças, fuçavam no lixão os catadores. Gente que pegava o que foi recusado e
vendia a quem podia interessar. E coletavam comida rejeitada que ainda podia
ser comida. Uma disputa com os ratos e cães vadios também defendendo o direito
a vida.
Certo dia, no entanto, houve uma
diáspora: os ratos fugiram em debandada. Uma torrente negra evadiu tal qual de um
navio a afundar. As baratas também fiveram êxodo. Cães não mais perscrutavam o
lixo em busca de alimentos. Os cachorros se aproximavam da pútrida colina,
farejavam e saiam num espasmo assustado com o rabo entre as pernas.
Os catadores de lixo também não
iam mais recolher subsistência lá.
Somente as crianças, na sua
estupidez prodigiosa, ainda faziam suas viagens ao amontoado. As mães, entretidas
em seus problemas e em suas bobagens, não perceberam que algo havia mudado no
ambiente e não censuraram os passeios dos seus rebentos.
Nem quando o catador de lixo,
homem místico portador de um patuá com cores de cobra coral e ilustrado com
tatuagens delineadas em traço sofrível de São Jorge e outros santos, chamou uma
matrona preta, bem preta, de um negro liso e belíssimo, a fofocar no portão de
ripas de madeira desinformes.
_Que cê quer, homem? Aqui não tem
comida nem pra mim, quanto mais para você.
Mesmo na miséria, há hierarquia,
o que possui um barraco de madeira mal pregada olha o sem-teto com os mesmos
maus olhos que o pequeno burguês bem apessoado encara o maldito proletário
passando pelo frente de seu portão.
_Não parei pra pedir, moça. Parei
pra avisar.
A mulher negra obesa foi atacada pela
necessidade de bani-lo, a intolerância sai em sonora voz dos beiços grossos.
_Tá com fome? Vai no lixão catar
comida.
As duas vizinhas riem.
O caboclo, já de couro duro pelo
açoite de sua vida, ignora os risos e continua a sua bondade de advertir.
_Moça, não deixa seus filhos brincar
lá no lixão. Não é bom!
A mãe, empapando uma indignação
quase aristocrática, botou as mãos na cintura.
_Meus filhos brincam aonde
quiserem.
_Lá não é bom pra criança. Não é
bom pra ninguém. Ninguém cata mais lá.
_Não cata porque é vagabundo e
não gosta de trabalhar.
_Tem coisa ruim no lixo!
_Vai embora se conto pro meu
marido quando ele chegar do serviço. Ele vai te matar se te pegar aqui.
Ele jogou o saco nas costas e
começou a sua retirada.
_Só to avisando. Cuida dos seus
filhos.
E se foi.
A negra, ainda com sua repulsa
teatral, fungou.
_Quem cuida dos meus meninos sou
eu.
A vizinha que se divertiu com a
humilhação do sem-teto ajeitou o lenço na cabeça, sobre o capacete de rolos de cabeleireiro,
e perguntou.
_Falando disso, onde tão eles?
_Eles quem?
_Teus filhos.
Uma nova fungada.
_Vou saber?
Se a pobre mulher tivesse o
hábito de assistir filmes de terror em sua TV em preto e branco, teria
reconhecido o clichê, o aviso do homem estranho sobre o mal inefável, e tomado
providências adequadas. Porém, quando não era noveleira, não perdia um episódio
do “Povo na TV”. Logo, carecia de
instrumentos para se precaver contra o sobrenatural em suas várias formas.
A mãe sabia onde estavam. Se prestasse
mais atenção, saberia que a meninada estava no lugar de sempre a brincar de
fazer o mal.
Timóteo, o mais fraco da turma da
Favela da Beirada, chorava agachado no
meio do lixo. Estava nu da cintura para baixo e tentava ocultar seu sexo.
Encurralando-o estava Afonso, Adalberto e André. Os três irmãos tinham convencido o menor a ir
ao extremo do lixão para mostrar uma caixa de revista de mulher pelada. Era um
convite para todo mundo bater punheta junto, como amigo. Sem viadagem. Mentira.
Não havia revista nenhuma. Tudo um plano para currar Timóteo. Quando
chegaram ao ermo, trataram de arrancar seu shorts e amaciá-lo com umas
porradas, da quais brotaram muitas lágrimas.
_Mas é uma mulherzinha, mesmo!
Falou o André, o mais velho e
perverso.
_Não sou mulherzinha.
_O Leleco contou tudo, Timóteo.
Timóteo sempre fazia troca-troca
com o Leleco. A questão é que quando chegava à vez de Timóteo ser o homem, ele
não conseguia. O pintinho não endurecia. Nas últimas vezes, quando Leleco terminava de
comer o Timóteo e este vinha retomar sua virilidade na bunda de quem lhe fez de
mulher, o parceiro nem mais se dava ao trabalho se curvar para ser montado,
levantava as calças e ia embora. Timóteo, abandonado, protestava contra a quebra da ética do
troca-troca. Leleco se justificava quase entediado.
_Pra quê se você não consegue?
Mesmo assim Timóteo continuou se
encontrando com Leleco, o qual se sentindo homem por só comer, começou a se
exibir aos amigos, falando que Timóteo era bicha. Sua bicha. Os três irmãos
ouviram a conversa e planejaram ter o Timóteo para eles. Bichas eram odiadas, mas também era um
achado, pois significavam um ensaio para as mulheres. Além do mais, comer uma
bicha era melhor do que fazer troca-troca, pois só comia e não tomava no cu,
correndo o risco de gostar e virar viado também.
Para não ter problemas com o
Leleco, que era grande e gordo e podia bater nos três, trataram de comprar o
passe de Timóteo por um pião de ponta afiada e todo colorido bonitão, que quando
rodava, ficava branco, e uma revista de mulher pelada, daquelas boas, suecas.
Donos do garoto agora, apenas
faltavam estrear. Fizeram a armadilha, o atiçaram com musas nuas e quando
chegaram ao coração do lixão, trataram de lhe puxar as calças e contar sua nova
função de escravo sexual dos três valentões.
O choro não demoveu os irmãos de
seu projeto, pelo contrário, o desespero do menino os excitava e endurecia os
paus semi-imberbes. Agarram-no, deitaram-no no lixo, sua bunda branca nua
pareceu feminina aos garotos, tanto que Adalberto a comparou com a de Melissa,
a menina retardada dois barracos acima que, quando ninguém estava vendo,
permitia que a tocassem em suas partes.
Surgiu um impasse. Estava seu
pedaço de carne grudado no chão fedido e aí? Quem ia primeiro? André, folgado,
disse que tinha direito porque era o mais velho. Afonso protestou e quase se
socaram, quando Adalberto pacificador sugeriu tirar na sorte. No dois ou um.
Concordaram e ainda Adalberto
arrematou:
_Tá fazendo sucesso, hein,
Timóteo? Tão novinho e já tem homem brigando pela boneca.
Risos.
Renderam as mãos e depois a
esticaram sobre o rabo do cativo. Disseram a uma só voz:
_Doooooois ou um?
Afonso e Adalberto foram de dois.
André foi de um. Vitória do mais velho.
O vencedor se vangloriou e todo
sorriso e maligno montou em Timóteo iniciando a coisa ruim.
O coitado urrou.
Afonso satirizou:
_Credo, parece que tá matando
porco!
Risos. Sardônicos. Convulsivos.
Se todos não estivessem
entretidos em seus jogos de violação, teriam talvez notado o lixo se mexer levemente
ao redor e esperado o bote de alguma besta, talvez uma cobra, mas a antecipação
para qualquer bestiário, não bastaria para antecipar ao que emergiu do entulho.
Uma ciclópica mão negra e áspera
explodiu do solo de detritos, seguida por seu par. Os dedos, cujas unhas eram
cinzas e quebradiça, envolveram, primeiro, o tronco de André, sim, eram
realmente colossais, e depois o
sodomizado Timóteo.
Separados de seu coito, vítima e
predador, agora, ambos eram vítimas de um caçador superior. Para Timóteo, não
se tratou de novidade quanto ao sentimento. Prevalecia o horror, apenas que
agora, vigorava outra qualidade. Já para André o sentimento de controle se
perdera totalmente e ele se vira no polo oposto a que estava acostumado.
Entretanto, ambos gritavam na
mesma gravidade.
Afonso e Adalberto se congelaram
diante do impossível a ocorrer diante de seus narizes, membros grotescos
emergiram do chão e capturam seu irmão e a bicha que compraram.
A primeira reação da dupla foi em
fugir, deram uma corridinha, mas as suplicas do mano os demoveram da covardia e
eles voltaram para o resgate. Um
recolheu um porrete, um pé de mesa branca, e o outro uma garrafa verde de cidra.
Deram carga ao ataque.
Agrediram o braço que segurava o
irmão. O estouro da garrafa no punho e as pancadas do cacete não surtiram
efeito. As mãos detiam os dois meninos como
bonecos articulados e os sacudiam feito chocalhos de merengue. Movimento que
foi substituído pelo ato da imersão.
Começaram a afundar no lixo. Os
prisioneiros iriam se afogar nos restos materiais do capitalismo, quando
Adalberto se tocou que seu porrete tinha na sua extremidade fina uma ponta
lascada. Aquilo era uma estaca e, como vira certa vez num filme da sessão “Calafrio”
a passar na TV Record, meteu a estaca no antebraço da criatura fantástica como
se fosse empalar um vampiro.
Na verdade, sem que eles
soubessem, a coisa era um tipo de vampiro.
Sim, são várias as qualidades de
vampiros, mas essa dissertação deve ser
composta outro dia, o que nós
interessa é que a madeira encravada causou dor ao ser sombrio e este largou
André o qual ainda estava com seu membro para fora da calça jeans.
Ferido, o vampiro gigantesco
tratou de se recolher afundando rapidamente no lixão, levando Timóteo junto. O
coitado semidesnudo gritou e gritou, mas nem os céus, nem os irmãos
estupradores se comoveram, aliás, moveram-se, correram deixando –o sozinho em
sua abdução.
O corpo do menino afundou no chão
e sua boca berrante foi soterrada pela sujeira.
Naquela noite, os irmãos não
quiseram a comida, muito boa por sinal,
da matrona negra. Ela insultada ranhou
com seus filhos, mas logo se desinteressou porque começara a novela das sete.
Os garotos haviam aprendido cedo a
arte da dissimulação para enganar os adultos, então, camuflaram seu horror
muito bem. À medida que as horas corriam, se sentiam livre para falar entre
eles sobre o acontecido.
Estavam felizes por terem escapado
daquilo e salvado seu irmão. E quanto a Timóteo? A mãe dele passou nas casas
perguntando sobre o filho.
Afonso concluiu harmonioso que
estavam no lucro por terem salvado o irmão. Afinal, irmão é irmão e bicha tem
um monte por aí.
André que ficara religioso após o
ataque, segurava um rosário, herança de sua avó, discorreu um pouco de teologia
pueril. Arguiu imbatível: O que fizeram era pecado e que, por isso, o diabo
tinha vindo pegá-los, porém acabou levando apenas Timóteo porque ele era mais
pecador (já que era o passivo). Isto era uma segunda chance dada por Deus e que
não deviam mais se meter sexualmente com viados.
Os irmãos comovidos com a
sabedoria divina de André concordaram quase em lágrimas de culpa. Não por terem
feito tanto mal ao Timóteo, mas por
tê-lo desejado e pretendido se aliviarem de sua masculinidade nele.
Ao nascer do sol, mal tinham dormido, todavia
a calma já os amortecia, e teciam planos para retornarem a normalidade.
Jogos de pelada. Bolinha de gude.
Caçar e matar um pássaro bonito o qual tinha avistado outro dia. E comer a Melissa porque já passou da hora de
dar um trato naquela puta retardada.
De pé, pra ela não engravidar.
E, claro, bem longe do lixão.
No lixão, o vampiro sentia-se
satisfeito. Sorvera da massa cinzenta do cérebro de Timóteo feito uma uva,
deleitando-se com o terror do estupro que ainda maculava a memória de seus restos.
Mesmo sendo um a preocupação distante, sabia que logo sentiria fome novamente,
e a fome é especialmente terrível para os imortais, pois não há o limite da
morte para ela. Sente-se fome enquanto seu vazio durar.
No entanto, pensou, a providência
era gentil para com os monstros, pois se enamorou do bêbado cambaleante na
beira do lixão a mijar.
(Tonhão não era de beber,
todavia, nascera seu primeiro filho, um varão sacudo, como ele. Então, toma-se
um porre com a rapaziada. Só aquela vez. A última vez.)
Comovido com a própria sorte, o
vampiro do lixo agradeceu a Deus e foi rastejar para abocanhar o novo lanche.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Vagabunda
Certo
dia, o esposo com ódio, dedicação e uma faca escreveu “vagabunda” no ventre de sua
companheira, antes e depois de muitas mutilações.
A página
de carne não gritou. Cria que ninguém viria ajudá-la, dosando a dor com o conformismo
feminino, uma sujeição de santa, uma coragem amazona, a paciência da puta,
aceitando-se merecedora do desgosto.
Ela
estava errada.
(Nunca
se trata de merecer. Apenas é)
Todavia,
nenhuma alma veio refutá-la.
A vida
pingava aos poucos, quando seu talhador, após uma parada para o cigarro, voltou
aos berros. O som trovejante de sempre.
_Eu não
queria fazer isso!
Mentira.
Fez porque houve vontade. Antes de qualquer verbo, vem o querer. E, querendo, o
fez.
_Tudo
culpa sua!
Sim.
Culpa dela. Também. Não por ter burlado o contrato nupcial selado por Deus.
Nenhuma galhada brotou daquele crânio, apesar da sensação de chifres fantasmas.
A moça era culpada por ter escolhido a ele e ele era culpado por sê-lo assim.
(Isto é,
se nos esquivarmos da indiferença da natureza e abraçarmos alguma moral que cuide
bem da igualdade entre os pares)
Ela o
amava, mesmo sabendo ser furioso, quase maligno, um câncer como parceiro, e o
quis, a despeito de todo perigo à carne e à alma a orbitá-la. Já o homem a tomou para si, mesmo dono da
ciência do quão nocivo era, apesar de amá-la e querer, talvez, o melhor para a amada.
Então,
se há responsabilidade ou, quiçá, culpa era tanto do algoz quanto da vítima.
_O que
eu vou fazer?
_Você,
eu não sei. Eu... Eu vou morrer.
O anúncio
da morte da esposa era uma vingança. Ou simples
retribuição. A paixão entre os dois oscilava entre amar e odiar e era de idêntica
qualidade quanto à potência nos apaixonados.
_Não!
_Não?
_Não...
Você não pode morrer.
Sabia ela
que não que o temor de seu consorte homicida não se devia a ameaça de ser punido
pelo assassínio que se completava, mas sim de não mais tê-la.
Quem ele
iria amar? Quem ele iria odiar?
Assim,
com um sorriso, ela goza a morte.
A qual
veio devido á falência do corpo.
Ele... Só,
tão só, desesperou-se.
_Vagabunda!
Entre
lágrimas e um nariz escorrendo, chutou-a. Socou-a. Esfaqueou-a. Como se a
violência tivesse o efeito reverso que sempre teve e a revivesse. Trouxesse-a
de volta para dar fim àquele horror a violá-lo. Em vão. Sem ressurreição.
O jogo
entre o homem e a mulher terminou.
Enfim, ele a perdeu.
Ela ganhou.
terça-feira, 5 de março de 2013
Pé
(Realmente, ela não sabia.)
O inferno não era acordar.
Era depois.
Majorie se
lamentava por antecipação. Sentava-se na cama, ia ao chuveiro, tomava banho,
pousava na mesa e consumia seu café com aquele temor rosnando em seu ventre até
a hora de seu assalto matutino.
Primeiro a meia. Depois, após respirar muito, seu
sapato. Às vezes, postergava mesurando se podia passar o dia sem ir ao
trabalho.
Descalça.
Porém, as
contas não se pagavam espontaneamente. Sem chance.
Precisava ir trabalhar.
Majorie deu a última fungada e colocou os calçados.
Ai!
Como toda vez que o fez, desde quando se tornou
adulta, eles esmagaram seus pés. Eram torniquetes! Todos seus sapatos! Cada um
deles, máquinas cruéis de espremer falanges, de destruir dedinhos, prensa a
dobrá-los ao meio. Enfim, calçados fechados eram invenções do diabo, nada mais.
Apenas os usava quando era inescapável a necessidade.
O trabalho, balconista numa farmácia de manipulação, ou um evento do qual não
conseguia fugir. No resto, vivia de chinelos e até, maluca a moça, com os pés
nus. Apreciava tocar o taco encerrado do chão de seu apartamento sem nada
cerceando os limites de sua carne.
Se fosse menos estúpida, sim, ela detinha aquela
estupidez popular/pop que viceja entre todas as classes sociais em que se
orgulha de apenas se saber de coisas úteis ou reconfortantes, facilitadoras da
vida, confie, conflito é inimigo, se ela fosse menos estúpida com certeza
colecionaria analogias de seu sofrimento com a história e o mito.
Elegeria em primeiro lugar a terrível bota de ferro,
instrumento de tortura da Inquisição Católica, como referência em seu horror
diário, sentindo que uma válvula semelhante ao do brinquedo de metal estaria
sempre sendo fechada sobre seu pé por uma mão invisível.
Depois, se identificaria com os pés deformados das
damas do Japão de outra era para o efeito de beleza. Primeiro, por não achar
seus pés belos, pé bonito? Onde já se viu? Especialmente os dela, e, em
segundo, por crer que um dia ficariam do mesmo jeito daquelas mulheres do oriente
distante.
Por fim,
tomaria para si a beleza fabulosa do castigo da Rainha Má, madrasta da Branca
de Neve, aplicado nas versões anteriores a suavização para crianças consumirem:
Dançar até a morte em tamancos incandescentes, sim, pois isso o que era sua
vida calçada, uma dança num tablado em brasas.
Todavia, se lhe faltava essas informações que desse
ao seu sofrimento uma pitada de poesia para tornar seu martírio mais
sofisticado, a dor estava lá, bem presente, realista e contábil.
Doía e pronto.
E, ainda mais, se lhe faltava sofisticação do saber,
como a todos que padecem dessa lacuna, transbordava a fé. A crença sólida de que todos os seres humanos
que botaram um calçado no pé também padecessem dessa dolorosa condição.
Como toda suburbana, encontrava Deus nas compras,
com exceção, lógico, em comprar sapatos. Era na sapataria que encontrava o
Diabo encarnado como vendedor de sapatos, o ser que apresentava novos
tormentos.
Não necessita de muita imaginação para compuser a
ideia de que Majorie postergava a compra de novos atrozes bens. Ia ao máximo que podia com os
antigos, até o ridículo do
desgaste, até quando o sapato falava, soltando a sola e fazendo uma boca
muda que batia a matraca no meio
da rua.
Ia ao extremo da espera e quando lá chegou, tomou
uma coragem quase masoquista e partiu para loja para se atormentar.
Qual foi a surpresa quando o vendedor lhe soltou ao
olha-la morder seu lábio quando enfiava o sapato desgraçado no pé:
_Tem certeza que seu número é 38?
Sim, era. Sempre foi. Quando usava os sapatos da mãe
e da irmã mais velha, quando morava com elas, que eram...
_Nós temos números especiais.
Menores do que ela...
_A senhora não quer experimentar para ver se ficam
mais confortáveis?
_Eu sempre usei o número 38.
Ele sorriu. Seus dentes são perfeitos. Até então, não
percebera como o moço da loja era bonito.
_Vai por mim, moça.
Ele retirou o sapato, alívio, porra, e mediu a sola
do pé de Marjorie com a palma da mão.
_São anos de experiência.
O toque dele em seu pé liberto era inesperadamente gostoso.
_Eu sempre... Tudo bem, que número?
_Surpresa. Vamos ver se eu acerto.
Foi e voltou com uma caixa. Mesmo modelo. Ele mesmo
colocou em seus pés. Majorie se lembrou
da versão animada de Disney da Cinderela, seja porque todo idiota no ocidente é
capaz de reconhecer as imagens dessa bosta, seja porque a sensação de
libertação de uma realidade ruim para um conforto nababesco, órfã explorada
para princesa mimada, se revelou idêntica.
_ Não dói.
_Pois, é.
_ C-como?
_ Muitas mulheres grandinhas acabam usando um número
menor.
Sentiu-se desengonçada ao ouvir isso.
_ Que número?
_40.
Não era a toa que doesse tanto. Sentiu-se tola. Tão tola
quanto uma mulher traída pelo amor da sua vida. Seus sapatos a traíram.
_ Meu Deus, eu tenho uma lancha!
_Calma. As meninas imaginam que o ideal é o pé pequeno, mas não é assim.
_E qual é o ideal?
_Ideal é o pé que você tem. Os outros são os outros.
_E o que você sabe disso? _ Disse ainda envergonhada
e raivosa consigo mesma.
_ Muito. Anos de experiência.
Não só como vendedor de sapatos, mas também como
podolatra. Sim, havia uma malicia em sua profissão. O mistério era saber se ele
entrou no ramo por esse fetiche ou o fetiche brotou de seu labor. Mistério que
não interessou muito a Majorie, que não era muito de questionar nada, como já se
viu.
E se, por isso, antes ela sofreu, depois se deleitou
quando o vendedor beijou seus pés mais tarde no motel, afinal, ele era seu
príncipe encantado que a libertou da maldição dos sapatos, portanto, nada mais
justo no mundo do que dar para ele.
Pena que o vendedor, na mesma medida da balança um santo
libertador e um diabo canalha, nunca telefonou após ter se refestelado.
Foi-se o bofe, ficou o pé.
Hoje, Majorie, mais calejada, faz questão de
carinhos diversos naquela parte que a aguentou tudo em nome da ignorância, como
conditio sine qua non de se entregar
a um homem e ser mulher.
(Claro que sabemos que uma mulher não precisa de um
homem para se ser plena, mas quem terá paciência de explicar essa obviedade
para ela?)
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
A Escova
Na alcova, na cama, o ódio da
companheira não mais se continha em seus salões mentais. Borbulhava. Escorria pelas
frestas de sua pessoa quebrada. Se antes se ensaiava em grunhidos, naquela hora
tudo se desnudou de seu hábito restritivo nos arranhões, nas costas de seu
parceiro, sulcados pelas cerdas duras da escova de pentear.
Ela sempre se penteava antes de
dormir. Um número definido de passadas
que ele nunca memorizou. Ao contrário de
sua pele a sustentar então a memória da ofensiva.
A resposta do homem: nada.
Ou tudo: a maldita sujeição.
O silêncio, cujo eco que veio da
consorte foi um rosnado. A mulher
magoada, indignada pela superior moral da inércia do corpo que cavava, largou a
arma e, natural, primitiva, honesta, cadela, gata, macaca, usou das garras e usou
dos dentes.
(Aquelas pintadas gracinhas a
francesinha. Estes domesticados quadradinhos pela tirania de aparelhos
odontológicos na adolescência)
Tascou-lhe da furiosa boca um (nhac!)
beijo canibal!
MOR-DI-DA!
Se partidarizássemos pela lógica,
não haveria motivo real que servisse para o combustível de tanta chama
destruidora. Desconfiança de traição? Sim! Por que não? Toda mulher é inimiga da mulher,
começando pela mãe e pela filha. Se perdurasse a ausência de evidências, bastava
uma olhada no espelho e a percepção da erosão da vida para a dedução: Ele teria
outra. Ou pior: Ele desejaria outra que não fosse ela. Traída por uma maldita
ideia.
Prenha de raiva contra si mesma, irradiada
no macho, que sem paciência respondia as reclamações da fêmea com tiradas
jocosas, as quais anos antes ela acharia inteligentes e sensuais e hoje a golpeavam
a caveira feito crava.
Cansado, ele se livrou num
espasmo da besta a torturá-lo. E sem limpar o machucado na omoplata, uma coroa
de vermelhas marcas dentárias, botou a camisa sobre ferida, o tecido manchou
sanguíneo, pegou algumas coisas necessárias e saiu sem um pio.
Desapareceu pela porta.
Talvez ficasse num hotel, talvez
um amigo fornecesse abrigo. Ela não sabia. Nem saberia. Ele nunca voltaria. Não como seu macho a
rachar-lhe ao meio com seu falo antes de adormecer junto ao seu corpo
estimulado. Não! Nem isso a preocupava. Eles estavam ligados.
Fizeram um filho.
Uma experiência biológica em comum,
quando ainda se amavam.
Mirou seu inimigo zombeteiro, o
espelho.
Eles tiveram um filho.
Ele estava preso a ela e ela
estava livre para destruí-lo.
Todo dia um pouquinho.
Transmitindo-lhe o craquelê de
seu ser até que ambos se desmanchassem em pó.
Contemplou os resíduos criminais
em seu brinquedo de torturador.
Pegou a escova e lambeu o sangue.
Vampira, gostou.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
A
assassina de si própria
Ane possuía uma vida
estranha?
Não no geral. Vista pelo
todo, qualquer um vaticinaria o império da normalidade, isto é, como nós do
mesmo tempo e do mesmo lugar da moça, século XXI, Brasil urbano, a entendemos e
concordamos.
Afirmamos, contudo, não
se tratar de uma existência desejada, a qual qualquer imaginador queira para si.
As pessoas preferem planear a passagem feliz sobre a Terra como uma série de rocambolescas
aventuras melodramáticas culminadas em vários sucessos exemplares, no entanto,
a vida de Ane não era de se repugnar, porque, apesar de mansa, era boa.
Ela se formou em
biblioteconomia, saiu da casa dos pais, morou sozinha, teve uns namorados, infelizmente
nenhum relacionamento que se desabrochasse em laço duradouro, e seguia muito
bem para os trinta, quando se alertou para uma inconveniência crescente.
Numeremos:
1) Todo dia quando
acordava encontrava a casa levemente mudada. Detalhes. Coisas pequenas. Objetos
fora do lugar. Mudados. Virados. Usados. Sem ela se recordar de ter agido sobre
eles. No começo, ela atribuiu a uma
perda de memória irrelevante, tê-los-ia manipulado antes de dormir e o sono
apagou o registro.
2) A coisa começou a
preocupar quando o dinheiro que ela havia retirado do caixa eletrônico e deixado
em casa para usos ocasionais começou a se alterar. Num dia havia mais do que
lembrara tirar, no outro menos sem que ela soubesse dizer aonde tivesse
gastado. Justo ela, que controlava suas economias com seriedade a ponto de
acumular uma poupança razoável para sua idade. Foi conferir seu extrato do
banco e a surpresa ganhara novo vigor. Depósitos e retiradas também estranhos a
ela. Será que Ane teve sua senha furtada e estava sendo vítima de algum esquema
ilegal? Na soma de tudo não havia perda, havia até ganho, mas a movimentação
era obviamente preocupante.
3) Roupas e objetos que
ela não havia adquirido, sim, ela poderia jurar, se solidificaram em seu
apartamento. A vestimenta nova não era de seu estilo sóbrio, mas sim de uma
expansividade que a acabrunharia, que a faria se sentir cafona e atirada se
usasse, mesmo ela tendo corpo para tal farreada. Sapatos e sandálias novos, que
cabiam perfeitamente em seu pé, mas que ela nunca compraria. E a lingerie que
apareceu em sua gaveta? Ela era prática nesse assunto. Preferia calcinhas
confortáveis de algodão, não aquelas coisas caras, sensuais, que mulheres usam
para tirarem rápido em alguma alcova programada, se não suas partes íntimas
sofreriam de assaduras se usassem por muito tempo.
4) Se o chão começou a
faltar no item anterior, nesse o mundo foi para o espaço, com carros e vacas
flutuando no éter. Primeiro, ligavam para o telefone fixo procurando por uma tal
de Cibele. Engano, óbvio. Tudo bem. Todavia, a quantidade de telefonemas a
levou se questionar se essa tal de Cibele não aplicava golpes e estava dando
seu número por aí. Segundo, pessoas que ela não conhecia a cumprimentavam na
rua, ônibus, metrô. Ela respondia sem jeito, vai que estava com problema de
memória e não as reconhecia. Tudo tolerável e insuspeito, até que um dia:
_E aí, Cibele, sua
louca! Me liga!
Ligar? Cibele? Ela não
era Cibele. Quem era Cibele? Por que a confundiam com Ane? No primeiro
instante, só teve certeza de uma coisa sobre essa figura. Que ela tinha um
caso, pois seu amante de surpresa abraçou e beijou Ane, como se fosse a coisa
mais corriqueira. Ane se desesperou e
gritou. O beijoqueiro sem entender o que se passava, pedia que ela se acalmasse
e a chamava de Cibele.
Ao ouvir esse nome, Ane
cessou o chilique e disse num misto de raiva e embasbaque:
_ Não sou Cibele!
_Ah! Cibele para de
brincadeira.
Discutiram, por fim,
Ane conseguiu convencer Jair, que se apresentou mais tarde, de que ela não era
a bendita Cibele.
O rapaz, o qual era
bonitinho, fato que retirou um pouco do peso do assalto do ósculo, mostrou uma
foto no celular dele com a criatura que começou a atormentar a vida de Ane como
uma justificativa de seu erro.
_ Incrível como vocês
são parecidas.
Incrível mesmo! Tirando
o queixo mais fino, o nariz menos arrebitado, as sobrancelhas feitas e o cabelo
mais longo, Cibele era uma gêmea de Ane.
_Me envia essa foto por
email?
Depois em casa, após
ter recebido a foto e olhando-a por vários minutos decidiu encontrar essa tal
de Cibele. Perguntou, também por email, a Jair o sobrenome e telefone dela.
Esperou em vão o
namorado da outra responder. Cansada pelo dia de novidades, rendeu-se ao
chamado da cama. Com a cabeça no travesseiro, conjecturou novamente.
E se Cibele e quem a
assola fossem pessoas diferentes? E se no lugar de uma moça semelhante a ela
fosse um tarado? Um pervertido brincando com ela antes do estupro fatal?
Se coisas aparecem em
sua casa é porque alguém entra. E se sua invasão não fosse quando estivesse
fora, mas dormindo?
Um calafrio, um sentimento de medo brotou num
instante ameaçando-a com a insônia vigilante. Entretanto, se não aconteceu nada
de grave até, então, talvez fosse seguro apostar mais uma noite de relativa
segurança e poder dormir.
Antes de, por fim,
dormir, pensou em soluções e a melhor que lhe veio seria colocar uma câmera
ligada quando estivesse fora e dormindo. Porém, era tarde para se municiar com
uma. Novamente, insônia. Não poderia dormir, não sem uma providência
naquela noite.
O travesseiro
assoprou-lhe duas ideias. Uma prática e outra lúdica. A prática: dormir com uma
faca debaixo do travesseiro.
A lúdica: Espalhou
talco pelo chão.
Ia espalhar farinha,
mas desistiu, pois viraria uma meleca.
Dormiu.
Despertou no horário de
sempre. A faca estava lá. OK! Olhou para o chão.
_A-ah!
Pegadas!
Havia alguém mais na
casa. Pensou de logo num invasor, todavia, as pegadas saiam e voltavam para a
cama. Seria ela sonâmbula?
Essa perspectiva
retomada deu-lhe alívio. Não seria uma golpista ou um estuprador a assombrar
sua vida e sim ela mesma adormecida.
No entanto, isso não
explica o dinheiro, as movimentações financeiras e as roupas.
Cada vez mais confusa,
pensou até em fantasma. No início,
séria, depois se riu.
A resposta de Jair
chegou a sua caixa de entrada.
_ O telefone e o
sobrenome... Não pode ser! É brincadeira!
Uma câmera urgia.
A qual instalou uma
apropriada para a ausência de luz prontamente na noite seguinte e foi dormir um
sono sem sonhos.
Ao despertar, mesmo
sonolenta, tateando escuro, foi cambaleante ver as imagens.
Uma hora de filmagem:
Nada. A não ser ela dormindo. Tédio.
Duas horas: Nada de
novo.
Terceira hora:
Acontece.
Ela se agita, vira de
um lado para o outro até parar e ficar de barriga para baixo.
De repente, suas costas
se abrem, como que rasgadas por duas mãos.
Um braço feminino se
ergue dramaticamente.
Outro braço.
Finalmente, emerge
Cibele nua.
O despertador tocou.
Ane correu até a câmera
e conferiu.
Cibele veio e se foi.
Vestiu-se e saiu.
Pelo marcador, foi há
poucos minutos. Ane mete uma roupa fácil e a foi atrás de sua inquilina como
fizera noutras noites.
Ane Filomenna seguiu
Cibele Filomenna até a farmácia onde trabalhava cinco noites seguidas. As duas
teriam o mesmo sobrenome, conforme o namorado Jair, que a pedido dela não
contou que conhecera sua gêmea porque queria fazer uma surpresa.
A surpresa quase
aconteceu numa das noitadas na folga de Cibele quando ela ia a casas noturnas
dançar até cansar. Ane a acompanhava a distância sempre, o que lhe rendeu
noites mal dormidas e queda no desempenho, tanto que até solicitou adiantamento
das férias para continuar sua exploração.
Podia ter detido sua
companheira de quarto e corpo em qualquer lugar, mas preferiu a privacidade do
lar para resolver isso.
Numa madrugada, Cibele
se aproximou da cama. Ane dormia. Suas mãos foram as costas da adormecida para
abrir seu casulo e encontrar o repouso, quando foram detidas por sua anfitriã,
que rapidamente se virou e encostou a faca no pescoço de Cibele.
_Explique!
Cibele se aterrorizou,
tanto talvez como Ane tenha ficado quando viu aquelas imagens pela primeira
vez.
A hóspede inesperada
não podia explicar. Disse que somente existia daquele jeito.
_Há quanto tempo?
_Há dois anos.
_Meu Deus! Dois anos!
Cibele chorou. Olhou a
hora e o planto aumentou, pois, apesar de não saber como existia, intuía como
deixaria de existir.
_Deixe-me entrar. Se
não, eu vou morrer.
_Entrar em mim? Não.
Acabou.
Cibele, em perfeito
desespero, saltou contra Ane tentando lhe tomar a faca. Entretanto, o corpo que
comportava era mais forte do que o que era comportado. Ane se livrou da
agressora num belo chute que a jogou contra o criado mudo.
Se o barulho teria
acordado os vizinhos, não importava, pois agora o sol nascia e Cibele morria.
Sua pele cristalizava
gradualmente, o que lhe retirava os movimentos e a calava. Por fim flocou-se e
depois desintegrou-se numa nuvem de pó brilhante.
Ane tocou o pó. Sentiu
a textura agradável e o guardou numa caixa de joias, não saberia dizer o
porquê.
Talvez saiba, lá no
fundo, e se nós não sabíamos, saberemos agora.
Imagine a vida num
caminho que sempre se bifurca.
Em cada bifurcação,
temos duas possibilidades.
Escolhemos uma, que se
cristaliza como real.
A outra, um EU nosso em
um universo próprio, ou foi abortada por ter sido declinada pelo andarilho que somos
todos nós e que escolheu o outro caminho.
Ou ficou existindo em uma
variante da existência que nos escapa.
Um EU paralelo num
mundo paralelo.
Talvez, às vezes, a
escolha pela bifurcação não seja tão perfeita e uma corrompa a outra,
tangenciando-a.
Talvez Ane tivesse sido
Cibele se a mãe desta escolhesse outro nome, se Ane escolhesse não fazer
faculdade, se Ane fosse mais festeira... Se.
Talvez Cibele seja uma
apenas uma bifurcação de Ane, que resistente a sua anulação se apegou e brotou
da outra para sobreviver além da hipótese e, que, quando confrontadas
prevaleceu a mais forte.
O pó de Cibele, Cibele
em pó, era uma lembrança do que poderia ter sido, o que de fato foi por dois
anos. Mesmo precisando destruir a outra para se certificar de que a sua
exclusividade existencial não seria ameaçada (temeridade inconsciente, nota-se),
Ane não poderia deixar de se apegar a Cibele, pois negá-la totalmente após
conhecê-la, seria anular não somente uma versão, mas um substancial apêndice de
sua profundeza.
Portanto, a assassina de
si própria guardou o souvenir da vítima, numa auto-piedade definitiva.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Eu
não li Bukowski.
Eu não li Bukowski.
Li Jean Genet.
Certo dia, tesourei curto os
cabelos e prendi os seios quase irrelevantes de uma mulher branca (com aquelas
pintas negras em distribuição acidentada na
pele macia leitosa azeda aguada), magricela cheia de costelas saltadas (as
quais com um bastão ficariam musicadas) numa
faixa de gazes apertadas, no entanto, sem a asfixiar nem nada. Destarte, eu a
visto de homem e a faço puto de rua, um afeminado magrinho, a bichinha da piada
na mão do bofe da mão pesada.
Um quarto de hora depois, num
cinema pornô decadente, prestes a cair, prestes a virar templo de crente,
sentados nos estofados devorados pelo tempo e pelos ratos, assistindo a
projeção desfocada de atrizes em arte pornográfica, escrevendo uma história de
putas com o papel da carne e canetas penianas de silicone flexível
perfeitamente adaptável aos dutos vaginais e retais, minha bicha falsa, meu
traveco reverso, sentou-se ao meu lado e à moda dos gaviões (pássaros rapineiros
predadores de galináceos em certos sítios granjeiros e também viados predadores
de falos em certos sítios cinematográficos)
felou-me como se tivesse fome de proteína animal.
Terminado o serviço com afinco, ela
brincou. Depois do trabalho, sempre o descanso. Sejam sete dias, sejam sete
minutos. Mostrou-me peralta a língua cheia de prata, maravilhas da mente
associativa, uma colher esperando fogo para ferver a alegria química da heroína.
Injeção?
_Deus não quer que se desperdice.
Onã (o da porra perdida num escândalo
bíblico) morreu pela mira ruim.
A semente da serpente foi engolida
num sorvo de pílula. A vida depende sempre de uma dieta nutritiva. Sentados
assistimos a mais um programa depravado. Filminho começa. Homem e mulher. Papai
e mamãe.
_Imagino se em nove meses nascerá
menino ou menina.
Minha bichinha rachada se rachou
ainda mais de tanto rir.
O riso corre, ecoa, conjuga-se com
a eletricidade corrente nas galerias.
Pedreiros. Office boys. Ajudantes gerais. Machos em geral. Sentados com
os nervos expostos a flor do caralho, desabrochado dos zíperes.
O desfile de baitolos camuflados,
gaviões em seus vôos fantasmas na missão de busca e apreensão de carne viril
para sangrar o monstro faminto dentro de si. O dragão rosado, o qual derrotou,
a despeito da enorme, roliça e afiada lança, São Jorge, santo católico, e
outros mercenários cristãos municiados de culpa e repressão.
Crânio vazio associando: Lança.
Agulhão. Agulha. Injeção. Tanta bicha em volta, apesar da hospitalidade, cuja
ausência havia tanta em Sodoma e Gomorra a ponto de reverberar desastre no
clima, só podia dar em uma ideia marota.
Cato meu rapazinho vaginal pelos
cabelos curtos e o arrasto pelas fileiras. Sinto que vai protestar, mas o sorriso
quase brocha meu sadismo. No final das
cadeiras, joguei-a contra parede do cinema. Seu rosto pousou no papel de parede
carcomido. Ela mal deve ter sentido a minha mão em sua cintura. Quando puxo sua
calça para baixo de seu espanto vem seu grito.
_ Ai! Não! Não!!
Toda a segurança do travestismo
desapareceu.
Seu tremor cessou quando se admirou
ainda estar de cuecas.
Os gaviões pararam seu sobrevoo e
aos poucos nos cercaram curiosos.
Desço levemente a traseira de sua
roupa íntima. Glúteos libertos. Suas mãos foram a frente segurando o tecido e
protegendo seu segredo. Seus olhos estão fechados.
Naquele instante, cercado de viados
por todos os lados, eu a montei.
Eu a sodomizei como um homem mais
forte sodomiza um homem mais fraco na prisão.
Como um velho com comida abusa de
um adolescente faminto.
Como um padre, um rabino, um monge
ou califa com um menino em busca do infinito.
Em investidas duras e de amor de
vinho vinagre.
Quando eu desperdicei minha semente
pela segunda vez e senti o silêncio exigido pela biologia masculina, minha
bichinha arrombada goza, num uivinho tão lindo que apenas pode ser sugerido e
mal descrito, dispensando o travessão.
O cinturão de loucas se abalou.
_ Olha, a mona geme como
mulheerrrrr.
A mona mulher se virou rindo
baixinho, erguendo as calças, e buscou o meu peito. Meus braços anelaram suas
costas e minha boca sussurra nos ouvidos.
_ Feito?
_ Completo.
E saímos do cinema dos pecados. Não
escondidos. De mãos dadas para todos nos chamarem de viados.
Um grupo de jovens cabeludos
revoltados em sua condição hormonal nos xingam. Exultados, agradecemos e,
assim, sem querer os ofendemos, pois nos olham com seu ódio peculiar e
desimportante.
À frente, tomamos um táxi para as
nossas vidas.
No carro, minha boneca logo reencostou em mim
e adormeceu. O taxista é velho conhecido.
Na corrida, puxa papo, e como me conhece já ataca a biblioteca universal:
_Ô, Tu já
leu Animal Crackers in my Soup (meu taxista é cool, não lê
autoajuda e lê em inglês.) do Bukowski?
_Eu não li Bukowski.
Olhei para ela.
Eu li Jean Genet.
Ela leu Simone de Beauvoir
Já o marido dela leu Sartre, mas
hoje ele está num congresso do partido.
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