sexta-feira, 22 de março de 2013

Curioso.

Eu, sem desejar, cometi um conto que está carregado da filosofia sadeana. Só percebi após publicá-lo no Blog. Nele os personagens principais são movidos por variados apetites, os quais para serem satisfeitos os atores devem destruir outrem, trabalho que não penaliza sua consciência. Essa imoralidade não é punida pelo universo, ao contrário, os eventos de interferência demonstram que o cosmos não está nem aí para a dor humana.

Se eu tivesse planejado em escrever algo ideologicamente ligado ao Marques de Sade, aposto meus dentes que não teria conseguido.

segunda-feira, 18 de março de 2013


O Lixo

(O Horror sempre mora ao lado.)

Os olhos prateados espiaram o mundo fora da sujeira e ele viu a maldade das crianças. Cometida por crianças, entre crianças. Tamanho desamor apenas o fez salivar e, no nado do tubarão, esgueirou-se entre o lixo sem ser visto.
Os ratos fugiram quando ele chegou. Sentiram sua antinatureza.  Ao contrário de seus primos não dominava as feras, apenas as assombrava. Sem nenhum animal inferior para comer, aqueles miúdos de cérebro altamente desenvolvido a se maltratarem de maneira tão cruel seriam a interrupção do jejum com um belo manjar.
(Uma bocada valorizada pelas especiarias da iniquidade: Estupro é tão gostoso!)
Somente uns tremores entre latas, plásticos e papeis. Ninguém não alertado sobre o que havia de baixo daquela imundice sentiria sua chegada e os meninos estavam entretidos com seus jogos de violação.
Pobre vítima.
Pobres predadores, que esquecem que para cada perseguidor, há sempre outro maior em seu encalço.

À frente da favelinha, atravessando a rua, cruzando um terreno baldio, havia o barranco, uma grande queda cuja vertigem terminava na avenida movimentada longamente a baixo. Para ninguém cair, fizeram um muro. Um muro pequeno, uma mureta, da qual ninguém distraído despencaria e poder-se-ia ver o mundo adiante, o mar de casas, rabiscado pelas vias públicas.
Feito o obstáculo à queda livre, na ausência dos caminhões de lixo, os moradores optaram por acumular entulho longe de suas portas ao lado da mureta. Os anos se foram e uma montanha de porcaria se ergueu tampando a vista numa ânsia de Babel de se tocar o céu.
Obviamente, ratos e baratas a assolar as casas de madeira vizinhas aumentavam na semitria do volume do lixão improvisado, assim como as jornadas das crianças a escalar a sujeira para brincar nos caminhos secretos, somente conhecidos pelos pequenos, e ver o horizonte distante, já que do chão o lixo não mais permitia.
As mães, como toda mãe, inicialmente se preocuparam com a exploração de seus filhos, porém logo deixaram de lado seus temores, pois numa vida sem muito sentido, onde perseveram muitos medos, grandes e ferozes, a ameaça latente se tornava familiar, depois invisível. Infecções? Doenças? Violências? Desimportante, pois sempre há em todo lugar.
Além dos ratos, das baratas e das crianças, fuçavam no lixão os catadores. Gente que pegava o que foi recusado e vendia a quem podia interessar. E coletavam comida rejeitada que ainda podia ser comida. Uma disputa com os ratos e cães vadios também defendendo o direito a vida.
Certo dia, no entanto, houve uma diáspora: os ratos fugiram em debandada. Uma torrente negra evadiu tal qual de um navio a afundar. As baratas também fiveram êxodo. Cães não mais perscrutavam o lixo em busca de alimentos. Os cachorros se aproximavam da pútrida colina, farejavam e saiam num espasmo assustado com o rabo entre as pernas.
Os catadores de lixo também não iam mais recolher subsistência lá.
Somente as crianças, na sua estupidez prodigiosa, ainda faziam suas viagens ao amontoado. As mães, entretidas em seus problemas e em suas bobagens, não perceberam que algo havia mudado no ambiente e não censuraram os passeios dos seus rebentos.
Nem quando o catador de lixo, homem místico portador de um patuá com cores de cobra coral e ilustrado com tatuagens delineadas em traço sofrível de São Jorge e outros santos, chamou uma matrona preta, bem preta, de um negro liso e belíssimo, a fofocar no portão de ripas de madeira desinformes.
_Que cê quer, homem? Aqui não tem comida nem pra mim, quanto mais para você.
Mesmo na miséria, há hierarquia, o que possui um barraco de madeira mal pregada olha o sem-teto com os mesmos maus olhos que o pequeno burguês bem apessoado encara o maldito proletário passando pelo frente de seu portão.
_Não parei pra pedir, moça. Parei pra avisar.
A mulher negra obesa foi atacada pela necessidade de bani-lo, a intolerância sai em sonora voz dos beiços grossos.
_Tá com fome? Vai no lixão catar comida.
As duas vizinhas riem.
O caboclo, já de couro duro pelo açoite de sua vida, ignora os risos e continua a sua bondade de advertir.
_Moça, não deixa seus filhos brincar lá no lixão. Não é bom!
A mãe, empapando uma indignação quase aristocrática, botou as mãos na cintura.
_Meus filhos brincam aonde quiserem.
_Lá não é bom pra criança. Não é bom pra ninguém. Ninguém cata mais lá.
_Não cata porque é vagabundo e não gosta de trabalhar.
_Tem coisa ruim no lixo!
_Vai embora se conto pro meu marido quando ele chegar do serviço. Ele vai te matar se te pegar aqui.
Ele jogou o saco nas costas e começou a sua retirada.
_Só to avisando. Cuida dos seus filhos.
E se foi.
A negra, ainda com sua repulsa teatral, fungou.
_Quem cuida dos meus meninos sou eu.
A vizinha que se divertiu com a humilhação do sem-teto ajeitou o lenço na cabeça, sobre o capacete de rolos de cabeleireiro, e perguntou.
_Falando disso, onde tão eles?
_Eles quem?
_Teus filhos.
Uma nova fungada.
_Vou saber?

Se a pobre mulher tivesse o hábito de assistir filmes de terror em sua TV em preto e branco, teria reconhecido o clichê, o aviso do homem estranho sobre o mal inefável, e tomado providências adequadas. Porém, quando não era noveleira, não perdia um episódio do “Povo na TV”.  Logo, carecia de instrumentos para se precaver contra o sobrenatural em suas várias formas.

A mãe sabia onde estavam. Se prestasse mais atenção, saberia que a meninada estava no lugar de sempre a brincar de fazer o mal.
Timóteo, o mais fraco da turma da Favela da Beirada,  chorava agachado no meio do lixo. Estava nu da cintura para baixo e tentava ocultar seu sexo. Encurralando-o estava Afonso, Adalberto e André.  Os três irmãos tinham convencido o menor a ir ao extremo do lixão para mostrar uma caixa de revista de mulher pelada. Era um convite para todo mundo bater punheta junto, como amigo. Sem viadagem.  Mentira.  Não havia revista nenhuma. Tudo um plano para currar Timóteo. Quando chegaram ao ermo, trataram de arrancar seu shorts e amaciá-lo com umas porradas, da quais brotaram muitas lágrimas.
_Mas é uma mulherzinha, mesmo!
Falou o André, o mais velho e perverso.
_Não sou mulherzinha.
_O Leleco contou tudo, Timóteo.
Timóteo sempre fazia troca-troca com o Leleco. A questão é que quando chegava à vez de Timóteo ser o homem, ele não conseguia. O pintinho não endurecia.  Nas últimas vezes, quando Leleco terminava de comer o Timóteo e este vinha retomar sua virilidade na bunda de quem lhe fez de mulher, o parceiro nem mais se dava ao trabalho se curvar para ser montado, levantava as calças e ia embora. Timóteo, abandonado,  protestava contra a quebra da ética do troca-troca. Leleco se justificava quase entediado.
_Pra quê se você não consegue?
Mesmo assim Timóteo continuou se encontrando com Leleco, o qual se sentindo homem por só comer, começou a se exibir aos amigos, falando que Timóteo era bicha. Sua bicha. Os três irmãos ouviram a conversa e planejaram ter o Timóteo para eles.  Bichas eram odiadas, mas também era um achado, pois significavam um ensaio para as mulheres. Além do mais, comer uma bicha era melhor do que fazer troca-troca, pois só comia e não tomava no cu, correndo o risco de gostar e virar viado também.
Para não ter problemas com o Leleco, que era grande e gordo e podia bater nos três, trataram de comprar o passe de Timóteo por um pião de ponta afiada e todo colorido bonitão, que quando rodava, ficava branco, e uma revista de mulher pelada, daquelas boas, suecas.
Donos do garoto agora, apenas faltavam estrear. Fizeram a armadilha, o atiçaram com musas nuas e quando chegaram ao coração do lixão, trataram de lhe puxar as calças e contar sua nova função de escravo sexual dos três valentões.
O choro não demoveu os irmãos de seu projeto, pelo contrário, o desespero do menino os excitava e endurecia os paus semi-imberbes. Agarram-no, deitaram-no no lixo, sua bunda branca nua pareceu feminina aos garotos, tanto que Adalberto a comparou com a de Melissa, a menina retardada dois barracos acima que, quando ninguém estava vendo, permitia que a tocassem em suas partes. 
Surgiu um impasse. Estava seu pedaço de carne grudado no chão fedido e aí? Quem ia primeiro? André, folgado, disse que tinha direito porque era o mais velho. Afonso protestou e quase se socaram, quando Adalberto pacificador sugeriu tirar na sorte. No dois ou um.
Concordaram e ainda Adalberto arrematou:
_Tá fazendo sucesso, hein, Timóteo? Tão novinho e já tem homem brigando pela boneca.
Risos.
Renderam as mãos e depois a esticaram sobre o rabo do cativo. Disseram a uma só voz:
_Doooooois ou um?
Afonso e Adalberto foram de dois. André foi de um. Vitória do mais velho.
O vencedor se vangloriou e todo sorriso e maligno montou em Timóteo iniciando a coisa ruim.
O coitado urrou.
Afonso satirizou:
_Credo, parece que tá matando porco!
Risos. Sardônicos. Convulsivos.
Se todos não estivessem entretidos em seus jogos de violação, teriam talvez notado o lixo se mexer levemente ao redor e esperado o bote de alguma besta, talvez uma cobra, mas a antecipação para qualquer bestiário, não bastaria para antecipar ao que emergiu do entulho.
Uma ciclópica mão negra e áspera explodiu do solo de detritos, seguida por seu par. Os dedos, cujas unhas eram cinzas e quebradiça, envolveram, primeiro, o tronco de André, sim, eram realmente  colossais, e depois o sodomizado Timóteo.
Separados de seu coito, vítima e predador, agora, ambos eram vítimas de um caçador superior. Para Timóteo, não se tratou de novidade quanto ao sentimento. Prevalecia o horror, apenas que agora, vigorava outra qualidade. Já para André o sentimento de controle se perdera totalmente e ele se vira no polo oposto a que estava acostumado.
Entretanto, ambos gritavam na mesma gravidade.
Afonso e Adalberto se congelaram diante do impossível a ocorrer diante de seus narizes, membros grotescos emergiram do chão e capturam seu irmão e a bicha que compraram.
A primeira reação da dupla foi em fugir, deram uma corridinha, mas as suplicas do mano os demoveram da covardia e eles voltaram para  o resgate. Um recolheu um porrete, um pé de mesa branca, e o outro uma garrafa verde de cidra. Deram carga ao ataque.
Agrediram o braço que segurava o irmão. O estouro da garrafa no punho e as pancadas do cacete não surtiram efeito.  As mãos detiam os dois meninos como bonecos articulados e os sacudiam feito chocalhos de merengue. Movimento que foi substituído pelo ato da imersão.
Começaram a afundar no lixo. Os prisioneiros iriam se afogar nos restos materiais do capitalismo, quando Adalberto se tocou que seu porrete tinha na sua extremidade fina uma ponta lascada. Aquilo era uma estaca e, como vira certa vez num filme da sessão “Calafrio” a passar na TV Record, meteu a estaca no antebraço da criatura fantástica como se fosse empalar um vampiro.
Na verdade, sem que eles soubessem, a coisa era um tipo de vampiro.
Sim, são várias as qualidades de vampiros, mas essa dissertação deve ser  composta outro dia, o que  nós interessa é que a madeira encravada causou dor ao ser sombrio e este largou André o qual ainda estava com seu membro para fora da calça jeans.
Ferido, o vampiro gigantesco tratou de se recolher afundando rapidamente no lixão, levando Timóteo junto. O coitado semidesnudo gritou e gritou, mas nem os céus, nem os irmãos estupradores se comoveram, aliás, moveram-se, correram deixando –o sozinho em sua abdução.
O corpo do menino afundou no chão e sua boca berrante foi soterrada pela sujeira.

Naquela noite, os irmãos não quiseram a comida, muito boa  por sinal, da matrona  negra. Ela insultada ranhou com seus filhos, mas logo se desinteressou porque começara a novela das sete.
Os garotos haviam aprendido cedo a arte da dissimulação para enganar os adultos, então, camuflaram seu horror muito bem. À medida que as horas corriam, se sentiam livre para falar entre eles sobre o acontecido.
Estavam felizes por terem escapado daquilo e salvado seu irmão. E quanto a Timóteo? A mãe dele passou nas casas perguntando sobre o filho.
Afonso concluiu harmonioso que estavam no lucro por terem salvado o irmão. Afinal, irmão é irmão e bicha tem um monte por aí.
André que ficara religioso após o ataque, segurava um rosário, herança de sua avó, discorreu um pouco de teologia pueril. Arguiu imbatível: O que fizeram era pecado e que, por isso, o diabo tinha vindo pegá-los, porém acabou levando apenas Timóteo porque ele era mais pecador (já que era o passivo). Isto era uma segunda chance dada por Deus e que não deviam mais se meter sexualmente com viados.
Os irmãos comovidos com a sabedoria divina de André concordaram quase em lágrimas de culpa. Não por terem feito tanto mal ao Timóteo,  mas por tê-lo desejado e pretendido se aliviarem de sua masculinidade nele.
 Ao nascer do sol, mal tinham dormido, todavia a calma já os amortecia, e teciam planos para retornarem a normalidade.
Jogos de pelada. Bolinha de gude. Caçar e matar um pássaro bonito o qual tinha avistado outro dia.  E comer a Melissa porque já passou da hora de dar um trato naquela puta retardada.
De pé, pra ela não engravidar.
E, claro, bem longe do lixão.

No lixão, o vampiro sentia-se satisfeito. Sorvera da massa cinzenta do cérebro de Timóteo feito uma uva, deleitando-se com o terror do estupro que ainda maculava a memória de seus restos. Mesmo sendo um a preocupação distante, sabia que logo sentiria fome novamente, e a fome é especialmente terrível para os imortais, pois não há o limite da morte para ela. Sente-se fome enquanto seu vazio durar.
No entanto, pensou, a providência era gentil para com os monstros, pois se enamorou do bêbado cambaleante na beira do lixão a mijar.
(Tonhão não era de beber, todavia, nascera seu primeiro filho, um varão sacudo, como ele. Então, toma-se um porre com a rapaziada. Só aquela vez. A última vez.)
Comovido com a própria sorte, o vampiro do lixo agradeceu a Deus e foi rastejar para abocanhar o novo lanche.

quarta-feira, 6 de março de 2013


Vagabunda

Certo dia, o esposo com ódio, dedicação e uma faca escreveu “vagabunda” no ventre de sua companheira, antes e depois de muitas mutilações.
A página de carne não gritou. Cria que ninguém viria ajudá-la, dosando a dor com o conformismo feminino, uma sujeição de santa, uma coragem amazona, a paciência da puta, aceitando-se merecedora do desgosto.
Ela estava errada.
(Nunca se trata de merecer. Apenas é)
Todavia, nenhuma alma veio refutá-la.
A vida pingava aos poucos, quando seu talhador, após uma parada para o cigarro, voltou aos berros. O som trovejante de sempre.
_Eu não queria fazer isso!
Mentira. Fez porque houve vontade. Antes de qualquer verbo, vem o querer. E, querendo, o fez.
_Tudo culpa sua!
Sim. Culpa dela. Também. Não por ter burlado o contrato nupcial selado por Deus. Nenhuma galhada brotou daquele crânio, apesar da sensação de chifres fantasmas. A moça era culpada por ter escolhido a ele e ele era culpado por sê-lo assim.
(Isto é, se nos esquivarmos da indiferença da natureza e abraçarmos alguma moral que  cuide  bem da igualdade entre os  pares)
Ela o amava, mesmo sabendo ser furioso, quase maligno, um câncer como parceiro, e o quis, a despeito de todo perigo à carne e à alma a orbitá-la.  Já o homem a tomou para si, mesmo dono da ciência do quão nocivo era, apesar de amá-la e querer, talvez, o melhor para a amada.
Então, se há responsabilidade ou, quiçá, culpa era tanto do algoz quanto da vítima.
_O que eu vou fazer?
_Você, eu não sei. Eu... Eu vou morrer.
O anúncio da morte  da esposa era uma vingança. Ou simples retribuição. A paixão entre os dois oscilava entre amar e odiar e era de idêntica qualidade quanto à potência nos apaixonados.
_Não!
_Não?
_Não... Você não pode morrer.
Sabia ela que não que o temor de seu consorte homicida não se devia a ameaça de ser punido pelo assassínio que se completava, mas sim de não mais tê-la.
Quem ele iria amar? Quem ele iria odiar?
Assim, com um sorriso, ela goza a morte.
A qual veio devido á falência do corpo.
Ele... Só, tão só, desesperou-se.
_Vagabunda!
Entre lágrimas e um nariz escorrendo, chutou-a. Socou-a. Esfaqueou-a. Como se a violência tivesse o efeito reverso que sempre teve e a revivesse. Trouxesse-a de volta para dar fim àquele horror a violá-lo. Em vão.  Sem ressurreição.
O jogo entre o homem e a mulher terminou.
 Enfim, ele a perdeu.
 Ela ganhou.

terça-feira, 5 de março de 2013



(Realmente, ela não sabia.)

O inferno não era acordar.
Era depois.
Majorie se lamentava por antecipação. Sentava-se na cama, ia ao chuveiro, tomava banho, pousava na mesa e consumia seu café com aquele temor rosnando em seu ventre até a hora de seu assalto matutino.
Primeiro a meia. Depois, após respirar muito, seu sapato. Às vezes, postergava mesurando se podia passar o dia sem ir ao trabalho.
Descalça.
Porém, as contas não se pagavam espontaneamente.  Sem chance.  Precisava ir trabalhar.
Majorie deu a última fungada e colocou os calçados.
Ai!
Como toda vez que o fez, desde quando se tornou adulta, eles esmagaram seus pés. Eram torniquetes! Todos seus sapatos! Cada um deles, máquinas cruéis de espremer falanges, de destruir dedinhos, prensa a dobrá-los ao meio. Enfim, calçados fechados eram invenções do diabo, nada mais.
Apenas os usava quando era inescapável a necessidade. O trabalho, balconista numa farmácia de manipulação, ou um evento do qual não conseguia fugir. No resto, vivia de chinelos e até, maluca a moça, com os pés nus. Apreciava tocar o taco encerrado do chão de seu apartamento sem nada cerceando os limites de sua carne.
Se fosse menos estúpida, sim, ela detinha aquela estupidez popular/pop que viceja entre todas as classes sociais em que se orgulha de apenas se saber de coisas úteis ou reconfortantes, facilitadoras da vida, confie, conflito é inimigo, se ela fosse menos estúpida com certeza colecionaria analogias de seu sofrimento com a história e o mito.
Elegeria em primeiro lugar a terrível bota de ferro, instrumento de tortura da Inquisição Católica, como referência em seu horror diário, sentindo que uma válvula semelhante ao do brinquedo de metal estaria sempre sendo fechada sobre seu pé por uma mão invisível.  
Depois, se identificaria com os pés deformados das damas do Japão de outra era para o efeito de beleza. Primeiro, por não achar seus pés belos, pé bonito? Onde já se viu? Especialmente os dela, e, em segundo, por crer que um dia ficariam do mesmo jeito daquelas mulheres do oriente distante.
 Por fim, tomaria para si a beleza fabulosa do castigo da Rainha Má, madrasta da Branca de Neve, aplicado nas versões anteriores a suavização para crianças consumirem: Dançar até a morte em tamancos incandescentes, sim, pois isso o que era sua vida calçada, uma dança num tablado em brasas.
Todavia, se lhe faltava essas informações que desse ao seu sofrimento uma pitada de poesia para tornar seu martírio mais sofisticado, a dor estava lá, bem presente, realista e contábil.  
Doía e pronto.
E, ainda mais, se lhe faltava sofisticação do saber, como a todos que padecem dessa lacuna, transbordava a fé.  A crença sólida de que todos os seres humanos que botaram um calçado no pé também padecessem dessa dolorosa condição.
Como toda suburbana, encontrava Deus nas compras, com exceção, lógico, em comprar sapatos. Era na sapataria que encontrava o Diabo encarnado como vendedor de sapatos, o ser que apresentava novos tormentos.
Não necessita de muita imaginação para compuser a ideia de que Majorie postergava a compra de novos atrozes bens.  Ia ao máximo que podia  com os  antigos, até  o ridículo do desgaste, até quando o sapato falava, soltando a sola e fazendo uma  boca  muda que  batia a matraca no meio da rua.
Ia ao extremo da espera e quando lá chegou, tomou uma coragem quase masoquista e partiu para loja para se atormentar.
Qual foi a surpresa quando o vendedor lhe soltou ao olha-la morder seu lábio quando enfiava o sapato desgraçado no pé:
_Tem certeza que seu número é 38?
Sim, era. Sempre foi. Quando usava os sapatos da mãe e da irmã mais velha, quando morava com elas, que eram...
_Nós temos números especiais.
Menores do que ela...
_A senhora não quer experimentar para ver se ficam mais confortáveis?
_Eu sempre usei o número 38.
Ele sorriu. Seus dentes são perfeitos. Até então, não percebera como o moço da loja era bonito.
_Vai por mim, moça.
Ele retirou o sapato, alívio, porra, e mediu a sola do pé de Marjorie com a palma da mão.
_São anos de experiência.
O toque dele em seu pé liberto era inesperadamente gostoso.
_Eu sempre... Tudo bem, que número?
_Surpresa. Vamos ver se eu acerto.
Foi e voltou com uma caixa. Mesmo modelo. Ele mesmo colocou em seus  pés. Majorie se lembrou da versão animada de Disney da Cinderela, seja porque todo idiota no ocidente é capaz de reconhecer as imagens dessa bosta, seja porque a sensação de libertação de uma realidade ruim para um conforto nababesco, órfã explorada para princesa mimada, se revelou idêntica.
_ Não dói.
_Pois, é.
_ C-como?
_ Muitas mulheres grandinhas acabam usando um número menor.
Sentiu-se desengonçada ao ouvir isso.
_ Que número?
_40.
Não era a toa que doesse tanto. Sentiu-se tola. Tão tola quanto uma mulher traída pelo amor da sua vida. Seus sapatos a traíram.
_ Meu Deus, eu tenho uma lancha!
_Calma. As meninas imaginam que o ideal é o pé  pequeno, mas não é assim.
_E qual é o ideal?
_Ideal é o pé que você tem. Os outros são os outros. 
_E o que você sabe disso? _ Disse ainda envergonhada e raivosa consigo mesma.
_ Muito. Anos de experiência.
Não só como vendedor de sapatos, mas também como podolatra. Sim, havia uma malicia em sua profissão. O mistério era saber se ele entrou no ramo por esse fetiche ou o fetiche brotou de seu labor. Mistério que não interessou muito a Majorie, que não era muito de questionar nada, como já se viu.
E se, por isso, antes ela sofreu, depois se deleitou quando o vendedor beijou seus pés mais tarde no motel, afinal, ele era seu príncipe encantado que a libertou da maldição dos sapatos, portanto, nada mais justo no mundo do que dar para ele.
Pena que o vendedor, na mesma medida da balança um santo libertador e um diabo canalha, nunca telefonou após ter se refestelado.
Foi-se o bofe, ficou o pé.
Hoje, Majorie, mais calejada, faz questão de carinhos diversos naquela parte que a aguentou tudo em nome da ignorância, como conditio sine qua non de se entregar a um homem e ser mulher.

(Claro que sabemos que uma mulher não precisa de um homem para se ser plena, mas quem terá paciência de explicar essa obviedade para ela?)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


A Escova

Na alcova, na cama, o ódio da companheira não mais se continha em seus salões mentais. Borbulhava. Escorria pelas frestas de sua pessoa quebrada. Se antes se ensaiava em grunhidos, naquela hora tudo se desnudou de seu hábito restritivo nos arranhões, nas costas de seu parceiro, sulcados pelas cerdas duras da escova de pentear.
Ela sempre se penteava antes de dormir.  Um número definido de passadas que ele nunca memorizou.  Ao contrário de sua pele a sustentar então a memória da ofensiva.
A resposta do homem: nada.
Ou tudo: a maldita sujeição.
O silêncio, cujo eco que veio da consorte foi um rosnado.  A mulher magoada, indignada pela superior moral da inércia do corpo que cavava, largou a arma e, natural, primitiva, honesta, cadela, gata, macaca, usou das garras e usou dos dentes.
(Aquelas pintadas gracinhas a francesinha. Estes domesticados quadradinhos pela tirania de aparelhos odontológicos na adolescência)
Tascou-lhe da furiosa boca um (nhac!) beijo canibal!
MOR-DI-DA!
Se partidarizássemos pela lógica, não haveria motivo real que servisse para o combustível de tanta chama destruidora. Desconfiança de traição? Sim!  Por que não? Toda mulher é inimiga da mulher, começando pela mãe e pela filha. Se perdurasse a ausência de evidências, bastava uma olhada no espelho e a percepção da erosão da vida para a dedução: Ele teria outra. Ou pior: Ele desejaria outra que não fosse ela. Traída por uma maldita ideia.
Prenha de raiva contra si mesma, irradiada no macho, que sem paciência respondia as reclamações da fêmea com tiradas jocosas, as quais anos antes ela acharia inteligentes e sensuais e hoje a golpeavam a caveira feito crava.
Cansado, ele se livrou num espasmo da besta a torturá-lo. E sem limpar o machucado na omoplata, uma coroa de vermelhas marcas dentárias, botou a camisa sobre ferida, o tecido manchou sanguíneo, pegou algumas coisas necessárias e saiu sem um pio.
Desapareceu pela porta.
Talvez ficasse num hotel, talvez um amigo fornecesse abrigo. Ela não sabia. Nem saberia.  Ele nunca voltaria. Não como seu macho a rachar-lhe ao meio com seu falo antes de adormecer junto ao seu corpo estimulado. Não! Nem isso a preocupava. Eles estavam ligados.
Fizeram um filho.
Uma experiência biológica em comum, quando ainda se amavam.
Mirou seu inimigo zombeteiro, o espelho.
Eles tiveram um filho.
Ele estava preso a ela e ela estava livre para destruí-lo.
Todo dia um pouquinho.
Transmitindo-lhe o craquelê de seu ser até que ambos se desmanchassem em pó.
Contemplou os resíduos criminais em seu brinquedo de torturador.
Pegou a escova e lambeu o sangue.
Vampira, gostou.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012


A assassina de si própria



Ane possuía uma vida estranha?
Não no geral. Vista pelo todo, qualquer um vaticinaria o império da normalidade, isto é, como nós do mesmo tempo e do mesmo lugar da moça, século XXI, Brasil urbano, a entendemos e concordamos.
Afirmamos, contudo, não se tratar de uma existência desejada, a qual qualquer imaginador queira para si. As pessoas preferem planear a passagem feliz sobre a Terra como uma série de rocambolescas aventuras melodramáticas culminadas em vários sucessos exemplares, no entanto, a vida de Ane não era de se repugnar, porque, apesar de mansa, era boa.
Ela se formou em biblioteconomia, saiu da casa dos pais, morou sozinha, teve uns namorados, infelizmente nenhum relacionamento que se desabrochasse em laço duradouro, e seguia muito bem para os trinta, quando se alertou para uma inconveniência crescente.
Numeremos:
1) Todo dia quando acordava encontrava a casa levemente mudada. Detalhes. Coisas pequenas. Objetos fora do lugar. Mudados. Virados. Usados. Sem ela se recordar de ter agido sobre eles.  No começo, ela atribuiu a uma perda de memória irrelevante, tê-los-ia manipulado antes de dormir e o sono apagou o registro.
2) A coisa começou a preocupar quando o dinheiro que ela havia retirado do caixa eletrônico e deixado em casa para usos ocasionais começou a se alterar. Num dia havia mais do que lembrara tirar, no outro menos sem que ela soubesse dizer aonde tivesse gastado. Justo ela, que controlava suas economias com seriedade a ponto de acumular uma poupança razoável para sua idade. Foi conferir seu extrato do banco e a surpresa ganhara novo vigor. Depósitos e retiradas também estranhos a ela. Será que Ane teve sua senha furtada e estava sendo vítima de algum esquema ilegal? Na soma de tudo não havia perda, havia até ganho, mas a movimentação era obviamente preocupante.
3) Roupas e objetos que ela não havia adquirido, sim, ela poderia jurar, se solidificaram em seu apartamento. A vestimenta nova não era de seu estilo sóbrio, mas sim de uma expansividade que a acabrunharia, que a faria se sentir cafona e atirada se usasse, mesmo ela tendo corpo para tal farreada. Sapatos e sandálias novos, que cabiam perfeitamente em seu pé, mas que ela nunca compraria. E a lingerie que apareceu em sua gaveta? Ela era prática nesse assunto. Preferia calcinhas confortáveis de algodão, não aquelas coisas caras, sensuais, que mulheres usam para tirarem rápido em alguma alcova programada, se não suas partes íntimas sofreriam de assaduras se usassem por muito tempo.
4) Se o chão começou a faltar no item anterior, nesse o mundo foi para o espaço, com carros e vacas flutuando no éter. Primeiro, ligavam para o telefone fixo procurando por uma tal de Cibele. Engano, óbvio. Tudo bem. Todavia, a quantidade de telefonemas a levou se questionar se essa tal de Cibele não aplicava golpes e estava dando seu número por aí. Segundo, pessoas que ela não conhecia a cumprimentavam na rua, ônibus, metrô. Ela respondia sem jeito, vai que estava com problema de memória e não as reconhecia. Tudo tolerável e insuspeito, até que um dia:
_E aí, Cibele, sua louca! Me liga!
Ligar? Cibele? Ela não era Cibele. Quem era Cibele? Por que a confundiam com Ane? No primeiro instante, só teve certeza de uma coisa sobre essa figura. Que ela tinha um caso, pois seu amante de surpresa abraçou e beijou Ane, como se fosse a coisa mais  corriqueira. Ane se desesperou e gritou. O beijoqueiro sem entender o que se passava, pedia que ela se acalmasse e a chamava de Cibele.
Ao ouvir esse nome, Ane cessou o chilique e disse num misto de raiva e embasbaque:
_ Não sou Cibele!
_Ah! Cibele para de brincadeira.
Discutiram, por fim, Ane conseguiu convencer Jair, que se apresentou mais tarde, de que ela não era a bendita Cibele.
O rapaz, o qual era bonitinho, fato que retirou um pouco do peso do assalto do ósculo, mostrou uma foto no celular dele com a criatura que começou a atormentar a vida de Ane como uma justificativa de seu erro.
_ Incrível como vocês são parecidas.
Incrível mesmo! Tirando o queixo mais fino, o nariz menos arrebitado, as sobrancelhas feitas e o cabelo mais longo, Cibele era uma gêmea de Ane.
_Me envia essa foto por email?
Depois em casa, após ter recebido a foto e olhando-a por vários minutos decidiu encontrar essa tal de Cibele. Perguntou, também por email, a Jair o sobrenome e telefone dela.
Esperou em vão o namorado da outra responder. Cansada pelo dia de novidades, rendeu-se ao chamado da cama. Com a cabeça no travesseiro, conjecturou novamente.
E se Cibele e quem a assola fossem pessoas diferentes? E se no lugar de uma moça semelhante a ela fosse um tarado? Um pervertido brincando com ela antes do estupro fatal?
Se coisas aparecem em sua casa é porque alguém entra. E se sua invasão não fosse quando estivesse fora, mas dormindo?
 Um calafrio, um sentimento de medo brotou num instante ameaçando-a com a insônia vigilante. Entretanto, se não aconteceu nada de grave até, então, talvez fosse seguro apostar mais uma noite de relativa segurança e poder dormir.
Antes de, por fim, dormir, pensou em soluções e a melhor que lhe veio seria colocar uma câmera ligada quando estivesse fora e dormindo. Porém, era tarde para se municiar com uma. Novamente, insônia. Não poderia dormir, não sem uma providência naquela  noite.
O travesseiro assoprou-lhe duas ideias. Uma prática e outra lúdica. A prática: dormir com uma faca debaixo do travesseiro.
A lúdica: Espalhou talco pelo chão.
Ia espalhar farinha, mas desistiu, pois viraria uma meleca.
Dormiu.
Despertou no horário de sempre. A faca estava lá. OK! Olhou para o chão.
_A-ah!
Pegadas!
Havia alguém mais na casa. Pensou de logo num invasor, todavia, as pegadas saiam e voltavam para a cama. Seria ela sonâmbula?
Essa perspectiva retomada deu-lhe alívio. Não seria uma golpista ou um estuprador a assombrar sua vida e sim ela mesma adormecida.
No entanto, isso não explica o dinheiro, as movimentações financeiras e as roupas.
Cada vez mais confusa, pensou até em fantasma.  No início, séria, depois se riu.
A resposta de Jair chegou a sua caixa de entrada.
_ O telefone e o sobrenome... Não pode ser! É brincadeira!
Uma câmera urgia.

A qual instalou uma apropriada para a ausência de luz prontamente na noite seguinte e foi dormir um sono sem sonhos.
Ao despertar, mesmo sonolenta, tateando escuro, foi cambaleante ver as imagens.
Uma hora de filmagem: Nada. A não ser ela dormindo. Tédio.
Duas horas: Nada de novo.
Terceira hora: Acontece.
Ela se agita, vira de um lado para o outro até parar e ficar de barriga para baixo.
De repente, suas costas se abrem, como que rasgadas por duas mãos.
Um braço feminino se ergue dramaticamente.
Outro braço.
Finalmente, emerge Cibele nua.

O despertador tocou.
Ane correu até a câmera e conferiu.
Cibele veio e se foi.
Vestiu-se e saiu.
Pelo marcador, foi há poucos minutos. Ane mete uma roupa fácil e a foi atrás de sua inquilina como fizera noutras noites.
Ane Filomenna seguiu Cibele Filomenna até a farmácia onde trabalhava cinco noites seguidas. As duas teriam o mesmo sobrenome, conforme o namorado Jair, que a pedido dela não contou que conhecera sua gêmea porque queria fazer uma surpresa.
A surpresa quase aconteceu numa das noitadas na folga de Cibele quando ela ia a casas noturnas dançar até cansar. Ane a acompanhava a distância sempre, o que lhe rendeu noites mal dormidas e queda no desempenho, tanto que até solicitou adiantamento das férias para continuar sua exploração.
Podia ter detido sua companheira de quarto e corpo em qualquer lugar, mas preferiu a privacidade do lar para resolver isso.
Numa madrugada, Cibele se aproximou da cama. Ane dormia. Suas mãos foram as costas da adormecida para abrir seu casulo e encontrar o repouso, quando foram detidas por sua anfitriã, que rapidamente se virou e encostou a faca no pescoço de Cibele.
_Explique!
Cibele se aterrorizou, tanto talvez como Ane tenha ficado quando viu aquelas imagens pela primeira vez.
A hóspede inesperada não podia explicar. Disse que somente existia daquele jeito.
_Há quanto tempo?
_Há dois anos.
_Meu Deus! Dois anos!
Cibele chorou. Olhou a hora e o planto aumentou, pois, apesar de não saber como existia, intuía como deixaria de existir.
_Deixe-me entrar. Se não, eu vou morrer.
_Entrar em mim? Não. Acabou.
Cibele, em perfeito desespero, saltou contra Ane tentando lhe tomar a faca. Entretanto, o corpo que comportava era mais forte do que o que era comportado. Ane se livrou da agressora num belo chute que a jogou contra o criado mudo.
Se o barulho teria acordado os vizinhos, não importava, pois agora o sol nascia e Cibele morria.
Sua pele cristalizava gradualmente, o que lhe retirava os movimentos e a calava. Por fim flocou-se e depois desintegrou-se numa nuvem de pó brilhante.
Ane tocou o pó. Sentiu a textura agradável e o guardou numa caixa de joias, não saberia dizer o porquê.

Talvez saiba, lá no fundo, e se nós não sabíamos, saberemos agora.
Imagine a vida num caminho que sempre se bifurca.
Em cada bifurcação, temos duas possibilidades.
Escolhemos uma, que se cristaliza como real.
A outra, um EU nosso em um universo próprio, ou foi abortada por ter sido declinada pelo andarilho que somos todos nós e que escolheu o outro caminho.
Ou ficou existindo em uma variante da existência que nos escapa.
Um EU paralelo num mundo paralelo.
Talvez, às vezes, a escolha pela bifurcação não seja tão perfeita e uma corrompa a outra, tangenciando-a.
Talvez Ane tivesse sido Cibele se a mãe desta escolhesse outro nome, se Ane escolhesse não fazer faculdade, se Ane fosse mais festeira... Se.
Talvez Cibele seja uma apenas uma bifurcação de Ane, que resistente a sua anulação se apegou e brotou da outra para sobreviver além da hipótese e, que, quando confrontadas prevaleceu a mais forte.
O pó de Cibele, Cibele em pó, era uma lembrança do que poderia ter sido, o que de fato foi por dois anos. Mesmo precisando destruir a outra para se certificar de que a sua exclusividade existencial não seria ameaçada (temeridade inconsciente, nota-se), Ane não poderia deixar de se apegar a Cibele, pois negá-la totalmente após conhecê-la, seria anular não somente uma versão, mas um substancial apêndice de sua profundeza.
Portanto, a assassina de si própria guardou o souvenir da vítima, numa auto-piedade definitiva.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


Eu não li Bukowski.



Eu não li Bukowski.
Li Jean Genet.

Certo dia, tesourei curto os cabelos e prendi os seios quase irrelevantes de uma mulher branca (com aquelas pintas negras em distribuição acidentada na  pele macia leitosa azeda aguada), magricela cheia de costelas saltadas (as quais  com um bastão ficariam musicadas) numa faixa de gazes apertadas, no entanto, sem a asfixiar nem nada. Destarte, eu a visto de homem e a faço puto de rua, um afeminado magrinho, a bichinha da piada na mão do bofe da mão pesada.
Um quarto de hora depois, num cinema pornô decadente, prestes a cair, prestes a virar templo de crente, sentados nos estofados devorados pelo tempo e pelos ratos, assistindo a projeção desfocada de atrizes em arte pornográfica, escrevendo uma história de putas com o papel da carne e canetas penianas de silicone flexível perfeitamente adaptável aos dutos vaginais e retais, minha bicha falsa, meu traveco reverso, sentou-se ao meu lado e à moda dos gaviões (pássaros rapineiros predadores de galináceos em certos sítios granjeiros e também viados predadores de falos em certos sítios cinematográficos)  felou-me como se tivesse fome de proteína animal.
Terminado o serviço com afinco, ela brincou. Depois do trabalho, sempre o descanso. Sejam sete dias, sejam sete minutos. Mostrou-me peralta a língua cheia de prata, maravilhas da mente associativa, uma colher esperando fogo para ferver a alegria química da heroína. Injeção?

_Deus não quer que se desperdice.

Onã (o da porra perdida num escândalo bíblico) morreu pela mira ruim.
A semente da serpente foi engolida num sorvo de pílula. A vida depende sempre de uma dieta nutritiva. Sentados assistimos a mais um programa depravado. Filminho começa. Homem e mulher. Papai e mamãe.

_Imagino se em nove meses nascerá menino ou menina.

Minha bichinha rachada se rachou ainda mais de tanto rir.
O riso corre, ecoa, conjuga-se com a eletricidade corrente nas galerias.
Pedreiros. Office boys.  Ajudantes gerais. Machos em geral. Sentados com os nervos expostos a flor do caralho, desabrochado dos zíperes.
O desfile de baitolos camuflados, gaviões em seus vôos fantasmas na missão de busca e apreensão de carne viril para sangrar o monstro faminto dentro de si. O dragão rosado, o qual derrotou, a despeito da enorme, roliça e afiada lança, São Jorge, santo católico, e outros mercenários cristãos municiados de culpa e repressão.
Crânio vazio associando: Lança. Agulhão. Agulha. Injeção. Tanta bicha em volta, apesar da hospitalidade, cuja ausência havia tanta em Sodoma e Gomorra a ponto de reverberar desastre no clima, só podia dar em uma ideia marota.
Cato meu rapazinho vaginal pelos cabelos curtos e o arrasto pelas fileiras. Sinto que vai protestar, mas o sorriso quase brocha meu sadismo.  No final das cadeiras, joguei-a contra parede do cinema. Seu rosto pousou no papel de parede carcomido. Ela mal deve ter sentido a minha mão em sua cintura. Quando puxo sua calça para baixo de seu espanto vem seu grito.

_ Ai! Não! Não!!

Toda a segurança do travestismo desapareceu.
Seu tremor cessou quando se admirou ainda estar de cuecas.
Os gaviões pararam seu sobrevoo e aos poucos nos cercaram curiosos.
Desço levemente a traseira de sua roupa íntima. Glúteos libertos. Suas mãos foram a frente segurando o tecido e protegendo seu segredo. Seus olhos estão fechados.
Naquele instante, cercado de viados por todos os lados, eu a montei.
Eu a sodomizei como um homem mais forte sodomiza um homem mais fraco na prisão.
Como um velho com comida abusa de um adolescente faminto.
Como um padre, um rabino, um monge ou califa com um menino em busca do infinito.
Em investidas duras e de amor de vinho vinagre.
Quando eu desperdicei minha semente pela segunda vez e senti o silêncio exigido pela biologia masculina, minha bichinha arrombada goza, num uivinho tão lindo que apenas pode ser sugerido e mal descrito, dispensando o travessão.
O cinturão de loucas se abalou.

_ Olha, a mona geme como mulheerrrrr.

A mona mulher se virou rindo baixinho, erguendo as calças, e buscou o meu peito. Meus braços anelaram suas costas e minha boca sussurra nos ouvidos.

_ Feito?
_ Completo.

E saímos do cinema dos pecados. Não escondidos. De mãos dadas para todos nos chamarem de viados.
Um grupo de jovens cabeludos revoltados em sua condição hormonal nos xingam. Exultados, agradecemos e, assim, sem querer os ofendemos, pois nos olham com seu ódio peculiar e desimportante.
À frente, tomamos um táxi para as nossas vidas.
 No carro, minha boneca logo reencostou em mim e adormeceu. O taxista é velho conhecido.  Na corrida, puxa papo, e como me conhece já ataca a biblioteca universal:

_Ô, Tu já leu Animal Crackers in my Soup (meu taxista é cool, não lê autoajuda e lê em inglês.) do Bukowski? 
_Eu não li Bukowski.


Olhei para ela.
Eu li Jean Genet.
Ela leu Simone de Beauvoir
Já o marido dela leu Sartre, mas hoje ele está num congresso do partido.